quarta-feira, 5 de agosto de 2015

SAVEIROS DE PAPEL

Paulo Leminski já nos eximiu de certo ranço hermético ao nos apresentar uma poesia simples e não simplista; coloquial e não menos inquietante. Mostrou que é possível provocar com versos curtos, que é possível mergulhar na superfície, ir além da pedra. Ser moderno não é modismo, é uma consequência natural do seu tempo, é aceitar, sem receios, a areia que se esvai em sua ampulheta, é decidir entre querer ser ou parecer e não tentar soar feito algo que não lhe pertence (Allen, meu velho, meia-noite não é apenas em Paris). Deixar a emoção em primeiro plano requer coragem, trazer o coração nas mãos, a cara pra bater, não é para qualquer ajuntador de estrofes. Ecos da poesia marginal pululam aqui e ali, seja na forma, no humor, na verve irônica e absolutamente refinada, no verso certeiro, objetivo, que golpeia, que te põe desnorteado, que te obriga desesperadamente a um clinch. A poesia de Dado Ribeiro Pedreira é para ser consumida sem moderação. Sua poética é para ser vivida, degustada, curtida até a última ponta, até a última dose.

Texto produzido para outros fins, mas que se tornou a orelha da belíssima estreia literária do comparsa Dado Ribeiro Pedreira.

SAVEIROS DE PAPEL pode ser adquirido AQUI
 

terça-feira, 21 de julho de 2015

“BATIDAS NA PORTA DA FRENTE, É O TEMPO”

       –  Hey?! Tem alguém aí? Alguém ainda aparece por esses lados?
      Numa época em que tudo parece se diluir na efemeridade do Instagram e Feicebuque, nos lápis de cor dos livros de colorir, um blogue parece ser um veículo cada vez mais sem importância, para poucos destemidos que não se deixam perder no vazio excessivo das redes sociais.
      Mesmo assim, gostaria de postar mais. Não me falta assunto: falta areia na ampulheta.
     Sempre rejeitei a desculpa da falta de tempo, acreditava que quando você quer realmente realizar algo tudo se torna adiável. Organizar prioridades deveria ser a solução óbvia. Mas o que fazer quando após eliminar tudo o que for desnecessário só lhe restar dezenas de “prioridades”?
      Recentemente, em um cálculo pouco apurado, sem consulta a gráficos e estatísticas, cheguei ao surpreendente resultado de que se o dia tivesse 36 horas não seria suficiente.
      Vejo minha família e meus amigos menos do que eu gostaria; os jogadores do meu time são, para mim, notórios desconhecidos; livros se acumulam na estante, na prateleira destinada às próximas leituras; filmes desaparecem nos fins de semana de estreia sem a minha presença numa sala de cinema. Prioridades? Viajar a passeio, pedalar no parque, cultivar bonsais, conhecer meus vizinhos além das formalidades do elevador, ter um filho, um cachorro...
      Talvez, e agora eu me permito uma resignada elucubração, seja consequência de mudanças na vida pessoal e profissional, o fim das certezas confortavelmente estabelecidas. Ou talvez apenas procure desculpas que não cabem no manual de autoajuda, talvez...
      Enfim, gostaria de escrever e publicar aqui mais crônicas, presentear os desavisados com a minha contraditória opinião. Gostaria de tanta coisa, e já faço costumeiramente tanta coisa que adoro.

       Hey?! Tem alguém aí? Alguém ainda aparece por esses lados? Hey?!

domingo, 28 de junho de 2015

OUTRO LIVRO NA ESTANTE



OUTRO LIVRO NA ESTANTE, obra organizada por Herculano Neto e Gustavo Felicíssimo, reúne 11 contos escritos por ficcionista baianos, todos eles inspirados em músicas de Raul Seixas. A obra conta ainda com textos sobre o livro, escritos por parceiros históricos do grande músico baiano, como o Carlos Eládio, guitarrista de Raulzito e os Panteras, para quem “Outro Livro na Estante” é Raul Seixas revisitado por seus conterrâneos, com respeito e admiração. Uma nova leitura instigante e intrigante, inteligente e bem-humorada. Uma belíssima homenagem aos 70 anos de nascimento do eterno Raulzito". Para Edy Star, cantor e ator, último membro vivo da Sociedade da Grã-Ordem Kavernista, "Onde estiver o ‘Magro Abusado’, ele certamente estará satisfeito y agradecido por essa lembrança/presente no seu 70º aniversário. Já para o também cantor e compositor Wilson Aragão, parceiro de Raul na música "Capim-Guiné", para "Marcio, Tom, Kátia, Herculano, Victor, Davi, Rodrigo, Georgio, Ricardo, Ediney, Dênisson, Rita e outros sonhadores, é por aí o caminho: ousar. A inquietude sempre atropelando e esmagando a inércia"

Lançamento dia 03 de julho, a partir das 19 horas
CONFRARIA DO FRANÇA
Travessa Lydio de Mesquita, 51 – Rio Vermelho, Salvador

domingo, 1 de março de 2015

"EU SOU A AREIA DA AMPULHETA"

Envelhecer é uma sentença e uma inquietação, não lhe faltam aforismos, poemas, músicas... Uma descrição que sempre apreciei afirma que constatamos realmente a passagem do tempo quando passamos a ir ao cemitério com mais frequência. Recentemente me deparei com algo igualmente desolador: alguns amigos da mesma geração já são ou serão avós; e eu, que ainda nem sou pai, assisto a essa ciranda da vida sem expectativas e sem frustrações. Consciente de que poderei, com esses apressados cabelos brancos, ser avô do meu filho.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

SOL DE MAIO

gosto das minhas cicatrizes
de quem não me entende
de quem acha que me entende

gosto do meu passado
até quando ele me condena

gosto de quem me intimida
de descer do salto
de andar descalço
de saudar o inverno

gosto dos mitos
dos boatos
dos rumores

gosto da dúvida
da contradição
gosto de versos que começam com “sou”
mas que pouco explicam

gosto do silêncio das capitais
de ser mais um na multidão
mais um retalho na colcha

gosto da fumaça do narguilé
dos florais de bach
dos realejos e teremins

gosto do cinema argentino
do futebol argentino
fito paez
borges

gosto do café dos maestros
e da face serena do sol de maio
(Herculano Neto)
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