quinta-feira, 30 de julho de 2026

TODOS OS MEUS MORTOS

          

A equipe médica se aproxima lentamente e cabisbaixa, antecipando para quem assistia àquele cortejo o resultado – há um quê de teatral naquilo tudo que me incomoda. A informação é passada apenas por um deles, os demais evitam nos encarar, talvez temendo manifestações mais efusivas (que não vieram); logo após eles se retiram da mesma forma que apareceram, alternando entre braços cruzados e braços para trás. Observo os jalecos desaparecendo ao longo do corredor, provavelmente estou evitando participar da tragédia que se instaurou na sala, nunca soube consolar e sei que ali nenhum abraço ou palavra seria suficiente. Todo mundo que chega repete variações de “Como é possível!? Ele era tão jovem”. Jovem é a palavra que mais escutarei até o funeral.


                                                         ***


O protocolo de morte cerebral é demorado e desgastante, sempre imaginei que fosse um simples desligar de botões. Um tio negacionista, ao presenciar a respiração artificial, acha que pode fazê-lo despertar dos mortos aos gritos de passagens bíblicas. A assistente social tenta negociar o máximo de órgãos para doação. A psicóloga oferece mais água do que conforto. 


                                                          ***

O séquito segue sob uma inesperada chuva torrencial rumo ao crematório, um clichê meteorológico que jamais ousaria utilizar em meus roteiros. Todos acompanham. Eu permaneço.

 

 

segunda-feira, 27 de julho de 2026

TODOS OS MEUS MORTOS

     Quando minha irmã telefonou já era noite; havíamos acabado de jantar e eu estava lavando os pratos:
      “Mamãe morreu!”, como se fosse a informação mais trivial possível, apenas respondi com um frio e convencional “ok”, enquanto continuava a enxaguar a louça, e desliguei. Na verdade aquela notícia era ansiada e recebê-la fora um alívio, confesso. Durante algum tempo, acreditei que era egoísmo da minha parte, que eu estava somente pensando na minha quietude e não no sofrimento dela. Em posteriores conversas com pessoas que vivenciaram experiências semelhantes, descobri que aquele era um sentimento absolutamente comum, mas pouco externado, uma espécie de silêncio comunitário. 


                                                                              ***

       Depois que enterrei minha mãe muitos pais de amigos também passaram a ser enterrados. E amigos dos meus pais e pais de vizinhos e conhecidos. Sempre que eu informava a morte de alguém, era retribuído com a notícia de uma outra morte. Ciclo natural diriam alguns; coincidência diriam outros. Um algorítimo macabro sacaneando, diria eu.

 

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

“A PURIFICAÇÃO NA CALADA DA NOITE PRETA”

 

Resolvi reassistir à novela  VAMP, do remoto ano de 1991 (época em que eu havia recém-adentrado na adolescência e o mundo parecia ser um lugar menos hostil). Quem sabe eu só quisesse sentir o sabor da sopa da minha mãe novamente, o pão da padaria de Seu Vadu; ouvir a urgência dos amigos que me chamavam para escarafunchar as ruas do bairro em busca de diversão. A vida como se não houvesse amanhã, mesmo que o amanhã me reservasse prova de geografia no Polivalente. No entanto, algo passou a me incomodar já nos primeiros minutos. Poderia dizer que era a ausência de atores pretos no elenco (ironicamente a personagem mais “escurinha” se chama Branca) ou que após o “estamos apresentando” aguardei pelos intervalos comercias que não vieram, apenas um imediato “voltamos a apresentar”. Mas não era nada disso. Apesar do apelo da trilha sonora essa viagem nostálgica rumo ao início dos anos 90 na Baía dos Anjos, digo, Santo Amaro da Purificação não se concretizou e acabei desembarcando durante o terceiro capítulo. Talvez porque não existisse mais a sopa com pão na hora do jantar, meus velhos e saudosos amigos, a minha mãe.

domingo, 27 de abril de 2025

TODOS OS MEUS MORTOS

Reencontrei, embora nem mesmo lembrasse que existia, uma caixa com antigos retratos, cartas, cartões, k7s, bilhetes, canhotos, recortes, embalagens e promessas. “Hoje eu joguei tanta coisa fora”, mas resta sempre algo no caminho. O meu passado não passa por mim, senta do meu lado, faz companhia, abre portais para realidades paralelas em que me vejo, mas não me reconheço. A casa não existe mais, são ruínas ou novas construções em que demoro a identificar o local, se era ali mesmo ou um pouco mais adiante, nunca tenho certeza. Um jovem casal de namorados atravessa a noite da cidade, conversam sobre canções e protelam o futuro (“as ruas desse lugar conhecem bem”). Sessões de velhos filmes italianos em algum cinema do centro resistirá ao clichê daquela tarde chuvosa. Suspiro sem sentimentalismos, enquanto guardo a caixa em algum canto do armário de sapatos, talvez eu a reencontre em algumas décadas e surpreso, pense: nem lembrava mais que ela existia. 



Poderia ser uma playlist, mas são apenas referências esparsas 

Tendo a Lua (Herbert Vianna/ Tetê Tillet)
Dublê de Corpo (Leoni/ Lulu Martin)
Minha Casa (Zeca Baleiro)
As Noites (Samuel Rosa/ Chico Amaral)
Mundo Perfeito (Nei Van Soria)
Aniversário (Roberto Mendes/Ana Basbaum)

quinta-feira, 3 de abril de 2025

UMA PLAYLIST PARA O MEU FUNERAL

Sempre escutei, em tom de anedota, que um sinal de que estamos ficando velhos é ir a funerais com frequência – como se fosse necessário sepultar amigos e familiares para confirmar isso. Uma vez que, obviamente, tenho envelhecido, o cemitério passou a ser um local que visito bem mais do que eu imaginava que seria depois dos quarenta, essa república federativa cheia de árvores e gente dizendo adeus não dá uma trégua. Nas cerimônias de cremação o uso de música faz parte do protocolo, talvez para expressar a personalidade do falecido, uma mera homenagem ou simplesmente para tornar o ambiente e o ritual menos desagradáveis. Não é nem um pouco difícil me imaginar deitado num caixão que vai descendo lentamente até desaparecer dos olhos lacrimosos da audiência. Uma canção que costuma apresentar-se nesse instante é “Naquela Mesa” na voz inadjetivável de Nelson Gonçalves. A canção de Sérgio Bittencourt, composta para seu pai Jacob do Bandolim, é deveras comovente. A imagem de um senhor alegre e contador de histórias é quase palpável. Mas aquele cara na mesa não sou eu. Gosto bastante de música para permitir que em um momento de apreensão o responsável pelos procedimentos do meu funeral responda para o funcionário do crematório: “pode colocar qualquer música”. Espero dar o mínimo de trabalho possível quando eu morrer, deixar tudo pago e até a playlist que vai tocar no modo aleatório durante minha cremação. 


sexta-feira, 28 de março de 2025

NAVIO MERCANTE

Há muito escritor ruim sendo publicado. Até aí nenhuma novidade, sempre foi assim. A diferença é que agora eles sabem se vender. Não adianta apenas ser escritor, é preciso dizer, principalmente para aqueles possíveis compradores do seu livro, acumulados numericamente na aba de seguidores, que você é um escritor – como produtos na prateleira do supermercado que não são o que aparentam ser. Não quero dar a entender que envelheci mal, na verdade sou até entusiasta de mídias sociais, só não me peçam para alimentar com migalhas de dopamina quem ousar acompanhar minha rotina em reels e stories opinando sobre a polêmica do momento ou humor com trends banais ou check-in de todo local que piso. Não, não me peçam isso; logo eu que não passo de um escritor ruim que não sabe se vender além de reclamar em uma rede social que ninguém acessa.

 

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

"NADA DO QUE FOI SERÁ"

 

FAZ DE CONTA é uma parceria minha com Roberto Mendes gravada por Raimundo Fagner em seu disco DONOS DO BRASIL, escolhida para ser o tema de Sandoval Peixoto, interpretado por Herson Capri, na novela COMO UMA ONDA de Walther Negrão – que tentava repetir o sucesso alcançado na década anterior com TROPICALIENTE, mas sem o mesmo encanto. A melancolia da canção dialogava diretamente com a solidão do personagem, parecia ser feita por encomenda. No entanto, Sandoval, que deveria ser o protagonista do núcleo praiano e par romântico de Maria Fernanda Cândido, dá o ar da graça rapidamente apenas no sexto capítulo, mantendo um certo clima de mistério, momento que a música toca pela primeira vez. Quando ele realmente adentra a trama, o público já estava seduzido pela química que ela tinha ao lado do líder dos pescadores vivido por Kadu Moliterno (que inicialmente morreria em um acidente de barco, mas com as bênçãos de Nossa Senhora da Obra Aberta acabou sobrevivendo e relegando nosso herói a mero coadjuvante, mesmo com seu nome encabeçando os créditos na abertura). Consequentemente, a música tocou menos do que o esperado na novela, embora tenha sido bem executada nas rádios – ainda hoje há quem me ligue apenas para dizer que escutou a minha música na Nova Brasil. COMO UMA ONDA estreou durante o horário de verão de 2004, quando a programação televisiva seguia o horário de Brasília, assim o folhetim era exibido às 16:50h em muitos estados, inclusive na Bahia. Na época, consegui assistir a poucos capítulos, mas valeu a experiência. Para quem tiver curiosidade, encontra-se disponível na GloboPlay.

 


 

sexta-feira, 6 de setembro de 2024

A ARTE DO SILÊNCIO


Acho engraçados alguns títulos de filmes como “O Silêncio dos Inocentes”, “Os Gritos do Silêncio” ou a trilogia do silêncio de Bergman. Há também uma vastidão de títulos de livros, poemas e canções que abusam do silêncio. O silêncio é realmente uma arte, escutar também deveria ser, mas ninguém quer ouvir, só quer falar. Sempre falei o que vinha à cabeça, destituído de filtro ou freio. Não faço o tipo falastrão, na verdade sou bastante econômico, embora incisivo. Considerava-me o “supersincero” até perceber (a não muito tempo) que eu não passava do super inconveniente. Demorei para aprender a me calar, a entender que nem tudo necessita de uma réplica e que algumas perguntas são mais bonitas sem resposta. Às vezes ainda me vejo em saias justas que eu mesmo criei. Quando dou por mim as palavras já estão saindo, me arrependo imediatamente enquanto falo, mas é impossível trazê-las de volta, editar o que foi falado, interromper a rota da bala após o tiro. Preciso somente conviver com as consequências e não remoer durante semanas o que não deveria ter dito. Atualmente o inconveniente são os outros: todo mundo tem algo a dizer, todos conhecem tudo o que está sendo feito, já foi e será. O problema é escutar despropósitos sem contestar. Silenciar é uma arte complexa pra caralho.

segunda-feira, 13 de maio de 2024

QUERO SER PAULO CESAR PEREIO

Não acreditei quando ele falou que atravessando o túnel eu entraria na mente de John Malkovich. Ele insistiu para que eu fosse, argumentou que a experiência era incrível, que na noite passada ele tinha vivido o que não vivera a vida inteira, que eu não iria me arrepender, que eu passaria a ver o mundo diferentemente, que eu encontraria minha essência (ou algo assim). Com o saco cheio de tanta persistência inútil, disse-lhe, segurando seu colarinho agressivamente:

    — Não quero ser John Malkovich! Quero ser Peréio, porra!




REPUBLICAÇÃO IN MEMORIAM
Publicado originalmente em 07/04/2014

sexta-feira, 3 de maio de 2024

POETA DO INTERIOR

 

Retornando, aos poucos, a frequentar eventos sociais, percebi que as pessoas vinculam o meu nome imediatamente a Santo Amaro, o que é bastante lisonjeiro, e à poesia (o que não é tão lisonjeiro assim), gênero no qual estreei, mas logo deixei de lado para me dedicar a produzir uma prosa urbana. Apenas há pouco tempo, me dei conta que em breve (se não houver nenhum plot twist) terei existido mais tempo na capital do que no interior – algo assustador, já que abandonei meu torrão natal a fórceps. Em um lançamento literário recente, fui saudado na entrada como “poeta do interior”, me causando inevitável embaraço. Às vezes acho que me imaginam usando chapéu de couro e recitando cordel sob um sol inclemente em alguma feira do sertão. Recordo que em 2015 precisei catalogar a biografia de alguns autores baianos para um projeto. Inesperadamente um deles se recusou a informar a cidade de nascimento, alegou que não queria que a sua carreira fosse reduzida ao epíteto de “escritor do interior”. Na época, achei uma grande bobagem, mas acatei. Sua biografia fora a única que não constou o local de nascença. De quando em vez, penso que o escritor de Ribeira do Pombal (ops) tinha razão.

sexta-feira, 19 de abril de 2024

NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO XXI

Violonista da extinta banda Dialética, expoente da cena rocker do Recôncavo Baiano, o músico santamarense Dum Lima se arrisca em seu primeiro trabalho solo e totalmente autoral. Se em seu antigo grupo ele produzia arranjos repletos de camadas que flertava com uma espécie de rock progressivo à brasileira; agora ele trilha um caminho minimalista, onde “menos é mais” é a ordem da vez. Nas onze faixas do álbum, encontramos texturas sonoras, climas que nos remetem ao Clube da Esquina e ao indie dos anos 2000. Dum Lima parece buscar sempre as melhores soluções harmônicas: é pop sem ser superficial e é sofisticado sem ser hermético. Seu canto é doce, suavemente baixo, nos convida a prestar atenção. Amparado por Chuck Silva, o disco abre com “Mentiras”, uma das pequenas faixas, quase vinhetas, “tudo muda, tudo passa”, daquelas inverdades que teimamos em acreditar. Mas o tom a partir daí não é de irrealidade, é de saudade – que não por acaso é o título da última canção (que poderia, também, ser a faixa de abertura). A próxima é “Por um Triz”, uma resignação, um deixar ir, “ela vem e sai/ ela não quer mais falar”, antecedendo o sabor mais leve de despedida da faixa que batiza o álbum. “Todo Adeus” deseja um fim de dia que não existe mais, espalhando a saudade em toda parte. Em “Devendra” os sintetizadores nos chama para dançar ou apenas bater um pouco os pés ou balançar a cabeça sem sair do lugar, talvez a saudade não seja tão triste assim. “Mãe” nos coloca de volta na rota da reflexão, com versos do poeta Ediney Santana, “que o inverno dos meus dias/ o abraço seja um sol”, é um acalanto às avessas, como se agora acariciássemos os cabelos brancos de uma velha senhora que adormece silenciosamente em nosso colo. “Fim de Tarde” traz uma lembrança serena, uma polaroide que insiste em não desbotar, é um tema que se repete, a saudade na floresta azul é o entardecer. “Há um rastro de chumbo em seus olhos quando desiste”, a tragédia da contaminação por cádmio e chumbo que acometeu a cidade de Santo Amaro da Purificação serve de metáfora para a partida em “Dos Rastros”, que tem versos do conterrâneo Herculano Neto. “Ana Louise” vem com a clarineta de Wylton Barbosa, um violão marcando um samba intimista no terreiro e finaliza refereciando a poesia marginal setentista. Já “Ada” é a casa vazia, é o tropeçar em brinquedos, é saudade, mas uma saudade azul. Como diria Tavito em “Rua Ramalhete”: “sem querer fui lembrar”, citada em “Metal”, a penúltima faixa, sobre um amigo que foi embora cedo demais. Assim é a saudade, nos apanha inesperadamente, por acidente, quando menos esperamos. Impregnado de nostalgia e melancolia, Dum Lima e a Floresta Azul está disponível nas principais plataformas digitais e futuramente em mídia física.

 


sexta-feira, 5 de abril de 2024

TODOS OS MEUS MORTOS

Minha mãe só possui uma foto da infância: numa praia com duas primas que não conheci, provavelmente em 1960 ou 1961. Um retrato pequeno, com as bordas arrendondadas, que ela sempre guardou com extremo cuidado (estranho imaginar que meu filho com cinco anos deva ter cerca de dez mil fotografias e dificilmente dará valor a alguma no futuro). O apego de minha mãe me faz pensar em Antonia, a protagonista da excelente graphic novel Regresso ao Éden, do espanhol Paco Roca, que também preserva com carinho uma fotografia de família – que será o mote para o autor nos apresentar um painel da Espanha no pós-guerra sob os rigores da ditadura franquista. Pouco antes da pandemia ela me pediu para tentar restaurar o retrato, a paisagem ao fundo já havia desaparecido e as crianças em primeiro plano quase não existiam mais, agora o bucolismo da imagem não passava de um borrão sépia. Impossível de recuperar. Assim como na foto da praia, a memória da minha mãe também tá se apagando. Coisas simples estão deixando de fazer sentido, informações recentes se esvaem instantaneamente, levadas pelo acaso. Em minutos uma mesma pergunta se repete – é admirável e melancólico o esforço dela fingindo que se lembra, que sabe sobre o que estamos conversando. Curiosamente, ela se recorda com detalhes da fotografia, o que estavam fazendo naquela manhã, o paletó muito folgado do fotógrafo, o cheiro adocicado de uma tia-avó, o sabor das frutas que carregaram numa cesta, a areia que perdurou em sua sapatilha durante semanas, o vento frio que entrava pela janela do automóvel no retorno. A foto, como aquele momento, hoje só existe em sua memória. 

 

sexta-feira, 1 de março de 2024

WALTER MATTHAU NÃO GOSTA DE POESIA

  

Envelheci. E aqui não pretendo elucubrar sobre como envelhecer é um processo natural extraordinário, quase divino; ou como é terrivelmente desagradável, um saco. Não. O envelhecimento chegou bem acompanhado com o amadurecimento (embora eu acredite que isso seja inevitável alguns coroas insistem em me contradizer propagando bobagens por aí). No entanto, não consigo perceber na minha escrita tal amadurecimento, tudo que escrevo parece se repetir e remeter para um eu que não existe mais, um eu que fez um aceno de despedida em alguma esquina da década passada. Meus parceiros musicais me enviam canções e devolvo com letras que não me contentam, não são as palavras que quem eu sou queria dizer, são as palavras que quem eu era insiste em gritar. Meus versos ainda lembram desabafos adolescentes, sou quase um Billie Eilish do Imbuí. Alguns colegas sofrem da mesma enfermidade, leio suas publicações como fastidiosas sequências de um mesmo livro que os segundos cadernos no domingo rotularão como “estilo” ao lado de uma fotografia low profile meio pós-punk oitentista. Não quero um carimbo de estilo. Quero que alguém me leia e diga algo como “nem se assemelha com o cara que escreveu xxx”. Independentemente do contexto ou intenção eu diria: ainda bem.

 

domingo, 24 de dezembro de 2023

“FELIZ NATAL, SEU ANIMAL IMUNDO! E UM FELIZ ANO NOVO!”

  

Não estou aqui para te chamar de porco capitalista (acho que deixei meu espírito punk em alguma gaveta da memória) nem para fazer promessas que não cumprirei – mentiras sinceras não me interessam. Não me tornei mais altruísta e menos mesquinho nas últimas semanas, não fiz um balanço do que aconteceu no ano em minha vida, não pedi perdão pelo local de privilégio que ocupo na sociedade, não enviei uma mensagem de agradecimento no grupo da firma. Aqui estou sem contabilizar erros ou acertos. Entretanto, queria fazer um último pedido: gostaria de escrever sobre as mesmas coisas, do mesmo jeito, com o mesmo vocabulário, mesma embocadura, mesmos personagens. Algo que meus detratores denominarão como repetitivo e os meus admiradores chamarão de estilo. E se possível, também, gostaria de ser poupado da tarde/noite de lançamento, entrevistas de divulgação e postagem em rede social com centenas de “parabéns” na aba de comentários. Ah, e bloqueie quem postar “guarde o meu”.


Atenciosamente,

O Neto do Herculano

 

terça-feira, 14 de novembro de 2023

SOCIAL DISTANCIAMENTO FC

Compilar todo o material publicado digitalmente e lançar em livro físico é praticamente um clichê, dizem que inevitável como o Titã Louco. Um dia, ainda que postumamente, uma pessoa ou uma inteligência artificial, com a melhor das piores intenções, reuniria esses textos sem se preocupar se ficaram datados, se fazem sentido fora do contexto da época ou se necessitam de cansativas notas de rodapé com linques para o Wikipédia. Apenas me antecipei. Na verdade, minha única motivação foi somente receio do Google cancelar seu serviço de Blogger e eu ficar a ver navios, sem um backup pra chamar de meu (a página que você procurou não foi encontrada). No entanto, o que eu imaginava que seria um volume parrudo (afinal são mais de vinte anos de blogue) se resumiu a poucas páginas no arquivo do Word. Muitas postagens surfavam em temas da atualidade e acabaram envelhecendo mal pá caralho, desbotadas polaroids no fundo da gaveta. Outras tantas, apenas abordavam sem profundidade nenhuma discos, filmes e livros que eu tinha acabado de consumir em textos que nem eram resenhas críticas, simplesmente o entusiasmo de quem procurava alguém para conversar no momento e não encontrava – além de um monte de material de divulgação de eventos e aguardados lançamentos. No final houve bem mais descarte do que aproveitamento. E eu que estava preocupado com um constrangimento que não poderia ser editado ou excluído terei que esperar por mais duas décadas de blogue para ter conteúdo suficiente para gerar um livro com lombada, se ainda existirem livros com lombada.

 

quinta-feira, 19 de outubro de 2023

10 COISAS QUE EU ODEIO EM VOCÊS

Sempre escutei que não gosto de gente. Durante muito tempo acatei essa sentença como uma excêntrica característica, mais uma para o meu extenso catálogo de idiossincrasias. E de tanto repetirem, comecei a acreditar – era algo irrefutável. Mas agora, na maturidade, compreendo que seguramente eu não desgosto, na verdade até estimo algumas pessoas. O que eu não gosto são determinadas peculiaridades, uma listagem que eu poderia ter apresentado na juventude, numa planilha do Excel, para aquelas que pretendiam ter algum grau da minha amizade e que eu acabei refutando sem elas nunca saberem o motivo. Pretendia enumerá-las abaixo (misteriosamente ainda mantive o título na postagem), mas desisti. Suspeito que não seria satisfatória e eu acabaria frequentemente retornando aqui para editar. Então, se algum dia você me achou frio e distante, quase indiferente, não me leve a sério. Talvez tenha sido apenas efeito daquela característica que eu não aprecio em você.

quinta-feira, 14 de setembro de 2023

NO ALICERCE DA ALEGRIA

Nunca penso no próximo texto a ser postado. Para mim o mais recente sempre será o último.  Imagino que permanecerá como uma espécie de despedida, um testamento. Os curiosos visitarão o blogue atrás de alguma mensagem subliminar, um mistério a ser desvendado. Fatalmente, encontrarão sentidos ocultos e farão dessas palavras meu epitáfio on-line, o último suspiro antes da extrema-unção. O que será que ele quis dizer? Será que já estava doente? Que fazia ideia do que aconteceria quando atravessasse a Avenida Manoel Dias às 16h de segunda-feira? Que sabia do "calibre do perigo"? Que não acordaria daquele sonho recorrente? Analisarão a imagem e o título inúmeras vezes em busca de alguém escondido nas sombras, um acrônimo ou palíndromo que a falta de paciência arqueológica não conseguiu decifrar. E se este for realmente o último? Ficará para a posteridade como um bilhete suicida? Uma premonição? Algum amigo músico enxergará versos nessas linhas e criará uma melodia triste, um réquiem? Talvez dê tempo de tocar durante a cerimônia de cremação. 

 

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO XX

Os piores momentos da minha vida costumam ser reprisados incessantemente no streaming da memória. Acontecimentos há muito sepultados retornam como se nunca tivessem falecido, feito assombrações, como se tivessem ocorrido ontem. Consigo, inclusive, sentir a dor da queda. A cicatriz esquecida reabre ainda mais dolorosa, enquanto o sabor desagradável da derrota percorre minha boca. Os risos, os dedos apontados, os olhares de desaprovação e o escárnio estão todos no mesmo lugar: imóveis e imutáveis. Sei que tive meus instantes de glória, mas tudo parece desinteressante perto dos meus insucessos. No rádio do carro toca “Perdendo Dentes” do Pato Fu. Não poderia ser mais apropriado: As brigas que ganhei/ Nem um troféu/ Como lembrança/ Pra casa eu levei/ As brigas que perdi/ Estas sim/ Eu nunca esqueci. 

 


sexta-feira, 4 de agosto de 2023

"A NOITE MAIS LINDA DO MUNDO"

Eu era feliz e sabia. A vida até parecia congelar, como em algum filme de Martin Scorsese, para ver minha alegria passar pela avenida como um samba popular, com direito à narração em off e trilha sonora. Não pretendo definir felicidade, nem sei se acredito realmente nela. Mas não era difícil perceber que os melhores dias da minha parca existência estavam acontecendo naquele momento, era impossível melhorar. Tudo que viesse depois seria ruínas, um spoiler engatilhado e apontado para minha cabeça. E eu aproveitei. Aproveitei como se realmente o mundo fosse acabar amanhã – ainda que fosse apenas o meu reles e insignificante mundo. Eu era feliz e sabia.


*Título extraído da canção homônima gravada por Odair José em 1974

terça-feira, 18 de julho de 2023

TODOS OS MEUS MORTOS

Bóris costumava repetir que seria o último da galera a morrer. Gracejava dizendo que beberia nossos defuntos, que contaria as nossas mais vergonhosas aventuras no velório a cada lasquinê e que estaria sempre presente nos nossos túmulos (lendo algum poema ou maldizendo as novidades da estação enquanto envelhecia sem pressa). Como ficou fácil imaginar, Bóris não foi o derradeiro a morrer, também não foi o primeiro. Bóris viveu até à última ponta as dores e as delícias de ser o que era, o que sempre foi. Na reta final, já debilitado e envolto em arrependimentos, não abandonava sua verve crítica, sua mordacidade e passadismo declarado. Além disso, não abria mão de uma polêmica: adorava derrubar os argumentos alheios como um castelo de cartas ao vento. Era sua diversão. Nunca escondi que sair de Santo Amaro foi angustiante, muitos conterrâneos, por necessidade, tiveram que fazer o mesmo. No entanto, somente agora, compreendo que foi muito mais angustiante para quem decidiu permanecer, quem teve que enfrentar, dia após dia, todos os vazios da cidade. Curiosamente, os amigos que faleceram não partiram; talvez tenham cansado de ficar. 

***

Tenho um livro de contos inéditos na gaveta dedicado aos amigos que foram embora cedo demais. Infelizmente, amiúde, edito o arquivo para incluir um novo nome na dedicatória. Ainda não tive coragem de incluir o nome de Bóris nessa lápide.


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