Três grandes amigos morreram em momentos diferentes e em circunstancias diferentes, havendo em comum apenas uma espécie de enfado, um cansaço por levar a vida e não o contrário como apregoa animadamente o cancioneiro popular. Frequentemente sonho com eles (se eu fosse religioso faria uma oração ou encontraria algum tipo de significado místico), talvez seja somente saudade ou o meu subconsciente fazendo questão de avisar que a morte nunca esteve tão perto de mim. Sei que depois de morto todo mundo é sua melhor versão. Nas rodas de conversas são exaltadas somente suas qualidades, seu altruísmo, a mão amiga que ajudou quando você mais precisava. São contadas as histórias mais divertidas, quase anedotas (lembra daquela vez que...?!). Todos riem. Até alguém lamentar, próximo do murmúrio, que ele fará falta. E todos concordarem calados. Assim como Renato Russo em “Love In The Afternoon”, continuo me surpreendendo com pessoas boas que vão embora cedo demais, é inevitável. Evidentemente, não morrerei jovem, há muito perdi o acesso ao clube dos 27. No meu funeral também não existirá anedotas, causos curiosos ou exemplos de benevolência. No máximo alguém dirá que o defunto era um cara na dele, que nunca fez bem nem mal a ninguém. Poderia ser meu epitáfio.
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022
NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO XII
Assim como a publicação com AS PIORES CANÇÕES DE RAUL SEIXAS, outra postagem que despertou a sanha dos haters de clickbait foi OS PIORES VERSOS DE RENATO RUSSO, como se eu fosse o seu maior desafeto no planeta (mais uma brincadeira mal interpretada). Durante a juventude fui até presidente de fã-clube da Legião Urbana em Santo Amaro, pesquisando e acumulando qualquer material que se referisse à banda. Sendo assim, imaginei que pela listagem das músicas selecionadas, que incluía licenças pueris como “Benzina” e “Submissa”, estivesse evidente que não seria algo para ser levado a sério – muito menos ameaçar a integridade física do autor (ai, que medo). Passados quase dez anos da postagem original, aqui estou para elencar os versos que considero dignos de uma leitura sem a presença da canção e (por que não?) serem chamados de poesia.
Leia no volume máximo!
sexta-feira, 17 de maio de 2013
PODERIAM SER CRÔNICAS
(*) Nunca gostei de me resignar, me conformar, sempre gostei de fazer acontecer, de mover as peças do tabuleiro independentemente dos valores nos dados. Esperar não é algo que se pareça muito comigo, prefiro tentar, me arrepender, quebrar a cara. Costumo escutar as pessoas lamentarem, entre suspiros, adágios do tipo “o pouco com Deus é muito”, pode ser, sou um ateu que não duvida, mas o muito sem Deus continua sendo muito, não o contrário.
(*) Carpinejar escreveu no “Zero Hora” que quando ficou solteiro outra vez se decepcionou com o mundo, se sentiu amaldiçoado, raivoso com a falta de sorte, logo ele, que defendia a vida a dois, que alardeava como seu aforismo maior que liberdade na vida é ter alguém para se prender. Reclamava, ainda, que as suas roupas sujas não enchiam mais uma máquina de lavar, que a comida estragava na geladeira, que toda noite era fim melancólico de domingo. Esse sou eu.
terça-feira, 7 de maio de 2013
OS PIORES VERSOS DE RENATO RUSSO
BENZINA
Poderia ter poupado Renato Russo desse retrato do artista quando jovem, mas a partir do momento em que os Irmão$ Lemo$ e Dinho (e aí, moçadaaaa) Ouro-Preto chafurdaram o espólio do Aborto Elétrico para um projeto insosso, não tive como deixar essa pérola de fora. O engraçado é que quase trinta anos depois de ter sido escrita, constato que o rock feito no Brasil encaretou, já que no disco do Capital Inicial a música foi gravada sem a letra, com receio de ser considerada apologia às drogas, mas o mundo não perdeu grande coisa:
Eu e minha prima
Levei os 20 mangos
Pra comprar benzina”
DEPOIS DO COMEÇO
Dos fóruns online à mesa de bar, “Depois do Começo” é praticamente hors concours quando o assunto é música da Legião Urbana que você não gosta, seja porque ta mais pros Paralamas ou por causa do “Deus, somos todos ateus”. No encarte do disco “Que País é Este”, somos advertidos que a letra contém diversas mensagens codificadas e quem tentar decifrá-la encontrará mais coisas sobre si do que sobre a música. Bobagem. Raramente executada ao vivo, recentemente foi resgatada por Dado Villa-Lobos nos seus shows, numa espécie de lado B da sua antiga banda, como se a Legião Urbana tivesse algum lado B. Os fãs mais ardorosos comparam a letra a uma viagem lisérgica, meio “Lucy in the Sky with Diamonds”, outra bobagem. Na verdade, os versos são de um nonsense constrangedor: “cair como um saxofone na calçada”, “usar um extintor como lençol”, “jogar polo-aquático na cama”, não faltam opções para pior verso, mas me incomoda mesmo é o refrão que diz que depois do começo o que vier vai começar... Sic, sic, sic.
QUÍMICA
Em um cena retratada no filme “Somos Tão Jovens”, o baterista Fê Lemo$ ousa questionar a qualidade do trabalho do até então genial Manfredini Jr., o que bastou para o vocalista rodar a baiana e abandonar o barco de vez. Ironicamente, foi essa canção que levou a Legião Urbana ao Rio de Janeiro, após ter sido gravada no disco de estreia dos Paralamas do Sucesso. Propositadamente pueril, boba até, mas comparar a pressão da sociedade para o jovem se tornar um profissional bem sucedido com um campo de concentração da Alemanha nazista (o “Belsen tropical”) é forçar a barra.
SUBMISSA
O que o dinheiro não faz, “Química” não servia, mas essa “Submissa” serve, e nessa nem da pra reconhecer o cara que escreveu "Ainda é Cedo" no texto. Outra que os Irmão$ Lemo$ foram escarafunchar.
“Conheci uma garota submissa
Tudo o que eu mandava ela fazia
Tudo o que eu queria ela fazia
Tudo o que eu sonhava ela fazia”.
MAIS DO MESMO
Nunca, nunca mesmo, simpatizei com os versos iniciais de “Mais do Mesmo” (“Hey, menino branco/ o que você faz aqui?”), a sonoridade das palavras na canção, a ideia simplista sobre quem vende e quem consome drogas (algo que também me incomodou no primeiro “Tropa de Elite”), nada me agrada. E depois que você descobre que esses versos horríveis foram supostamente chupados de "I'm Waiting for the Man", do Velvet Underground, (“Hey, white boy, what you doin' uptown?”), a coisa piora ainda mais. Há quem diga que os doentes na enfermaria cantando sucessos populares é mais bizarro.
OS ANJOS
Se a postagem fosse sobre a pior música da Legião Urbana, não pensaria duas vezes, mas a letra também não fica pra trás, a impressão é que Renato pegou as sobras de “Perfeição”, requentou e fez esse prato. “Um tablete e meio de preguiça” ou “duas xícaras de indiferença?”. O gosto é do freguês.
MARCIANOS INVADEM A TERRA
“Cuidado com a coisa coisando por aí/
a coisa coisa sempre e também coisa por aqui”.
MAIS UMA VEZ
Tá bom, Renato Russo era fã declarado dos mineiros e pretendia gravar um disco só com canções do Clube da Esquina, certo. Mas isso não faz essa letra ser o que ela não é. Recomendo anotar cada verso em um pedacinho de papel, embrulhar, jogar para cima e sortear o pior verso. Autoajuda em letra de música é dose.
OUTRAS ESTAÇÕES
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
VINTE E NOVE
Mas será que essa regra vale para mim também?
Nasci no dia 29 de fevereiro de 1976 (se tudo der certo, hoje será a nona vez que comemoro meu aniversário). Ainda não descobri nenhuma vantagem em nascer em um ano bissexto, ser múltiplo do número 4 só faz aumentar minha solidão. Não tenho nada em minhas mãos, muito menos as rédeas do meu destino. Vivo preso ao passado e pouco espero do futuro. Se Saturno passou por mim, esqueceu de dizer um olá.
Talvez ele tenha deixado para passar por mim em 2092, no meu 29º aniversário, embora eu acredite que não viverei tanto para saber.
Às vezes eu acho que tenho realmente nove anos.
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
UM DIA PERFEITO
Casa da Noélia, 31 horas e meia atrás
Maurício põe John Coltrane pra rolar na vitrola. Escuto os primeiros chiados provocados pela agulha no vinil e me deleito numa espécie de transe. Meus movimentos parecem em câmera lenta. A luz cinza ajuda a criar o clima. A sala está cheia, mas só enxergo Maurício se aproximando. Ele me beija e com a ajuda da língua coloca em minha boca um comprimido. Mentir é muito fácil e Maurício faz isso muito bem. Prometo que acreditarei em suas mentiras esta noite -, ele sorri sem exibir os dentes. No bolso, encontro uma fotografia 3x4, mas não a saudade mais bonita. Deixo a foto ser pisoteada pelo chão. Em seguida, me entrego ao álcool e às bocas que me procuram, como se não houvesse outro dia, sem pensar .
Minha sede não tem fim.
Casa da Fernanda, meio-dia
Agora, o dia está realmente perfeito.
sexta-feira, 10 de junho de 2011
O DIA DOS NAMORADOS DE EDUARDO E MÔNICA
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Cindy e Dean |