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quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

MELHORES FILMES 2022

Alguns vícios são difíceis de abandonar, listas é um deles. Mesmo sabendo da inutilidade de elencar minhas preferências com critérios absolutamente subjetivos eu não consigo deixar de fazer a de melhores filmes da temporada, a única regra é ter sido lançado comercialmente no país – por isso minhas listas têm cara e cheiro de ano passado. Em 2022 assisti a cento e cinquenta trabalhos, uma quantidade bem maior do que a dos últimos anos (aos poucos vou retomando o hábito de frequentar sessões pós-pandemia). “Top Gun: Maverick” e “Avatar: O Caminho da Água” foram boas experiências na sala de cinema, mas não suficiente para figurarem na minha listagem, talvez eu esteja ficando cada vez menos mainstream.


Tudo em todo o lugar ao mesmo tempo
Drive My Car
Titane
A Pior Pessoa do Mundo
Argentina, 1985
Nada de Novo no Front
Pinóquio por Guilermo del Toro
Aftersun
Licorice Pizza
Lamb
Boa Sorte, Leo Grande
Marte Um 


Menções honrosas para “Pig”, “Não! Não Olhe!” e “Emily the Criminal”.

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

METAL LORDS

Aquele filme que eu te falei

Com ecos de “Escola de Rock”, Metal Lords é (com o perdão do clichê) uma grata surpresa no enfadonho catálogo da Netflix. O filme é uma das muitas produções que apelam para um público jovem adulto ávido por nostalgia, mas surpreende ao abordar o universo do heavy metal (com todos aqueles clássicos que fizeram a cabeça de muitos adolescentes nas últimas décadas na trilha sonora). Acredito que não tenha recebido a atenção merecida, o que é uma pena. Uma hora e meia de diversão descompromissada que não vai alterar o rumo da sua vida, talvez despertar aquele garoto que ia mudar o mundo e que ainda se emociona com riffs de guitarra (ou violoncelo).


quinta-feira, 26 de maio de 2022

CONTÉM SPOILER XVII

Aquele filme que eu te falei

Pretendia elencar meus filmes preferidos baseados na obra de Stephen King (para a felicidade de admiradores e detratores), mas fatalmente cairia na tríade O Iluminado, Carrie e Conta Comigo no topo – e fazer uma lista diferentona exclusivamente para ser o diferente é muito juvenil para os meus cabelos brancos. No entanto, consigo afirmar que o controverso O NEVOEIRO (2007) estaria nessa listagem. Inspirado em um conto do autor, que imaginava a trama como se fosse um sci-fi B dos anos 50/60, seguimos pai e filho em uma ida ao supermercado para adquirir suprimentos após uma noite tempestuosa, porém são surpreendidos por uma estranha névoa e terminam isolados no estabelecimento na companhia de outras pessoas. Mais simples, impossível. Dirigido pelo francês Frank Darabont, que já havia adaptado com sucesso dois dramas de King, À Espera de um Milagre e Um Sonho de Liberdade, envereda aqui pelo gênero característico do escritor. Com elementos lovecraftianos e referência a O Anjo Exterminador e Alfred Hitchcock, principalmente Os Pássaros (por um momento acreditei que a conclusão seria semelhante) nos expõe o que há de pior no ser humano, sem dúvida o verdadeiro monstro da história. Se os efeitos visuais não envelheceram muito bem, seu texto dialoga assustadoramente com os nossos dias: negacionismo, fanatismo religioso, intolerância, ira, egocentrismo, arrogância, vaidade, manipulação... Ao contrário do título irônico da coluna, posso dizer, simplesmente, que o final é um dos mais desoladores e perturbadores do cinema.


quarta-feira, 20 de abril de 2022

CONTÉM SPOILER XVI

Aquele filme que eu te falei 

Acredito que todo mundo que se diz (ou dizem que é) cinéfilo, frequentemente é abordado sobre dicas de filmes e séries, preferencialmente “recentes e legais”. Há uma espécie de responsabilidade nessas sugestões, é preciso avaliar o tipo de produto e público para recomendar algo que melhor se adéque ao perfil e não simplesmente prescrever a última produção assistida, a que está mais ativa na memória, ao alcance da mão na gaveta das lembranças. Resumindo: ser mais caloroso e menos impessoal que o  arrogante algoritmo do streaming. Sei que deveria ser natural e não causar surpresa nenhuma, mas em um desses pedidos, me dei conta que estava indicando apenas obras protagonizadas por mulheres. Já citei nesta coluna Penélope Cruz em “Madres Paralelas”, Olivia Colman em “A Filha Perdida” e Kate Winslet na premiadíssima minissérie “Mare of Easttown”; poderia ter escrito também sobre Alana Haim em "Licorice Pizza", Elisabeth Moss em “The Handmaid’s Tale”, Phoebe Waller-Bridge em "Fleabag" ou a norueguesa Renate Reinsve em “A Pior Pessoa do Mundo”  –  para ficar nas que vêm mais fácil à cabeça. Certamente não é mera coincidência ou uma polaroid de um momento, talvez seja uma bem-vinda mudança de paradigma. Longe de príncipes encantados, souvenir de desejo ou interesse romântico do mocinho, vejo cada vez mais atrizes em papéis e interpretações notáveis. E que continue assim. Minha lista de recomendações agradece.


quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

CONTÉM SPOILER XIV

Aquele filme que eu te falei

Queria iniciar o texto qualificando as mães de Almodóvar, um adjetivo apenas, algo que pudesse sintetizar esse universo tão explorado pelo cineasta em sua obra (cativantes, exageradas, dramáticas, trágicas, passionais, divertidas, corajosas, fortes, inquietantes, arrebatadoras, coloridas), são muitas as possibilidades, mas nenhuma satisfatória. Um termo que convidasse o leitor a seguir naturalmente pela crônica até ao seu final, uma palavra que fosse retomada na conclusão criando uma espécie de efeito estético, cíclico – um truque barato e que ainda funciona. Mas não encontrei. Em “MADRES PARALELAS” ele nos apresenta a várias: desde a mãe que deixa a filha para cuidar da carreira como atriz às mães que criaram sozinhas os seus filhos após os maridos serem assassinados covardemente durante a guerra civil espanhola. E no meio de tudo isso uma Penélope Cruz, mais madura em seu ofício, alinhavando esse misto de melodrama (no melhor sentido) com manifesto político. Inteiras. Acho que encontrei a palavra que eu precisava.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

CONTÉM SPOILER XIII

Aquele filme que eu te falei

Não condeno quem decide não ter filhos, muito menos que isso seja um ato egoísta ou que vá contra algum mandamento divino. Na verdade, considero um posicionamento corajoso, nobre. Colocar uma criança, deliberadamente, nesse mundo está muito mais próximo da maldade do que do amor. Que se dane o que espera a sociedade e a família de um casal, roteirizando a vida a dois num final de novela das seis. Romantizar a maternidade/paternidade é um engano, como se procriar fosse trivial como brincar de casa de bonecas. O Google me informa que foi o escritor Coelho Neto quem disse que “ser mãe é padecer no paraíso”. A frase, extremamente repetida e parodiada, costuma ser enfatizada nesse tal “paraíso”, morada celestial e inalcançável, com pouco destaque para o “padecer”. Em “A Filha Perdida” (The Lost Daughter, 2021), Leda, interpretada esplendidamente pela britânica Olivia Colman, ao ser questionada como foi ter abandonado as duas filhas pequenas, simplesmente revela: maravilhoso – em um misto de dor e alegria. Um conflito sincero e carente de julgamentos, em uma das melhores atuações dos últimos anos, seguramente. Por mais incômoda que possa parecer, sua resposta não poderia ser mais honesta.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

CONTÉM SPOILER XII

Aquele filme que eu te falei 


Hoje é o Dia da Marmota. Hoje também é dia de festa no mar e dia de Nossa Senhora da Purificação, padroeira do meu torrão natal, mas o Dia da Marmota é mais importante. Segundo a tradição de uma pequena cidade estadunidense, na manhã de dois de fevereiro as pessoas devem observar uma toca de marmota, caso ela saia com o tempo nublado indica que o inverno terminará cedo, porém se o dia estiver ensolarado e o animal se assustar com a própria sombra e retornar para a toca, é sinal de que o inverno durará mais seis semanas. Esse evento célebre, para a  incredulidade de muitos, atrai milhares de turistas todos os anos. Em o FEITIÇO DO TEMPO (Groundhog Day, 1993), Bill Murray é um repórter cínico e intolerante que anuncia as previsões meteorológicas em um canal de TV, que para sua contrariedade é encarregado de fazer uma matéria sobre o encabulado roedor. No entanto, ele desperta sempre no mesmo dia e é obrigado a experienciar tudo novamente até encontrar sua fabular redenção. Também queria acordar no mesmo dia e vivenciar minha existência igual de maneira diferente. Queria cometer outros erros, ter outras dúvidas e temores – ou como Humberto Gessinger, erraria tudo exatamente igual. No entanto, acho que estou cada vez mais parecido com a marmota, me assustando com a minha própria sombra e vivendo um inverno que parece não ter fim.
 
(Publicado originalmente em fevereiro de 2012) 
 


quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

CONTÉM SPOILER XI

Aquele filme que eu te falei

 

Desde que vi “007 a Serviço Secreto de Sua Majestade” (On Her Majesty's Secret Service, 1969), George Lazenby se tornou minha usual resposta para a questão sobre qual seria meu James Bond preferido. Lazenby teve a incumbência de substituir Sean Connery e terminou protagonizando apenas um longa-metragem como o espião inglês. Não é incomum em matérias sobre 007 o seu nome sequer ser lembrado. Minha preferência tinha aparência de contrariar apenas para não ser igual, mas eu realmente gostava bastante do filme – ainda o meu favorito. Hoje eu sei que é cultuado por vários admiradores da série. O ator australiano incorporou um personagem que se aproximava da criação de Ian Fleming, um agente secreto em início de carreira, muitas vezes inseguro, passível de erros, mais humano e verossímil – uma versão bem diferente da deixada por seu antecessor. Em determinado momento ele chega a quebrar a quarta parede para nos dizer, ironicamente, que isso jamais aconteceria com o outro cara. A conclusão do filme é surpreendente e perturbadora, com sua amada sendo assassinada na estrada logo após se casarem, interrompendo abruptamente o que caminhava para um final feliz. Essa cena é aludida no mais recente título da franquia, “Sem Tempo Para Morrer” (No Time to Die, 2021), com o Bond de Daniel Craig dirigindo pela costa da Itália ao lado de Madeleine (Léa Seydoux), e com a belissíma “We Have All the Time in the World”, tema da obra de 1969, sendo referenciada no diálogo e em um arranjo instrumental no começo do filme – prenunciando, para os mais atentos, que esse romance também poderia não acabar bem. Nos créditos finais a canção retorna, dessa vez em sua versão original com a emocionante interpretação de Louis Armstrong, já debilitado devido a problemas renais e cardíacos. Não poderia haver melhor composição para simbolizar uma despedida.


segunda-feira, 29 de novembro de 2021

CONTÉM SPOILER X

Aquela lembrança que não emoldurei 

Há muito tempo, em uma galáxia muito, muito distante na Velha Bahia, quando era possível alugar filmes em lojas especializadas, conhecidas como videolocadoras, eu costumava admirar as capas das fitas nas estantes ou os posteres das produções nas vitrines no caminho para a escola. Nem sempre/quase nunca sobrava dinheiro para locação, além dos lançamentos serem disputadíssimos, com direito à fila de espera que se estendia por meses. Não pretendo soar saudosista (streaming é vida) apenas concluo que alguns hábitos não se perdem, muitas vezes se transformam. Percebi isso ao me dar conta que possuo um perfil no Instagram para catalogar os cartazes dos filmes que assisto (não, não vou postar o linque). As pessoas ficam ansiosas por trailer ou teaser, mas eu gosto mesmo é da imagem de divulgação. Sou aquele que comemora em silêncio quando a cena do poster surge na tela, bem mais do que quando o título da produção é proferido por algum personagem. Já tive as paredes do quarto, e com mais discrição as da sala, repletas de cartazes de filmes, ainda guardo alguns. Deve existir uma espécie de Oscar para os criadores dessas artes, poderia ser categoria na premiação principal. 


quarta-feira, 25 de agosto de 2021

CONTÉM SPOILER VII

Aquele filme que eu te falei

Devo ter assistido à Beleza Americana (American Beauty, 1999) no distante ano dois mil (ou talvez em dois mil e um) na solidão do meu antigo quarto em Santo Amaro da Purificação. É provável que aquele espectador imberbe não tivesse bagagem para perceber certos elementos apresentados, sendo mais fácil se deslumbrar com facilitações narrativas como uma sacola plástica levada pelo vento. Mas ao rever o filme agora, cerca de vinte anos depois, a forma como as mulheres são retratadas na película causou uma espécie de incômodo. A esposa neurótica e obsessiva que tenta escapar das suas frustrações profissionais em um caso extraconjugal, a adolescente desajustada e insatisfeita com o próprio corpo que cede ao assédio do vizinho esquisito, a Lolita sexy e ingênua idealizada pelo protagonista. Imagino que “Beleza Americana” não seja uma experiência tão confortável para a plateia feminina na atualidade, muito mais consciente do seu papel social, fazendo com que o filme não passe incólume pelo crivo do tempo.

 

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

ALÉM DO QUE SE VÊ


FISH TANK
(Reino Unido, 2009)
Direção: Andrea Arnold


Mãe solteira com filhos que mais parecem seus irmãos é um cenário cada vez mais comum nesse novo perfil dos núcleos familiares mundo afora. Aqui temos Mia, uma garota de 16 anos que vive com a mãe e a irmã menor em um conjunto habitacional claustrofóbico (o aquário do título?), e que sonha em se tornar dançarina – pessoas desajustadas que precisam encontrar algum sentido para existirem. Se a dura realidade, sem nenhum gesto de afeto ou possibilidades de melhora já seria o bastante para complicar sua vida, tudo piora com a chegada do novo namorado da mãe, o sempre ótimo Michael Fassbender. Mas não se enganem com as aparências: a previsibilidade se resume ao inevitável choque de gerações, apenas. As soluções são, muitas vezes, cruéis, – embora uma doce canção como "California Dreamin'" possa trazer contornos de frágil esperança.

 
NOTA DE RODAPÉ
(Hearat Shulayim, Israel, 2009)
Direção: Joseph Cedar


Premiado como melhor roteiro no Festival de Cannes em 2011, essa comédia israelense possui um humor, no mínimo, inusitado, o que a torna, ao mesmo tempo, divertida e melancólica. Muitas situações lembram os melhores momentos dos irmãos Coen. Pai e filho são dois estudiosos do Talmude, o livro sagrado dos judeus. O pai é um sujeito rancoroso e solitário, que acredita nunca ter obtido o reconhecimento merecido por seu trabalho. O filho, extremamente vaidoso e arrogante, é um bem sucedido pesquisador que vive aparecendo na mídia e recebendo prêmios devido ao grande sucesso dos seus livros, o que evidencia ainda mais a tensão entre os dois. O título do filme se refere a um único exemplo de reconhecimento público do pai, que se orgulha de ter sido citado, como nota de rodapé, em um livro de um celebrado estudioso do Talmude. Não há culpados nem inocentes, somente a hipocrisia e a pequenez do ser humano.
 
AS PALAVRAS
(The Words, EUA, 2012)
Direção: Brian Klugman e Lee Sternthal


Uma plateia atenta aguarda o autor (Dennis Quaid) de um aclamado best-seller para uma leitura pública da sua obra, a partir daí conhecemos a história do aspirante a escritor (Bradley Cooper), que busca, sem sucesso, a publicação do seu primeiro romance. Presenteado pela esposa (Zoe Saldana) com uma antiga valise comprada num antiquário, ele encontra dentro dela os originais de um fascinante livro e acaba assumindo para si a autoria, o que o torna rapidamente em um enorme sucesso. É quando entra em cena seu verdadeiro autor (Jeremy Irons). Realidade e ficção se entrelaçam, como se estivéssemos lendo um livro e não assistindo a um filme. Recebido friamente pela crítica no último ano, por não ter considerado original o mote do escritor sem inspiração que plagia um autor desconhecido, “As Palavras” é um filme que merece ser visto (ou revisto) com mais atenção.

terça-feira, 7 de maio de 2013

OS PIORES VERSOS DE RENATO RUSSO

Renato Russo, líder e principal compositor da cultuada Legião Urbana, tem seu nome comumente associado ao epíteto poeta (rótulo tão banalizado e desgastado que até Chorão, do Charlie Brown Jr., foi agraciado com ele). Letrista, realmente, de qualidade bem acima dos seus pares – inclusive Cazuza, outro equivocado “poeta” -, Renato Russo tem suas letras reproduzidas como hinos por seguidas gerações de jovens, e de não tão jovens assim, angustiados com o mal do século, além de ocupar o espaço destinado a autênticos poetas em exemplos utilizados nos livros didáticos. E como se já não fosse suficiente a literatura, o Trovador Solitário invadiu também os cinemas. Primeiramente com o raso documentário “Rock Brasília”, agora com os rebeldes sem causa da imberbe capital federal em “Somos Tão Jovens”, uma caricatura com algum rock e sem sex and drugs, pra não assustar a família-brasileira-tela-quente. E ainda vem aí “Faroeste Caboclo”. Tenho medo de imaginar qual será o próximo, “Eduardo e Mônica?”, “Dezesseis?”, “Pais e Filhos?”, “Ainda Somos Tão Jovens?”. Enquanto isso, me atrevo a listar seus versos menos interessantes (pra ficar no eufemismo):

BENZINA
Poderia ter poupado Renato Russo desse retrato do artista quando jovem, mas a partir do momento em que os Irmão$ Lemo$ e Dinho (e aí, moçadaaaa) Ouro-Preto chafurdaram o espólio do Aborto Elétrico para um projeto insosso, não tive como deixar essa pérola de fora. O engraçado é que quase trinta anos depois de ter sido escrita, constato que o rock feito no Brasil encaretou, já que no disco do Capital Inicial a música foi gravada sem a letra, com receio de ser considerada apologia às drogas, mas o mundo não perdeu grande coisa:

“Fui até à farmácia
Eu e minha prima
Levei os 20 mangos
Pra comprar benzina”


DEPOIS DO COMEÇO
Dos fóruns online à mesa de bar, “Depois do Começo” é praticamente hors concours quando o assunto é música da Legião Urbana que você não gosta, seja porque ta mais pros Paralamas ou por causa do “Deus, somos todos ateus”. No encarte do disco “Que País é Este”, somos advertidos que a letra contém diversas mensagens codificadas e quem tentar decifrá-la encontrará mais coisas sobre si do que sobre a música. Bobagem. Raramente executada ao vivo, recentemente foi resgatada por Dado Villa-Lobos nos seus shows, numa espécie de lado B da sua antiga banda, como se a Legião Urbana tivesse algum lado B. Os fãs mais ardorosos comparam a letra a uma viagem lisérgica, meio “Lucy in the Sky with Diamonds”, outra bobagem. Na verdade, os versos são de um nonsense constrangedor: “cair como um saxofone na calçada”, “usar um extintor como lençol”, “jogar polo-aquático na cama”, não faltam opções para pior verso, mas me incomoda mesmo é o refrão que diz que depois do começo o que vier vai começar... Sic, sic, sic.

QUÍMICA

Em um cena retratada no filme “Somos Tão Jovens”, o baterista Fê Lemo$ ousa questionar a qualidade do trabalho do até então genial Manfredini Jr., o que bastou para o vocalista rodar a baiana e abandonar o barco de vez. Ironicamente, foi essa canção que levou a Legião Urbana ao Rio de Janeiro, após ter sido gravada no disco de estreia dos Paralamas do Sucesso. Propositadamente pueril, boba até, mas comparar a pressão da sociedade para o jovem se tornar um profissional bem sucedido com um campo de concentração da Alemanha nazista (o “Belsen tropical”) é forçar a barra.

SUBMISSA
O que o dinheiro não faz, “Química” não servia, mas essa “Submissa” serve, e nessa nem da pra reconhecer o cara que escreveu "Ainda é Cedo" no texto. Outra que os Irmão$ Lemo$ foram escarafunchar.

“Conheci uma garota submissa
Tudo o que eu mandava ela fazia
Tudo o que eu queria ela fazia
Tudo o que eu sonhava ela fazia”.


MAIS DO MESMO

Nunca, nunca mesmo, simpatizei com os versos iniciais de “Mais do Mesmo” (“Hey, menino branco/ o que você faz aqui?”), a sonoridade das palavras na canção, a ideia simplista sobre quem vende e quem consome drogas (algo que também me incomodou no primeiro “Tropa de Elite”), nada me agrada. E depois que você descobre que esses versos horríveis foram supostamente chupados de "I'm Waiting for the Man", do Velvet Underground, (“Hey, white boy, what you doin' uptown?”), a coisa piora ainda mais. Há quem diga que os doentes na enfermaria cantando sucessos populares é mais bizarro.

OS ANJOS   
Se a postagem fosse sobre a pior música da Legião Urbana, não pensaria duas vezes, mas a letra também não fica pra trás, a impressão é que Renato pegou as sobras de “Perfeição”, requentou e fez esse prato. “Um tablete e meio de preguiça” ou “duas xícaras de indiferença?”. O gosto é do freguês.

MARCIANOS INVADEM A TERRA
“Cuidado com a coisa coisando por aí/
a coisa coisa sempre e também coisa por aqui”. 
Dispensa maiores comentários.

MAIS UMA VEZ
Tá bom, Renato Russo era fã declarado dos mineiros e pretendia gravar um disco só com canções do Clube da Esquina, certo. Mas isso não faz essa letra ser o que ela não é. Recomendo anotar cada verso em um pedacinho de papel, embrulhar, jogar para cima e sortear o pior verso. Autoajuda em letra de música é dose.

OUTRAS ESTAÇÕES
Ao comentar que eu pretendia realizar uma postagem com os versos pouco inspirados de Mr. Russo, amigos legionários, curiosamente, fizeram várias sugestões, demostrando que são menos radicais do que aparentam, ao contrário dos fãs de Raul Seixas, que ameaçaram minha integridade física. Citaram “PLANTAS EMBAIXO DO AQUÁRIO” (pior música do disco “Dois” para alguns) e prima-irmã de “A Canção do Senhor da Guerra” e “Soldados”; o mertiolate de “METRÓPOLE”; as baratas voadoras de “LEILA”; a feijoada de “O MUNDO ANDA TÃO COMPLICADO”; a tríade “A DANÇA”, “PETRÓLEO DO FUTURO” e “PERDIDOS NO ESPAÇO” do primeiro disco; O tê enorme de “TÉDIO”; o quem inventou o amor de “ANTES DAS SEIS”, entre outras.

domingo, 3 de março de 2013

ALÉM DO QUE SE VÊ

NEM TUDO É O QUE PARECE
(Layer Cake, Reino Unido, 2004)
Direção: Matthew Vaughn 

Para quem reclama que falta “pipoca” nas minhas indicações, recomendo a estreia na direção do produtor dos primeiros trabalhos de Guy Ritchie (no tipo de filme que todos esperavam que ele continuasse a realizar, se não fosse a Madonna e Mr. Holmes). Daniel Craig (antes do estrelato) vive um bem sucedido “comerciante de narcóticos” que nunca revela seu nome e que decide se aposentar do mundo do crime, mas inicialmente tem que fazer um último trabalho, que não é tão fácil quanto aparenta: localizar a filha viciada de um magnata e distribuir um carregamento de ecstasy vindo da Holanda – se parece um clichê de filme de ação, advirto que nem tudo é o que parece. Perseguições, reviravoltas (muitas), enganos, mentiras, cinismo, clássicos ingleses da música dos anos 70 e 80, coadjuvantes excêntricos, frases de efeito, humor britânico... tudo faz parte do bem construído bolo de camadas do título original, surpreendentemente divertido até o último instante. Confirmando o talento demonstrado na estreia, Matthew Vaughn depois dirigiria “Kick-Ass - Quebrando Tudo” e “X-Men: Primeira Classe”.

TRABALHAR CANSA
(Brasil, 2011)
Direção: Juliana Rojas e Marco Dutra

Helena Albergaria é uma dona de casa de classe média que resolve levar adiante a ideia de abrir um mercadinho de bairro após o marido, Marat Descartes, perder o emprego, mas o local escolhido para o comércio guarda alguns mistérios. Ao misturar crítica social com elementos fantásticos, “Trabalhar Cansa” flerta com um gênero pouco explorado no Brasil: o terror. As incertezas e as neuroses provocadas pelo novo negócio e o desconforto e a insegurança do desemprego levam o casal de protagonistas a uma gradual transformação. No entanto, não é o típico drama familiar que mantém a trama, a crônica suburbana, com sua mesquinhez nossa de cada dia, causa no espectador uma imediata identificação, e sem meios-termos também pode provocar sentimentos de amor e ódio. Primeiro longa da dupla de diretores Juliana Rojas e Marco Dutra, que já tinha se destacado com os curtas "As Sombras", "O Lençol Branco" e "Um Ramo".


MINHA IRMÃ
(França/Suiça, 2012)
Direção: Ursula Meier

Assistiria a qualquer coisa com Léa Seydoux, isso não é segredo. Aqui ela é a “irmã” do título nacional, uma jovem acomodada que alterna pequenos trabalhos com períodos de desemprego, dorme com diferentes rapazes e costuma sumir sem explicação por dias. No entanto, a trama é focada em seu irmão Simon, um menino de 12 anos que rouba o que pode em uma estação de inverno suíça (de sanduíches a pares de esqui) e revende os objetos para sobreviver, ou poder comprar até mesmo um abraço de sua irmã. Aproximando-se bastante do naturalismo e da crise europeia, observados sem julgamentos nem sentimentalismos nas obras dos irmãos Dardenne, Ursula Meier sustenta o filme sem excessos ou melodramas, extraindo de Léa e do garoto Kacey Mottet Klein atuações excelentes, além de conduzir uma reviravolta no roteiro que não transforma o filme em outro filme. Atenção para Gillian Anderson, a eterna agente Scully de Arquivo X,  e a bela e metafórica cena final.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

ANTES DA MEIA-NOITE

ANTES DO AMANHECER, 1995
ANTES DO PÔR-DO-SOL, 2004
ANTES DA MEIA NOITE, 2013

Espero que a conclusão 
da trilogia nao seja como eu imaginei.


quinta-feira, 27 de setembro de 2012

ALÉM DO QUE SE VÊ

OS INOCENTES
(The Innocents, EUA/Inglaterra, 1961)
Direção: Jack Clayton

A governanta vivida por Deborah Kerr (um dos seus melhores momentos no cinema, em uma atuação que cresce gradativamente) aceita o emprego em uma mansão no campo para cuidar de um casal de irmãos órfãos. Desde a sua chegada ao local, ela passa a ser atormentada por visões de pessoas estranhas rondando a propriedade e a acreditar que as crianças, que ela acha que não seriam tão inocentes quanto aparentam, também podem vê-las. A sombria fotografia realça o tom acentuadamente gótico da Inglaterra vitoriana e o final surpreendente nos permite uma série de interpretações. Com status de obra-prima do terror psicológico, OS INOCENTES, baseado na novela “A Volta do Parafuso”, de Henry James, e com roteiro de Truman Capote, ainda serve de modelo para uma série de imitações  que amiúde aparece por aí.

QUERIDA WENDY
(Dear Wendy, Dinamarca, 2004)
Direção: Thomas Vinterberg 

 
Jovens sem perspectivas e sem autoestima se reúnem em um clube secreto, fundamentado no contraditório princípio do pacifismo e da posse de armas, uma evidente crítica à cultura bélica norte-americana. Produzido entre DOGVILLE e MANDERLAY (a incompleta trilogia “EUA, terra das oportunidades”), QUERIDA WENDY não esconde seu parentesco, e talvez se passe, inclusive, em algum lugar entre as duas cidades. Com roteiro de Lars von Trier, tem em comum a narração em off, os tipos sociais bem específicos e a rotina de uma cidade pequena com seus espaços claramente delimitados (embora não haja a ausência de divisórias). Jamie Bell (de BILLY ELLIOT) encabeça o ótimo elenco juvenil ao lado de  Alison Pill (presente nos últimos trabalhos de Woody Allen). A trilha sonora, com clássicos da banda inglesa The Zombies, é outro destaque.


O GUARDA
(The Guard, Irlanda, 2011)
Direção: John Michael McDonagh 
 
Dupla de policiais que não possuem nada em comum, e que utilizam métodos completamente diferentes no desempenho das suas funções, são forçados a trabalhar juntos e acabam solucionando um caso que parecia fora do alcance dos dois. Provavelmente você já viu algum filme assim, mas a comédia policial irlandesa O GUARDA subverte e brinca com alguns clichês do gênero. Com seu humor ácido e politicamente incorreto, repleto de bons diálogos e uma interpretação afiadíssima de Brendan Gleeson, como o policial corrupto e entendiado de uma pequena cidade do interior da Irlanda, que é obrigado a colaborar com a investigação de um agente do FBI, Don Cheadle, para desbaratar uma operação milionária do tráfico internacional de drogas. Destaque para o trio de criminosos que discute filosofia.

domingo, 26 de agosto de 2012

DRIVE

    Veio numa caixa não muito maior que os volumes de enciclopédia enfileirados em prateleira na sala de visitas atrás das estátuas de anjos e peixes. Como uma coisa daquelas poderia caber ali? Uma mesa? Uma mesa de canto, dizia o anúncio, confeccionada por um dos mais premiados designers norte-americanos. Requer montagem.
     Chegou ao meio-dia. A mãe ficou muito empolgada. “Vamos esperar para abri-la depois do almoço”, disse ela.
    Ela pedira a mesa pelo correio. Ele se lembrava de ter ficado impressionado com isso. Será que o carteiro tocaria a campainha e, quando a mãe abrisse a porta, ele estaria ali com a mesa nas mãos? “Sua mesa”, madame. Você faz um círculo, escreve um número num pedaço de papel, anexa um cheque e pronto! Uma mesa aparece na sua porta. Tudo isso já é mágico o bastante. Mas ela também vem numa caixinha de nada dessas?
    Memórias mais antigas de sua mãe quando ele era criança afloravam ocasionalmente nas horas que antecediam o amanhecer. Ele acordava com as memórias alojadas na mente, embora, nos momentos em que tentava se lembrar delas de maneira consciente, ou expressá-las, elas desaparecessem.
     Ele tinha o quê? Nove, dez anos? Sentado à mesa da cozinha, ele devorava um sanduíche enquanto a mãe tamborilava os dedos na bancada.
     “Terminou?”, ela perguntou.
     Ele não terminara, ainda tinha metade do sanduíche no prato e estava faminto, mas assentiu. Sempre concordar. Essa era a primeira regra.
     “Então vamos dar uma olhada”. Ela golpeou com um cutelo numa das extremidades da caixa para abri-la.
     Foi colocando as peças no chão com todo o carinho. Que quebra-cabeças impossível! Pedaços de metal barato contorcido e tubos, chavetas e saquinhos com parafusos e outras peças.
     Os olhos da mãe retornavam à folha de instruções e, passo a passo, peça a peça, ela montou a mesa. No momento em que as tarraxas dos pés foram encaixadas e as metades inferiores das pernas foram colocadas no lugar, a expressão no rosto da mãe, a qual ele estava ainda mais atento, passou de feliz a intrigada. Enquanto ela unia as partes superiores das pernas, os apoios de sustentação e os parafusos, a expressão se tornava triste. Aquele prospecto de tristeza se espalhava por todo o seu corpo, tomava conta da sala.
     Preste bastante atenção: esta é a segunda regra.
     A mãe ergueu o tampo da mesa do fundo da caixa e ajustou-o no lugar.
     Uma coisa horrorosa, de aparência barata, instável.
     A sala e o mundo ficaram muito quietos. Ambos silenciaram por um longo tempo.
     “Eu simplesmente não entendo”, a mãe disse.
     Ela se sentou no chão, imóvel, alicates e chaves de fenda espalhados a seu redor. Lágrimas jorravam de seu rosto.
     “Parecia tão lindo no catálogo. Tão lindo. Bem diferente dessa coisa”.



Não costumo postar nada que eu não tenha escrito, aliás isso faz parte DAS COISAS QUE EU ODEIO EM BLOGUES, mas após reler algumas vezes o capítulo vinte e cinco (texto acima) do irregular best-seller de James Sallis, que deu origem ao filme homônimo estrelado por Ryan Gosling, não resisti, talvez porque seja o melhor momento do livro, talvez porque a estrutura se assemelhe a um conto, talvez porque eu tenha me identificado com a prosaica lembrança da infância, talvez porque eu tenha ficado com inveja.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

ALÉM DO QUE SE VÊ III

PRIMER (EUA, 2004)
Direção: Shane Carruth

Com apenas, inacreditáveis, sete mil dólares, um matemático desencantado com a profissão decidiu escrever, dirigir, atuar, compor a trilha sonora, escalar um elenco amador, usar a própria garagem como estúdio de filmagem, editar em um computador caseiro, e mesmo sem utilizar nenhum efeito especial, acabou realizando uma das melhores ficções científicas da história do cinema, e a melhor no sub-gênero “viagem no tempo”, sem dúvidas.  Com um roteiro que consegue tratar da maneira inteligente os paradoxos temporais, o calcanhar de Aquiles desse tipo de produção, PRIMER é um quebra-cabeças que exige do espectador a máxima atenção, são tantos os detalhes que é necessário ser visto mais de uma vez. E acredite: a cada exibição o filme fica ainda mais interessante.

O OLHAR INVÍSIVEL
(La Mirada Invisible, Argentina, 2010)
Direção:  Diego Lerman
Com ecos de Lucrecia Martel, essa película se passa em 1982, quase que exclusivamente dentro do Colégio Nacional de Buenos Aires, durante os últimos dias da ditadura militar argentina. O microcosmo do colégio reflete, naturalmente, a repressão e rigidez que acometia o país naquela época. Marita, inspetora encarregada de vigiar o cumprimento das severas regras escolares, o olhar invisível do título, e que usa o seu cargo como pretexto para observar os alunos no banheiro, é a típica representante de uma classe média utópica, que em busca de valorização profissional vivia alheia ao regime ditatorial. Feito de breves gestos, de olhares, temos, novamente, outro bom exemplar do cinema argentino, mas afirmar isso é chover no molhado.
 
O ABRIGO
(Take Shelter, EUA, 2011)
Direção: Jeff Nichols
Sempre questiono se os distribuidores brasileiros, tão preocupados com estratégias de mercado, conhecem efetivamente a sétima arte quando vejo um filme como esse estrear diretamente em home vídeo. Espécie de primo-pobre de MELANCOLIA, de Lars von Trier, e A ÁRVORE DA VIDA, de Terrence Malick, O ABRIGO acompanha de perto Curtis, ótima performance de Michael Shannon, um homem dócil, introvertido, pai de família devotado, que tem sua rotina afetada quando a iminência de uma tempestade devastadora, que somente ele consegue observar, escutar e sentir, o leva a construir um abrigo subterrâneo, decisão que terá graves consequências em sua vida. Sem sabermos se essa tempestade é real, ou se compartilhamos dos delírios de Curtis, O ABRIGO possui mais incitações psicológicas do que mera angústia apocalíptica.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

BODAS DE NAFTALINA

“Cinquenta anos dos Rolling Stones”. “Cinquenta anos da conquista do bicampeonato da seleção brasileira no Chile”. “Cinquenta anos da morte de Marilyn Monroe”. “Há cinquenta anos um filme brasileiro ganhava a Palma de Ouro em Cannes”. “Cinquenta anos de Tom Cruise, Jon Bon Jovi, Axl Rose, Paula Toller...”.

Cinquenta é um número forte, emblemático, não nego. Inclusive, sua entonação requer um pouco mais de esforço, uma sílaba de cada vez pedindo passagem, CIN-QUEN-TA, pela boca que parece se abrir mais para pronunciá-lo, um trema que se recusa a morrer. Entendo essa força quando a pedra é cantada num bingo, quando é festejado o aniversário de casamento do feliz casal de vovôs, quando o valor de uma dívida é cobrado, quando o médico comunica que há 50% de chances, mas não compreendo o fetiche que a mídia tem pelo número: é como se 47, 48 e 49 não tivessem existido ou se tivessem ficado hibernando em naftalina, como se não fossem necessários. 

Cinquenta tem vida própria, afinal “não é todo dia que se comemora meio-século”, e 2012 tem sido generoso para quem gosta dessas efemérides (vide o primeiro parágrafo) e que deve ser aproveitadas ao máximo, até porque 51, 52 e 53 vêm aí e são tão importantes quanto 47, 48 e 49 (bem que alguém poderia pegar carona e produzir uma mostra com filmes lançados em 1962, adoraria assistir em uma tela de cinema à “Lawrence da Arábia”, “O Sol é para todos”, “Lolita”, “Jules e Jim”, “007 Contra o Satânico Dr. No” ou à  “Luz de Inverno”.).

Um homem com cinquenta anos é um homem de meia idade – e  que, dificilmente, um dia será um homem de idade inteira. Na numerologia cabalística o número 50 está associado a letra “O” (cinquenta é uó?). Cinquenta é o número atômico do estanho. Em uma cédula de 50 euros há portais e arcos em arquitetura renascentista, na de 50 dólares o ex-presidente Ulysses Simpson Grant (quem?), na de 50 reais uma onça pintada e na de 50 pesos Diego Armando Maradona. Um pé-de-moleque em Salvador custa cinquenta centavos, um programa de meia hora custa cinquenta reais. Cesar Cielo é o recordista mundial dos 50 metros nado livre. O canal Nickelodeon exibiu 50 horas consecutivas de Bob Esponja. A cantora Shakira tem 50 milhões de fãs no Facebook. O atacante uruguaio Edinson Cavani vale 50 milhões de euros. 50 cilindradas é moto de menina. Sobrevivi 50 dias com ela. 

Em janeiro, encontrei uma cédula de 50 cruzados novos, em ótimo estado de conservação, guardada por algum previdente senhor, em uma antiga edição de “Sagarana”, em um sebo da Estação da Lapa, mas isso não tem nada a ver com  o texto – eu acho.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

ALÉM DO QUE SE VÊ II

BILLY ELLIOT (Inglaterra/França, 2000)
Direção: Stephen Daldry


Na inacreditável filmografia de Stephen Daldry, com quatro filmes e três indicações ao Oscar (por “As Horas”, “O Leitor” e “Tão Forte, Tão Perto”), talvez “Billy Elliot” tenha sido o que mais merecesse essa honraria, não apenas pela vitória de “Gladiador”, mas porque o considero melhor que alguns indicados de 2001, como “Erin Brockovich” ou “Chocolate”. Na Inglaterra de 1984/85, Billy, Jamie Bell de “Querida Wendy”, é um jovem que vive com as lembranças da mãe falecida, o pai, o revoltado irmão mais velho e a avó esclerosada no subúrbio de uma cidade operária do interior da Inglaterra, em meio a crise provocada no país pela greve dos mineradores. Sem habilidades para o treinamento do boxe, ele termina, por acaso, descobrindo sua verdadeira vocação: o balé clássico. "Cosmic Dancer”, do T-Rex,não sai da memória.
    

SAMSON & DELILAH
(Austrália, 2009)
Direção: Warwick Thornton 

Samsom e Delilah são dois jovens de descendência aborígine que vivem no inóspito deserto australiano, em um ambiente da mais absoluta modorra, onde nada parece subverter a ordem do tédio e onde o silêncio acaba sendo uma solução natural – praticamente não escutamos a voz do seu protagonista, em contrapartida a música é um elemento constante e que muitas vezes funciona como válvula de escape (incluindo em sua trilha sonora uma inusitada versão de “Talismã”, sucesso da dupla Sullivan e Massadas). O uso de “não-atores” torna ainda mais forte a jornada do casal, que culminará numa desalentada estadia nas ruas da metrópole, por motivos que não vale a pena aqui relatar, além de trazer questões sociais e culturais. O afeto, que brota à fórceps, torna esta uma das melhores histórias de amor já realizada pelo cinema. Prêmio Câmera D’Or em Cannes. Sugestão de Daniela Delias.


CINEMA VERITÉ (EUA, 2011)
Direção: Shari Springer Berman e Robert Pulcini

Filme produzido pela HBO sobre os bastidores da série televisiva An American Family, que foi ao ar em 1973 e acompanhava os passos dos Loud, uma típica família estadunidense, nos moldes do que hoje chamamos de reality show. Inspirado pelo cinema-verdade, o documentarista Craig Gilbert propôs à recém-criada TV pública uma “experiência em antropologia cultural”, mas em vez de mirar as lentes para culturas exóticas e distantes, a ideia era observar de perto a sociedade americana, o que resultou num imenso sucesso. Aos poucos, as máscaras da família perfeita caem diante das câmeras: um filho que se assume homossexual, outro que não quer perpetuar o negócio familiar, traições e um casamento desfeito. Alternando ficção com cenas reais, “Cinema Verité” tem Tim Robbins e Diane Lane em  bons momentos de suas carreiras. Massacrados pela opinião pública, a família Loud jamais seria a mesma, nem a maneira como assistimos à televisão.

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