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sexta-feira, 5 de abril de 2024

TODOS OS MEUS MORTOS

Minha mãe só possui uma foto da infância: numa praia com duas primas que não conheci, provavelmente em 1960 ou 1961. Um retrato pequeno, com as bordas arrendondadas, que ela sempre guardou com extremo cuidado (estranho imaginar que meu filho com cinco anos deva ter cerca de dez mil fotografias e dificilmente dará valor a alguma no futuro). O apego de minha mãe me faz pensar em Antonia, a protagonista da excelente graphic novel Regresso ao Éden, do espanhol Paco Roca, que também preserva com carinho uma fotografia de família – que será o mote para o autor nos apresentar um painel da Espanha no pós-guerra sob os rigores da ditadura franquista. Pouco antes da pandemia ela me pediu para tentar restaurar o retrato, a paisagem ao fundo já havia desaparecido e as crianças em primeiro plano quase não existiam mais, agora o bucolismo da imagem não passava de um borrão sépia. Impossível de recuperar. Assim como na foto da praia, a memória da minha mãe também tá se apagando. Coisas simples estão deixando de fazer sentido, informações recentes se esvaem instantaneamente, levadas pelo acaso. Em minutos uma mesma pergunta se repete – é admirável e melancólico o esforço dela fingindo que se lembra, que sabe sobre o que estamos conversando. Curiosamente, ela se recorda com detalhes da fotografia, o que estavam fazendo naquela manhã, o paletó muito folgado do fotógrafo, o cheiro adocicado de uma tia-avó, o sabor das frutas que carregaram numa cesta, a areia que perdurou em sua sapatilha durante semanas, o vento frio que entrava pela janela do automóvel no retorno. A foto, como aquele momento, hoje só existe em sua memória. 

 

terça-feira, 9 de outubro de 2012

OS OLHOS DA RUA

"É esse o futuro que você quer para os seus filhos?", na entrada de Nova Conquista, em Santo Amaro da Purificação (BA)
Garoto solitário no campo de Nova Conquista, Santo Amaro da Purificação (BA)
Coisas que só vejo em minha cidade, Santo Amaro da Purificação (BA)

Todas as fotografias por Herculano Neto

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

OS OLHOS DA RUA

FOTOGRAFIAS Herculano Neto  
(julho 2012)
SOB O CÉU DE SANTO AMARO as ruínas da antiga siderúrgica Trzan
(manhã de 29 de julho de 2012)


CARETAS DE ACUPE
Não, não são doces ou travessuras, trata-se de uma manifestação cultural de Acupe, distrito de Santo Amaro, que celebra a Independência da Bahia. Com fantasias artesanais assustam e divertem durante os domingos de julho.


DINHO FAGUNDES E AS CARETAS DE ACUPE
Não confunda com nenhuma contracapa de disco de rock nem revival de Thriller, na cena, aparentemente programada, apenas o amigo santoamarense Dinho Fagundes, sem se dar conta da aproximação das Caretas de Acupe.

sábado, 31 de julho de 2010

ESPELHOS DE LUZ E SOMBRA

     Costumo dizer, aos meus amigos fotógrafos (profissionais, semi-profissionais ou de final de semana), que fotografar é fazer poesia sem papel e caneta. A francesa Irina Ionesco, uma das grandes damas da fotografia mundial, diz que a fotografia é “um elemento essencialmente poético”. Mas isso só descobri agora, após visitar sua exposição, ESPELHOS DE LUZ E SOMBRA, com trinta trabalhos assinados, analógicos e em p&b, feitos entre 1968 e 2006, sem nenhuma interferência digital, que está percorrendo o país.
      Irina Ionesco nasceu em 1935, em Paris. Ainda adolescente iniciou sua trajetória de mulher-espetáculo: encantadora de serpentes, alvo vivo de um arremessador de facas, dançarina acrobática e contorcionista. Chegou à fotografia depois que um acidente a impossibilitou de continuar dançando. Realizou sua primeira exposição como fotógrafa em 1970, desenvolvendo uma das obras mais singulares da arte contemporânea, presente em importantes galerias de todo o mundo, além de ilustrar ensaios de moda. Seu universo barroco, onírico, nos transporta para um ambiente teatral, cinematográfico, onde a idealização de uma mulher mítica é quase sempre o centro.
      Quando saí da exposição, e me deparei com o colorido cinza do centro da cidade, com sua gente cheia de pressa e medo, a vontade era que tudo fosse estático, insólito e em preto & branco; ao menos no meu caminho. Foi quando uma senhora, tentando abrir seu guarda-sol, se esbarrou em mim, e nem pediu desculpas.
JOCELYNE, 1974
EVA AUX ROSES, 1975
FEMME VOLANTE, 1988

terça-feira, 2 de março de 2010

O SEU RETRATO


o seu retrato
Herculano Neto

o seu retrato já não
me incomoda
o seu sorriso já não
me incomoda
o seu perfume já não
me incomoda
sua lembrança já não
me distrai


Escute o poema recitado
pelo autor no PALCO MP3.



quinta-feira, 28 de maio de 2009

“AQUI TUDO PARECE QUE É AINDA CONSTRUÇÃO E JÁ É RUÍNA”


O Palacete Aramaré era a residência dos Viscondes de Aramaré em Santo Amaro da Purificação (BA). Construído pelo italiano Rafael Pillar Baggi, aliado à família Gonçalves Martins pelo casamento com D. Ana Joaquina Martins Baggi, a quem o imóvel foi adquirido em 1859 por 50 contos de réis pelos irmãos Antonio da Costa Pinto e Manuel Lopes da Costa Pinto, futuros Conde de Sergimirim e Visconde de Aramaré, respectivamente, a fim de instalarem suas famílias quando da visita do Imperador Dom Pedro II à Santo Amaro. Em março de 1864 o então ainda Barão de Sergimirim, por ter sua esposa herdado, conforme a tradição, outro sobrado na cidade, vendeu sua parte por 25 contos de réis ao irmão Manuel. O palacete é exemplo do estilo neoclássico no Recôncavo, com um sabor da arquitetura italiana em suas arcadas, sua platibanda e seu terraço lateral.
Todas as lembranças que possuo já são do abandono. A imponência fantasmagórica nas noites na Rua do Imperador após as aulas na Filarmônica Filhos de Apolo.
Na última semana o que ainda restava do palacete tombou, melancolicamente, num dia triste e chuvoso. A evidente falta de interesse das autoridades marcou mais um gol.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

segunda-feira, 30 de junho de 2008

SANTO AMARO(BA) JUNHO DE 1983

"Eu já tomei mais de dez litros de licor
Pra vê se esqueço o sabor do teu amor
É são João, e eu aqui tão só..."
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