terça-feira, 11 de maio de 2021

SPLASH PAGES I

Às vezes me pergunto se foi difícil crescer em Royal City... ou se foi simplesmente difícil crescer
 

O canadense Jeff Lemire é dos autores de HQs mais profícuos de sua geração. Frequentemente publicado no Brasil, seus trabalhos transitam entre o mainstream das grandes editoras ao cult das publicações autorais. Em Royal City: Segredos em Família (Editora Intrínseca, 2020), os elementos que o tornaram famoso, como a vida nas pequenas cidades e as relações humanas, estão amplamente presentes. Na história uma família é acompanhada pela presença do caçula que morreu misteriosamente anos atrás. Para cada membro ele aparece com uma idade e personalidade diferente: a criança ingênua, o adolescente rebelde, o homem religioso e o bêbado inconsequente. A cidade decadente de Royal City é praticamente personagem dos dilemas familiares que permeiam a obra. Quem vem do interior, definitivamente, carrega uma Itabira ou Santo Amaro no peito. 

Enquanto a série não é finalizada, fico na torcida para que algum dia se torne uma produção televisiva – de preferência pela HBO. 

sexta-feira, 7 de maio de 2021

NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO II

 

Sem a grife de um Caetano Veloso, Gilberto Gil ou Chico Buarque, o santo-amarense Roberto Mendes é um dos compositores mais gravados por sua conterrânea Maria Bethânia. Presente em sua discografia desde a gravação de “Filosofia Pura” (no disco Ciclo, 1983) com raras ausências desde então.

Seleção na playlist “Maria Bethânia Canta Roberto Mendes” no Spotify. 


quarta-feira, 5 de maio de 2021

DISTANCIAMENTO SOCIAL I

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda
 
 

Dezembro, 2019

Em meio a confraternizações o receio quanto ao novo vírus é cada vez maior. Inicialmente parecia ser algo quase inatingível, distante da nossa realidade. Agora parece cada vez mais próximo. Feiques nius e relatos catastróficos se misturam com memes supostamente engraçados sobre a “ameaça chinesa”. Os fogos artificiais nunca soaram tão tristes.

            

Janeiro/Fevereiro, 2020

Férias e aquela tradicional distância dos festejos carnavalescos ditam o começo do ano. “Trouxe um vinho para você” é a mensagem de amigos que acabam de retornar de uma Europa afetada pela pandemia. Começo a tomar as primeiras medidas de prevenção mesmo sem nenhum protocolo definido pelas autoridades de saúde. “Deixe de paranoia” é o comentário mais frequente que escuto nesses dias. Ainda não fui buscar aquele vinho. 



terça-feira, 27 de abril de 2021

CONTÉM SPOILER I

 

Não se discute que o gol é o grande momento do futebol, assim como não existe gol feio. Para o torcedor todo gol é importante: de bico, canela, mão, contra, impedido. Mas uns gols acabam sendo mais importantes do que outros. Aquele lance em que você narra a jogada antecipando a melhor possibilidade, como se falasse diretamente para o jogador o que ele deve fazer (dribla, segura, passa, vira para a esquerda, cruza) e que magicamente começa a acontecer até desembocar em um grito de gol que acordaria não só a sua casa, mas a vizinhança inteira é um exemplo comum.
 
Já um filme é construído de vários momentos impactantes, no entanto um bom final pode ser vibrante feito o gol da virada nos acréscimos do segundo tempo. Em “Jojo Rabbit” (direção Taika Waititi, 2019) um solitário garoto de apenas dez anos tem Hitler como amigo imaginário. Um dia ele descobre que sua mãe esconde uma jovem judia no sótão da sua casa. Questionada por Jojo o que ela faria quando acabasse a guerra, Elsa simplesmente responde: dançar. Com o término dos conflitos, quando finalmente consegue colocar os pés fora do seu esconderijo, ela inicia timidamente passos de dança em silêncio no meio da rua. Aos poucos os passos ganham mais força, enquanto os primeiros acordes de “Heroes”, de David Bowie, vão ficando cada vez mais reconhecíveis ao fundo. O volume da canção aumenta com a dança e eu dentro do cinema só desejava que o filme concluísse ali, na gaveta. O aparecimento dos créditos foi o gol de placa esperado.

O mundo vai acabar e ela só quer dançar.

 

Jojo Rabbit Cena Final

 

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

DESENCONTROS


Mais um poema traduzido para o francês pelo amigo Pedro Vianna


não tenho medo de ser simples
tenho medo de ser oco
de ser raso

não tenho medo do esquecimento
tenho medo da lembrança feita de mágoa
do rancor

não tenho medo da rotina
da crise de meia-idade
da constância dos funerais
das mesmas conversas
dos mesmos amigos

tenho medo do verão
tenho medo da saudade

tenho medo dos caminhos que não segui
das escolhas que não fiz
dos desencontros



Rencontres ratées

je n’ai pas peur d’être simple
j’ai peur d’être creux
d’être plat

je n’ai pas peur de l’oubli
j’ai peur du souvenir fait de chagrin
de la rancœur

je n’ai pas peur de la routine
de la crise de l’âge mûr
de la récurrence des funérailles
des mêmes conversations
des mêmes amis

j’ai peur de l’été
j’ai peur de la présence des absences

j’ai peur des chemins que je n’ai pas suivis
des choix que je n’ai pas faits
des rencontres ratées

Tradução para o francês:
Pedro Vianna



quarta-feira, 3 de agosto de 2016

IT WAS REALLY NOTHING

Capas dos volumes 1 e 2 da coletânea Best (1992), que trazem a mesma foto cortada ao meio mostrando um casal de motociclistas fotografados pelo ator Dennis Hopper. A foto foi extraída do livro OUT OF THE SIXTIES, lançado pelo ator em 1986. Coletânea que marcou minha juventude, costumava escutar os dois na sequência, emprestados do sempre solidário Sérgio Damião.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

SOB PRESCRIÇÃO: 10 Anos

Em uma época em que as redes sociais ainda engatinhavam, há exatamente dez anos, lançávamos em Santo Amaro (BA), com a ajuda dos amigos, uma coletânea de contos e poesia que marcaria toda uma
geração na cidade, seja por seu tom anárquico, seu “do it yourself” ou sua forma de tratar angústias e inquietações com um pano de fundo local e sem meias palavras. Inusitadamente o livro, com sua postura marginal, ganhou status cult e sem pretensão alguma, embora trouxesse uma contracapa ironicamente arrogante e pouco entendida, acabou traduzindo a desesperança da juventude  naquele momento e consequentemente despertou o interesse de leitores de outras regiões. Referenciada até hoje, SOB PRESCRIÇÃO teve sua tiragem rapidamente esgotada, gerando a circulação de foto cópias em forma de apostilas. Há quem diga que o livro mereça uma nova edição, revista e ampliada; outros defendem a ideia de que a mística não pode ser maculada, que o seu lugar na história deva ser apenas ali: na fria noite de 07 de julho de 2006. Gostaria apenas de brindar esse dia com meus amigos numa mesa de bar relembrando os bastidores daquela aventura. E ser apontado na rua como "o cara do livro preto".

quarta-feira, 22 de junho de 2016

sábado, 21 de maio de 2016

IMPUBLICÁVEL


trago na cabeça
um poema tão doloroso
e injustificável
que jamais tentarei
colocar no papel

costumo cantarolar seus versos
numa melodia tristonha
quando estou sozinho
quando a chuva me apanha
na rua e não procuro abrigo
quando amanhece do outro
lado da minha cortina

esse poema é só meu

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

SAVEIROS DE PAPEL

Paulo Leminski já nos eximiu de certo ranço hermético ao nos apresentar uma poesia simples e não simplista; coloquial e não menos inquietante. Mostrou que é possível provocar com versos curtos, que é possível mergulhar na superfície, ir além da pedra. Ser moderno não é modismo, é uma consequência natural do seu tempo, é aceitar, sem receios, a areia que se esvai em sua ampulheta, é decidir entre querer ser ou parecer e não tentar soar feito algo que não lhe pertence (Allen, meu velho, meia-noite não é apenas em Paris). Deixar a emoção em primeiro plano requer coragem, trazer o coração nas mãos, a cara pra bater, não é para qualquer ajuntador de estrofes. Ecos da poesia marginal pululam aqui e ali, seja na forma, no humor, na verve irônica e absolutamente refinada, no verso certeiro, objetivo, que golpeia, que te põe desnorteado, que te obriga desesperadamente a um clinch. A poesia de Dado Ribeiro Pedreira é para ser consumida sem moderação. Sua poética é para ser vivida, degustada, curtida até a última ponta, até a última dose.

Texto produzido para outros fins, mas que se tornou a orelha da belíssima estreia literária do comparsa Dado Ribeiro Pedreira.

SAVEIROS DE PAPEL pode ser adquirido AQUI
 

terça-feira, 21 de julho de 2015

“BATIDAS NA PORTA DA FRENTE, É O TEMPO”

       –  Hey?! Tem alguém aí? Alguém ainda aparece por esses lados?
      Numa época em que tudo parece se diluir na efemeridade do Instagram e Feicebuque, nos lápis de cor dos livros de colorir, um blogue parece ser um veículo cada vez mais sem importância, para poucos destemidos que não se deixam perder no vazio excessivo das redes sociais.
      Mesmo assim, gostaria de postar mais. Não me falta assunto: falta areia na ampulheta.
     Sempre rejeitei a desculpa da falta de tempo, acreditava que quando você quer realmente realizar algo tudo se torna adiável. Organizar prioridades deveria ser a solução óbvia. Mas o que fazer quando após eliminar tudo o que for desnecessário só lhe restar dezenas de “prioridades”?
      Recentemente, em um cálculo pouco apurado, sem consulta a gráficos e estatísticas, cheguei ao surpreendente resultado de que se o dia tivesse 36 horas não seria suficiente.
      Vejo minha família e meus amigos menos do que eu gostaria; os jogadores do meu time são, para mim, notórios desconhecidos; livros se acumulam na estante, na prateleira destinada às próximas leituras; filmes desaparecem nos fins de semana de estreia sem a minha presença numa sala de cinema. Prioridades? Viajar a passeio, pedalar no parque, cultivar bonsais, conhecer meus vizinhos além das formalidades do elevador, ter um filho, um cachorro...
      Talvez, e agora eu me permito uma resignada elucubração, seja consequência de mudanças na vida pessoal e profissional, o fim das certezas confortavelmente estabelecidas. Ou talvez apenas procure desculpas que não cabem no manual de autoajuda, talvez...
      Enfim, gostaria de escrever e publicar aqui mais crônicas, presentear os desavisados com a minha contraditória opinião. Gostaria de tanta coisa, e já faço costumeiramente tanta coisa que adoro.

       Hey?! Tem alguém aí? Alguém ainda aparece por esses lados? Hey?!

domingo, 28 de junho de 2015

OUTRO LIVRO NA ESTANTE



OUTRO LIVRO NA ESTANTE, obra organizada por Herculano Neto e Gustavo Felicíssimo, reúne 11 contos escritos por ficcionista baianos, todos eles inspirados em músicas de Raul Seixas. A obra conta ainda com textos sobre o livro, escritos por parceiros históricos do grande músico baiano, como o Carlos Eládio, guitarrista de Raulzito e os Panteras, para quem “Outro Livro na Estante” é Raul Seixas revisitado por seus conterrâneos, com respeito e admiração. Uma nova leitura instigante e intrigante, inteligente e bem-humorada. Uma belíssima homenagem aos 70 anos de nascimento do eterno Raulzito". Para Edy Star, cantor e ator, último membro vivo da Sociedade da Grã-Ordem Kavernista, "Onde estiver o ‘Magro Abusado’, ele certamente estará satisfeito y agradecido por essa lembrança/presente no seu 70º aniversário. Já para o também cantor e compositor Wilson Aragão, parceiro de Raul na música "Capim-Guiné", para "Marcio, Tom, Kátia, Herculano, Victor, Davi, Rodrigo, Georgio, Ricardo, Ediney, Dênisson, Rita e outros sonhadores, é por aí o caminho: ousar. A inquietude sempre atropelando e esmagando a inércia"

Lançamento dia 03 de julho, a partir das 19 horas
CONFRARIA DO FRANÇA
Travessa Lydio de Mesquita, 51 – Rio Vermelho, Salvador

domingo, 1 de março de 2015

"EU SOU A AREIA DA AMPULHETA"

Envelhecer é uma sentença e uma inquietação, não lhe faltam aforismos, poemas, músicas... Uma descrição que sempre apreciei afirma que constatamos realmente a passagem do tempo quando passamos a ir ao cemitério com mais frequência. Recentemente me deparei com algo igualmente desolador: alguns amigos da mesma geração já são ou serão avós; e eu, que ainda nem sou pai, assisto a essa ciranda da vida sem expectativas e sem frustrações. Consciente de que poderei, com esses apressados cabelos brancos, ser avô do meu filho.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

SOL DE MAIO

gosto das minhas cicatrizes
de quem não me entende
de quem acha que me entende

gosto do meu passado
até quando ele me condena

gosto de quem me intimida
de descer do salto
de andar descalço
de saudar o inverno

gosto dos mitos
dos boatos
dos rumores

gosto da dúvida
da contradição
gosto de versos que começam com “sou”
mas que pouco explicam

gosto do silêncio das capitais
de ser mais um na multidão
mais um retalho na colcha

gosto da fumaça do narguilé
dos florais de bach
dos realejos e teremins

gosto do cinema argentino
do futebol argentino
fito paez
borges

gosto do café dos maestros
e da face serena do sol de maio
(Herculano Neto)

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

EPÍGRAFE



Rosamund Pike
épigraphe

les épigraphes sont parlantes
ne se cachent pas

l’épigraphe c’est toi sous la plume de l’autre
c’est le vers en plein dans le but
la référence
la déférence
la bénédiction

les épigraphes sont traîtresses
décoratives
superflues

les épigraphes sont médisantes
prétentieuses
tendancieuses

les épigraphes sont autosuffisantes
les épigraphes sont des épitaphes


epígrafe
epígrafes dizem mais
não se escondem

a epígrafe é você na pena do outro
é o verso certeiro
a referência
a deferência
a bênção

epígrafes são traiçoeiras
decorativas
desnecessárias

epígrafes são maledicentes
pretensiosas
tendenciosas

epígrafes são autossuficientes
epígrafes são epitáfios


*POEMA INTEGRANTE DE "A CASA DA ÁRVORE"

 




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