domingo, 24 de dezembro de 2023

“FELIZ NATAL, SEU ANIMAL IMUNDO! E UM FELIZ ANO NOVO!”

 

Não estou aqui para te chamar de porco capitalista (acho que deixei meu espírito punk em alguma gaveta da memória) nem para fazer promessas que não cumprirei – mentiras sinceras não me interessam. Não me tornei mais altruísta e menos mesquinho nas últimas semanas, não fiz um balanço do que aconteceu no ano em minha vida, não pedi perdão pelo local de privilégio que ocupo na sociedade, não enviei uma mensagem de agradecimento no grupo da firma. Aqui estou sem contabilizar erros ou acertos. No entanto, queria fazer um último pedido: gostaria de escrever sobre as mesmas coisas, do mesmo jeito, com o mesmo vocabulário, mesma embocadura, mesmos personagens. Algo que meus detratores denominarão como repetitivo e os meus admiradores chamarão de estilo. E se possível, também, gostaria de ser poupado da tarde/noite de lançamento, entrevistas de divulgação e postagem em rede social com centenas de “parabéns” na aba de comentários. Ah, e bloqueie quem postar “guarde o meu”.


Atenciosamente,

O Neto do Herculano

 

terça-feira, 14 de novembro de 2023

SOCIAL DISTANCIAMENTO FC

Compilar todo o material publicado digitalmente e lançar em livro físico é praticamente um clichê, dizem que inevitável como o Titã Louco. Um dia, ainda que postumamente, uma pessoa ou uma inteligência artificial, com a melhor das piores intenções, reuniria esses textos sem se preocupar se ficaram datados, se fazem sentido fora do contexto da época ou se necessitam de cansativas notas de rodapé com linques para o Wikipédia. Apenas me antecipei. Na verdade, minha única motivação foi somente receio do Google cancelar seu serviço de Blogger e eu ficar a ver navios, sem um backup pra chamar de meu (a página que você procurou não foi encontrada). No entanto, o que eu imaginava que seria um volume parrudo (afinal são mais de vinte anos de blogue) se resumiu a poucas páginas no arquivo do Word. Muitas postagens surfavam em temas da atualidade e acabaram envelhecendo mal pá caralho, desbotadas polaroids no fundo da gaveta. Outras tantas, apenas abordavam sem profundidade nenhuma discos, filmes e livros que eu tinha acabado de consumir em textos que nem eram resenhas críticas, simplesmente o entusiasmo de quem procurava alguém para conversar no momento e não encontrava – além de um monte de material de divulgação de eventos e aguardados lançamentos. No final houve bem mais descarte do que aproveitamento. E eu que estava preocupado com um constrangimento que não poderia ser editado ou excluído terei que esperar por mais duas décadas de blogue para ter conteúdo suficiente para gerar um livro com lombada, se ainda existirem livros com lombada.

 

quinta-feira, 19 de outubro de 2023

10 COISAS QUE EU ODEIO EM VOCÊS

Sempre escutei que não gosto de gente. Durante muito tempo acatei essa sentença como uma excêntrica característica, mais uma para o meu extenso catálogo de idiossincrasias. E de tanto repetirem, comecei a acreditar – era algo irrefutável. Mas agora, na maturidade, compreendo que seguramente eu não desgosto, na verdade até estimo algumas pessoas. O que eu não gosto são determinadas peculiaridades, uma listagem que eu poderia ter apresentado na juventude, numa planilha do Excel, para aquelas que pretendiam ter algum grau da minha amizade e que eu acabei refutando sem elas nunca saberem o motivo. Pretendia enumerá-las abaixo (misteriosamente ainda mantive o título na postagem), mas desisti. Suspeito que não seria satisfatória e eu acabaria frequentemente retornando aqui para editar. Então, se algum dia você me achou frio e distante, quase indiferente, não me leve a sério. Talvez tenha sido apenas efeito daquela característica que eu não aprecio em você.

quinta-feira, 14 de setembro de 2023

NO ALICERCE DA ALEGRIA

Nunca penso no próximo texto a ser postado. Para mim o mais recente sempre será o último.  Imagino que permanecerá como uma espécie de despedida, um testamento. Os curiosos visitarão o blogue atrás de alguma mensagem subliminar, um mistério a ser desvendado. Fatalmente, encontrarão sentidos ocultos e farão dessas palavras meu epitáfio on-line, o último suspiro antes da extrema-unção. O que será que ele quis dizer? Será que já estava doente? Que fazia ideia do que aconteceria quando atravessasse a Avenida Manoel Dias às 16h de segunda-feira? Que sabia do "calibre do perigo"? Que não acordaria daquele sonho recorrente? Analisarão a imagem e o título inúmeras vezes em busca de alguém escondido nas sombras, um acrônimo ou palíndromo que a falta de paciência arqueológica não conseguiu decifrar. E se este for realmente o último? Ficará para a posteridade como um bilhete suicida? Uma premonição? Algum amigo músico enxergará versos nessas linhas e criará uma melodia triste, um réquiem? Talvez dê tempo de tocar durante a cerimônia de cremação. 

 

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO XX

Os piores momentos da minha vida costumam ser reprisados incessantemente no streaming da memória. Acontecimentos há muito sepultados retornam como se nunca tivessem falecido, feito assombrações, como se tivessem ocorrido ontem. Consigo, inclusive, sentir a dor da queda. A cicatriz esquecida reabre ainda mais dolorosa, enquanto o sabor desagradável da derrota percorre minha boca. Os risos, os dedos apontados, os olhares de desaprovação e o escárnio estão todos no mesmo lugar: imóveis e imutáveis. Sei que tive meus instantes de glória, mas tudo parece desinteressante perto dos meus insucessos. No rádio do carro toca “Perdendo Dentes” do Pato Fu. Não poderia ser mais apropriado: As brigas que ganhei/ Nem um troféu/ Como lembrança/ Pra casa eu levei/ As brigas que perdi/ Estas sim/ Eu nunca esqueci. 

 


sexta-feira, 4 de agosto de 2023

"A NOITE MAIS LINDA DO MUNDO"

Eu era feliz e sabia. A vida até parecia congelar, como em algum filme de Martin Scorsese, para ver minha alegria passar pela avenida como um samba popular, com direito à narração em off e trilha sonora. Não pretendo definir felicidade, nem sei se acredito realmente nela. Mas não era difícil perceber que os melhores dias da minha parca existência estavam acontecendo naquele momento, era impossível melhorar. Tudo que viesse depois seria ruínas, um spoiler engatilhado e apontado para minha cabeça. E eu aproveitei. Aproveitei como se realmente o mundo fosse acabar amanhã – ainda que fosse apenas o meu reles e insignificante mundo. Eu era feliz e sabia.


*Título extraído da canção homônima gravada por Odair José em 1974

terça-feira, 18 de julho de 2023

LÁPIDE DE PAPEL

Bóris costumava repetir que seria o último da galera a morrer. Gracejava dizendo que beberia nossos defuntos, que contaria as nossas mais vergonhosas aventuras no velório a cada lasquinê e que estaria sempre presente nos nossos túmulos (lendo algum poema ou maldizendo as novidades da estação enquanto envelhecia sem pressa). Como ficou fácil imaginar, Bóris não foi o derradeiro a morrer, também não foi o primeiro. Bóris viveu até à última ponta as dores e as delícias de ser o que era, o que sempre foi. Na reta final, já debilitado e envolto em arrependimentos, não abandonava sua verve crítica, sua mordacidade e passadismo declarado. Além disso, não abria mão de uma polêmica: adorava derrubar os argumentos alheios como um castelo de cartas ao vento. Era sua diversão. Nunca escondi que sair de Santo Amaro foi angustiante, muitos conterrâneos, por necessidade, tiveram que fazer o mesmo. No entanto, somente agora, compreendo que foi muito mais angustiante para quem decidiu permanecer, quem teve que enfrentar, dia após dia, todos os vazios da cidade. Curiosamente, os amigos que faleceram não partiram; talvez tenham cansado de ficar. 

***

Tenho um livro de contos inéditos na gaveta dedicado aos amigos que foram embora cedo demais. Infelizmente, amiúde, edito o arquivo para incluir um novo nome na dedicatória. Ainda não tive coragem de incluir o nome de Bóris nessa lápide.


segunda-feira, 10 de julho de 2023

A CONFRARIA DOS ZÉ BUCETA

Do antigo Complexo Escolar Polivalente de Santo Amaro ao Centro Educacional Teodoro Sampaio, sempre pertenci à turma dos nerds (muito antes do nerd ser considerado um cara legal), quando éramos apenas amigos condenados a brilhar academicamente e a falhar socialmente. No entanto, para os rapazes mais velhos e as garotas mais descoladas, não passávamos de donzelos devoradores de livros, “um bando de Zé Buceta”, como eles costumavam nos intitular. Na cultura pop Zé Buceta poderia ser invariável como Pokémon ou  Jedi, o singular soa muito mais forte. Poderia ser, inclusive, o nome de uma equipe de indivíduos super aprimorados publicada pela Jacuype Comics, defensores da biblioteca analógica e das vítimas de bullying no corredor. Em algum universo paralelo o Zé Buceta deve ser um indivíduo cobiçável, fascinante; repleto de mistérios, e não um pária, alguém a ser evitado. É possível que numa revisão histórica cuidadosa a expressão seja considerada machista, misógina, motivo suficiente para um cancelamento no Twitter.  Só sei que os Zé Buceta do Polivante e do Teodoro se espalharam pelo mundo (“cada um fez sua vida de forma diferente”¹), com frequência, relembramos alguma anedota do passado nos grupos de WhatsApp e rimos com emojis e stikers inusitados (“às vezes me pergunto: malditos ou inocentes?”).  


¹“Meus Bons Amigos” (Fernando Magalhães / Guto Goffi / Maurício Barros), canção do Barão Vermelho lançada em 1994



terça-feira, 30 de maio de 2023

NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO XIX

Sei que a nostalgia vende e, muitas vezes, é difícil escapar do seu apelo. Consumida, principalmente, por antigos jovens ávidos por dopamina, a nostalgia poderia ser um produto à venda nas melhores lojas do ramo (com campanha publicitária dirigida por Washington Olivetto e exibida na íntegra no intervalo do Fantástico). Poderia ser também a droga criada a partir das memórias do próprio usuário e atrelada ao seu DNA como na série Watchmen (2019). A nostalgia seduz, fascina, é um enigma já solucionado, é o que pejorativamente, e injustamente, chamam de zona de conforto. O show dos Titãs com sua formação clássica, e um repertório que com inevitáveis exceções vai do debut de 1984 até o controverso e maravilhoso álbum de 1991, é nostalgia pura, é saudade do que não vivi. Sempre afirmei que a banda deveria ter encerrado as atividades após o Acústico MTV (1997), que para o bem e para o mal definiu o template usado à risca pelos artistas seguintes. No entanto, prosseguiram colecionando erros e acertos ao gosto do freguês – mesmo que fosse um freguês nostálgico. 

segunda-feira, 8 de maio de 2023

INCÊNDIOS

O escritor Mayrant Gallo, que havia abandonado as publicações por motivos que se convergem com os meus, lançou um novo livro após sete anos: fragmentos da memória que causariam frenesi em Sundance se fosse adaptado pela escocesa Charlotte Wells. Frequentemente me perguntam quando será o meu próximo lançamento literário. Ainda que eu não publique nada há quase dez anos, gosto de imaginar que seja algum tipo de gentileza, dar a entender que se importa, ir além das impressões céleres sobre previsão do tempo ou os derrotados da rodada antes da porta do elevador se abrir. Poderia limpar minhas gavetas e tentar publicar, embora eu saiba que nenhum editor aceitaria não incluir foto na orelha ou que eu não participasse da noite de autógrafos, feiras literárias, nem desse entrevistas e não compartilhasse posts de divulgação em redes sociais. Confesso que às vezes sinto vontade de parar de corrigir meus rascunhos e publicar novamente, uma espécie de calor, quase uma centelha, algo que dificilmente se tornaria um incêndio. 

quarta-feira, 12 de abril de 2023

O DELICADO SOM DO TROVÃO

O plec plec é infernal. Todo possível silêncio do escritório é substituído pelo baticum raivoso dos colegas em seus teclados, como se descarregassem toda frustração acumulada durante a vida no pobre acessório. Tento escapar desse martírio aumentando o volume dos fones, o aparelho celular imediatamente alerta para o risco: desconsidero. Ainda assim é difícil evitar, de Pink Floyd a Alice Chains toda canção parece estacionada no ratatatá de “Era um Garoto que Como eu Amava os Beatles e os Rolling Stones”. Resolvo levantar e arejar um pouco, eles nem percebem. Estão cada vez mais automatizados, mais máquinas do que a própria máquina. Quando retorno o ensaio do pracatum continua, procuro me policiar, analisar se não sou parte daquilo que tanto critico. Abro um documento aleatoriamente digitando com tranquilidade os comandos. Tudo certo, nenhum erro, embora pareça que está faltando algo. Repito a movimentação, dessa vez com um pouco mais de inquietação. Melhorou, mas ainda não foi o bastante. De repente, me sinto como nas antigas animações do Pateta – quase consigo interagir com o professoral narrador em off. Novamente, agora com mais velocidade e força. Ataco as teclas com fúria no intuito de me livrar definitivamente do barulho que tanto me desassossegava. Mantenho a intensidade. Em um raro momento de calmaria percebo que o plec plec no local é apenas meu, de mais ninguém. Sou o dono do silêncio que me roubaram.

 

quarta-feira, 8 de março de 2023

UMA CANÇÃO PARA LYDIA TÁR

Onde reside o limite da minha tolerância? Faço essa pergunta com o perfil de um compositor aberto no Spotify, observando a lista das suas músicas, recordando como foram importantes aquelas faixas em momentos diferentes da minha existência, sem saber ainda se suas posições políticas e os acontecimentos da sua vida pessoal interferem tanto nas minhas convicções que não  posso clicar no play e ouvir suas canções indiscriminadamente, com quase nenhum peso na consciência. Será que devo fazer como minha mãe que, no melhor estilo Flávio Cavalcanti, destruiu um LP de Lindomar Castilho e atirou os pedaços no lixo em algum ponto traumático da minha infância na casa alugada da Avenida João Soldado. E a mera inocência não me exime de culpa? Jamais ter identificado em sua obra os elementos que o desabonam agora não me absolve no tribunal do Feicebuque? Se eu compartilhar no Instagram o que estou escutando serei cancelado por não cancelar? Alguém menos íntimo aparecerá na DM para me dar uma lição que não pedi exigindo empatia e solidariedade? Serei acusado de “corporativista”, “passador de pano” e “isentão”? Poderei não misturar a arte com o artista e conviver naturalmente com essa justificativa? Onde reside o limite da minha tolerância?


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

"SÓ QUE ESTE ANO O VERÃO ACABOU CEDO DEMAIS"

Três grandes amigos morreram em momentos diferentes e em circunstancias diferentes, havendo em comum apenas uma espécie de enfado, um cansaço por levar a vida e não o contrário como apregoa animadamente o cancioneiro popular. Frequentemente sonho com eles (se eu fosse religioso faria uma oração ou encontraria algum tipo de significado místico), talvez seja somente saudade ou o meu subconsciente fazendo questão de avisar que a morte nunca esteve tão perto de mim. Sei que depois de morto todo mundo é sua melhor versão. Nas rodas de conversas são exaltadas somente suas qualidades, seu altruísmo, a mão amiga que ajudou quando você mais precisava. São contadas as histórias mais divertidas, quase anedotas (lembra daquela vez que...?!).  Todos riem. Até alguém lamentar, próximo do murmúrio, que ele fará falta. E todos concordarem calados. Assim como Renato Russo em “Love In The Afternoon”, continuo me surpreendendo com pessoas boas que vão embora cedo demais, é inevitável. Evidentemente, não morrerei jovem,  há muito perdi o acesso ao clube dos 27. No meu funeral também não existirá  anedotas, causos curiosos ou exemplos de benevolência. No máximo alguém dirá que o defunto era um cara na dele, que nunca fez bem nem mal a ninguém. Poderia ser meu epitáfio.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

"A CRUEL BARBÁRIE DA ÓPTICA E DESIGN"

Acabei de completar vinte anos de serviço público não, não confunda com alguma notificação do feicebuque informando os aniversariantes do dia, a última coisa que precisaria agora seria um parabéns genérico. Duas décadas realizando as mesmíssimas funções de escritório não merece felicitações. Quando comecei, no verão de 2003, imaginava que seria temporário, que estava simplesmente passando uma chuva, que aquilo definitivamente não era para mim. Com a mala carregada de quimeras aos poucos fui descarregando o peso dos meus sonhos pelo caminho e não muito, ou quase nada, sobrou. De repente, talvez não tão de repente assim, deixei os receios, as obrigações e os cansaços ocuparem cada vez mais os espaços da minha existência. Nos últimos anos, sem ter que viver duas vidas no mesmo dia (o personagem servidor X personagem escritor) devido ao lockdown imposto pela pandemia, me dei conta que o meu expediente nunca foi divertido como um episódio de The Office, apenas angustiante como uma temporada de Ruptura.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

MELHORES FILMES 2022

Alguns vícios são difíceis de abandonar, listas é um deles. Mesmo sabendo da inutilidade de elencar minhas preferências com critérios absolutamente subjetivos eu não consigo deixar de fazer a de melhores filmes da temporada, a única regra é ter sido lançado comercialmente no país – por isso minhas listas têm cara e cheiro de ano passado. Em 2022 assisti a cento e cinquenta trabalhos, uma quantidade bem maior do que a dos últimos anos (aos poucos vou retomando o hábito de frequentar sessões pós-pandemia). “Top Gun: Maverick” e “Avatar: O Caminho da Água” foram boas experiências na sala de cinema, mas não suficiente para figurarem na minha listagem, talvez eu esteja ficando cada vez menos mainstream.


Tudo em todo o lugar ao mesmo tempo
Drive My Car
Titane
A Pior Pessoa do Mundo
Argentina, 1985
Nada de Novo no Front
Pinóquio por Guilermo del Toro
Aftersun
Licorice Pizza
Lamb
Boa Sorte, Leo Grande
Marte Um 


Menções honrosas para “Pig”, “Não! Não Olhe!” e “Emily the Criminal”.

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

SOCIAL DISTANCIAMENTO XXII

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda

(Setembro, 2022)

Leio no subtítulo dessa coluna “diários da pandemia” e me pergunto se a pandemia de fato acabou, se devo mudar para “diários da pós-pandemia” ou se a pandemia que estamos vivenciando vai além do uso de máscaras e medidas de isolamento social. Com tanto retrocesso, proliferação de mentiras e a cultura do ódio saindo da comodidade da caixa de comentários para o que ainda entendemos como vida real, imagino que não exista vacinação que possa conter a barbárie humana. Vou me enganando e me resignando enquanto posso. Mantenho, cada vez mais, distância das pessoas, sorrio desconfiado e com evidente esforço (tento compensar cumprimentando com o punho cerrado na vã tentativa de parecer descolado e pouco tenso – não me importo se não obtiver sucesso). A verdade é que eu jamais simpatizei com beijos, abraços e apertos de mão, cumprimentar tocando as pessoas sempre foi, e até agora é, muito desconfortável (algo que anos de terapia não conseguiram resolver). No entanto, passar por antipático e mal educado é o que menos me importa no momento. Tenho medo que estejamos realmente em uma pandemia, que em algum momento eu seja contaminado e passe a propagar a ira pelos quatro cantos dessa tela. Vejo tantas criaturas que eu considerava inteligentes fazendo isso e questiono se logo eu, que nunca fui tão perspicaz assim, não poderia adoecer também e virar um nacionalista cafona que enxerga inimigos em qualquer trincheira. Se for mesmo uma pandemia, creio que esteja longe de encontrar um fim. 


segunda-feira, 12 de setembro de 2022

NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO XVIII

Porque sou o meu próprio Mariozinho Rocha

Tenho absoluto fascínio por fitas K7, bem mais do que pelo vinil. Na juventude, além de serem acessíveis financeiramente, eu ainda podia produzir minhas próprias coletâneas (muito antes de Peter Quill ditar tendência com as suas mixtapes), com direito a capa e divididas por artistas, estilos e temas (estes últimos serviam para traduzir meu estado emocional no momento, acho que devo ter tido um box inteiro só com melancolia). Atualmente, com as possibilidades oferecidas pelos serviços de streaming, possuo algumas dezenas de playlists – o que, de alguma maneira, dialoga com o adolescente que fixava os dedos entre o play e o rec do gravador aguardando aquela canção tocar no rádio, feito um predador que espreita sua presa, e de quebra torcia para que não houvesse vinheta durante a execução e nem que o locutor interrompesse a faixa antes do seu final. Entre tantas playlists criadas, percebi que “Fade Into You”, da banda americana Mazzy Star, faz parte de várias delas, desde a da corrida na esteira, passando por enquanto bebo meu uísque a músicas para lembrar o passado vol. 2 e músicas para esquecer o passado vol. 6 – bem como a playlist com canções que me salvariam do Vecna.

I think it's strange you never knew.

terça-feira, 6 de setembro de 2022

SOCIAL DISTANCIAMENTO XXI

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda

 

(Agosto, 2022)

Recentemente, talvez nem tão recentemente assim, notei que havia sido bloqueado por (que eu conheça até agora) três contatos completamente diferentes nas redes sociais. Ah, lá vem ele outra vez com esse papo de inadequação aos novos tempos, que antigamente era melhor, etc. A verdade é que eu ainda me surpreendo e acho inusitado, quase engraçado. Será que o bloquear é a versão atualizada do “tô de mal”? Se é para colocar o “antigamente” como referência, pelo menos antes eu sabia o motivo, o que me permitia além de um pedido de desculpas (se fosse o caso) aprender com a falha e não repetir o erro – agora apenas descubro acidentalmente, como quem não quer nada. Mesmo sendo pouco afeito às interações tecnológicas, sei que existem mecanismos que restringem o acesso ao seu conteúdo e ao conteúdo de outrem que vão desde criar uma lista de amigos próximos, silenciar o contato ou até um simples unfollow se incomoda tanto. Mas refletindo melhor, provavelmente o deixar de seguir seja somente uma advertência, um recado. Quem para de seguir pode voltar em algum momento, nada impede que isso aconteça. Já o bloquear é determinante, é não querer realmente manter qualquer nível de relação com o bloqueado, é atravessar a rua do Instagram se avistá-lo de longe. Possivelmente se eu não fosse eu me bloquearia também, pra quê diabos manter conexão com alguém que não posta, não curte, não comenta e não compartilha nunca? Qual a parte da definição de redes sociais que esse indivíduo não compreendeu? Nem um coraçãozinho é capaz de dar. Presumo que eu deveria abandonar tudo o que estou fazendo nesse instante para aplicar um pente fino nas minhas redes sociais, buscar quem está ali de enfeite para simplesmente monitorar a vida alheia e bloquear sem dó. Onde já se viu uma coisa dessas?! Ficar de penduricalho entre os seguidores da pessoa.

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

CONTÉM SPOILER XIX

Aquele filme que eu te falei

Com ecos de “Escola de Rock”, Metal Lords é (com o perdão do clichê) uma grata surpresa no enfadonho catálogo da Netflix. O filme é uma das muitas produções que apelam para um público jovem adulto ávido por nostalgia, mas surpreende ao abordar o universo do heavy metal (com todos aqueles clássicos que fizeram a cabeça de muitos adolescentes nas últimas décadas na trilha sonora). Acredito que não tenha recebido a atenção merecida, o que é uma pena. Uma hora e meia de diversão descompromissada que não vai alterar o rumo da sua vida, talvez despertar aquele garoto que ia mudar o mundo e que ainda se emociona com riffs de guitarra (ou violoncelo).


quinta-feira, 11 de agosto de 2022

ENTRE A RUA DIREITA E A ESTRADA DOS CARROS II

 

Boa parte dos logradores da minha terra natal, Santo Amaro da Purificação, enaltece a memória dos seus barões e viscondes escravocratas – alusão a uma época em que a cidade era uma grande produtora de cana-de-açúcar (“gosto muito raro trago em mim por ti”). Entendo que essa tendência de revisão histórica, com a derrubada de símbolos e estátuas, não mudará tudo o que aconteceu, mas em um lugar essencialmente preto, com todos os riscos que corre essa gente morena, é no mínimo afrontoso ainda reverenciar essa caduca nobreza. Poucos anos antes da inevitável, e tardia, abolição da escravatura no país, fora criada a LIGA DA LAVOURA E DO COMÉRCIO DE SANTO AMARO, sociedade formada pelos senhores de engenho da região (nomes hoje conhecidos apenas por títulos de rua como Barão de Sergy, Ferreira Bandeira, Barão de Vila Viçosa, entre outros) que confrontava e questionava a libertação dos escravizados e enxergava a abolição como uma “ameaça”, conforme publicado no “Diário da Bahia” em julho de 1884. Acredito que o ideal seria um corajoso e necessário projeto de lei da Câmara Municipal para renomear todos esses locais, quem sabe até uma enquete popular para decidir as novas denominações. E se não fosse possível alterar, talvez por atávico conservadorismo, minha sugestão seria legendar as placas existentes como no exemplo abaixo:

Avenida Barão do Massapê
Fazendeiro, político e escravocrata

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

VIRADA DE PÁGINA XVII

Papel jornal, couché, off-set, polén, reciclado, kindle ou pdf

Dificilmente alguém não se imaginou revivendo a juventude com a cabeça atual, podendo fazer o que considera ser as escolhas certas, tendo maturidade para reagir a situações desconfortáveis que hoje seriam banais ou apenas se permitir um momento a mais com entes queridos. É essa oportunidade que Hiroshi Nakahara tem ao despertar nos seus 14 anos com a mentalidade e experiências do homem maduro de 48 anos que ele realmente é. Considerado por muitos o melhor mangá do japonês Jiro Taniguchi, UM BAIRRO DISTANTE possui bem mais camadas do que essa breve sinopse consegue oferecer. Nakahara retorna 34 anos no passado, semanas antes do desaparecimento do seu pai, um evento traumático para toda a família, compreender o que o levou a abandonar uma vida tranquila é a resposta que o protagonista precisa encontrar. Eu, nascido e criado nos comics e nas aventuras da Sessão da Tarde nos anos de 1980, fui desenvolvendo prematuramente uma solução (ah, só pode ser isso), mas fui surpreendido em suas últimas páginas. Confesso que não gostaria de regressar no tempo, um mero CTRL+Z não apagaria todas as minhas mágoas, reviver minhas dores novamente seria mais uma maldição do que uma dádiva. Melhor permanecer com as lembranças, mesmo que distorcidas.

quinta-feira, 21 de julho de 2022

SOCIAL DISTANCIAMENTO XX

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda

(Julho, 2022)

Publiquei em 2012 SALVADOR ABAIXO DE ZERO, um volume de breves contos sobre uma soterópolis suja, insalubre, nada solar, que não aparece no cartão-postal. Certamente, o trabalho que mais gostei de realizar, além de ter alcançado um resultado autoral satisfatório e com inesperada repercussão, simultaneamente me afastava daquela roupa de poeta que nunca me coube muito bem. Entusiasmado, decidi produzir contos de maior fôlego apresentando protagonistas absolutamente escrotos que, feito Marco Aurélio em “Vale Tudo”, escapavam impunes na conclusão. Eram agentes do antigo DOPS inconformados com os rumos do país, carlistas saudosos de um verão mais truculento, xenófobos, homofóbicos, conservadores hipócritas, neonazistas, feminicidas, milicianos, corruptores, entre outros elementos repulsivos. Apesar da temática, tudo era abordado com bastante humor ácido, crítico; parecia ser, naquele momento, uma continuação natural da obra anterior e não um prenúncio de tempos sombrios. A cada revisão e reorganização da ordem dos textos o conjunto ganhava um novo título, “EU NÃO SOU UM BOM LUGAR”, um empréstimo de uma canção dos Titãs, fora o que mais resistiu às impressões e encadernações na papelaria, sendo, inclusive, finalista de alguns prêmios literários – o que me iludiu ao ponto de esperar por “uma oportunidade melhor” de publicação, com isso fui protelando e consequentemente perdendo o trem da história. Na época, o cidadão que seria eleito democraticamente presidente em 2018 através do sistema de urnas eletrônicas não era alguém a ser levado a sério e os personagens nocivos do livro, para mim, eram apenas caricaturas, uma fotografia desbotada de um mundo que eu acreditava não existir mais. Quanta ingenuidade. Inicialmente o que era divertido foi no decorrer dos anos se tornando indigesto, talvez tenha sido melhor, realmente, não ter sido publicado, sabe lá como ele seria entendido na atualidade, se adequando conforme a narrativa mais conveniente, o que me obrigaria a sempre me justificar e justificar a obra. Enfim, taí um inédito na gaveta que não desejaria ver nas prateleiras, mesmo que aqueles vermes retratados retornem para as trevas algum dia. 

 

sexta-feira, 15 de julho de 2022

CONTÉM SPOILER XVIII

Aquela série que eu te falei 

Nunca tive essa urgência para consumir temporadas de série desesperadamente, maratonar títulos pela madrugada à base de café e Redbull, devorando o título do momento apenas para fugir dos famigerados spoilers, se manter antenado (ainda se diz “antenado”, Mr. Hype?) ou por mera manipulação do algoritmo. Na verdade, essa falsa sensação de liberdade, de poder assistir ao que quiser/quando quiser sempre me incomodou. Comprava boxes de DVD com as temporadas completas, mas só assistia a um episódio por dia, às vezes por semana. Sou da velha guarda, gosto de apreciar aos poucos, formular teorias enquanto o próximo episódio não é lançado (quase sinto falta dos intervalos comerciais também). “Mas você ainda pode fazer tudo isso”. E é o que tento fazer, mesmo que o aflitivo cronômetro do streaming teime por mais uma dose. 

sexta-feira, 8 de julho de 2022

NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO XVII

Porque sou o meu próprio Mariozinho Rocha

Tatuei o verso “But I am the greatest motherfucker/ That you'll ever gonna meet”, da canção GMF, do pianista islandês/americano John Grant, no meu braço – entre “You Can't Always Get What You Want” dos Stones e “To die by your side is such a heavenly way to die” dos Smiths. Engraçado que sempre saio de casa com algumas imagens na cabeça e uma pasta de prints no smartphone, de Peanuts a Hitchcock não me faltam ideias para tatuagens, mas fatalmente retorno com algum verso gravado na pele, como se meu corpo fosse um antigo caderno escolar onde anotava frases dispersas durante alguma aula desinteressante no Polivalente de Santo Amaro. 


quinta-feira, 30 de junho de 2022

VIRADA DE PÁGINA XVI

Papel jornal, couché, off-set, polén, reciclado, kindle ou pdf

Em uma Hollywood pós-Segunda Grande Guerra, repleta de intrigas, jogos de poder e corrupção, uma época em que simpatizantes do comunismo eram perseguidos e denunciados por seus próprios colegas da indústria cinematográfica, uma jovem atriz é misteriosamente assassinada levando um traumatizado roteirista a investigar o caso. Não, não confundi o título da coluna, e essa sinopse rasa não pertence a nenhum thriller noir dos anos de 1940. FADE OUT é uma premiada minissérie da dupla Ed Brubaker e Sean Phillips, uma espécie de Bebeto e Romário, Pelé e Coutinho, dos quadrinhos. Publicada aqui pela Editora Mino, em uma belíssima edição com 400 páginas, trazendo um pano de fundo histórico-político e uma galeria de excepcionais coadjuvantes vale, certamente, a leitura – e ao contrário de outras indicações, espero que não seja adaptada para série ou filme, nem mesmo pela HBO. Com o perdão do purismo, mas não consigo imaginar Fade Out em outro formato. 


segunda-feira, 20 de junho de 2022

SOCIAL DISTANCIAMENTO XIX

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda

 
(Junho, 2022)

Um dos maiores clichês de quem escreve é a síndrome da página em branco, aquele angustiante cursor piscando na tela implorando por palavras, mesmo que sejam seguidas de um arrependido “backspace”. Inúmeras e particulares são as justificativas: ausência de inspiração, se é que ela existe, de boas ideias, bloqueio criativo, excesso de autocrítica e enfado são as que mais escuto. Minhas páginas não estão em branco, há muitos arquivos aguardando um clique no “postar”. Receios, cansaços, saudades, incertezas, questionamentos, desagrados… os temas vão se repetindo em uma espiral de lamentações que mais se parecem importunos. Sou moldado pelo não gostar um instante além do que eu deveria, são minhas “senhas”, um “acho que não sei quem sou/ só sei do que não gosto” constante. Não pretendo ser um coach motivacional que faça as pessoas saírem do parágrafo mais dispostas do que quando entraram, distante disso. Mas admito que poupar a humanidade das minhas queixas é uma generosa contribuição para um mundo menos desesperançoso.

 

sexta-feira, 3 de junho de 2022

NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO XVI

Porque sou o meu próprio Mariozinho Rocha

O novo disco do multi-instrumenista americano Andrew Bird na vitrola e uma sexta-feira problemática começa a ganhar outros ares, por enquanto.

 

quinta-feira, 26 de maio de 2022

CONTÉM SPOILER XVII

Aquele filme que eu te falei

Pretendia elencar meus filmes preferidos baseados na obra de Stephen King (para a felicidade de admiradores e detratores), mas fatalmente cairia na tríade O Iluminado, Carrie e Conta Comigo no topo – e fazer uma lista diferentona exclusivamente para ser o diferente é muito juvenil para os meus cabelos brancos. No entanto, consigo afirmar que o controverso O NEVOEIRO (2007) estaria nessa listagem. Inspirado em um conto do autor, que imaginava a trama como se fosse um sci-fi B dos anos 50/60, seguimos pai e filho em uma ida ao supermercado para adquirir suprimentos após uma noite tempestuosa, porém são surpreendidos por uma estranha névoa e terminam isolados no estabelecimento na companhia de outras pessoas. Mais simples, impossível. Dirigido pelo francês Frank Darabont, que já havia adaptado com sucesso dois dramas de King, À Espera de um Milagre e Um Sonho de Liberdade, envereda aqui pelo gênero característico do escritor. Com elementos lovecraftianos e referência a O Anjo Exterminador e Alfred Hitchcock, principalmente Os Pássaros (por um momento acreditei que a conclusão seria semelhante) nos expõe o que há de pior no ser humano, sem dúvida o verdadeiro monstro da história. Se os efeitos visuais não envelheceram muito bem, seu texto dialoga assustadoramente com os nossos dias: negacionismo, fanatismo religioso, intolerância, ira, egocentrismo, arrogância, vaidade, manipulação... Ao contrário do título irônico da coluna, posso dizer, simplesmente, que o final é um dos mais desoladores e perturbadores do cinema.


terça-feira, 17 de maio de 2022

SOCIAL DISTANCIAMENTO XVIII

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda

(Maio, 2022)
 
Minha última publicação foi a antologia OUTRO LIVRO NA ESTANTE, contos baseados em canções de Raul Seixas, que organizei em 2015 sob pretexto de alguma efeméride que no momento me escapa. A experiência de atuar como produtor, divulgador, revisor, editor, conciliador e outras funções que não aparecem na ficha técnica foi extremamente cansativa, lidar com a vaidade e a idiossincrasia de uma dúzia de escritores, além daqueles escrevinhadores que mesmo não participando do projeto faziam questão de menosprezar um quinhão, me drenou sobremaneira também, tanto que após o lançamento passei a repetir, até a quem não perguntasse, que havia me aposentado da literatura – o que não deixa de ser verdade, pois desde lá não publiquei mais nada e não tenho interesse. Para produzir a coletânea, tive que violentar minha principal característica, meu epíteto, meu ponto de referência, que é a minha timidez. Em muitas etapas do processo, precisei me sabotar, me anular, para continuar prosseguindo, e isso me custou bastante. Você que leu até aqui pode questionar com merecido desdém: mas alguém te obrigou a fazer? A resposta é não, mas era algo que eu necessitava descobrir. Consequentemente, acabei abandonando o que eu imaginei que se constituiria numa série e abordaria a obra de artistas como Rita Lee, Sérgio Sampaio e Caetano Veloso (para este último já havia inclusive título, seleção de músicas e possíveis autores convidados). Quem sabe uma variante minha tenha persistido.

 

quarta-feira, 11 de maio de 2022

VIRADA DE PÁGINA XV

Papel jornal, couché, off-set, polén, reciclado, kindle ou pdf

Meu Amigo Dahmer” é uma graphic novel autobiográfica do quadrinista Derf Backderf sobre sua amizade/relação com um dos mais conhecidos serial killers da história, Jeffrey Dahmer, durante o ensino médio. Um relato honesto que, ao mesmo tempo que humaniza, não deixa de apontar o tempo inteiro para o que ele se tornaria brevemente, um desconfortável spoiler que nos acompanhará por toda leitura. O que mais impressiona é que todos os sinais já estavam claros, expostos para quem se dispusesse a enxergar, no entanto, talvez por conveniência, eram absolutamente ignorados. Jeffrey não era aquele tipo de psicopata que nenhuma pessoa poderia imaginar no que se transformaria. Era possível imaginar sim, e essa é a maior indignação que nos atinge no decorrer das páginas: por que ninguém fez nada? Chega a lembrar It, de Stephen King, romance de terror em que os adultos não se importam com o que acontece com as crianças, só que aqui não era ficção. "Meu Amigo Dahmer” ganhou uma versão cinematográfica em 2017, intitulada no Brasil “O Despertar de um Assassino”, mas prefira a HQ. 


domingo, 8 de maio de 2022

NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO XV

Porque sou o meu próprio Mariozinho Rocha

Dreampop é um gênero derivado do rock alternativo oitentista. Não poderia haver denominação melhor: é como se os anos de 1980 nunca tivessem acabado. 



quinta-feira, 28 de abril de 2022

SOCIAL DISTANCIAMENTO XVII

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda

(Abril, 2022)

Voltei a postar no blogue em abril de 2021. Escrever em um blogue novamente, e usando uma linguagem bastante informal, como se fosse realmente um diário ou uma nota perdida numa velha agenda, foi a maneira mais óbvia, e fácil, que o que restou de mim encontrou para tentar sobreviver à pandemia – tão óbvia que frequentemente penso que deveria ter retomado antes, teria me poupado de alguns desastres e tarjas-pretas. Fiquei tanto tempo afastado que ninguém próximo se deu conta que retornei, nem antigos leitores, amigos, familiares, curiosos, haters... ninguém (o que me deixa, inclusive, mais à vontade, saber que haveria alguém na caixa de comentários, às vezes era agradável; noutras, desconfortável). Um ano depois, e pelo número de acessos diários, concluo que não estou sozinho aqui. Provavelmente, náufragos trazidos por alguma conjunção aleatória do buscador.


quarta-feira, 20 de abril de 2022

CONTÉM SPOILER XVI

Aquele filme que eu te falei 

Acredito que todo mundo que se diz (ou dizem que é) cinéfilo, frequentemente é abordado sobre dicas de filmes e séries, preferencialmente “recentes e legais”. Há uma espécie de responsabilidade nessas sugestões, é preciso avaliar o tipo de produto e público para recomendar algo que melhor se adéque ao perfil e não simplesmente prescrever a última produção assistida, a que está mais ativa na memória, ao alcance da mão na gaveta das lembranças. Resumindo: ser mais caloroso e menos impessoal que o  arrogante algoritmo do streaming. Sei que deveria ser natural e não causar surpresa nenhuma, mas em um desses pedidos, me dei conta que estava indicando apenas obras protagonizadas por mulheres. Já citei nesta coluna Penélope Cruz em “Madres Paralelas”, Olivia Colman em “A Filha Perdida” e Kate Winslet na premiadíssima minissérie “Mare of Easttown”; poderia ter escrito também sobre Alana Haim em "Licorice Pizza", Elisabeth Moss em “The Handmaid’s Tale”, Phoebe Waller-Bridge em "Fleabag" ou a norueguesa Renate Reinsve em “A Pior Pessoa do Mundo”  –  para ficar nas que vêm mais fácil à cabeça. Certamente não é mera coincidência ou uma polaroid de um momento, talvez seja uma bem-vinda mudança de paradigma. Longe de príncipes encantados, souvenir de desejo ou interesse romântico do mocinho, vejo cada vez mais atrizes em papéis e interpretações notáveis. E que continue assim. Minha lista de recomendações agradece.


quarta-feira, 13 de abril de 2022

VIRADA DE PÁGINA XIV

Papel jornal, couché, off-set, polén, reciclado, kindle ou pdf

 
Não sou nenhum sommelier de papel, nem pretendo, sequer consigo especificar o tipo ou a gramatura, tudo que me permito afirmar é se o papel é bom ou se não é tão bom, um leigo declarado e sem remorsos. Quem foi catequizado nos formatinhos de papel jornal grampeados numa lombada canoa não pode reclamar da sofisticação atual disponibilizada pelo mercado. Capa dura, sobrecapa, lombada arrendondada, ondulada, verniz localizado, grimório, omnibus, absolute, edição definitiva, corte trilateral, soft touch, fitilho marcador… Ufa, o cardápio é extenso. Mas enquanto as editoras oferecem cada vez mais luxo nesses tais objetos transcendentes, um capa cartão, com preço acessível, já é mais do que suficiente para me fazer feliz. 


terça-feira, 5 de abril de 2022

SOCIAL DISTANCIAMENTO XVI

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda


(Março, 2022)

Não costumo perguntar por alguém que não vejo há tempos. Sei que é bem mais que uma regra de etiqueta, é um gesto cortês, empático, delicado até; porém, não consigo. Tenho receio de ouvir em troca um “você não soube?” – “você não soube?”, para mim, é o preâmbulo da tragédia. Há quem possa, com todo direito, contra-argumentar que se trata de uma mera questão retórica, uma muleta linguística, que o meu receio, além de paranóico, é banal. “Você não soube?” pode servir para anunciar uma notícia boa, algo como ele recebeu uma proposta de emprego em outra cidade e precisou se mudar, tipo de informação que eu saberia se fosse mais assíduo e curioso em redes sociais, mas continuo achando melhor não arriscar. Por outro lado, “Você não soube?” pode servir, também, para anunciar uma notícia que não saberia interpretar de supetão se é boa ou ruim, algo como “separamos” – o que me deixaria confuso, sem saber se lamento ou felicito. Não me importo que me acusem de deselegante, mal educado, que falem “encontrei Herculano e nem perguntou por você'. Amigo, acredite que eu pensei, ensaiei, esbocei, quase perguntei, no entanto desisti no último momento apenas para não escutar um “você não soube?” e aguardar apreensivamente, durante infinitos milésimos de segundo, por uma resposta que me aliviaria ou me afundaria ainda mais na calçada.

sexta-feira, 1 de abril de 2022

NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO XIV

Porque sou o meu próprio Mariozinho Rocha

Acho que faz parte do imaginário de boa parte dos fãs de classic rock ter presenciado o Festival de Woodstock e inalado aqueles dias de flower-power – fascínio absolutamente justificável. No entanto, naquele mesmo verão de 1969, em Nova York, cerca de trezentas mil pessoas acompanharam outro evento. Sem tanta popularidade e praticamente esquecido da história por décadas, o Harlem Cultural Festival, brilhantemente documentado no filme Summer of Soul (...ou, Quando a Revolução Não Pôde Ser Televisionada), muito mais politizado que seu colega afamado, trazia um line-up formado por artistas negros se apresentando para um público majoritariamente negro. Com uma programação que reunia Stevie Wonder, B.B. King, Nina Simone, Mahalia Jackson, Chambers Brothers, Sly & the Family Stone, Chuck Jackson, The 5th Dimension, David Ruffin, Hugh Masakela, Gladys Knight & the Pips, entre outros. Analisando agora, já não sei dizer em qual dos festivais gostaria de ter participado. 


sábado, 26 de março de 2022

CONTÉM SPOILER XV

Aquele filme que eu te falei

 

Temporada do Oscar era época de maratonar os principais títulos, fazer bolão, divulgar palpites com os que “eu acho” e os que “eu gostaria”, realizar apostas com os amigos, contestar os indicados como se fossem os convocados da seleção era quase uma Copa do Mundo. Gradativamente, tenho dado cada vez menos atenção, talvez por entender melhor os meandros da indústria cinematográfica e os seus mecanismos fui me tornando menos ingênuo e, consequentemente, menos interessado (um tanto indiferente). Amanhã haverá uma nova premiação. Deixarei para avaliar os incensados, os injustiçados e as surpresas no dia seguinte, apenas para confirmar que teria fracassado em mais um bolão.

domingo, 20 de março de 2022

SOCIAL DISTANCIAMENTO XV

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda

(Fevereiro, 2022)

Estou aqui há vinte anos, criei o primeiro blog em 2002 no portal da IG; em 2004 migrei para o UOL e o seu zip.net, onde tive também um fotolog – espécie de antepassado do Instagram; e desde 2008  estou no Blogger. Essa cronologia não serve para muita coisa, apenas para confirmar que o tempo voa, amor, escorre pelas mãos. Portanto, não estranho quem classifica o blog como vintage, retrô ou divã de boomer (ainda dizem “cringe”?) nem fantasio que em algum momento ocorrerá fenômeno semelhante ao do vinil – não mesmo (embora eu acredite que esteja mais para cool do que kitsch, ao contrário do Feicebuque que tem envelhecido muito mal). Já é possível, inclusive, tecer comentários saudosistas rememorando uma época em que havia blogs destinados aos mais diversos assuntos, informativos e com bastante interação e repercussão, porém sem o ranço bélico das redes sociais. Agora isso aqui não passa de um cemitério de jazigos abandonados esperando por esporádicas visitas. Às vezes me sinto solitário como Wall-E trafegando pelo ferro-velho.  


domingo, 13 de março de 2022

VIRADA DE PÁGINA XIII

Papel jornal, couché, off-set, polén, reciclado, kindle ou pdf

Conheci Iznogoud através da animação (que transformava o califa em sultão na versão brasileira) exibida durante as manhãs em algum ponto nebuloso dos anos de 1990. Iznogoud era um grão-vizir que tentava de todas as maneiras usurpar o trono, uma espécie de golpista sonhando com impeachment. Criado em 1962 pelos franceses René Goscinny e Jean Tabary, não teve muitas obras publicadas no Brasil. Escrevi sobre o personagem no inverno de 2009 AQUI, na época, acreditara que havia alguns “iznogouds” no meu caminho, que tolice. Excesso de vaidade, mania de perseguição, deslumbramento, egoísmo… talvez um pouco de cada somada à minha imaturidade naqueles dias. Estupefato, hoje me pergunto como é que alguém poderia mirar a minha vida e dizer: eu quero ser sultão no lugar do sultão!

terça-feira, 8 de março de 2022

NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO XIII

Porque sou o meu próprio Mariozinho Rocha

No começo dos anos de 1980, praticamente todos os lares de Santo Amaro possuíam uma cópia do LP “CAVALO DE PAU”, de Alceu Valença – pelo menos todas as casas que eu frequentava ou que minha memória da infância permite lembrar. Possivelmente estimulado pelos sucessos “Tropicana” e “Como dois Animais”. No entanto, a canção que me inquietava era a faixa título, com uma formação mais enxuta, apenas baixo/bateria/guitarra/piano, em um arranjo minimalista muito mais próximo do experimentalismo do rock do que dos ritmos regionais que caracterizavam o álbum, culminando em um Alceu, a plenos pulmões, vociferando sua letra. Era um som que, naquele contexto, causava inevitável estranheza. Curiosamente, seus versos só começaram a me trazer real significado após vários anos, depois que vim parar na capital. Quando, aos poucos, fui desconhecendo aquele menino do interior em mim e, irremediavelmente, deixando a minha inocência para trás – talvez o bem mais precioso que perdi na vida. Por mais que eu insistisse em procurá-la, esquecida na mala/em um canto dos olhos, sabia que jamais a reencontraria novamente. Minha inocência era como aquele cavalo de pau que se torna arisco, indomável, que me derruba, que me nega, determinando que agora era tempo de caminhar sozinho.

(Publicado originalmente em agosto de 2010)

 


 

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