sexta-feira, 21 de agosto de 2026

TODOS OS MEUS MORTOS: A CASA

 

Costumo sonhar com a casa em que cresci. As pessoas e as situações são as que fazem parte do meu agora, no entanto a casa é a das infâncias (outro filme com o mesmo cenário). O tom claro de azul que adornava a fachada, um azul que nunca reencontrei na vida, que só conheci ali. A porta que se dividia em duas partes com os portilhos de onde eu observava a rua alagar em dias de chuva. Os terrenos vazios das áreas próximas ainda desabitados, apenas com vegetação. Os vizinhos falecidos caminhando pela rua. Até o sol é igual. Apesar de ter morado em vários lugares a casa da minha infância continua intacta em mim, perene, indelével. Recentemente um amigo, ao passar por lá, fotografou as ruínas e me enviou com a seguinte legenda: “lembra?”. Abri a imagem com cuidado, aplicando o zoom sem pressa, mas eu só enxerguei um grupo de crianças descamisadas, com shorts curtos, sentadas no passeio alto antes da elevação do calçamento, sorrindo com cara de que aprontaram, ou iriam aprontar, alguma coisa.

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