Poucos amigos compareceram ao meu funeral. Nunca tive muitos, é verdade (duas semanas depois haverá o dobro de pessoas presenciando minhas cinzas poluírem ainda mais o rio que corta minha cidade). Ninguém tampouco lembrou que eu havia deixado uma playlist para esse momento e, honestamente, não fez a menor diferença, o silêncio e os sussurros foram o melhor réquiem. Uma nota no jornal me classificou como “poeta”, alcunha que sempre me aborreceu – uma coletânea póstuma com poemas e letras de música reforçará o equívoco dessa ideia. Quando eu morri não estava frio, não chovia nem era madrugada. Era uma modorrenta quarta-feira de verão, daquelas em que sair de casa é um enfado. Não foi uma morte trágica, algo que merecesse ser narrado com excessos nas mesas dos bares ou à boca pequena. Fora uma morte ordinária que fazia jus aos dias vividos. Não morri na contramão atrapalhando o tráfego.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Comente apenas se leu a postagem.