segunda-feira, 12 de setembro de 2022

NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO XVIII

Porque sou o meu próprio Mariozinho Rocha

Tenho absoluto fascínio por fitas K7, bem mais do que pelo vinil. Na juventude, além de serem acessíveis financeiramente, eu ainda podia produzir minhas próprias coletâneas (muito antes de Peter Quill ditar tendência com as suas mixtapes), com direito a capa e divididas por artistas, estilos e temas (estes últimos serviam para traduzir meu estado emocional no momento, acho que devo ter tido um box inteiro só com melancolia). Atualmente, com as possibilidades oferecidas pelos serviços de streaming, possuo algumas dezenas de playlists – o que, de alguma maneira, dialoga com o adolescente que fixava os dedos entre o play e o rec do gravador aguardando aquela canção tocar no rádio, feito um predador que espreita sua presa, e de quebra torcia para que não houvesse vinheta durante a execução e nem que o locutor interrompesse a faixa antes do seu final. Entre tantas playlists criadas, percebi que “Fade Into You”, da banda americana Mazzy Star, faz parte de várias delas, desde a da corrida na esteira, passando por enquanto bebo meu uísque a músicas para lembrar o passado vol. 2 e músicas para esquecer o passado vol. 6 – bem como a playlist com canções que me salvariam do Vecna.

I think it's strange you never knew.

terça-feira, 6 de setembro de 2022

SOCIAL DISTANCIAMENTO XXI

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda

 

(Agosto, 2022)

Recentemente, talvez nem tão recentemente assim, notei que havia sido bloqueado por (que eu conheça até agora) três contatos completamente diferentes nas redes sociais. Ah, lá vem ele outra vez com esse papo de inadequação aos novos tempos, que antigamente era melhor, etc. A verdade é que eu ainda me surpreendo e acho inusitado, quase engraçado. Será que o bloquear é a versão atualizada do “tô de mal”? Se é para colocar o “antigamente” como referência, pelo menos antes eu sabia o motivo, o que me permitia além de um pedido de desculpas (se fosse o caso) aprender com a falha e não repetir o erro – agora apenas descubro acidentalmente, como quem não quer nada. Mesmo sendo pouco afeito às interações tecnológicas, sei que existem mecanismos que restringem o acesso ao seu conteúdo e ao conteúdo de outrem que vão desde criar uma lista de amigos próximos, silenciar o contato ou até um simples unfollow se incomoda tanto. Mas refletindo melhor, provavelmente o deixar de seguir seja somente uma advertência, um recado. Quem para de seguir pode voltar em algum momento, nada impede que isso aconteça. Já o bloquear é determinante, é não querer realmente manter qualquer nível de relação com o bloqueado, é atravessar a rua do Instagram se avistá-lo de longe. Possivelmente se eu não fosse eu me bloquearia também, pra quê diabos manter conexão com alguém que não posta, não curte, não comenta e não compartilha nunca? Qual a parte da definição de redes sociais que esse indivíduo não compreendeu? Nem um coraçãozinho é capaz de dar. Presumo que eu deveria abandonar tudo o que estou fazendo nesse instante para aplicar um pente fino nas minhas redes sociais, buscar quem está ali de enfeite para simplesmente monitorar a vida alheia e bloquear sem dó. Onde já se viu uma coisa dessas?! Ficar de penduricalho entre os seguidores da pessoa.

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

CONTÉM SPOILER XIX

Aquele filme que eu te falei

Com ecos de “Escola de Rock”, Metal Lords é (com o perdão do clichê) uma grata surpresa no enfadonho catálogo da Netflix. O filme é uma das muitas produções que apelam para um público jovem adulto ávido por nostalgia, mas surpreende ao abordar o universo do heavy metal (com todos aqueles clássicos que fizeram a cabeça de muitos adolescentes nas últimas décadas na trilha sonora). Acredito que não tenha recebido a atenção merecida, o que é uma pena. Uma hora e meia de diversão descompromissada que não vai alterar o rumo da sua vida, talvez despertar aquele garoto que ia mudar o mundo e que ainda se emociona com riffs de guitarra (ou violoncelo).


quinta-feira, 11 de agosto de 2022

ENTRE A RUA DIREITA E A ESTRADA DOS CARROS II

 

Boa parte dos logradores da minha terra natal, Santo Amaro da Purificação, enaltece a memória dos seus barões e viscondes escravocratas – alusão a uma época em que a cidade era uma grande produtora de cana-de-açúcar (“gosto muito raro trago em mim por ti”). Entendo que essa tendência de revisão histórica, com a derrubada de símbolos e estátuas, não mudará tudo o que aconteceu, mas em um lugar essencialmente preto, com todos os riscos que corre essa gente morena, é no mínimo afrontoso ainda reverenciar essa caduca nobreza. Poucos anos antes da inevitável, e tardia, abolição da escravatura no país, fora criada a LIGA DA LAVOURA E DO COMÉRCIO DE SANTO AMARO, sociedade formada pelos senhores de engenho da região (nomes hoje conhecidos apenas por títulos de rua como Barão de Sergy, Ferreira Bandeira, Barão de Vila Viçosa, entre outros) que confrontava e questionava a libertação dos escravizados e enxergava a abolição como uma “ameaça”, conforme publicado no “Diário da Bahia” em julho de 1884. Acredito que o ideal seria um corajoso e necessário projeto de lei da Câmara Municipal para renomear todos esses locais, quem sabe até uma enquete popular para decidir as novas denominações. E se não fosse possível alterar, talvez por atávico conservadorismo, minha sugestão seria legendar as placas existentes como no exemplo abaixo:

Avenida Barão do Massapê
Fazendeiro, político e escravocrata

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

VIRADA DE PÁGINA XVII

Papel jornal, couché, off-set, polén, reciclado, kindle ou pdf

Dificilmente alguém não se imaginou revivendo a juventude com a cabeça atual, podendo fazer o que considera ser as escolhas certas, tendo maturidade para reagir a situações desconfortáveis que hoje seriam banais ou apenas se permitir um momento a mais com entes queridos. É essa oportunidade que Hiroshi Nakahara tem ao despertar nos seus 14 anos com a mentalidade e experiências do homem maduro de 48 anos que ele realmente é. Considerado por muitos o melhor mangá do japonês Jiro Taniguchi, UM BAIRRO DISTANTE possui bem mais camadas do que essa breve sinopse consegue oferecer. Nakahara retorna 34 anos no passado, semanas antes do desaparecimento do seu pai, um evento traumático para toda a família, compreender o que o levou a abandonar uma vida tranquila é a resposta que o protagonista precisa encontrar. Eu, nascido e criado nos comics e nas aventuras da Sessão da Tarde nos anos de 1980, fui desenvolvendo prematuramente uma solução (ah, só pode ser isso), mas fui surpreendido em suas últimas páginas. Confesso que não gostaria de regressar no tempo, um mero CTRL+Z não apagaria todas as minhas mágoas, reviver minhas dores novamente seria mais uma maldição do que uma dádiva. Melhor permanecer com as lembranças, mesmo que distorcidas.

quinta-feira, 21 de julho de 2022

SOCIAL DISTANCIAMENTO XX

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda

(Julho, 2022)

Publiquei em 2012 SALVADOR ABAIXO DE ZERO, um volume de breves contos sobre uma soterópolis suja, insalubre, nada solar, que não aparece no cartão-postal. Certamente, o trabalho que mais gostei de realizar, além de ter alcançado um resultado autoral satisfatório e com inesperada repercussão, simultaneamente me afastava daquela roupa de poeta que nunca me coube muito bem. Entusiasmado, decidi produzir contos de maior fôlego apresentando protagonistas absolutamente escrotos que, feito Marco Aurélio em “Vale Tudo”, escapavam impunes na conclusão. Eram agentes do antigo DOPS inconformados com os rumos do país, carlistas saudosos de um verão mais truculento, xenófobos, homofóbicos, conservadores hipócritas, neonazistas, feminicidas, milicianos, corruptores, entre outros elementos repulsivos. Apesar da temática, tudo era abordado com bastante humor ácido, crítico; parecia ser, naquele momento, uma continuação natural da obra anterior e não um prenúncio de tempos sombrios. A cada revisão e reorganização da ordem dos textos o conjunto ganhava um novo título, “EU NÃO SOU UM BOM LUGAR”, um empréstimo de uma canção dos Titãs, fora o que mais resistiu às impressões e encadernações na papelaria, sendo, inclusive, finalista de alguns prêmios literários – o que me iludiu ao ponto de esperar por “uma oportunidade melhor” de publicação, com isso fui protelando e consequentemente perdendo o trem da história. Na época, o cidadão que seria eleito democraticamente presidente em 2018 através do sistema de urnas eletrônicas não era alguém a ser levado a sério e os personagens nocivos do livro, para mim, eram apenas caricaturas, uma fotografia desbotada de um mundo que eu acreditava não existir mais. Quanta ingenuidade. Inicialmente o que era divertido foi no decorrer dos anos se tornando indigesto, talvez tenha sido melhor, realmente, não ter sido publicado, sabe lá como ele seria entendido na atualidade, se adequando conforme a narrativa mais conveniente, o que me obrigaria a sempre me justificar e justificar a obra. Enfim, taí um inédito na gaveta que não desejaria ver nas prateleiras, mesmo que aqueles vermes retratados retornem para as trevas algum dia. 

 

sexta-feira, 15 de julho de 2022

CONTÉM SPOILER XVIII

Aquela série que eu te falei 

Nunca tive essa urgência para consumir temporadas de série desesperadamente, maratonar títulos pela madrugada à base de café e Redbull, devorando o título do momento apenas para fugir dos famigerados spoilers, se manter antenado (ainda se diz “antenado”, Mr. Hype?) ou por mera manipulação do algoritmo. Na verdade, essa falsa sensação de liberdade, de poder assistir ao que quiser/quando quiser sempre me incomodou. Comprava boxes de DVD com as temporadas completas, mas só assistia a um episódio por dia, às vezes por semana. Sou da velha guarda, gosto de apreciar aos poucos, formular teorias enquanto o próximo episódio não é lançado (quase sinto falta dos intervalos comerciais também). “Mas você ainda pode fazer tudo isso”. E é o que tento fazer, mesmo que o aflitivo cronômetro do streaming teime por mais uma dose. 

sexta-feira, 8 de julho de 2022

NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO XVII

Porque sou o meu próprio Mariozinho Rocha

Tatuei o verso “But I am the greatest motherfucker/ That you'll ever gonna meet”, da canção GMF, do pianista islandês/americano John Grant, no meu braço – entre “You Can't Always Get What You Want” dos Stones e “To die by your side is such a heavenly way to die” dos Smiths. Engraçado que sempre saio de casa com algumas imagens na cabeça e uma pasta de prints no smartphone, de Peanuts a Hitchcock não me faltam ideias para tatuagens, mas fatalmente retorno com algum verso gravado na pele, como se meu corpo fosse um antigo caderno escolar onde anotava frases dispersas durante alguma aula desinteressante no Polivalente de Santo Amaro. 


quinta-feira, 30 de junho de 2022

VIRADA DE PÁGINA XVI

Papel jornal, couché, off-set, polén, reciclado, kindle ou pdf

Em uma Hollywood pós-Segunda Grande Guerra, repleta de intrigas, jogos de poder e corrupção, uma época em que simpatizantes do comunismo eram perseguidos e denunciados por seus próprios colegas da indústria cinematográfica, uma jovem atriz é misteriosamente assassinada levando um traumatizado roteirista a investigar o caso. Não, não confundi o título da coluna, e essa sinopse rasa não pertence a nenhum thriller noir dos anos de 1940. FADE OUT é uma premiada minissérie da dupla Ed Brubaker e Sean Phillips, uma espécie de Bebeto e Romário, Pelé e Coutinho, dos quadrinhos. Publicada aqui pela Editora Mino, em uma belíssima edição com 400 páginas, trazendo um pano de fundo histórico-político e uma galeria de excepcionais coadjuvantes vale, certamente, a leitura – e ao contrário de outras indicações, espero que não seja adaptada para série ou filme, nem mesmo pela HBO. Com o perdão do purismo, mas não consigo imaginar Fade Out em outro formato. 


segunda-feira, 20 de junho de 2022

SOCIAL DISTANCIAMENTO XIX

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda

 
(Junho, 2022)

Um dos maiores clichês de quem escreve é a síndrome da página em branco, aquele angustiante cursor piscando na tela implorando por palavras, mesmo que sejam seguidas de um arrependido “backspace”. Inúmeras e particulares são as justificativas: ausência de inspiração, se é que ela existe, de boas ideias, bloqueio criativo, excesso de autocrítica e enfado são as que mais escuto. Minhas páginas não estão em branco, há muitos arquivos aguardando um clique no “postar”. Receios, cansaços, saudades, incertezas, questionamentos, desagrados… os temas vão se repetindo em uma espiral de lamentações que mais se parecem importunos. Sou moldado pelo não gostar um instante além do que eu deveria, são minhas “senhas”, um “acho que não sei quem sou/ só sei do que não gosto” constante. Não pretendo ser um coach motivacional que faça as pessoas saírem do parágrafo mais dispostas do que quando entraram, distante disso. Mas admito que poupar a humanidade das minhas queixas é uma generosa contribuição para um mundo menos desesperançoso.

 

sexta-feira, 3 de junho de 2022

NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO XVI

Porque sou o meu próprio Mariozinho Rocha

O novo disco do multi-instrumenista americano Andrew Bird na vitrola e uma sexta-feira problemática começa a ganhar outros ares, por enquanto.

 

quinta-feira, 26 de maio de 2022

CONTÉM SPOILER XVII

Aquele filme que eu te falei

Pretendia elencar meus filmes preferidos baseados na obra de Stephen King (para a felicidade de admiradores e detratores), mas fatalmente cairia na tríade O Iluminado, Carrie e Conta Comigo no topo – e fazer uma lista diferentona exclusivamente para ser o diferente é muito juvenil para os meus cabelos brancos. No entanto, consigo afirmar que o controverso O NEVOEIRO (2007) estaria nessa listagem. Inspirado em um conto do autor, que imaginava a trama como se fosse um sci-fi B dos anos 50/60, seguimos pai e filho em uma ida ao supermercado para adquirir suprimentos após uma noite tempestuosa, porém são surpreendidos por uma estranha névoa e terminam isolados no estabelecimento na companhia de outras pessoas. Mais simples, impossível. Dirigido pelo francês Frank Darabont, que já havia adaptado com sucesso dois dramas de King, À Espera de um Milagre e Um Sonho de Liberdade, envereda aqui pelo gênero característico do escritor. Com elementos lovecraftianos e referência a O Anjo Exterminador e Alfred Hitchcock, principalmente Os Pássaros (por um momento acreditei que a conclusão seria semelhante) nos expõe o que há de pior no ser humano, sem dúvida o verdadeiro monstro da história. Se os efeitos visuais não envelheceram muito bem, seu texto dialoga assustadoramente com os nossos dias: negacionismo, fanatismo religioso, intolerância, ira, egocentrismo, arrogância, vaidade, manipulação... Ao contrário do título irônico da coluna, posso dizer, simplesmente, que o final é um dos mais desoladores e perturbadores do cinema.


terça-feira, 17 de maio de 2022

SOCIAL DISTANCIAMENTO XVIII

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda

(Maio, 2022)
 
Minha última publicação foi a antologia OUTRO LIVRO NA ESTANTE, contos baseados em canções de Raul Seixas, que organizei em 2015 sob pretexto de alguma efeméride que no momento me escapa. A experiência de atuar como produtor, divulgador, revisor, editor, conciliador e outras funções que não aparecem na ficha técnica foi extremamente cansativa, lidar com a vaidade e a idiossincrasia de uma dúzia de escritores, além daqueles escrevinhadores que mesmo não participando do projeto faziam questão de menosprezar um quinhão, me drenou sobremaneira também, tanto que após o lançamento passei a repetir, até a quem não perguntasse, que havia me aposentado da literatura – o que não deixa de ser verdade, pois desde lá não publiquei mais nada e não tenho interesse. Para produzir a coletânea, tive que violentar minha principal característica, meu epíteto, meu ponto de referência, que é a minha timidez. Em muitas etapas do processo, precisei me sabotar, me anular, para continuar prosseguindo, e isso me custou bastante. Você que leu até aqui pode questionar com merecido desdém: mas alguém te obrigou a fazer? A resposta é não, mas era algo que eu necessitava descobrir. Consequentemente, acabei abandonando o que eu imaginei que se constituiria numa série e abordaria a obra de artistas como Rita Lee, Sérgio Sampaio e Caetano Veloso (para este último já havia inclusive título, seleção de músicas e possíveis autores convidados). Quem sabe uma variante minha tenha persistido.

 

quarta-feira, 11 de maio de 2022

VIRADA DE PÁGINA XV

Papel jornal, couché, off-set, polén, reciclado, kindle ou pdf

Meu Amigo Dahmer” é uma graphic novel autobiográfica do quadrinista Derf Backderf sobre sua amizade/relação com um dos mais conhecidos serial killers da história, Jeffrey Dahmer, durante o ensino médio. Um relato honesto que, ao mesmo tempo que humaniza, não deixa de apontar o tempo inteiro para o que ele se tornaria brevemente, um desconfortável spoiler que nos acompanhará por toda leitura. O que mais impressiona é que todos os sinais já estavam claros, expostos para quem se dispusesse a enxergar, no entanto, talvez por conveniência, eram absolutamente ignorados. Jeffrey não era aquele tipo de psicopata que nenhuma pessoa poderia imaginar no que se transformaria. Era possível imaginar sim, e essa é a maior indignação que nos atinge no decorrer das páginas: por que ninguém fez nada? Chega a lembrar It, de Stephen King, romance de terror em que os adultos não se importam com o que acontece com as crianças, só que aqui não era ficção. "Meu Amigo Dahmer” ganhou uma versão cinematográfica em 2017, intitulada no Brasil “O Despertar de um Assassino”, mas prefira a HQ. 


domingo, 8 de maio de 2022

NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO XV

Porque sou o meu próprio Mariozinho Rocha

Dreampop é um gênero derivado do rock alternativo oitentista. Não poderia haver denominação melhor: é como se os anos de 1980 nunca tivessem acabado. 



quinta-feira, 28 de abril de 2022

SOCIAL DISTANCIAMENTO XVII

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda

(Abril, 2022)

Voltei a postar no blogue em abril de 2021. Escrever em um blogue novamente, e usando uma linguagem bastante informal, como se fosse realmente um diário ou uma nota perdida numa velha agenda, foi a maneira mais óbvia, e fácil, que o que restou de mim encontrou para tentar sobreviver à pandemia – tão óbvia que frequentemente penso que deveria ter retomado antes, teria me poupado de alguns desastres e tarjas-pretas. Fiquei tanto tempo afastado que ninguém próximo se deu conta que retornei, nem antigos leitores, amigos, familiares, curiosos, haters... ninguém (o que me deixa, inclusive, mais à vontade, saber que haveria alguém na caixa de comentários, às vezes era agradável; noutras, desconfortável). Um ano depois, e pelo número de acessos diários, concluo que não estou sozinho aqui. Provavelmente, náufragos trazidos por alguma conjunção aleatória do buscador.


quarta-feira, 20 de abril de 2022

CONTÉM SPOILER XVI

Aquele filme que eu te falei 

Acredito que todo mundo que se diz (ou dizem que é) cinéfilo, frequentemente é abordado sobre dicas de filmes e séries, preferencialmente “recentes e legais”. Há uma espécie de responsabilidade nessas sugestões, é preciso avaliar o tipo de produto e público para recomendar algo que melhor se adéque ao perfil e não simplesmente prescrever a última produção assistida, a que está mais ativa na memória, ao alcance da mão na gaveta das lembranças. Resumindo: ser mais caloroso e menos impessoal que o  arrogante algoritmo do streaming. Sei que deveria ser natural e não causar surpresa nenhuma, mas em um desses pedidos, me dei conta que estava indicando apenas obras protagonizadas por mulheres. Já citei nesta coluna Penélope Cruz em “Madres Paralelas”, Olivia Colman em “A Filha Perdida” e Kate Winslet na premiadíssima minissérie “Mare of Easttown”; poderia ter escrito também sobre Alana Haim em "Licorice Pizza", Elisabeth Moss em “The Handmaid’s Tale”, Phoebe Waller-Bridge em "Fleabag" ou a norueguesa Renate Reinsve em “A Pior Pessoa do Mundo”  –  para ficar nas que vêm mais fácil à cabeça. Certamente não é mera coincidência ou uma polaroid de um momento, talvez seja uma bem-vinda mudança de paradigma. Longe de príncipes encantados, souvenir de desejo ou interesse romântico do mocinho, vejo cada vez mais atrizes em papéis e interpretações notáveis. E que continue assim. Minha lista de recomendações agradece.


quarta-feira, 13 de abril de 2022

VIRADA DE PÁGINA XIV

Papel jornal, couché, off-set, polén, reciclado, kindle ou pdf

 
Não sou nenhum sommelier de papel, nem pretendo, sequer consigo especificar o tipo ou a gramatura, tudo que me permito afirmar é se o papel é bom ou se não é tão bom, um leigo declarado e sem remorsos. Quem foi catequizado nos formatinhos de papel jornal grampeados numa lombada canoa não pode reclamar da sofisticação atual disponibilizada pelo mercado. Capa dura, sobrecapa, lombada arrendondada, ondulada, verniz localizado, grimório, omnibus, absolute, edição definitiva, corte trilateral, soft touch, fitilho marcador… Ufa, o cardápio é extenso. Mas enquanto as editoras oferecem cada vez mais luxo nesses tais objetos transcendentes, um capa cartão, com preço acessível, já é mais do que suficiente para me fazer feliz. 


terça-feira, 5 de abril de 2022

SOCIAL DISTANCIAMENTO XVI

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda


(Março, 2022)

Não costumo perguntar por alguém que não vejo há tempos. Sei que é bem mais que uma regra de etiqueta, é um gesto cortês, empático, delicado até; porém, não consigo. Tenho receio de ouvir em troca um “você não soube?” – “você não soube?”, para mim, é o preâmbulo da tragédia. Há quem possa, com todo direito, contra-argumentar que se trata de uma mera questão retórica, uma muleta linguística, que o meu receio, além de paranóico, é banal. “Você não soube?” pode servir para anunciar uma notícia boa, algo como ele recebeu uma proposta de emprego em outra cidade e precisou se mudar, tipo de informação que eu saberia se fosse mais assíduo e curioso em redes sociais, mas continuo achando melhor não arriscar. Por outro lado, “Você não soube?” pode servir, também, para anunciar uma notícia que não saberia interpretar de supetão se é boa ou ruim, algo como “separamos” – o que me deixaria confuso, sem saber se lamento ou felicito. Não me importo que me acusem de deselegante, mal educado, que falem “encontrei Herculano e nem perguntou por você'. Amigo, acredite que eu pensei, ensaiei, esbocei, quase perguntei, no entanto desisti no último momento apenas para não escutar um “você não soube?” e aguardar apreensivamente, durante infinitos milésimos de segundo, por uma resposta que me aliviaria ou me afundaria ainda mais na calçada.

sexta-feira, 1 de abril de 2022

NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO XIV

Porque sou o meu próprio Mariozinho Rocha

Acho que faz parte do imaginário de boa parte dos fãs de classic rock ter presenciado o Festival de Woodstock e inalado aqueles dias de flower-power – fascínio absolutamente justificável. No entanto, naquele mesmo verão de 1969, em Nova York, cerca de trezentas mil pessoas acompanharam outro evento. Sem tanta popularidade e praticamente esquecido da história por décadas, o Harlem Cultural Festival, brilhantemente documentado no filme Summer of Soul (...ou, Quando a Revolução Não Pôde Ser Televisionada), muito mais politizado que seu colega afamado, trazia um line-up formado por artistas negros se apresentando para um público majoritariamente negro. Com uma programação que reunia Stevie Wonder, B.B. King, Nina Simone, Mahalia Jackson, Chambers Brothers, Sly & the Family Stone, Chuck Jackson, The 5th Dimension, David Ruffin, Hugh Masakela, Gladys Knight & the Pips, entre outros. Analisando agora, já não sei dizer em qual dos festivais gostaria de ter participado. 


sábado, 26 de março de 2022

CONTÉM SPOILER XV

Aquele filme que eu te falei

 

Temporada do Oscar era época de maratonar os principais títulos, fazer bolão, divulgar palpites com os que “eu acho” e os que “eu gostaria”, realizar apostas com os amigos, contestar os indicados como se fossem os convocados da seleção era quase uma Copa do Mundo. Gradativamente, tenho dado cada vez menos atenção, talvez por entender melhor os meandros da indústria cinematográfica e os seus mecanismos fui me tornando menos ingênuo e, consequentemente, menos interessado (um tanto indiferente). Amanhã haverá uma nova premiação. Deixarei para avaliar os incensados, os injustiçados e as surpresas no dia seguinte, apenas para confirmar que teria fracassado em mais um bolão.

domingo, 20 de março de 2022

SOCIAL DISTANCIAMENTO XV

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda

(Fevereiro, 2022)

Estou aqui há vinte anos, criei o primeiro blog em 2002 no portal da IG; em 2004 migrei para o UOL e o seu zip.net, onde tive também um fotolog – espécie de antepassado do Instagram; e desde 2008  estou no Blogger. Essa cronologia não serve para muita coisa, apenas para confirmar que o tempo voa, amor, escorre pelas mãos. Portanto, não estranho quem classifica o blog como vintage, retrô ou divã de boomer (ainda dizem “cringe”?) nem fantasio que em algum momento ocorrerá fenômeno semelhante ao do vinil – não mesmo (embora eu acredite que esteja mais para cool do que kitsch, ao contrário do Feicebuque que tem envelhecido muito mal). Já é possível, inclusive, tecer comentários saudosistas rememorando uma época em que havia blogs destinados aos mais diversos assuntos, informativos e com bastante interação e repercussão, porém sem o ranço bélico das redes sociais. Agora isso aqui não passa de um cemitério de jazigos abandonados esperando por esporádicas visitas. Às vezes me sinto solitário como Wall-E trafegando pelo ferro-velho.  


domingo, 13 de março de 2022

VIRADA DE PÁGINA XIII

Papel jornal, couché, off-set, polén, reciclado, kindle ou pdf

Conheci Iznogoud através da animação (que transformava o califa em sultão na versão brasileira) exibida durante as manhãs em algum ponto nebuloso dos anos de 1990. Iznogoud era um grão-vizir que tentava de todas as maneiras usurpar o trono, uma espécie de golpista sonhando com impeachment. Criado em 1962 pelos franceses René Goscinny e Jean Tabary, não teve muitas obras publicadas no Brasil. Escrevi sobre o personagem no inverno de 2009 AQUI, na época, acreditara que havia alguns “iznogouds” no meu caminho, que tolice. Excesso de vaidade, mania de perseguição, deslumbramento, egoísmo… talvez um pouco de cada somada à minha imaturidade naqueles dias. Estupefato, hoje me pergunto como é que alguém poderia mirar a minha vida e dizer: eu quero ser sultão no lugar do sultão!

terça-feira, 8 de março de 2022

NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO XIII

Porque sou o meu próprio Mariozinho Rocha

No começo dos anos de 1980, praticamente todos os lares de Santo Amaro possuíam uma cópia do LP “CAVALO DE PAU”, de Alceu Valença – pelo menos todas as casas que eu frequentava ou que minha memória da infância permite lembrar. Possivelmente estimulado pelos sucessos “Tropicana” e “Como dois Animais”. No entanto, a canção que me inquietava era a faixa título, com uma formação mais enxuta, apenas baixo/bateria/guitarra/piano, em um arranjo minimalista muito mais próximo do experimentalismo do rock do que dos ritmos regionais que caracterizavam o álbum, culminando em um Alceu, a plenos pulmões, vociferando sua letra. Era um som que, naquele contexto, causava inevitável estranheza. Curiosamente, seus versos só começaram a me trazer real significado após vários anos, depois que vim parar na capital. Quando, aos poucos, fui desconhecendo aquele menino do interior em mim e, irremediavelmente, deixando a minha inocência para trás – talvez o bem mais precioso que perdi na vida. Por mais que eu insistisse em procurá-la, esquecida na mala/em um canto dos olhos, sabia que jamais a reencontraria novamente. Minha inocência era como aquele cavalo de pau que se torna arisco, indomável, que me derruba, que me nega, determinando que agora era tempo de caminhar sozinho.

(Publicado originalmente em agosto de 2010)

 


 

quarta-feira, 2 de março de 2022

SOCIAL DISTANCIAMENTO XIV

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda


(Janeiro, 2022)

Ainda utilizar uma ferramenta paleolítica como o blogue, tão rudimentar quanto um livro, em pleno 2022, o primeiro ano do resto de nossas vidas, escrevendo o que quiser/ quando quiser/ para quem quiser ler, sem se desassossegar com engajamento/ monetização/ patrocinadores/ trending topics/ cancelamentos, em um mundo onde tudo precisa acontecer e deixar de existir em meros quinze segundos, é um oásis no caos, um alívio necessário. 


quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

CONTÉM SPOILER XIV

Aquele filme que eu te falei

Queria iniciar o texto qualificando as mães de Almodóvar, um adjetivo apenas, algo que pudesse sintetizar esse universo tão explorado pelo cineasta em sua obra (cativantes, exageradas, dramáticas, trágicas, passionais, divertidas, corajosas, fortes, inquietantes, arrebatadoras, coloridas), são muitas as possibilidades, mas nenhuma satisfatória. Um termo que convidasse o leitor a seguir naturalmente pela crônica até ao seu final, uma palavra que fosse retomada na conclusão criando uma espécie de efeito estético, cíclico – um truque barato e que ainda funciona. Mas não encontrei. Em “MADRES PARALELAS” ele nos apresenta a várias: desde a mãe que deixa a filha para cuidar da carreira como atriz às mães que criaram sozinhas os seus filhos após os maridos serem assassinados covardemente durante a guerra civil espanhola. E no meio de tudo isso uma Penélope Cruz, mais madura em seu ofício, alinhavando esse misto de melodrama (no melhor sentido) com manifesto político. Inteiras. Acho que encontrei a palavra que eu precisava.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

CONTÉM SPOILER XIII

Aquele filme que eu te falei

Não condeno quem decide não ter filhos, muito menos que isso seja um ato egoísta ou que vá contra algum mandamento divino. Na verdade, considero um posicionamento corajoso, nobre. Colocar uma criança, deliberadamente, nesse mundo está muito mais próximo da maldade do que do amor. Que se dane o que espera a sociedade e a família de um casal, roteirizando a vida a dois num final de novela das seis. Romantizar a maternidade/paternidade é um engano, como se procriar fosse trivial como brincar de casa de bonecas. O Google me informa que foi o escritor Coelho Neto quem disse que “ser mãe é padecer no paraíso”. A frase, extremamente repetida e parodiada, costuma ser enfatizada nesse tal “paraíso”, morada celestial e inalcançável, com pouco destaque para o “padecer”. Em “A Filha Perdida” (The Lost Daughter, 2021), Leda, interpretada esplendidamente pela britânica Olivia Colman, ao ser questionada como foi ter abandonado as duas filhas pequenas, simplesmente revela: maravilhoso – em um misto de dor e alegria. Um conflito sincero e carente de julgamentos, em uma das melhores atuações dos últimos anos, seguramente. Por mais incômoda que possa parecer, sua resposta não poderia ser mais honesta.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

VIRADA DE PÁGINA XII

Papel jornal, couché, off-set, polén, reciclado, kindle ou pdf

Houve uma época em que eu costumava me designar como escritor, ao ser apresentado a  amigos de amigos ou ao preencher algum formulário, pouco importava, assim eu compreendia quem eu era – o que levava muitas pessoas a me inquirir sobre qual seria meu "trabalho de verdade", como se escrever não fosse profissão. Para a prosa não render, há algum tempo me identifico, meramente, como um reles barnabé. Por outro lado, quando esbarro com executivos, bancários, ratos de repartição ou workaholics em geral me atrevo a perguntar: e quem você realmente queria ser? A intenção não é ser desmancha-prazeres nem guru (des)motivacional de ninguém, de coach de autoajuda o planeta tá infestado, apenas confirmar que muitos músicos, pintores, estilistas, artesãos que por suposta segurança financeira ou pressão social vão adiando seus sonhos, deixando para “depois”, um “depois” que parece não ter data para acontecer. Contradizendo o Clube da Esquina, sonhos envelhecem. 

DUAS VIDAS, do francês Fabien Toulmé, parte de uma premissa aparentemente simples, um jovem advogado descobre ter câncer terminal e é impulsionado pelo irmão a aproveitar o que ainda lhe resta de vida fazendo o que sempre desejou e não teve coragem, uma jornada comovente que desembocará em um bem construído plot twist despertando reflexões que se prolongarão após o término da leitura. A HQ abre com uma célebre citação de Confúcio que diz que temos duas vidas, mas a segunda começa quando percebemos que só temos uma. Recordo de uma música de Raul e Cláudio Roberto e de repente me dou conta, com inevitável desalento, que posso ter me tornado o personagem daquela canção.

 

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO XII

Porque sou o meu próprio Mariozinho Rocha

Assim como a publicação com AS PIORES CANÇÕES DE RAUL SEIXAS, outra postagem que despertou a sanha dos haters de clickbait foi OS PIORES VERSOS DE RENATO RUSSO, como se eu fosse o seu maior desafeto no planeta (mais uma brincadeira mal interpretada). Durante a juventude fui até presidente de fã-clube da Legião Urbana em Santo Amaro, pesquisando e acumulando qualquer material que se referisse à banda. Sendo assim, imaginei que pela listagem das músicas selecionadas, que incluía licenças pueris como “Benzina” e “Submissa”, estivesse evidente que não seria algo para ser levado a sério – muito menos ameaçar a integridade física do autor (ai, que medo). Passados quase dez anos da postagem original, aqui estou para elencar os versos que considero dignos de uma leitura sem a presença da canção e (por que não?) serem chamados de poesia.

Leia no volume máximo!


segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

SOCIAL DISTANCIAMENTO XIII

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda

(Dezembro, 2021)

De tudo que é pregado nas mais diversas crenças, o que mais me aterroriza é o conceito de vida eterna, para mim é angustiante a ideia de viver para sempre, como se eu fosse Mumm-Ra, o de vida eterna! Viver o agora já é um fardo difícil de suportar. Saber que não existe nada é o que me dá força para continuar caminhando. Acreditar que apenas a morte é eterna me consola, é a minha fé. Quando revelo que não possuo religião, algo que deveria ser visto com naturalidade, imediatamente me veem como a encarnação do anticristo na Terra, as pessoas se assustam e afirmam que isso não é possível, desdenham ou passam a tentar comprovar a importância de deus-krishna-oxalá-kardec-acaso para o indivíduo  que maçada. Já fui mais complacente, hoje não tenho muita tolerância com catequismos (talvez seja efeito colateral da idade), a fim de evitar deselegâncias sociais da minha parte, procuro evitar o tema. No entanto, para quem ainda insiste em não compreender, posso confessar, simplesmente, que um belo dia tive uma iluminação e desde então encontrei a paz.

Feliz Natal. 


quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

CONTÉM SPOILER XII

Aquele filme que eu te falei 


Hoje é o Dia da Marmota. Hoje também é dia de festa no mar e dia de Nossa Senhora da Purificação, padroeira do meu torrão natal, mas o Dia da Marmota é mais importante. Segundo a tradição de uma pequena cidade estadunidense, na manhã de dois de fevereiro as pessoas devem observar uma toca de marmota, caso ela saia com o tempo nublado indica que o inverno terminará cedo, porém se o dia estiver ensolarado e o animal se assustar com a própria sombra e retornar para a toca, é sinal de que o inverno durará mais seis semanas. Esse evento célebre, para a  incredulidade de muitos, atrai milhares de turistas todos os anos. Em o FEITIÇO DO TEMPO (Groundhog Day, 1993), Bill Murray é um repórter cínico e intolerante que anuncia as previsões meteorológicas em um canal de TV, que para sua contrariedade é encarregado de fazer uma matéria sobre o encabulado roedor. No entanto, ele desperta sempre no mesmo dia e é obrigado a experienciar tudo novamente até encontrar sua fabular redenção. Também queria acordar no mesmo dia e vivenciar minha existência igual de maneira diferente. Queria cometer outros erros, ter outras dúvidas e temores – ou como Humberto Gessinger, erraria tudo exatamente igual. No entanto, acho que estou cada vez mais parecido com a marmota, me assustando com a minha própria sombra e vivendo um inverno que parece não ter fim.
 
(Publicado originalmente em fevereiro de 2012) 
 


domingo, 30 de janeiro de 2022

VIRADA DE PÁGINA XI

Papel jornal, couché, off-set, polén, reciclado, kindle ou pdf

Sabia da existência, porém nunca tinha dado a merecida atenção aos gibitúberes que fazem a leitura das HQs na Internet como voluntários em um grupo de apoio, para mim era absolutamente indiferente. No entanto, recentemente, tenho notado o crescente número de canais que prestam esse serviço essencial de acessibilidade. Substituir a leitura, a experiência entre o texto e arte, pela voz insípida de alguém lendo enquanto folheia as páginas é sensacional. É praticamente a atualização das rádios novelas que minha vó tanto apreciava. Por que cargas d’água ninguém pensara nisso antes? Com o preço abusivo das publicações praticado pelas editoras no Brasil como poderíamos participar do hype do momento se não fosse por esses abnegados caçadores de laiques? Sempre é bom lembrar que nem todo herói usa capa. Não tenho receio de afirmar que essa é a maior criação desde o scan em pdf, afinal por que baixar ilegalmente e ter o desconforto de ler se basta apertar o play? E em 2X. Acho que deixarei de ler quadrinhos também e quem sabe até me tornar um gibituber monetizado sorrindo numa thumb maneira.

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

SOCIAL DISTANCIAMENTO XII

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda

(Outubro, 2021)

Caetano Veloso costuma dizer que não queria ter saído de Santo Amaro, é natural duvidar dele. Para quem é obrigado, pelas circunstâncias, a sair do interior sabe que essa frase é impregnada de verdades. Do mesmo modo eu não queria de ter saído, mas todas as minhas tentativas de ficar deram n’água. História semelhante se repetiu com meus amigos, praticamente todos partiram também. Há os que conseguiram permanecer (ou não conseguiram sair). Acredito que ficar seja mais doloroso do que ir embora, caminhar pelas ruas em que morávamos, lugares em que nos encontrávamos, e saber que não estaremos ali, apenas lembranças como fantasmas tentando nos assombrar, não deve ser fácil. Minhas escolhas acabaram me levando para longe da cidade, gosto de imaginar que em uma realidade alternativa, onde fiz outras escolhas na vida, eu ainda more lá.



(Novembro, 2021)

Grupos de aplicativos de conversas não aproximam ninguém, neles eu sinto meus conhecidos cada vez mais estranhos, cada vez mais distantes. Quase todas as minhas amizades pertencem à minha infância/juventude, poucas pessoas, muito poucas realmente, conseguiram furar essa bolha. Algumas, inclusive, já começaram a morrer. Temo ter entrado em uma fase da existência que seja comum ir a funerais, uma fase feita mais de despedidas do que reencontros. 

 

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO XI

Porque sou o meu próprio Mariozinho Rocha

Outra questão banal comumente abordada é qual o seu beatle preferido (em um modo avançado de conversação a trivialidade pode avançar para qual seria o seu álbum preferido dos Beatles), minha resposta sempre foi George Harrison – não consigo recordar se algum dia foi os óculos do John ou o olhar do Paul –, me identificava com seu jeito mais retraído, sua elegância como músico, suas composições e vocais. Uma resposta provável também poderia ser o boa-praça Ringo Starr, mas esse eu deixo para Marge Simpson. Após assistir à série documental “The Beatles: Get Back” minha admiração por George apenas aumentou. É fascinante a genialidade obsessiva de McCartney buscando, e alcançando, resultados espetaculares – beira o surreal. E o que dizer da participação mágica (não, não encontrei outra palavra) do pianista Billy Preston? No entanto, a maneira como Harrison é tratado por seus companheiros de banda e a forma extrema que ele é obrigado a lidar com a situação somente reafirmou meu carinho por ele.

“I Me Mine”

***

Ah, e se o Quiz prosseguisse para qual único disco eu levaria para uma ilha deserta, certamente seria “All Things Must Pass” – a escolha de um vinil triplo seria trapacear?

 


quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

CONTÉM SPOILER XI

Aquele filme que eu te falei

 

Desde que vi “007 a Serviço Secreto de Sua Majestade” (On Her Majesty's Secret Service, 1969), George Lazenby se tornou minha usual resposta para a questão sobre qual seria meu James Bond preferido. Lazenby teve a incumbência de substituir Sean Connery e terminou protagonizando apenas um longa-metragem como o espião inglês. Não é incomum em matérias sobre 007 o seu nome sequer ser lembrado. Minha preferência tinha aparência de contrariar apenas para não ser igual, mas eu realmente gostava bastante do filme – ainda o meu favorito. Hoje eu sei que é cultuado por vários admiradores da série. O ator australiano incorporou um personagem que se aproximava da criação de Ian Fleming, um agente secreto em início de carreira, muitas vezes inseguro, passível de erros, mais humano e verossímil – uma versão bem diferente da deixada por seu antecessor. Em determinado momento ele chega a quebrar a quarta parede para nos dizer, ironicamente, que isso jamais aconteceria com o outro cara. A conclusão do filme é surpreendente e perturbadora, com sua amada sendo assassinada na estrada logo após se casarem, interrompendo abruptamente o que caminhava para um final feliz. Essa cena é aludida no mais recente título da franquia, “Sem Tempo Para Morrer” (No Time to Die, 2021), com o Bond de Daniel Craig dirigindo pela costa da Itália ao lado de Madeleine (Léa Seydoux), e com a belissíma “We Have All the Time in the World”, tema da obra de 1969, sendo referenciada no diálogo e em um arranjo instrumental no começo do filme – prenunciando, para os mais atentos, que esse romance também poderia não acabar bem. Nos créditos finais a canção retorna, dessa vez em sua versão original com a emocionante interpretação de Louis Armstrong, já debilitado devido a problemas renais e cardíacos. Não poderia haver melhor composição para simbolizar uma despedida.


segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

SOCIAL DISTANCIAMENTO XI

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda


(Julho, 2021)

Há coisas que implico de graça, idiossincrasias que fazem de mim esse velho casmurro sem par nem futuro. Já superei o “gratidão” no lugar do “obrigado”, apenas não utilizo. No entanto, creio que dificilmente poderei superar o “já deu tudo certo”, uma espécie de spoiler dos males momentâneos, uma frase mágica mais eficaz que Dipirona. É possível que essa implicância seja reflexo da minha ausência de religiosidade, não tenho certeza, mas não me diga isso.



(Agosto, 2021)

Há coisas que implico com algum custo, não comemorar aniversários e ainda assim ter que ser gentil com quem vem me parabenizar já faz parte do pacote que me aguarda anualmente, não contesto. Possuo sentenças padronizadas de agradecimento que distribuo no piloto automático. Recentemente deram para me felicitar com um tal de “feliz novo ciclo que se inicia”, com pequenas variações. Não sei bem o que isso significa, para essa frase ainda não tenho respostas prontas. Só sei que o mundo seria perfeito se a cada 365 dias fôssemos restaurados, reinicializados ou simplesmente atualizados e um novo ciclo realmente começasse.



(Setembro, 2021)

Há coisas que implico com muito custo, ser avaliado pelo número de seguidores nas redes sociais é uma delas. Vejo na programação das feiras literárias autores que são saudados por possuírem mais de um milhão de seguidores no Instagram, seguidores é a nova forma de medir um best-seller. Fenômeno semelhante ocorre nos programas de auditórios na TV (sim, eles ainda existem), quando uma atração é celebrada pelo número de visualizações no YouTube e não por discos vendidos (sim, eles também ainda existem). Já disse que sou um velho casmurro, algumas coisas me escapam, confesso; outras, deixo escapar. 


terça-feira, 4 de janeiro de 2022

VIRADA DE PÁGINA X

Papel jornal, couché, off-set, polén, reciclado, kindle ou pdf

Em uma manhã, numa banca de jornais – um hábito cultivado desde a infância que infortunadamente se dissipou –, me deparei com uma revista do Homem-Aranha Superior em que o  corpo do herói era “habitado” por Otto Octavius, um dos seus maiores inimigos. Minha primeira reação foi maldizer contra quem escrevera aquele disparate, é possível também que eu tenha expressado aos ouvidos do jornaleiro um retórico “onde vamos parar”. Alguns anos adiante, mais maduro e menos adepto do “não li e não gostei”, quando as edições foram encadernadas e relançadas, resolvi dar uma chance para a tal série aracnídea – não oculto que o cupom promocional ajudou a tomar essa decisão. E não é que tive que dar o braço a torcer, quando, finalmente, entendi a definição do “superior” no título. Eu que já vinha descontente com o Aranha e o seu exagerado código moral, chegando ao ponto de não salvar o mundo (eu disse: NÃO SALVAR O MUNDO), como vimos na saga “Ilha das Aranhas”, por exemplo; encontrei na publicação tudo que esperávamos, e sabíamos, que Peter Parker poderia realizar. Na pele do seu nêmesis, Otto conseguiu um doutorado, criou uma empresa de tecnologia avançada, se tornou respeitado até mesmo pelo prefeito de NY, ninguém menos do que John Jonah Jameson. Em combate passou a ser mais objetivo, pra não dizer violento, com pouco tempo para piadinhas e fazendo uso prático dos seus avanços tecnológicos. Aprecio, inclusive, seu interesse amoroso, a jovem cientista Anna Maria Marconi, alguém diametralmente distante do estereótipo de supermodelo. Há quem, como eu naquela manhã, deteste essa fase do Cabeça de Teia, talvez falte apenas a boa vontade de dar uma chance ou uma oferta imperdível na Amazon.

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