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terça-feira, 8 de março de 2022

NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO XIII

Porque sou o meu próprio Mariozinho Rocha

No começo dos anos de 1980, praticamente todos os lares de Santo Amaro possuíam uma cópia do LP “CAVALO DE PAU”, de Alceu Valença – pelo menos todas as casas que eu frequentava ou que minha memória da infância permite lembrar. Possivelmente estimulado pelos sucessos “Tropicana” e “Como dois Animais”. No entanto, a canção que me inquietava era a faixa título, com uma formação mais enxuta, apenas baixo/bateria/guitarra/piano, em um arranjo minimalista muito mais próximo do experimentalismo do rock do que dos ritmos regionais que caracterizavam o álbum, culminando em um Alceu, a plenos pulmões, vociferando sua letra. Era um som que, naquele contexto, causava inevitável estranheza. Curiosamente, seus versos só começaram a me trazer real significado após vários anos, depois que vim parar na capital. Quando, aos poucos, fui desconhecendo aquele menino do interior em mim e, irremediavelmente, deixando a minha inocência para trás – talvez o bem mais precioso que perdi na vida. Por mais que eu insistisse em procurá-la, esquecida na mala/em um canto dos olhos, sabia que jamais a reencontraria novamente. Minha inocência era como aquele cavalo de pau que se torna arisco, indomável, que me derruba, que me nega, determinando que agora era tempo de caminhar sozinho.

(Publicado originalmente em agosto de 2010)

 


 

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

VIRADA DE PÁGINA V

Papel jornal, couché, off-set, polén, reciclado, kindle ou pdf

Determinadas capas de revistas, principalmente dos anos de 1980, são extremamente afetivas para mim, me sensibilizo cada vez que as reencontro pelas avenidas e becos dessa cidade chamada internet. A maioria dessas edições chegavam às mãos da minha infância por meio de empréstimos, lia e relia o máximo que podia até o instante de devolvê-las – o que era sempre um momento doloroso. “Superaventuras Marvel”, “Disney Especial”, a minissérie “Guerras Secretas”, os diversos almanaques (minha preferência pelo custo-benefício), entre outras. No entanto, a que mais me marcou foi a edição nº 01 de Os Novos Titãs, publicada em formatinho pela Editora Abril em 1986; um mix que apresentava a origem do Cyborg e ainda trazia mais duas histórias do universo DC. Devo ter lido algumas dezenas de vezes – mesmo sendo frustrante chegar à última página e me deparar com um “não perca na próxima edição”, continuidade que desejava muito acompanhar, mas não consegui na época. Por algum desvio da memória, não consigo lembrar como obtive essa primeira publicação. Comprado ou ganhado são possibilidades remotas, o mais comum na época eram as permutas. Nenhuma revista tinha lugar cativo na coleção, a leitura de novos trabalhos era a prioridade. Apenas recentemente, voltei a ter contato com esse material através do ótimo encadernado “Lendas do Universo DC – Os Novos Titãs”. Porém o que eu queria realmente era aquela capa. 


segunda-feira, 14 de julho de 2014

PORMENORES


 
a infância foi uma manhã
                                de sol


há tempos que sou
noite de rugas e cabelos brancos


a infância passou
sem nuvens


quase madrugada 






*POEMA INTEGRANTE DE "A CASA DA ÁRVORE"

sexta-feira, 7 de março de 2014

BINGO!

Tenho que perder essa mania de olhar para o fundo das tampinhas de refrigerantes, como se algum personagem Disney estivesse ali, me esperando.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

ASSIM É A VIDA, CHARLIE BROWN!

Charlie Brown, por vários anos, foi o exemplo de amizade que desejei para mim, sem sucesso. Procurava visualizar entre os meus colegas, na escola ou na rua, alguém como ele. Solidário, afável, sensível... Sua turma era minha turma, seus medos eram os meus medos, sua total inabilidade com as atividades infantis também era minha. A idealização do primeiro amor como um sentimento inatingível foi o ponto mais em comum dessa fase. Charlie Brown e eu sofríamos com as desventuras de relacionamentos apenas fantasiados (entre as cores da imaginação e o cinza da realidade, pouco sobrava de nós). A garotinha ruiva deve ter sido a nossa maior identificação: uma garota sem nome, traduzida somente pela cor dos seus cabelos, um amor completamente idílico. Temendo não ser aceito, ele não se apresentou à garotinha ruiva, e em seu lugar foi seu melhor amigo, Linus – que a beijou, se apaixonou e quebrou a magia ao descobrir seu verdadeiro nome. Charlie Brown amargou mais uma derrota com a resignação de quem se acostumou a não vencer. Não me lembro bem, mas acho que era inverno. Muitas estórias passavam-se no inverno. No inverno é tudo mais triste. (Jamais toquei a neve).
     A minha garotinha ruiva não era ruiva; ainda hoje seus cabelos negros visitam minhas lembranças pueris. Nunca mais a encontrei, nem pretendo encontrá-la. Não posso furtar do que me resta de inocência essa recordação doce. É possível até que eu tenha passado por ela em uma avenida qualquer, esbarrado e pedido desculpas no supermercado ou sentado ao seu lado no ônibus ou num banco de praça sem tê-la reconhecido. Melhor assim.
     Hoje, olhando para trás, não vejo aquele menino introvertido em mim. Tudo parece distante e inacreditável, quase paralelo. Talvez por ter vivido a perda com tanta intensidade eu tenha decidido na prática o que não queria ser.
      Nunca perdoei Linus por ter beijado a garotinha ruiva. Nunca perdoei Charlie Brown por ter perdoado Linus. Nunca me perdoei por não ter perdoado os dois.

domingo, 26 de agosto de 2012

DRIVE

    Veio numa caixa não muito maior que os volumes de enciclopédia enfileirados em prateleira na sala de visitas atrás das estátuas de anjos e peixes. Como uma coisa daquelas poderia caber ali? Uma mesa? Uma mesa de canto, dizia o anúncio, confeccionada por um dos mais premiados designers norte-americanos. Requer montagem.
     Chegou ao meio-dia. A mãe ficou muito empolgada. “Vamos esperar para abri-la depois do almoço”, disse ela.
    Ela pedira a mesa pelo correio. Ele se lembrava de ter ficado impressionado com isso. Será que o carteiro tocaria a campainha e, quando a mãe abrisse a porta, ele estaria ali com a mesa nas mãos? “Sua mesa”, madame. Você faz um círculo, escreve um número num pedaço de papel, anexa um cheque e pronto! Uma mesa aparece na sua porta. Tudo isso já é mágico o bastante. Mas ela também vem numa caixinha de nada dessas?
    Memórias mais antigas de sua mãe quando ele era criança afloravam ocasionalmente nas horas que antecediam o amanhecer. Ele acordava com as memórias alojadas na mente, embora, nos momentos em que tentava se lembrar delas de maneira consciente, ou expressá-las, elas desaparecessem.
     Ele tinha o quê? Nove, dez anos? Sentado à mesa da cozinha, ele devorava um sanduíche enquanto a mãe tamborilava os dedos na bancada.
     “Terminou?”, ela perguntou.
     Ele não terminara, ainda tinha metade do sanduíche no prato e estava faminto, mas assentiu. Sempre concordar. Essa era a primeira regra.
     “Então vamos dar uma olhada”. Ela golpeou com um cutelo numa das extremidades da caixa para abri-la.
     Foi colocando as peças no chão com todo o carinho. Que quebra-cabeças impossível! Pedaços de metal barato contorcido e tubos, chavetas e saquinhos com parafusos e outras peças.
     Os olhos da mãe retornavam à folha de instruções e, passo a passo, peça a peça, ela montou a mesa. No momento em que as tarraxas dos pés foram encaixadas e as metades inferiores das pernas foram colocadas no lugar, a expressão no rosto da mãe, a qual ele estava ainda mais atento, passou de feliz a intrigada. Enquanto ela unia as partes superiores das pernas, os apoios de sustentação e os parafusos, a expressão se tornava triste. Aquele prospecto de tristeza se espalhava por todo o seu corpo, tomava conta da sala.
     Preste bastante atenção: esta é a segunda regra.
     A mãe ergueu o tampo da mesa do fundo da caixa e ajustou-o no lugar.
     Uma coisa horrorosa, de aparência barata, instável.
     A sala e o mundo ficaram muito quietos. Ambos silenciaram por um longo tempo.
     “Eu simplesmente não entendo”, a mãe disse.
     Ela se sentou no chão, imóvel, alicates e chaves de fenda espalhados a seu redor. Lágrimas jorravam de seu rosto.
     “Parecia tão lindo no catálogo. Tão lindo. Bem diferente dessa coisa”.



Não costumo postar nada que eu não tenha escrito, aliás isso faz parte DAS COISAS QUE EU ODEIO EM BLOGUES, mas após reler algumas vezes o capítulo vinte e cinco (texto acima) do irregular best-seller de James Sallis, que deu origem ao filme homônimo estrelado por Ryan Gosling, não resisti, talvez porque seja o melhor momento do livro, talvez porque a estrutura se assemelhe a um conto, talvez porque eu tenha me identificado com a prosaica lembrança da infância, talvez porque eu tenha ficado com inveja.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

SACIZEIROS

“Mas os três sacis,
sempre com razão,
sabem que poupança é a solução”.
 
          Dizem que em “A Caverna do Dragão”, Tiamate, o dragão de cinco cabeças, seria a representação do bem, uma espécie de anjo, mas, levados pelas aparências, os jovens buscavam ajuda no verdadeiro lado maligno, o Mestre dos Magos. Na vida real também é assim: o mal é fácil, o bem requer esforço (lição corriqueiramente apregoada pelos religiosos). Mensagem subliminar semelhante existia na antiga série de anúncios do falido Banco Econômico, quando um dragão tentava, a todo custo, alcançar três simpáticos sacis e "queimar o dinheiro dos bichinhos da floresta". Não sei que maldade havia no meu inocente, ainda, coração de criança para torcer pelo dragão – intuição, talvez.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

OS INOCENTES

A perda da inocência é um tema recorrente nas artes, é a verdadeira entrada no mundo adulto, o baile de debutantes da vida real. A inocência pode ser perdida, ou abandonada, a qualquer momento: aos dez, quinze, trinta anos (quando alguém lhe diz que as nuvens não são feitas de algodão). Conheço crianças sem nenhuma inocência e adultos com toda inocência do mundo – não há regras.

Acho que perdi minha inocência quando comecei a ter medo das pessoas, quando passei a atravessar a rua para não trombar com um tipo estranho, quando menti para não ofender alguém, quando resguardei meu coração para não ser magoado. Quando evitei um aperto de mãos, um beijo no rosto, de pessoas que são obrigadas a me tolerar.

Acho que perdi minha inocência quando mirei aqueles olhos e nada vi, quando o silêncio tomou o lugar da indiferença, quando duvidei de promessas, de juras de amor.

O pior de perder a inocência é saber que passarei, inutilmente, o resto da vida procurando-a, mesmo tendo certeza que jamais irei reencontrá-la, não como ela já foi um dia.

Desacreditar na humanidade não tem volta.
 

sábado, 4 de fevereiro de 2012

A INFÂNCIA DOS IRMÃOS DARDENNE

Longe das benesses prometidas pela globalização, os irmãos belgas Luc e Jean-Pierre Dardenne inserem em seus filmes severas críticas ao tratamento oferecido para quem procura melhorias fora dos seus países de origem, sendo a imigração ilegal o tema central de dois trabalhos. Somam-se a isso, desempregados, indivíduos de baixa renda, moradores da região periférica e outros seres desesperançados que irão ajudar a compor o quadro de uma sociedade europeia menos privilegiada, principalmente a partir de 1996, com o ótimo e despretensioso “A Promessa”, filme que já trazia as principais peculiaridades do cinema deles: o uso de locações e luz natural, a ausência de maquiagem e trilha sonora, a câmera na mão, muito próxima dos atores, enredo que não possui necessariamente um começo ou um fim e temática social – elementos herdados do passado como documentaristas. No entanto, são os jovens marginalizados e crianças que tiveram a infância abortada que serão a essência da sua breve obra até agora. 
[LEIA O ENSAIO COMPLETO AQUI]


FILMOGRAFIA: LONGA-METRAGEM DE FICÇÃO

2011 O Garoto da Bicicleta (Le Gamin au vélo)
2008 O Silêncio de Lorna (Le Silence de Lorna)
2007 Cada Um com Seu Cinema (Episódio: Dans L’obscurité)
2005 A Criança (L’enfant)
2002 O Filho (Le Fils)
1999 Rosetta
1996 A Promessa (La Promesse)
1992 Je Pense a Vous (inédito no Brasil)
1987 Falsch (inédito no Brasil)

terça-feira, 10 de maio de 2011

QUINZE ANOS

        Acho que demorei uma eternidade até completar quinze anos. Minha infância parecia não ter fim e lembranças dela não me faltam. Outras pessoas me dizem o contrário, para elas a infância foi curta como um sonho bom - talvez eu tenha vivido meus primeiros anos acordado ou simplesmente me permiti ser criança o máximo que podia. Ser adulto nunca me seduziu, para isso não tive pressa.
        Meu sobrinho mais velho completará quarta-feira quinze anos, dizer que “parece que foi ontem” não é um lugar-comum inevitável, melhor seria afirmar que “parece que foi há poucos anos”. A impressão que tenho é que o tempo que ele levou para completar quinze eu levei para completar cinco.
        Na letra de “Quinze Anos (Vivendo e não Aprendendo)”, da banda paulistana IRA!, Edgard Scandurra fala sobre um homem “que se diz maduro”, “que se diz seguro”, mas quando “se apanha chorando” é como se ele voltasse a ter quinze anos, onde poderá recomeçar sorrindo. Quinze anos é o meio do caminho. Nem adulto nem criança. Certamente é quando nos sentimos mais fortes, mesmo sendo tão frágeis. É quando se abre em nossa frente um frenético leque de possibilidades, de caminhos, de escolhas, de novidades. Irônico é notarmos, muito depois, que poderíamos ter aproveitado melhor aquilo que já tínhamos aproveitado até ao final.
        Apenas após ultrapassar os quinze anos, percebi como o tempo é voraz. Agora "envelheço na cidade".

terça-feira, 31 de agosto de 2010

CAVALO DE PAU


           Minha inocência talvez tenha sido o bem mais valioso que perdi, depois que me mudei para a capital. Gradativamente, fui deixando de enxergar em mim aquele menino do interior. E por mais que eu o procure – num canto da sala, em algum canto dos olhos –, sei que jamais o reencontrarei. A inocência é irrecuperável, alguém já me disse.
           Na canção “Cavalo de Pau”, de Alceu Valença, gravada no disco homônimo de 1982, essa perda é representada pelo cavalo de brinquedo que torna-se arisco, indomável, feito o tempo ou o vento. O onirismo da letra ganha mais força com o arranjo seco, sutil, que está mais para o rock do que para os ritmos regionais tão atrelados ao nome do autor, e que perfeitamente encaixa na visceralidade final da interpretação.
           Provavelmente, buscar minha inocência seja mesmo um exercício inútil. Mas continuarei procurando.

CAVALO DE PAU
(Alceu Valença/ Dominguinhos)

De puro éter assoprava o vento
formando ondas pelo milharal
teu pelo claro boneca dourada
meu pelo escuro cavalo-de-pau.

Cavalo doido por onde trafegas
depois que eu vim parar na capital?
Me derrubaste como quem me nega
cavalo doido, cavalo-de-pau.

Cavalo doido em sonho me levas
teu nome é tempo, vento, vendaval
me derrubaste como quem me nega
cavalo doido, cavalo-de-pau.

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