Resolvi reassistir à novela VAMP, do remoto ano de 1991 (época em que eu havia recém-adentrado na adolescência e o mundo parecia ser um lugar menos hostil). Quem sabe eu só quisesse sentir o sabor da sopa da minha mãe novamente, o pão da padaria de Seu Vadu; ouvir a urgência dos amigos que me chamavam para escarafunchar as ruas do bairro em busca de diversão. A vida como se não houvesse amanhã, mesmo que o amanhã me reservasse prova de geografia no Polivalente. No entanto, algo passou a me incomodar já nos primeiros minutos. Poderia dizer que era a ausência de atores pretos no elenco (ironicamente a personagem mais “escurinha” se chama Branca) ou que após o “estamos apresentando” aguardei pelos intervalos comercias que não vieram, apenas um imediato “voltamos a apresentar”. Mas não era nada disso. Apesar do apelo da trilha sonora essa viagem nostálgica rumo ao início dos anos 90 na Baía dos Anjos, digo, Santo Amaro da Purificação não se concretizou e acabei desembarcando durante o terceiro capítulo. Talvez porque não existisse mais a sopa com pão na hora do jantar, meus velhos e saudosos amigos, a minha mãe.
sexta-feira, 31 de outubro de 2025
sexta-feira, 3 de maio de 2024
POETA DO INTERIOR
Retornando, aos poucos, a frequentar eventos sociais, percebi que as pessoas vinculam o meu nome imediatamente a Santo Amaro, o que é bastante lisonjeiro, e à poesia (o que não é tão lisonjeiro assim), gênero no qual estreei, mas logo deixei de lado para me dedicar a produzir uma prosa urbana. Apenas há pouco tempo, me dei conta que em breve (se não houver nenhum plot twist) terei existido mais tempo na capital do que no interior – algo assustador, já que abandonei meu torrão natal a fórceps. Em um lançamento literário recente, fui saudado na entrada como “poeta do interior”, me causando inevitável embaraço. Às vezes acho que me imaginam usando chapéu de couro e recitando cordel sob um sol inclemente em alguma feira do sertão. Recordo que em 2015 precisei catalogar a biografia de alguns autores baianos para um projeto. Inesperadamente um deles se recusou a informar a cidade de nascimento, alegou que não queria que a sua carreira fosse reduzida ao epíteto de “escritor do interior”. Na época, achei uma grande bobagem, mas acatei. Sua biografia fora a única que não constou o local de nascença. De quando em vez, penso que o escritor de Ribeira do Pombal (ops) tinha razão.
sexta-feira, 19 de abril de 2024
NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO XXI
Violonista da extinta banda Dialética, expoente da cena rocker do Recôncavo Baiano, o músico santamarense Dum Lima se arrisca em seu primeiro trabalho solo e totalmente autoral. Se em seu antigo grupo ele produzia arranjos repletos de camadas que flertava com uma espécie de rock progressivo à brasileira; agora ele trilha um caminho minimalista, onde “menos é mais” é a ordem da vez. Nas onze faixas do álbum, encontramos texturas sonoras, climas que nos remetem ao Clube da Esquina e ao indie dos anos 2000. Dum Lima parece buscar sempre as melhores soluções harmônicas: é pop sem ser superficial e é sofisticado sem ser hermético. Seu canto é doce, suavemente baixo, nos convida a prestar atenção. Amparado por Chuck Silva, o disco abre com “Mentiras”, uma das pequenas faixas, quase vinhetas, “tudo muda, tudo passa”, daquelas inverdades que teimamos em acreditar. Mas o tom a partir daí não é de irrealidade, é de saudade – que não por acaso é o título da última canção (que poderia, também, ser a faixa de abertura). A próxima é “Por um Triz”, uma resignação, um deixar ir, “ela vem e sai/ ela não quer mais falar”, antecedendo o sabor mais leve de despedida da faixa que batiza o álbum. “Todo Adeus” deseja um fim de dia que não existe mais, espalhando a saudade em toda parte. Em “Devendra” os sintetizadores nos chama para dançar ou apenas bater um pouco os pés ou balançar a cabeça sem sair do lugar, talvez a saudade não seja tão triste assim. “Mãe” nos coloca de volta na rota da reflexão, com versos do poeta Ediney Santana, “que o inverno dos meus dias/ o abraço seja um sol”, é um acalanto às avessas, como se agora acariciássemos os cabelos brancos de uma velha senhora que adormece silenciosamente em nosso colo. “Fim de Tarde” traz uma lembrança serena, uma polaroide que insiste em não desbotar, é um tema que se repete, a saudade na floresta azul é o entardecer. “Há um rastro de chumbo em seus olhos quando desiste”, a tragédia da contaminação por cádmio e chumbo que acometeu a cidade de Santo Amaro da Purificação serve de metáfora para a partida em “Dos Rastros”, que tem versos do conterrâneo Herculano Neto. “Ana Louise” vem com a clarineta de Wylton Barbosa, um violão marcando um samba intimista no terreiro e finaliza refereciando a poesia marginal setentista. Já “Ada” é a casa vazia, é o tropeçar em brinquedos, é saudade, mas uma saudade azul. Como diria Tavito em “Rua Ramalhete”: “sem querer fui lembrar”, citada em “Metal”, a penúltima faixa, sobre um amigo que foi embora cedo demais. Assim é a saudade, nos apanha inesperadamente, por acidente, quando menos esperamos. Impregnado de nostalgia e melancolia, Dum Lima e a Floresta Azul está disponível nas principais plataformas digitais e futuramente em mídia física.
terça-feira, 18 de julho de 2023
TODOS OS MEUS MORTOS VI
Bóris costumava repetir que seria o último da galera a morrer. Gracejava dizendo que beberia nossos defuntos, que contaria as nossas mais vergonhosas aventuras no velório a cada lasquinê e que estaria sempre presente nos nossos túmulos (lendo algum poema ou maldizendo as novidades da estação enquanto envelhecia sem pressa). Como ficou fácil imaginar, Bóris não foi o derradeiro a morrer, também não foi o primeiro. Bóris viveu até à última ponta as dores e as delícias de ser o que era, o que sempre foi. Na reta final, já debilitado e envolto em arrependimentos, não abandonava sua verve crítica, sua mordacidade e passadismo declarado. Além disso, não abria mão de uma polêmica: adorava derrubar os argumentos alheios como um castelo de cartas ao vento. Era sua diversão. Nunca escondi que sair de Santo Amaro foi angustiante, muitos conterrâneos, por necessidade, tiveram que fazer o mesmo. No entanto, somente agora, compreendo que foi muito mais angustiante para quem decidiu permanecer, quem teve que enfrentar, dia após dia, todos os vazios da cidade. Curiosamente, os amigos que faleceram não partiram; talvez tenham cansado de ficar.
***
Tenho um livro de contos inéditos na gaveta dedicado aos amigos que foram embora cedo demais. Infelizmente, amiúde, edito o arquivo para incluir um novo nome na dedicatória. Ainda não tive coragem de incluir o nome de Bóris nessa lápide.
segunda-feira, 10 de julho de 2023
A CONFRARIA DOS ZÉ BUCETA
Do antigo Complexo Escolar Polivalente de Santo Amaro ao Centro Educacional Teodoro Sampaio, sempre pertenci à turma dos nerds (muito antes do nerd ser considerado um cara legal), quando éramos apenas amigos condenados a brilhar academicamente e a falhar socialmente. No entanto, para os rapazes mais velhos e as garotas mais descoladas, não passávamos de donzelos devoradores de livros, “um bando de Zé Buceta”, como eles costumavam nos intitular. Na cultura pop Zé Buceta poderia ser invariável como Pokémon ou Jedi, o singular soa muito mais forte. Poderia ser, inclusive, o nome de uma equipe de indivíduos super aprimorados publicada pela Jacuype Comics, defensores da biblioteca analógica e das vítimas de bullying no corredor. Em algum universo paralelo o Zé Buceta deve ser um indivíduo cobiçável, fascinante; repleto de mistérios, e não um pária, alguém a ser evitado. É possível que numa revisão histórica cuidadosa a expressão seja considerada machista, misógina, motivo suficiente para um cancelamento no Twitter. Só sei que os Zé Buceta do Polivante e do Teodoro se espalharam pelo mundo (“cada um fez sua vida de forma diferente”¹), com frequência, relembramos alguma anedota do passado nos grupos de WhatsApp e rimos com emojis e stikers inusitados (“às vezes me pergunto: malditos ou inocentes?”).
¹“Meus Bons Amigos” (Fernando Magalhães / Guto Goffi / Maurício Barros), canção do Barão Vermelho lançada em 1994
quinta-feira, 11 de agosto de 2022
ENTRE A RUA DIREITA E A ESTRADA DOS CARROS II
Boa parte dos logradores da minha terra natal, Santo Amaro da Purificação, enaltece a memória dos seus barões e viscondes escravocratas – alusão a uma época em que a cidade era uma grande produtora de cana-de-açúcar (“gosto muito raro trago em mim por ti”). Entendo que essa tendência de revisão histórica, com a derrubada de símbolos e estátuas, não mudará tudo o que aconteceu, mas em um lugar essencialmente preto, com todos os riscos que corre essa gente morena, é no mínimo afrontoso ainda reverenciar essa caduca nobreza. Poucos anos antes da inevitável, e tardia, abolição da escravatura no país, fora criada a LIGA DA LAVOURA E DO COMÉRCIO DE SANTO AMARO, sociedade formada pelos senhores de engenho da região (nomes hoje conhecidos apenas por títulos de rua como Barão de Sergy, Ferreira Bandeira, Barão de Vila Viçosa, entre outros) que confrontava e questionava a libertação dos escravizados e enxergava a abolição como uma “ameaça”, conforme publicado no “Diário da Bahia” em julho de 1884. Acredito que o ideal seria um corajoso e necessário projeto de lei da Câmara Municipal para renomear todos esses locais, quem sabe até uma enquete popular para decidir as novas denominações. E se não fosse possível alterar, talvez por atávico conservadorismo, minha sugestão seria legendar as placas existentes como no exemplo abaixo:
Avenida Barão do Massapê
Fazendeiro, político e escravocrata
terça-feira, 8 de março de 2022
NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO XIII
Porque sou o meu próprio Mariozinho Rocha
(Publicado originalmente em agosto de 2010)
terça-feira, 25 de janeiro de 2022
TODOS OS MEUS MORTOS: SOCIAL DISTANCIAMENTO XII
Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda
(Outubro, 2021)
Caetano Veloso costuma dizer que não queria ter saído de Santo Amaro, é natural duvidar dele. Para quem é obrigado, pelas circunstâncias, a sair do interior sabe que essa frase é impregnada de verdades. Do mesmo modo eu não queria ter saído, mas todas as minhas tentativas de ficar deram n’água. História semelhante se repetiu com meus amigos, praticamente todos partiram também. Há os que conseguiram permanecer (ou não conseguiram sair). Acredito que ficar seja mais doloroso do que ir embora, caminhar pelas ruas em que morávamos, lugares em que nos encontrávamos, e saber que não estaremos ali, apenas lembranças como fantasmas tentando nos assombrar, não deve ser fácil. Minhas escolhas acabaram me levando para longe da cidade, gosto de imaginar que em uma realidade alternativa, onde fiz outras escolhas na vida, eu ainda more lá.
(Novembro, 2021)
Grupos de aplicativos de conversas não aproximam ninguém, neles eu sinto meus conhecidos cada vez mais estranhos, cada vez mais distantes. Quase todas as minhas amizades pertencem à minha infância/juventude, poucas pessoas, muito poucas realmente, conseguiram furar essa bolha. Algumas, inclusive, já começaram a morrer. Temo ter entrado em uma fase da existência que seja comum ir a funerais, uma fase feita mais de despedidas do que reencontros.
sexta-feira, 7 de maio de 2021
NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO II
Porque sou o meu próprio Mariozinho Rocha
Sem a grife de um Caetano Veloso, Gilberto Gil ou Chico Buarque, o santo-amarense Roberto Mendes é um dos compositores mais gravados por sua conterrânea Maria Bethânia. Presente em sua discografia desde a gravação de “Filosofia Pura” (no disco Ciclo, 1983) com raras ausências desde então.
Seleção na playlist “Maria Bethânia Canta Roberto Mendes” no Spotify.
quarta-feira, 3 de agosto de 2016
IT WAS REALLY NOTHING
quinta-feira, 7 de julho de 2016
SOB PRESCRIÇÃO: 10 Anos
quarta-feira, 22 de junho de 2016
ONDE MORA A MINHA SAUDADE II
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
Pb
nos seus olhos
quando chora
quando tenta
quando espera
quando desiste
há um rastro de chumbo
nas suas ruas
quando celebra
quando perpetua
quando omite
quando enguiça
há um rastro de chumbo
em sua gente
quando dá de ombros
quando compactua
quando ignora
quando silencia
há um rastro de sangue na sua história
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
terça-feira, 13 de agosto de 2013
“QUERO QUE VOCÊ ME AQUEÇA NESSE INVERNO”
Quero reencontrar minha família no quadro dos desaparecidos.
Quero uma escola com o meu nome, uma praça de Santo Amaro ou o aeroporto de Salvador.
Quero rechaçar uma biografia não autorizada, virar notícia após um acidente de carro.
Quero faltar à sessão de lançamento das minhas obras completas.
Quero uma casa no campo, uma casinha na varanda, uma casinha de sapê.
sexta-feira, 19 de julho de 2013
TONY MARO
| "Pensando como é difícil seguir seu caminho e partir" |
TONY MARO (download)
quarta-feira, 17 de abril de 2013
PODERIAM SER CRÔNICAS
terça-feira, 9 de outubro de 2012
OS OLHOS DA RUA
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| "É esse o futuro que você quer para os seus filhos?", na entrada de Nova Conquista, em Santo Amaro da Purificação (BA) |
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| Garoto solitário no campo de Nova Conquista, Santo Amaro da Purificação (BA) |
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| Coisas que só vejo em minha cidade, Santo Amaro da Purificação (BA) |
terça-feira, 7 de agosto de 2012
EMANUEL
Acima, a ótima versão da banda de indie rock inglesa MAGIC NUMBERS para o clássico "You Don’t Know Me",
faixa do disco "A Tribute to Caetano"
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
OS OLHOS DA RUA
(manhã de 29 de julho de 2012)
Não, não são doces ou travessuras, trata-se de uma manifestação cultural de Acupe, distrito de Santo Amaro, que celebra a Independência da Bahia. Com fantasias artesanais assustam e divertem durante os domingos de julho.
Não confunda com nenhuma contracapa de disco de rock nem revival de Thriller, na cena, aparentemente programada, apenas o amigo santoamarense Dinho Fagundes, sem se dar conta da aproximação das Caretas de Acupe.


















