quinta-feira, 16 de setembro de 2010

O ESPELHO PARTIDO


          Frequentemente, me identifico com algum personagem cinematográfico, principalmente em filmes de diretores que admiro. Também é comum alguém me dizer que determinado filme é a minha cara – embora ser comparado a Hannibal Lecter (de “O Silêncio dos Inocentes”) ou Tyler Durden (de “Clube da Luta”) não seja exatamente algo lisonjeiro.
          Às vezes, posto no meu perfil a imagem de um desses personagens, dependendo de como eu esteja me sentindo no momento. Recentemente me perguntaram porque eu tinha colocado o assassino psicótico Anton Chigurh (interpretado por Javier Bardem em “Onde os Fracos Não Têm vez”) na foto do meu perfil, respondi apenas que seria melhor nem saber.
          Como de praxe, quis listar os cinco personagens com os quais eu mais me identifico e surpreendentemente não me deparei com nenhum galã ou herói. Inconscientemente, os tipos selecionados eram bem díspares. Concluí, ainda, que seria impossível alguém realmente compreender quem eu sou a partir dessa lista, mas para quem quiser tentar:

1 – Bruno Ricci (Enzo Staiola em “Ladrões de Bicicletas”)
2 – Joe Buck (Jon Voight em “Midnight Cowboy”)
3 – Alvy Singer (Woody Allen em “Annie Hall”)
4 – Travis Bickle (Robert De Niro em “Taxi Driver”)
5 – Carl Fredricksen (o velhinho misantropo de “Up”)

sábado, 11 de setembro de 2010

ALÉM DOS MUROS


          A dupla de grafiteiros, Leonardo Delafuente e Anderson Augusto, que assina suas obras como 6emeia (o momento em que os ponteiros do relógio se unem e apontam para baixo), realiza intervenções originais e bem humoradas em bueiros, postes e tampas de esgoto dos bairros paulistanos desde 2006, escapando do lugar-comum que impregna os muros das grandes cidades, e colhe elogios de importantes publicações europeias. Agora só falta a população conscientizar-se e deixar de atirar lixo nas ruas, principalmente da janela dos carros.


quinta-feira, 9 de setembro de 2010

ANTES DO CREPÚSCULO

          Por acaso, Jesse reencontra o poema do milk-shake, que o vagabundo vienense escreveu às margens do Danúbio, dentro de um livro. A página envelhecida não esconde a inevitabilidade do tempo. Ao reler os versos, imagina que talvez não ame Celine como amava, talvez nem ela também o ame. Melhor seria que eles se separassem antes que descobrissem a efemeridade do amor, antes que o silêncio falasse por eles, antes que tudo se tornasse rotina e comodismo. Mas ele apenas limita-se a devolver o poema ao livro, e desce para o jantar.

Ilusões à luz do dia
Cílios de limusine
Oh, seu belo rosto, querida
Derramar uma lágrima na minha taça de vinho
Olhe nos meus grandes olhos
Veja o que você significa para mim
Docinhos e milk-shakes
Sou o anjo das ilusões
Sou o desfile das fantasias
Conheça meus pensamentos
Não mais os adivinhe
Você não sabe de onde eu vim
Não sabemos para onde vamos
Estamos juntos na vida
Como dois galhos num rio
Sendo levados pela correnteza
Eu te carrego
Você me carrega
Podia ser assim
Você não me conhece?
Você já não me conhece?

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

ÁLBUM DE FAMÍLIA


          Nas caixas abandonadas no sótão havia alguns álbuns. Eram dezenas de fotografias amareladas (de pessoas com sorrisos amarelos em suas poses programadas). Entre tantas  polaroids desbotando, encontrei uma dela: o jeito esnobe,  o olhar tímido, o enquadramento equivocado. Ela foi o melhor de mim e isso, por incrível que pareça, não é um elogio. p

Esse e outros microcontos em MAIS UMA DOSE

terça-feira, 31 de agosto de 2010

CAVALO DE PAU


           Minha inocência talvez tenha sido o bem mais valioso que perdi, depois que me mudei para a capital. Gradativamente, fui deixando de enxergar em mim aquele menino do interior. E por mais que eu o procure – num canto da sala, em algum canto dos olhos –, sei que jamais o reencontrarei. A inocência é irrecuperável, alguém já me disse.
           Na canção “Cavalo de Pau”, de Alceu Valença, gravada no disco homônimo de 1982, essa perda é representada pelo cavalo de brinquedo que torna-se arisco, indomável, feito o tempo ou o vento. O onirismo da letra ganha mais força com o arranjo seco, sutil, que está mais para o rock do que para os ritmos regionais tão atrelados ao nome do autor, e que perfeitamente encaixa na visceralidade final da interpretação.
           Provavelmente, buscar minha inocência seja mesmo um exercício inútil. Mas continuarei procurando.

CAVALO DE PAU
(Alceu Valença/ Dominguinhos)

De puro éter assoprava o vento
formando ondas pelo milharal
teu pelo claro boneca dourada
meu pelo escuro cavalo-de-pau.

Cavalo doido por onde trafegas
depois que eu vim parar na capital?
Me derrubaste como quem me nega
cavalo doido, cavalo-de-pau.

Cavalo doido em sonho me levas
teu nome é tempo, vento, vendaval
me derrubaste como quem me nega
cavalo doido, cavalo-de-pau.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

ADEUS...


          Um dia, encontrei uma linda morena no Tororó. Mas, diferentemente da cantiga de roda, sempre voltei para revê-la. Durante muito tempo, sorrimos, gritamos e choramos juntos (não tem preço a alegria que ela me proporcionou).
          Infelizmente, os últimos tempos foram apenas de sofrimentos. Às vezes penso que sua morte foi até um alívio. Antes mesmo do acidente, ela já andava entristecida, sem o brilho de outrora. Nessa época, minhas visitas se tornaram cada vez menos frequentes. Quando me disseram que ela estava internada e que seu estado era grave, confesso que não tive coragem de reencontrá-la – não suportaria vê-la naquela situação.
          Sei que domingo será o seu funeral, e o domingo era o dia em que mais nos divertíamos, no entanto não irei. Prefiro guardar para o fim a lembrança mais bonita.

domingo, 22 de agosto de 2010

UM MISERÁVEL A VER NAVIOS


um miserável a ver navios*
Herculano Neto

sempre perco
sempre falta
sempre sofro
sempre fico a ver navios

(“sem sentido para o céu
indiferente para o inferno”)**

sempre despedaço
sempre precipito
sempre espero
sempre fico com as mãos abanando

miserável esmolando afeto é o que sou


 *poema integrante do livro CINEMA (Prêmio Braskem Cultura e Arte 2007);
**BERGMAN, Ingmar. O Sétimo Selo. Suécia, 1956.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

CORTEM A CABEÇA DELA!


Poema Convulsivo

(Fabrícia Miranda)

Essa noite é de romances bizarros
Guardo uma navalha no bolso
para o caso de um flagelo

Por trás do meu rosto um medo
e por trás do medo um rosto.

Hoje estou excepcionalmente bela
com olhos de rímel e lágrimas
e cabeleira desgrenhada

E agora, de tão tarde, conto apenas comigo
para falar de mim mesma.

(Poema do livro Ritos de Espelho, 2002)


Fabrícia Miranda (ou simplesmente Fulana Miranda) é uma poeta carioca radicada na Bahia. É do signo de Peixes com ascendente em Touro e lua em Áries. Formada em Letras pela UFBA, é uma das principais representantes da poesia baiana contemporânea e da nova geração de poetas brasileiros. Publicou, pela Fundação Casa de Jorge Amado, o livro de poemas RITOS DE ESPELHO, em 2002.


Outros poemas de Fabrícia Miranda em seu blog:

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

TECHNOLOGIE AVEC ÉLÉGANCE


          Quando atendo ao telefone celular, é comum eu escutar um “onde você tá?”, “tá fazendo o quê?” ou simplesmente irem diretamente ao assunto — costumo replicar com um “bom dia”, “boa tarde” ou “boa noite”, seguido de um acintoso “tudo bem?”. Sou do tempo do telefone fixo.  Não faço como aqueles que conversam interruptamente em seu iPhone, sem a menor discrição ou necessidade, e em alto e bom som, apenas para gastar os bônus oferecidos pela operadora de telefonia, obrigando a quem está por perto a saber como foi a noitada passada ou a cirurgia de catarata da avó.
          Tenho a delicadeza de responder a todas as mensagens eletrônicas que recebo, nem que seja apenas para confirmar que recebi o anexo, embora muitos e-mails que envio pareçam cair no limbo (ao encontrar o destinatário pessoalmente a desculpa mais frequente, e desnecessária, é “não tive tempo para responder” ou um mentiroso “não recebi, envie novamente”).
          Em locais públicos, como salas de espera, supermercados, ônibus, filas... sempre há alguém que saca o tocador de MP3 e dispara sua seleção de axé-music, rap ou o melhor internacional de novelas, para quem quiser ou não quiser compartilhar do seu ecletismo — o que torna qualquer espera ainda mais angustiante.
          Adoro tecnologia, mas não sabia que ela estava atrelada à deselegância.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

MAIS UMA DOSE


MAIS UMA DOSE é um volume de microcontos dos escritores Ediney Santana e Herculano Neto. São trinta textos de cada autor, num tom muitas vezes poético, noutras crítico e bem humorado, que transitam entre o universo fantástico e a realidade urbana mais comum. Com prefácio de Tom Correia e revisão de Gerana Damulakis, MAIS UMA DOSE provoca vários sentimentos, menos a indiferença.
Baixe o livro gratuitamente AQUI.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

ANIVERSÁRIO



Envelheço sem paciência:
têm pressa, meus cabelos brancos.

sábado, 31 de julho de 2010

ESPELHOS DE LUZ E SOMBRA

     Costumo dizer, aos meus amigos fotógrafos (profissionais, semi-profissionais ou de final de semana), que fotografar é fazer poesia sem papel e caneta. A francesa Irina Ionesco, uma das grandes damas da fotografia mundial, diz que a fotografia é “um elemento essencialmente poético”. Mas isso só descobri agora, após visitar sua exposição, ESPELHOS DE LUZ E SOMBRA, com trinta trabalhos assinados, analógicos e em p&b, feitos entre 1968 e 2006, sem nenhuma interferência digital, que está percorrendo o país.
      Irina Ionesco nasceu em 1935, em Paris. Ainda adolescente iniciou sua trajetória de mulher-espetáculo: encantadora de serpentes, alvo vivo de um arremessador de facas, dançarina acrobática e contorcionista. Chegou à fotografia depois que um acidente a impossibilitou de continuar dançando. Realizou sua primeira exposição como fotógrafa em 1970, desenvolvendo uma das obras mais singulares da arte contemporânea, presente em importantes galerias de todo o mundo, além de ilustrar ensaios de moda. Seu universo barroco, onírico, nos transporta para um ambiente teatral, cinematográfico, onde a idealização de uma mulher mítica é quase sempre o centro.
      Quando saí da exposição, e me deparei com o colorido cinza do centro da cidade, com sua gente cheia de pressa e medo, a vontade era que tudo fosse estático, insólito e em preto & branco; ao menos no meu caminho. Foi quando uma senhora, tentando abrir seu guarda-sol, se esbarrou em mim, e nem pediu desculpas.
JOCELYNE, 1974
EVA AUX ROSES, 1975
FEMME VOLANTE, 1988

quinta-feira, 29 de julho de 2010

DIÁLOGOS NA MADRUGADA


Veja dois microcontos inéditos nos blogs do dançarino e artista plástico Edu O., MONÓLOGOS NA MADRUGADA e O CORPO PERTURBADOR, a partir das observações que faço do centro da cidade. São dois pontos de vista da mesma história, tendo como fio condutor os devotees (que são homens e mulheres que sentem atração por deficientes físicos).

segunda-feira, 26 de julho de 2010

MEMBRO FANTASMA


Finalmente, tive alta do hospital. Segundo os médicos, a operação para a mudança de sexo foi um sucesso. Continuo com muitos inchaços e dores, a sensação não é das melhores, no entanto o alívio de ter me livrado daquele incômodo é muito maior. Os psicólogos me disseram que é natural que, ao ter algum membro amputado, tenha-se a impressão de que ele ainda exista. Mas não comigo: eu sempre mijei sentada.


Em breve: este e outros microcontos reunidos em um livro

quinta-feira, 22 de julho de 2010

DA LAPA A ITAPUÃ: LOST, SARAMAGO, VAMPIROS E NOVELA

Hoje pela manhã, um jovem casal discutia a relação dentro do ônibus. Por algum motivo que não sei precisar, um disse para o outro uma expressão popular que eu não escutava há anos: “Pare de me acompanhar que eu não sou novela”. Foi quando, percebi que quem acompanhava a discussão, como se fosse uma genuína telenovela, era eu. Não vejo novelas: considero-as chatas, previsíveis, repetitivas, canhestras. Além do que, dois capítulos equivalem à duração média de um longa-metragem — mesmo eu já tendo me convencido de que morrerei sem assistir a todos os filmes que eu gostaria, não posso me permitir esse luxo. Até já tentei acompanhar algumas séries que aparentavam ser interessantes, mas acabei desistindo antes do meio do caminho. Minha última tentativa foi com LOST: nunca fui um grande entusiasta das desventuras de Dr. Jack, Locke, Kate e Cia (a camisa pólo da Iniciativa DHARMA que ganhei no Natal, e que só usei uma vez para não “fazer desfeita”, não me contradiz), apenas queria saber como terminaria. Talvez por não ter expectativas, seu final não tenha me decepcionado.
O casal parou de brigar, agora quem dava as cartas era um silêncio constrangedor. Ainda assim, resolvi mudar de assento, dá play no meu genérico de iPod e folhear sem muita atenção uma revista semanal da semana passada (sempre leio esse tipo de revista de trás para frente, feito um mangá, apenas para apreciar as notícias culturais antes de qualquer outra página — embora, muitas vezes nem valha a pena). Enquanto soava os acordes iniciais de “Acabou Chorare”, li que a Playboy rescindiu o contrato de sua versão portuguesa, que durou pouco mais de um ano, por estampar em sua última capa a representação de Jesus Cristo com uma mulher seminua na cama. A intenção era homenagear José Saramago e criar polêmica, mas não conseguiu nem uma coisa nem outra. Juntamente com uma entrevista do escritor, foram publicadas outras fotografias, que fazem referência ao Evangelho Segundo Jesus Cristo. No entanto, Cristo é a última pessoa que alguém quer encontrar no pôster central da Playboy. Virando a página, descobri que Hollywood pretende refilmar o sueco DEIXE ELA ENTRAR, um dos melhores filmes de terror que já vi — que traz vampiros adolescentes, mas não se pode comparar com nenhuma tendência juvenil. Refilmagem de clássicos, de sucessos asiáticos e europeus, adaptação de séries televisivas; não é somente crise criativa que assola os grandes estúdios, é falta de talento. Nem preciso dizer que passarei longe desse pastiche, como passarei ainda mais longe do super bebê vampiro que deve chegar por aí. Ainda tive tempo para ler que as novelas brasileiras também fazem suas refilmagens, e lembrei que a mais recente assisti quando eu era criança (pois é, um dia acompanhei novelas).
Levantei-me ao perceber a proximidade do meu ponto. Quase duas horas dentro de um ônibus e nem uma em Itapuã (quem me dera, uma tarde). Antes de sair, vi o casal se beijando apaixonadamente. Pelo jeito, o final foi feliz — por enquanto.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

CASA DE BONECAS (VERSÃO MICRO)



Após a quimioterapia, não havia quem conseguisse comunicar à Cecília que seu braço seria amputado. Indiferente àquele dilema, Cecília brincava no quarto com suas bonecas: todas carecas e com os braços cortados.

 
Em breve: este e outros microcontos reunidos em um livro

segunda-feira, 12 de julho de 2010

CURTA-METRAGEM


curta-metragem*
Herculano Neto

foi tão breve o amor
o tempo de queimar o cigarro
de pedir outra dose
de esvaziar os armários
de mudar de canal
de mudar de ideia

foi tão breve o amor


*Poema integrante do livro CINEMA (Prêmio Braskem Cultura e Arte, 2007)
Imagem: Carey Mulligan em An Education (Direção Lone Scherfig, 2009)

quarta-feira, 7 de julho de 2010

PARA CAZUZA

Cara, um amor tranquilo é mesmo uma questão de sorte. Eu já me rendi à inquietude das bocas, das nucas e das mãos que me acolhem pelas madrugadas, de bar em bar, que nem espero mais. O amor, hoje, para mim, pode ter qualquer sabor. Os poucos trocados que trago nos bolsos não me dão nenhuma garantia, apenas prolongam a noite. Enquanto a manhã não chega, enquanto o mundo não acorda, costumo saciar minha sede com uísque e saliva. Sempre estou a fim de mais uma dose e nunca recuso remédios que me deixam alegre, principalmente para tentar escapar dessa monotonia infernal, desse tédio monocórdico. Sem dramas; você sabe que mal eu só posso causar a mim. Recentemente, reencontrei Clarice e percebi que continuo áspero e desesperançado. Até pensei em escrever novos poemas, porém só escrevo sobre aquilo que posso viver e, ultimamente, não tenho vivido minha poesia. Quem sabe, se eu te alcançasse em cheio seria possível, mas há algo escondido entre os versos que eu não consigo decifrar. Acho que a poesia acontece antes de chegar ao papel. Outro dia, lembrei de algo que você me disse sobre solidão a dois, sei que não passo de uma pessoa carente, que necessito de atenção, mas não quero ser a comida nem a migalha dormida do pão de ninguém, cansei de raspas e restos. Também, não quero ter todo amor que houver nessa vida: ter todo amor que puder nessa noite já seria suficiente.
Sem boas novas eu ainda ando por aí.


Hneto, Julho/2010

Carta baseada na canção
TODO AMOR QUE HOUVER NESSA VIDA
(Frejat/ Cazuza)

sexta-feira, 2 de julho de 2010

LARANJA

Laranja é uma cor que tem o nome emprestado da fruta, talvez ela não tenha um nome apenas seu porque não passa de um amarelo com tons avermelhados. Pra piorar, no Brasil laranja é quem tem o nome envolvido em transações ilegais em benefício de terceiros (e amarelar é sinônimo de acovardar-se, mas o amarelo não me interessa). Não costumo teorizar sobre futebol, principalmente para não cair nos jargões futebolísticos que pululam na imprensa. Também não gosto de conversar a respeito, pois torço por um time que se tornou pequeno e nunca tenho razão. Só que, recentemente, não me contive e falei para alguns amigos que preferia perder com Telê Santana a vencer com Dunga. Obviamente, fui execrado: entre outras coisas, me disseram que perder jogando bonito não deixa de ser uma derrota, que a história é feita pelos vitoriosos e que o treinador é bastante coerente. Não contestei. Cansei de ouvir a palavra coerência, acho que não a direi durante muito tempo. Coerência é característica de pessoas conservadoras – e o futebol não pode se opor ao novo. Quero ganhar jogando bem, sempre: sou amante do futebol romântico (pra não dizer que não usei nenhum jargão). E nem quero saber que história contará os derrotados. Dentro de algumas horas, irei jantar. Pedirei um suco de laranja, mas espero que o garçom não me interprete mal.


terça-feira, 29 de junho de 2010

O MESTRE DO CINEMA

          De repente, me vi (por acidente ou mero capricho do acaso) numa roda de conversa intelectualoide, com pretensos cineastas, estudantes de cinema, críticos de locadora e figurantes -, onde tentavam aparentar mais do que realmente eram. Antes que eu conseguisse uma desculpa coerente para me retirar, iniciaram uma espécie de brincadeira onde cada um deveria dizer um diretor de cinema que “fez sua cabeça”. Entre diretores eslovenos e israelenses, dos quais nunca ouvi falar, surgiam nomes alternativos de valor, mas relegados ao circuito de arte. Na minha vez, não hesitei nem quis posar de grande entendido, apenas respondi calmamente e sem medo de soar menor: Alfred Hitchcock. Prontamente, alguém menosprezou: “Ah, o mestre do suspense?!”. Não, isso é lugar comum preguiçoso de jornal e revista. Estou falando de Alfred Hitchcock, o mestre do cinema – rechacei como teria feito François Truffaut na Paris dos anos de 1950. Após um desconfortável instante de silêncio, a conversa mudou para Copa do Mundo de Futebol.
          Designar Hitchcock, simplesmente, de “mestre do suspense”, sempre me pareceu diminuir sua real importância. Seu trabalho vai além de estilos e prescinde de alcunhas. Basta assistir aos seus filmes com um olhar mais cuidadoso para apurar que ele era muito mais do que isso. Tenho carinho e admiração enormes por alguns cineastas, mas certamente Hitchcock foi o primeiro a me afetar de maneira definitiva. Evidentemente, a influência dele no cinema feito ao longo dos anos é muito grande, mesmo que neguem. Amiúde, leio ou escuto por aí que tal filme é hitchcockiano (verbete encontrado em alguns dicionários). Mas poucos realmente merecem esse carimbo. A ironia é que mais do que limitá-lo num estilo, ele próprio se tornou um.
          E só pra não perder o hábito, me desafiei a listar meus cinco filmes preferidos de Alfred Hitchcock (tarefa ingrata, complicada e dolorosa). Preferi não utilizar critérios técnicos, apenas afetivos - embora alguns dos títulos escolhidos figurem em várias listas de melhores de todos os tempos. Em ordem cronológica, são:

REBECCA (1940)
A SOMBRA DE UMA DÚVIDA (1943)
INTERLÚDIO (1946)
VERTIGO (1958)
PSICOSE (1960)

Abaixo, uma das cenas mais lembradas da história do cinema. Sete dias de filmagem, setenta posições de câmera e tema musical inquietante para quarenta e cinco segundos inesquecíveis:

quinta-feira, 24 de junho de 2010

SOB A DEBOCHADA E LASCIVA LÍNGUA VERMELHA

OS ROLLING STONES NA PRAIA DE COPACABANA. Não se falava em outra coisa nos últimos tempos e a apresentação prometia, realmente, ser histórica. Juntamente com alguns amigos, resolvi encarar a viagem de ônibus até ao Rio de Janeiro. Chegamos à cidade na tarde do show. Em Copacabana nos deparamos com uma multidão intransponível, formada por todo tipo de gente. Eram milhares de pessoas por toda parte, muitas só conheciam “Satisfaction”, outras nem isso. Eu estava a cerca de um quilômetro de distância do palco quando a banda começou a tocar. Havia telões espalhados pelo calçadão e o som não era dos melhores - não poderia me atrever a dizer, quando voltasse, que estive no show dos caras. Um pouco decepcionado, olhei para o lado e percebi os seios de uma garota se insinuando sob a debochada e lasciva língua vermelha da camiseta. Isso foi o máximo que vi dos Stones naquela noite.


sexta-feira, 18 de junho de 2010

EPITÁFIOS PARA HELENA V


Na hora de partir não havia muito que fazer: minhas roupas sempre estiveram na mala, no canto do quarto. Nunca me atrevi à gaveta.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

EPITÁFIOS PARA HELENA IV


Suportei de Helena tudo quase: sua impaciência, seus desvios,
sua sede, sua esquizofrenia.
Só não fui conivente com a sua indiferença.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

EPITÁFIOS PARA HELENA III


Nunca descobri se era amor, comodismo ou qualquer outro inferno.
Também nunca soube se a conhecia bem ou se ela era muito previsível.

terça-feira, 15 de junho de 2010

EPITÁFIOS PARA HELENA II


Helena não se importava com prognósticos, com previsões do tempo,
com provisões de fundos, com a despensa.
Helena era uma mulher de acasos.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

EPITÁFIOS PARA HELENA I

Quando conheci Helena não houve um estalo, um arroubo, uma profusão de fogos artificiais, uma sonata de violinos ou uma cena em câmera lenta.
O tempo não parou para ver Helena passar.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

INCOMPLETA

         Finalmente, começou a Copa do Mundo de Futebol. Na ausência de algo melhor para fazer, fico imaginando como não deve se sentir quem não compartilha da euforia nacional que impregna de verde e amarelo as cidades e os meios de comunicação -, provavelmente muito pior do que eu fico durante o carnaval morando em Salvador. Infelizmente, também sou um entusiasta do futebol (embora não pareça nem à primeira nem à segunda vista). Se eu pudesse voltar no tempo, e essa é o tipo de suposição boba que todo mundo em algum momento já fez, eu diria para mim, ainda moleque nas ruas de Santo Amaro, para não gostar de futebol; que só trará infelicidade, divergências; que é perda de tempo e os números da Mega-Sena. Mas como é de conhecimento de todos isso não é possível. Talvez eu pense assim porque torço por um time que não me dá alegrias, porque não me sinto representado pela seleção do meu país ou porque, após duas horas de uma partida monótona na TV, eu sempre reflita que poderia ter aproveitado para terminar de ler aquele livro, assistir a um filme, cozinhar, namorar ou apenas recuperar a noite mal dormida. No entanto, sei que na rodada seguinte, teimoso que sou, estarei novamente me aborrecendo na frente da TV (será que não é mesmo possível voltar no tempo?).
***
          Propositalmente, dei por completado meu álbum da Copa faltando uma figurinha. O charme do álbum é não completar. Assim é a vida: incompleta. Mas tinha que ser logo a figurinha do Felipe Melo?
***
          Hoje, um amigo me disse por telefone que a Panini lançou um encarte com os 23 jogadores convocados por Dunga, além das figurinhas dos nove brasileiros que não estão no álbum original (Gomes, Doni, Gilberto, Thiago Silva, Michel Bastos, Kleberson, Ramires, Júlio Batista e Grafite). Ainda não sei se vou colecionar esse refugo. Preferia que ele tivesse me dito que Felipe Melo não está mais no álbum.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

“A MINHA ALMA NUA”

Houve um tempo em que eu tinha desistido de mim, não sabia o que era a luz do dia nem alimento que não fosse bebido, injetado ou aspirado. Quis cair de boca na boca da noite e acabei caindo nos dentes da Boca do Rio. Era requisitado pelos playboys da Pituba, pois constava sempre a massa boa, "a de qualidade". Curtia a noite até a última ponta: suas dores; seus atalhos; seus clichês; suas miragens. Até conhecer Pérola, uma negra de porte altivo e cabelos de nylon, que realizava um trabalho social com as prostitutas e travestis afrodescendentes da orla. Eu era útil para ela porque sabia o ponto e o nome de todas, algumas até o nome de batismo. Cheia de revolta e ideais socialistas, me fascinou seu discurso caduco, suas vestes de princesa africana e sua idolatria por Omolu, "o que mata sem faca". (Pérola era o arco-íris de Madagascar). Seu conceito de igualdade pouco se chocou com meu desencanto humanitário. Foi minha pele parda, de mestiço do Recôncavo, que não combinava com a dela - que me considerava muito branco para o seu universo.


REFERÊNCIAS

- O título do conto é um verso da canção ALEGRIA DA CIDADE (Lazzo/ Jorge Portugal), gravada pela cantora Margareth Menezes em 1988: “A minha pele de ébano é a minha alma nua”;- “Eu sou o arco-íris de Madagascar” é parte da canção MADAGASCAR OLODUM (Rey Zulu), emblemático sucesso da extinta Banda Reflexu’s em 1987;
- Omolu é um orixá africano cultuado nas religiões afrobrasileiras que o tem como o Senhor da Morte. “O que mata sem faca” é um epíteto utilizado pelo escritor João Ubaldo Ribeiro em VIVA O POVO BRASILEIRO, publicado em 1984;
- Boca do Rio e Pituba são bairros, aparentemente, da orla marítima de Salvador;
- O Recôncavo baiano é a região geográfica localizada em torno da Baía de Todos os Santos;
- Modelo da fotografia: não sei;
- Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança terá sido apenas semelhança.

terça-feira, 1 de junho de 2010

DENNIS HOPPER (1936-2010)


Não gosto de reverenciar ninguém depois de morto. Homenagem sincera, acredito, deve ser feita durante a vida, após sempre me parecerá oportunismo. No entanto, não posso deixar de dizer que no último sábado, perdi meu vilão cinematográfico preferido. Quando li as primeiras notícias sobre o falecimento de Dennis Hopper, agi com natural incredulidade (não poderia ser diferente). Depois, passei a relembrá-lo em APOCALYPSE NOW (1979), VELUDO AZUL (1986), JUVENTUDE TRANSVIADA (1955) e, principalmente, ao lado de Peter Fonda pilotando livremente sua Harley Davidson, ao som de “Born To Be Wild”, do Steppenwolf, em EASY RIDER (1969) -, possivelmente, uma das imagens mais icônicas da história do cinema e da contracultura. Na verdade, em seus filmes, meu vilão preferido continuará vivo. Mesmo que ela morra no final.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

O FIM DA PICADA


Há um mosquito insolente na minha perna. Acho que ele não se dá conta que um tapa é suficiente para o fim - mas não faço isso. Sei que não é apenas ele quem quer o meu sangue.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

PICOS IV

Daqui de cima, confirmo: a cidade é realmente pequena. Andando por suas ruas, reencontrando sempre as mesmas faces cansadas, eu já desconfiava.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

PICOS III

A enfermeira não consegue encontrar onde injetar o medicamento; parece nervosa, impaciente. Faço um esforço e olho para o meu braço extremamente branco: sou um mapa sem estradas. Não me levo a lugar algum.

terça-feira, 25 de maio de 2010

PICOS II


Eu costumava ter uma veia romântica – foi o que pensei quando eu não soube retribuir aquele carinho.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

PICOS I


Eu costumava ter uma veia cômica; mas, agora, não apenas me falta humor: me falta plateia.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

JUST LIKE HONEY



No filme ENCONTROS E DESENCONTROS (Lost in Translation, 2003), de Sofia Coppola, o ator Bob Harris (Bill Murray) se despede da jovem Charlotte (Scarlett Johansson) e lhe diz algo em seu ouvido que não sabemos exatamente o que é, embora sua expressão sugira para todos o que sente. Ao se afastar ele esboça não um sorriso de esperança, mas de inevitável resignação. Da janela do carro ele se despede, também, de uma Tóquio quase alienígena, enquanto ver surgir as primeiras luzes da metrópole. Paralelamente, escutamos os acordes iniciais de “Just Like Honey”, que se estenderá pelos créditos e dará ao público a mesma sensação de impotência e impossibilidade do protagonista. “Just Like Honey” é a faixa que abre PSYCHOCANDY, álbum de estreia da banda escocesa THE JESUS AND MARY CHAIN, lançado em novembro de 1985, e é mais uma da série melhores canções do MEU mundo. Quando me sinto com as mãos atadas é como se escutasse ao fundo essa canção, e ultimamente tenho a escutado bastante - esperando me encontrar ou ser encontrado, tal qual a Senhorita B. Mas tudo é desencontro.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

PROFISSÃO: ESCRITOR


          O apresentador Serginho Groisman, recentemente em seu programa, ao receber um livro de um convidado indagou:
           - E além de escrever você faz o quê?
           A pergunta não causou estranhamento, soou com naturalidade tanto para a plateia quanto para o entrevistado (que não se constrangeu ao dizer sua formação). No entanto foi o suficiente para afugentar o que ainda me restava de sono. Fiquei a pensar que a pergunta, apesar da aparência, não era corriqueira nem simplista. Era emblemática. Carregava uma série de preconceitos e descasos culturais históricos. Se o convidado fosse um filatelista, adestrador, exorcista, deputado, surfista, luthier, enxadrista, enófilo ou uma celebridade instantânea não haveria nenhum tipo de questionamento. Tudo por aqui é plausível, menos escrever. Num país onde quase não se lê escrever é encarado como um hobby, uma desocupação; é praticamente uma excentricidade. Lamentável que formadores de opinião também tenham essa opinião (melhor que o epíteto do programa fosse “vida conveniente na madrugada”). Escritor no Brasil não é profissão, eu sei - é qualidade.


(Publicado no jornal A TARDE, Salvador_Ba, edição nº 33.275, ano 98, de 16/05/2010)

quinta-feira, 13 de maio de 2010

TIPOS BRASILEIROS

Tenho percebido ultimamente que o pseudointelectual, ou o intelectual de uma nota só, vem se tornando, gradativamente, um tipo brasileiro muito comum. Ele aparece quando menos se espera, principalmente em mesas de bar, em cafés e em coquetéis. Com seu ar blasé, de superior indiferença, o pseudointelectual escuta pacientemente o assunto em baila para, com a autoridade da última palavra, dar por encerrada a conversa utilizando sem pudor a tática do “antigamente era melhor”, que, com uma alteração aqui e outra ali serve para qualquer situação (“prefiro a formação original, gosto apenas dos primeiros livros, primeiros filmes, do primeiro disco”). E ainda por cima recebe em troca um uníssono “tem razão” (ou “com certeza”). Nesse ritmo, ele irá muito além do jardim.

(Carta publicada na REVISTA PIAUÍ nº 44, maio_2010)

segunda-feira, 10 de maio de 2010

BATATA-QUENTE

BATATA-QUENTE*
(Herculano Neto)

Trago nos ombros o nome
que meu bisavô deu a meu avô
que meu avô deu a meu pai
que meu pai me deu
e que eu não tenho para quem dar.



*Poema do livro infantil, ainda inédito, A CASA DA ÁRVORE.

terça-feira, 4 de maio de 2010

TAJABONE

Uma mulher abandona Madri e segue rumo a Barcelona, instigada pelas anotações que o filho fez em um caderno intituladas “TUDO SOBRE MINHA MÃE”, no filme homônimo de Pedro Almodóvar. Ao vermos as primeiras imagens da cidade escutamos “Tajabone”, do cantor senegalês Ismäel Lo, cantada no dialeto Wolof. A canção simboliza mais do que a saudade, simboliza a ausência – que vai permear o restante da película -, e é mais uma das melhores canções do MEU mundo. Há algum tempo não moro com minha mãe, e sempre que retorno “Tajabone” acaba sendo não a trilha sonora ideal, mas a trilha sonora inevitável – principalmente quando adentro a cidade onde nasci e que não me reconhece mais. Acho que jamais saberei tudo sobre minha mãe (nem mesmo sei tudo sobre mim), melhor dessa maneira, o que me encanta é a surpresa, é a novidade a cada encontro. Também faço parte daquele grupo ranzinza que acredita que o dia das mães é todos os dias e que aquilo que tentam nos vender em maio não passa de estratégia de mercado. No entanto, não deixo de presenteá-la – por mais que ela repita todos os anos que não precisava.
Eu sei que precisava.
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