segunda-feira, 28 de março de 2011

POEMA INÉDITO II

sem bússolas
sem mapas
sem rotas

pouco importa saber onde estou

o meu dia é feito de encruzilhadas
de tamburellos
de labirintos
desvios

nenhum acaso me guia

Herculano Neto

domingo, 13 de março de 2011

NÃO É DA SUA CONTA

 “Como Vai Você?”, de Mário Marcos e Antônio Marcos, é uma canção que sempre me incomodou. Gravada desde os anos 70 por diversos artistas da música brasileira, de Roberto Carlos a Daniela Mercury, de Nelson Gonçalves a Cauby Peixoto, vem, frequentemente, embalando os mais diversos romances e fossas. Mas ao contrário do que aparenta, não se trata necessariamente de uma “canção de amor”: sua melodia adocicada é acompanhada por uma letra extremamente egocêntrica, onde a primeira pessoa conduz e é a razão de ser do discurso. A pergunta do título, seguidamente repetida, não demonstra preocupação no bem estar alheio, é apenas uma possessiva curiosidade, típica de quem não aceita o fim do relacionamento, num tom contraditório e autoritário, a exigir satisfações:

como vai você?
EU PRECISO saber da sua vida

         Sem ter satisfeito seu desejo individualista, o narrador apela para outras artimanhas, como sugerir um portador para a informação requerida:


peça a alguém PRA ME CONTAR sobre o seu dia

          E ao acrescentar o advérbio “só” à frase EU PRECISO SABER, tenta esboçar alguma fragilidade, mas não convence:

Anoiteceu, e EU PRECISO SÓ SABER

         Até quando resolve qualificar o outro, o uso do pronome possessivo é recorrente, não estranharia se eles tivessem escrito um verso como o melhor de você sou eu:
razão de MINHA PAZ já esquecida
que já modificou A MINHA VIDA

         É quase cômica a falsa dúvida levantada, praticamente uma declaração de amor:
nem sei se gosto MAIS DE MIM ou de você

         Os argumentos para a reconciliação são ainda mais egoístas. Não há em nenhum momento interesse no conjunto. A felicidade do casal não existe, é tudo muito unilateral. Chego a imaginar que a musa da canção tenha sido uma boneca inflável:

Vem, que a sede de te amar ME FAZ MELHOR
EU QUERO amanhecer ao seu redor
PRECISO TANTO ME FAZER FELIZ

         “Como Vai Você?” não é uma canção para ser ouvida a dois, ela é opressora, mesquinha, masturbatória. Produto da vaidade de alguém que não sabe o que é amar, e nem o que é sofrer.

quinta-feira, 10 de março de 2011

DIVAGAÇÕES PÓS-CARNAVALESCAS

          Há não muito tempo, dizia-se,  maldosamente, que músico frustrado se tornava crítico musical. Com a mudança do conceito de música, como produto de consumo, isso também mudou um pouco. Hoje, toda celebridade, e candidato a celebridade, vira DJ: são atores da moda, participantes de realitys shows, filhos de cantores, modelos, playboys... De repente, parece que todo mundo saca seu pen drive do cinto de inutilidades e lança na pista seu playlist descolado – para fazer a alegria da jovem elite que conseguiu garantir sua entrada na boate  (ou no camarote) do momento.   
                    ***
          Durante a propaganda de “ofertas” das CASAS BAHIA, como se já não bastasse a narração vertiginosa, em ritmo alucinante, e as letrinhas ilegíveis aparecendo e desaparecendo do rodapé da tela, ainda tenho que escutar, repetidamente, o cacófato: “à visTA CADA”. Não é somente desagradável, dói.
                    ***
          Diz o adágio popular, que sábio é aquele que sabe ouvir, mas minha impaciência (e intolerância) deve ter deixado meus ouvidos mais sensíveis – e olha que nem estou falando dos famigerados hits do carnaval baiano. Tem gente que quando vem me dizer suas “novidades” nada entendo, é como se eu escutasse a professora dos Peanuts. Talvez seja a idade, ou simplesmente me dei conta de que meus ouvidos não são lixeira.

terça-feira, 1 de março de 2011

PORQUE NÃO POSSO SER AMIGO DO MÁGICO

           Não posso ser amigo do mágico, conheço seus truques, suas cartas marcadas, seus textos ensaiados, seus aparatos, até suas novidades. Não posso ser amigo do mágico, minha presença na plateia não o alegra, apenas o constrange, incomoda. Não posso ser amigo do mágico, o mágico não gosta de amigos, gosta de aplausos e da expressão de surpresa quase infantil. Não posso ser amigo do mágico, o mágico não me ludibria, não aguça minha curiosidade.
           (Há muitos “mágicos”, em outras áreas, que dispensam minha amizade).
           A vida é mágica, mágica é imprevisibilidade, mas o mágico é óbvio.
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