Maurinho morreu. Há tempos não nos falávamos, bastante tempo mesmo. Olhando agora para ela, mais baixa do que eu costumava lembrar, tenho a impressão que fora em outra existência. Você ficou mais bonito depois de velho. Pretendia retribuir com um "você não mudou nada", mas ela emendou com tava com câncer, mas foi acidente. "Sinto muito". Faz mais de um ano, o que eu tinha pra sentir já senti, o resto é saudade. "Também tenho saudades de minha mãe, às vezes me pego querendo ligar pra ela, mas isso deve durar menos de um segundo. O tempo necessário para eu me tocar que não é possível." Silêncio. "Ela sempre gostou de você". Eu sei. Já Maurinho te detestava, dizia que você era um cara nojento. "Eu sei". E rimos. Novo silêncio. Nem parece que estamos atrapalhando o trânsito no corredor lotado do shopping. O silêncio persiste sem embaraço, apenas silêncio. Talvez a gente engate um diálogo apressado de despedida como em Sinal Fechado de Paulinho da Viola em algum momento do próximo minuto. E nunca mais nos falemos.

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