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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

SOL DE MAIO

gosto das minhas cicatrizes
de quem não me entende
de quem acha que me entende

gosto do meu passado
até quando ele me condena

gosto de quem me intimida
de descer do salto
de andar descalço
de saudar o inverno

gosto dos mitos
dos boatos
dos rumores

gosto da dúvida
da contradição
gosto de versos que começam com “sou”
mas que pouco explicam

gosto do silêncio das capitais
de ser mais um na multidão
mais um retalho na colcha

gosto da fumaça do narguilé
dos florais de bach
dos realejos e teremins

gosto do cinema argentino
do futebol argentino
fito paez
borges

gosto do café dos maestros
e da face serena do sol de maio
(Herculano Neto)

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

SINOPSE

Chiara Mastroianni
synopse

je suis fait d’hypothèses :

la plus probable est celle qui
me dément le mieux

la plus cruelle est celle qui m’explique
le mieux

je suis fait d’équivoques
contradictions
convictions
papillons

je suis une bougie allumée
dans la nuit des angoisses




sinopse

sou feito de hipóteses:

a mais provável é a que
melhor me desmente

a mais cruel é a que melhor
me explica

sou feito de equívocos
contradições
convicções
borboletas

sou vela acesa
na noite das angústias


*POEMA INTEGRANTE DE "A CASA DA ÁRVORE"

quinta-feira, 11 de julho de 2013

MINHA LÁPIDE GRAFITADA

Em uma postagem de 2010, tento explicar, sem muito sucesso, o título deste blogue. Poderia passar despercebida, ser mais uma postagem entre essas quase quinhentas já publicadas, mas há algum tempo quem passa por ela deixa um comentário dizendo por que faz poema. Mal comparando, sinto-me como se estivesse no Père-Lachaise.

E POR QUE VOCÊ FAZ POEMA?

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

ANTES DO CREPÚSCULO

          Por acaso, Jesse reencontra o poema do milk-shake, que o vagabundo vienense escreveu às margens do Danúbio, dentro de um livro. A página envelhecida não esconde a inevitabilidade do tempo. Ao reler os versos, imagina que talvez não ame Celine como amava, talvez nem ela também o ame. Melhor seria que eles se separassem antes que descobrissem a efemeridade do amor, antes que o silêncio falasse por eles, antes que tudo se tornasse rotina e comodismo. Mas ele apenas limita-se a devolver o poema ao livro, e desce para o jantar.

Ilusões à luz do dia
Cílios de limusine
Oh, seu belo rosto, querida
Derramar uma lágrima na minha taça de vinho
Olhe nos meus grandes olhos
Veja o que você significa para mim
Docinhos e milk-shakes
Sou o anjo das ilusões
Sou o desfile das fantasias
Conheça meus pensamentos
Não mais os adivinhe
Você não sabe de onde eu vim
Não sabemos para onde vamos
Estamos juntos na vida
Como dois galhos num rio
Sendo levados pela correnteza
Eu te carrego
Você me carrega
Podia ser assim
Você não me conhece?
Você já não me conhece?

domingo, 22 de agosto de 2010

UM MISERÁVEL A VER NAVIOS


um miserável a ver navios*
Herculano Neto

sempre perco
sempre falta
sempre sofro
sempre fico a ver navios

(“sem sentido para o céu
indiferente para o inferno”)**

sempre despedaço
sempre precipito
sempre espero
sempre fico com as mãos abanando

miserável esmolando afeto é o que sou


 *poema integrante do livro CINEMA (Prêmio Braskem Cultura e Arte 2007);
**BERGMAN, Ingmar. O Sétimo Selo. Suécia, 1956.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

CURTA-METRAGEM


curta-metragem*
Herculano Neto

foi tão breve o amor
o tempo de queimar o cigarro
de pedir outra dose
de esvaziar os armários
de mudar de canal
de mudar de ideia

foi tão breve o amor


*Poema integrante do livro CINEMA (Prêmio Braskem Cultura e Arte, 2007)
Imagem: Carey Mulligan em An Education (Direção Lone Scherfig, 2009)

segunda-feira, 10 de maio de 2010

BATATA-QUENTE

BATATA-QUENTE*
(Herculano Neto)

Trago nos ombros o nome
que meu bisavô deu a meu avô
que meu avô deu a meu pai
que meu pai me deu
e que eu não tenho para quem dar.



*Poema do livro infantil, ainda inédito, A CASA DA ÁRVORE.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

OFÁ

ofá
Herculano Neto

invado a noite da cidade
ninguém me contesta
me olha nos olhos
ou levanta a voz

(sou o chefe da casa
o rei da floresta)

meu legado é a palavra



(POEMA INÉDITO)

segunda-feira, 29 de março de 2010

PONTO CEGO

ponto cego*
Herculano Neto

cansei dos olhos
do brilho falso dos olhos
dos cabelos tingidos dos olhos

cansei

cansei do olhar
do desvio do olhar
do branco vestido do olhar
de me cansar



*Um poema ingenuamente dramático esquecido na gaveta da adolescência entre fotos e outros papéis. Ilustrado com os olhos de Zooey Deschanel e um novo título.

sexta-feira, 19 de março de 2010

terça-feira, 2 de março de 2010

O SEU RETRATO


o seu retrato
Herculano Neto

o seu retrato já não
me incomoda
o seu sorriso já não
me incomoda
o seu perfume já não
me incomoda
sua lembrança já não
me distrai


Escute o poema recitado
pelo autor no PALCO MP3.



segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

POR QUE VOCÊ FAZ POEMA?


por que você faz poema?
Herculano Neto

para dizer sem dizer
e irritar quem não me entende
(quem me detesta
mas esmiúça minha palavra)

para alentar meu público fiel
meu público efêmero

para exibir minha verve
em troca do elogio oco
do pouco-caso

para que os conhecidos
busquem meus enganos nas entrelinhas
e os desconhecidos espelho na minha farsa

para transformar minha frase em verso
meu verso em canção
cartão-postal
epígrafe
tatuagem
epitáfio
sacada genial

“para chatear os imbecis”


POR QUE VOCÊ FAZ CINEMA?*
Para chatear os imbecis / Para não ser aplaudido depois de sequências dó-de-peito / Para viver à beira do abismo / Para correr o risco de ser desmascarado pelo grande público / Para que conhecidos e desconhecidos se deliciem / Para que os justos e os bons ganhem dinheiro, sobretudo eu mesmo/ Porque, de outro jeito, a vida não vale a pena / Para ver e mostrar o nunca visto, o bem e o mal, o feio e o bonito / Porque vi Simão no Deserto / Para insultar os arrogantes e poderosos, quando ficam como cachorros dentro d’água no escuro do cinema / Para ser lesado em meus direitos autorais.

*(Joaquim Pedro de Andrade. In: Pourquoi filmez-vous? Paris: Libération, maio de 1987)



quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

OUTRO CARNAVAL

outro carnaval
Herculano Neto

sou uma porta-bandeira
sem samba-enredo
sem adereço
sem alegria

sou uma porta-bandeira
sem cadência
sem evolução
sem fantasia

sou uma porta-bandeira
sem artifícios
sem cor ou brilho

sem eira nem beira

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

A CASA DA PRAIA

a casa da praia
Herculano Neto

nos encontrávamos
apenas
durante os invernos

(quando era silente
a vida na beira-mar)

hoje os invernos
são restos de sóis
que esmaecem no avarandado


(poema inédito)

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

ENTRE A RUA DIREITA E A ESTRADA DOS CARROS

entre a rua direita e
a estrada dos carros*

Herculano Neto

revendo os caras
olhando as caras
contemplando cada olho castanho
cada olhar distante
cada ser infame

sorrindo a esmo
esperando reciprocidade
dias melhores
amores menores
sonhos assim

compreendendo cada olhar castanho
cada olho distante


* SOB PRESCRIÇÃO, 2006

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

OS OUTROS

os outros*
Herculano Neto

o sétimo selo
o sexto sentido
o quinto elemento
o quarto poder

a terceira guerra
a segunda chance
à primeira vista

o último dos moicanos


(*POEMA PUBLICADO ORIGINALMENTE NA ANTOLOGIA
"SOB PRESCRIÇÃO" EM 2006)

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

VERSOS EXCLUÍDOS

versos excluídos
Herculano Neto

tenho vocação para o abismo
para o abraço
tenho fixação por detalhes
por olhares
por silêncios

sou irremediavelmente insatisfeito
displicentemente franco
o melhor amigo dos meus amigos
o melhor amante das minhas tristes

obsessivo

tenho vocação para infelizes

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

CINEMA

CINEMA
Herculano Neto

“Você nunca vai saber
quanto custa uma saudade
o peso agudo no peito
de carregar uma cidade”.
P. Leminsky

cresci numa cidade
onde não havia mais cinemas
as cenas aconteciam nas ruas
nas gentes
projetadas a esmo

personagens felinianos
se sucediam
nas seqüências
da minha infância

cresci numa cidade
onde não havia muita coisa

apenas história pra contar

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

PARA NINAR O MEU AMOR*

PARA NINAR O MEU AMOR*
Herculano Neto

ando farto do quase
do meio-termo
das boas maneiras
do mais ou menos
e do pode ser dito de
canto de boca

(do talvez não quero saber)

ando farto de lugares-comuns
e olhares esquivos
das cartas marcadas
e do disse-me-disse
das galerias

ando farto de
finais felizes

*(do livro “CINEMA”, Prêmio Brakem Cultura e Arte 2007)

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

A NOITE

A NOITE*
Herculano Neto

passo noites inteiras
admirando os quadros
pintura abstrata
auto-retrato

passo noites inteiras vagando
de um lado ao outro da casa
olhando as paredes desbotadas
contando as gotas na vidraça

passo as noites
procurando pelos cantos
um resto de alguém
que a vassoura não levou

*(do livro “CINEMA”, Prêmio Brakem Cultura e Arte 2007)
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