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segunda-feira, 20 de junho de 2022

SOCIAL DISTANCIAMENTO XIX

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda

 
(Junho, 2022)

Um dos maiores clichês de quem escreve é a síndrome da página em branco, aquele angustiante cursor piscando na tela implorando por palavras, mesmo que sejam seguidas de um arrependido “backspace”. Inúmeras e particulares são as justificativas: ausência de inspiração, se é que ela existe, de boas ideias, bloqueio criativo, excesso de autocrítica e enfado são as que mais escuto. Minhas páginas não estão em branco, há muitos arquivos aguardando um clique no “postar”. Receios, cansaços, saudades, incertezas, questionamentos, desagrados… os temas vão se repetindo em uma espiral de lamentações que mais se parecem importunos. Sou moldado pelo não gostar um instante além do que eu deveria, são minhas “senhas”, um “acho que não sei quem sou/ só sei do que não gosto” constante. Não pretendo ser um coach motivacional que faça as pessoas saírem do parágrafo mais dispostas do que quando entraram, distante disso. Mas admito que poupar a humanidade das minhas queixas é uma generosa contribuição para um mundo menos desesperançoso.

 

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO XII

Porque sou o meu próprio Mariozinho Rocha

Assim como a publicação com AS PIORES CANÇÕES DE RAUL SEIXAS, outra postagem que despertou a sanha dos haters de clickbait foi OS PIORES VERSOS DE RENATO RUSSO, como se eu fosse o seu maior desafeto no planeta (mais uma brincadeira mal interpretada). Durante a juventude fui até presidente de fã-clube da Legião Urbana em Santo Amaro, pesquisando e acumulando qualquer material que se referisse à banda. Sendo assim, imaginei que pela listagem das músicas selecionadas, que incluía licenças pueris como “Benzina” e “Submissa”, estivesse evidente que não seria algo para ser levado a sério – muito menos ameaçar a integridade física do autor (ai, que medo). Passados quase dez anos da postagem original, aqui estou para elencar os versos que considero dignos de uma leitura sem a presença da canção e (por que não?) serem chamados de poesia.

Leia no volume máximo!


segunda-feira, 31 de março de 2014

LEIA NO VOLUME MÁXIMO

Questionado pelo parceiro e amigo Milton Primo sobre qual seria a trilha sonora para o meu próximo livro, preferi não citar apenas uma canção e preparei um verdadeiro setlist. Play enquanto o livro não vem.

01) Fuga nº 3 da Rua Nestor – Cícero
02) O Monstro do Armário – Nei Van Soria
03) Filho – Dado Villa-Lobos
04) Circo – Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta
05) Beatle George – Júpiter Apple
06) Taxi – Marcionílio
07) Noite Torta – Ney Matogrosso
08) Runaway – The National
09) Beleza de Ser – Tony Maro
10) Je T'aime Tant – Julie Delpy
11) Traumas – Roberto Carlos
12) Papel de Bandido – Marcelo Nova
13) Velho Pai – Dialética
14) A Volta de Xanduzinha – Jussara Silveira
15) Melhor – Wado
16) Come Share my Life – Legião Urbana

terça-feira, 7 de maio de 2013

OS PIORES VERSOS DE RENATO RUSSO

Renato Russo, líder e principal compositor da cultuada Legião Urbana, tem seu nome comumente associado ao epíteto poeta (rótulo tão banalizado e desgastado que até Chorão, do Charlie Brown Jr., foi agraciado com ele). Letrista, realmente, de qualidade bem acima dos seus pares – inclusive Cazuza, outro equivocado “poeta” -, Renato Russo tem suas letras reproduzidas como hinos por seguidas gerações de jovens, e de não tão jovens assim, angustiados com o mal do século, além de ocupar o espaço destinado a autênticos poetas em exemplos utilizados nos livros didáticos. E como se já não fosse suficiente a literatura, o Trovador Solitário invadiu também os cinemas. Primeiramente com o raso documentário “Rock Brasília”, agora com os rebeldes sem causa da imberbe capital federal em “Somos Tão Jovens”, uma caricatura com algum rock e sem sex and drugs, pra não assustar a família-brasileira-tela-quente. E ainda vem aí “Faroeste Caboclo”. Tenho medo de imaginar qual será o próximo, “Eduardo e Mônica?”, “Dezesseis?”, “Pais e Filhos?”, “Ainda Somos Tão Jovens?”. Enquanto isso, me atrevo a listar seus versos menos interessantes (pra ficar no eufemismo):

BENZINA
Poderia ter poupado Renato Russo desse retrato do artista quando jovem, mas a partir do momento em que os Irmão$ Lemo$ e Dinho (e aí, moçadaaaa) Ouro-Preto chafurdaram o espólio do Aborto Elétrico para um projeto insosso, não tive como deixar essa pérola de fora. O engraçado é que quase trinta anos depois de ter sido escrita, constato que o rock feito no Brasil encaretou, já que no disco do Capital Inicial a música foi gravada sem a letra, com receio de ser considerada apologia às drogas, mas o mundo não perdeu grande coisa:

“Fui até à farmácia
Eu e minha prima
Levei os 20 mangos
Pra comprar benzina”


DEPOIS DO COMEÇO
Dos fóruns online à mesa de bar, “Depois do Começo” é praticamente hors concours quando o assunto é música da Legião Urbana que você não gosta, seja porque ta mais pros Paralamas ou por causa do “Deus, somos todos ateus”. No encarte do disco “Que País é Este”, somos advertidos que a letra contém diversas mensagens codificadas e quem tentar decifrá-la encontrará mais coisas sobre si do que sobre a música. Bobagem. Raramente executada ao vivo, recentemente foi resgatada por Dado Villa-Lobos nos seus shows, numa espécie de lado B da sua antiga banda, como se a Legião Urbana tivesse algum lado B. Os fãs mais ardorosos comparam a letra a uma viagem lisérgica, meio “Lucy in the Sky with Diamonds”, outra bobagem. Na verdade, os versos são de um nonsense constrangedor: “cair como um saxofone na calçada”, “usar um extintor como lençol”, “jogar polo-aquático na cama”, não faltam opções para pior verso, mas me incomoda mesmo é o refrão que diz que depois do começo o que vier vai começar... Sic, sic, sic.

QUÍMICA

Em um cena retratada no filme “Somos Tão Jovens”, o baterista Fê Lemo$ ousa questionar a qualidade do trabalho do até então genial Manfredini Jr., o que bastou para o vocalista rodar a baiana e abandonar o barco de vez. Ironicamente, foi essa canção que levou a Legião Urbana ao Rio de Janeiro, após ter sido gravada no disco de estreia dos Paralamas do Sucesso. Propositadamente pueril, boba até, mas comparar a pressão da sociedade para o jovem se tornar um profissional bem sucedido com um campo de concentração da Alemanha nazista (o “Belsen tropical”) é forçar a barra.

SUBMISSA
O que o dinheiro não faz, “Química” não servia, mas essa “Submissa” serve, e nessa nem da pra reconhecer o cara que escreveu "Ainda é Cedo" no texto. Outra que os Irmão$ Lemo$ foram escarafunchar.

“Conheci uma garota submissa
Tudo o que eu mandava ela fazia
Tudo o que eu queria ela fazia
Tudo o que eu sonhava ela fazia”.


MAIS DO MESMO

Nunca, nunca mesmo, simpatizei com os versos iniciais de “Mais do Mesmo” (“Hey, menino branco/ o que você faz aqui?”), a sonoridade das palavras na canção, a ideia simplista sobre quem vende e quem consome drogas (algo que também me incomodou no primeiro “Tropa de Elite”), nada me agrada. E depois que você descobre que esses versos horríveis foram supostamente chupados de "I'm Waiting for the Man", do Velvet Underground, (“Hey, white boy, what you doin' uptown?”), a coisa piora ainda mais. Há quem diga que os doentes na enfermaria cantando sucessos populares é mais bizarro.

OS ANJOS   
Se a postagem fosse sobre a pior música da Legião Urbana, não pensaria duas vezes, mas a letra também não fica pra trás, a impressão é que Renato pegou as sobras de “Perfeição”, requentou e fez esse prato. “Um tablete e meio de preguiça” ou “duas xícaras de indiferença?”. O gosto é do freguês.

MARCIANOS INVADEM A TERRA
“Cuidado com a coisa coisando por aí/
a coisa coisa sempre e também coisa por aqui”. 
Dispensa maiores comentários.

MAIS UMA VEZ
Tá bom, Renato Russo era fã declarado dos mineiros e pretendia gravar um disco só com canções do Clube da Esquina, certo. Mas isso não faz essa letra ser o que ela não é. Recomendo anotar cada verso em um pedacinho de papel, embrulhar, jogar para cima e sortear o pior verso. Autoajuda em letra de música é dose.

OUTRAS ESTAÇÕES
Ao comentar que eu pretendia realizar uma postagem com os versos pouco inspirados de Mr. Russo, amigos legionários, curiosamente, fizeram várias sugestões, demostrando que são menos radicais do que aparentam, ao contrário dos fãs de Raul Seixas, que ameaçaram minha integridade física. Citaram “PLANTAS EMBAIXO DO AQUÁRIO” (pior música do disco “Dois” para alguns) e prima-irmã de “A Canção do Senhor da Guerra” e “Soldados”; o mertiolate de “METRÓPOLE”; as baratas voadoras de “LEILA”; a feijoada de “O MUNDO ANDA TÃO COMPLICADO”; a tríade “A DANÇA”, “PETRÓLEO DO FUTURO” e “PERDIDOS NO ESPAÇO” do primeiro disco; O tê enorme de “TÉDIO”; o quem inventou o amor de “ANTES DAS SEIS”, entre outras.

terça-feira, 17 de abril de 2012

PODERIAM SER CRÔNICAS, MAS SÃO APENAS NOTAS II

(*) Todo mundo tem sua caixa de e-mail infestada com dezenas de mensagens desnecessárias, cotidianamente (às vezes a mesma mensagem mais de uma vez, já que algumas pessoas acham interessante e insistem em repassar). Depois de ter recebido cinco vezes o e-mail que afirmava que o verdadeiro Titanic não afundou, deparei com um em que dizia que o ra-tim-bum, cantado em aniversários, era um termo utilizado em rituais satânicos, que serve para amaldiçoar aquele que tem o seu nome proferido na sequência. Na dúvida, e como nunca gostei de parabéns, prefiro não arriscar e continuar fugindo daquela festa surpresa. Las brujas no existen, pero que las hay las hay.

(*) Inspirado pelo verso “ao som do último blues na Rádio Cabeça”, David Byrne, entusiasta da música brasileira, compôs “Radio Head” faixa do álbum “True Stories”, do Talking Heads. Thom York, na urgência de conseguir um nome para batizar uma promissora banda de indie rock em Londres, não hesitou ao utilizar o nome da canção. Muita gente que conheço tem pensado duas vezes antes de criticar Chico Buarque. 

(*) Quando Dado e Bonfá anunciaram o fim da Legião Urbana e lançaram o disco “Uma Outra Estação”, em 1997, pensava-se que este seria um digno desfecho para uma das melhores bandas do rock brasileiro. No entanto, o que aconteceu depois foram coletâneas, tributos e discos ao vivo sem sentido algum de existir, além do financeiro. Agora, depois de ter maltratado “Será” e “Tempo Perdido” (em VIPS e O Homem do Futuro, respectivamente), Wagner Moura assumirá oficialmente os vocais da Legião Urbana em um especial da MTV, para a tristeza de muitos. Enquanto isso, as faixas que sobraram do que seria o álbum Mitologia & Intuição em 1986 e as canções em inglês do disco V, 1991, repousam em silêncio, provavelmente aguardando o momento em que as vendas comecem a baixar.

(*) Sei que a publicidade tem suas próprias regras, e que nem sempre o publicitário realiza o anúncio que pretendia, devendo seguir pesquisas e tendências de mercado. No entanto, quando estou assistindo à TV, e encontro Luciano Huck, Fausto Silva ou Ivete Sangalo de garotos propaganda, antes mesmo de procurar o controle remoto, a primeira coisa que passa por minha cabeça é não comprar, mesmo que seja a última Coca-Cola do deserto.

(*) Meu livro de contos, ainda este ano.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

VINTE E NOVE

      Dizem que Saturno leva vinte e nove anos para percorrer sua própria órbita e voltar ao ponto exato em que se encontrava no dia do nascimento de qualquer pessoa. O Retorno de Saturno. Teoricamente, significaria o início de uma nova fase na vida, quando o indivíduo teria as rédeas do seu destino nas mãos, se desligaria do passado e construiria seu futuro.
        Mas será que essa regra vale para mim também?
     Nasci no dia 29 de fevereiro de 1976 (se tudo der certo, hoje será a nona vez que comemoro meu aniversário). Ainda não descobri nenhuma vantagem em nascer em um ano bissexto, ser  múltiplo do número 4 só faz aumentar minha solidão. Não tenho nada em minhas mãos, muito menos as rédeas do meu destino. Vivo preso ao passado e pouco espero do futuro. Se Saturno passou por mim, esqueceu de dizer um olá.
       Talvez ele tenha deixado para passar por mim em 2092, no meu 29º aniversário, embora eu acredite que não viverei tanto para saber.
        Às vezes eu acho que tenho realmente nove anos. 


Livremente inspirado na canção
"Vinte e Nove" (Renato Russo, 1993) 

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

UM DIA PERFEITO

Casa da Fernanda, 11:15 da manhã
 
        As crianças passam correndo por mim, em mais uma de suas inventivas brincadeiras. Quando eu era criança, costumava inventar muitas, mas não saía correndo por aí, somente inventava. Sentado na varanda, o sol já começa a alcançar minhas pernas brancas, logo terei que entrar. Marianne, Natália e Leila me fazem companhia, elas são discretas e não tocam no assunto, apenas falam bobagens sobre os homens que tentam sem sucesso acender a churrasqueira no jardim -, e riem bastante, até  parece ensaiado.
        O cachorro-quente na casa da Fê já é quase uma tradição, há muita gente que eu não conheço, fazia tempo que eu não vinha. Admito que eu precisava respirar um pouco, encontrar pessoas normais, com vidas normais e rotinas normais. Todos estão tão alegres e para mim tudo é tão estranho. Definitivamente, a alegria não me é familiar. Sei que às vezes sou cínico, defensivo, mas só por hoje me resguardarei no meu silêncio e na evasividade dos meus óculos escuros. Numa velha canção, Jorge Ben descobre que é um anjo. Eu não quero descobrir, de repente, que também sou um; só queria ter asas e poder voar para bem longe, mas não é possível. Nem morrer para mim é possível. Já morri mais de vinte e nove vezes e no dia seguinte sempre acordei na minha cama. A diferença é que ontem, depois que eu tentei jogar fora minha vida inteira, acordei numa cama de hospital.

Casa da Noélia, 31 horas e meia atrás

         Maurício põe John Coltrane pra rolar na vitrola. Escuto os primeiros chiados provocados pela agulha no vinil e me deleito numa espécie de transe. Meus movimentos parecem em câmera lenta. A luz cinza ajuda a criar o clima. A sala está cheia, mas só enxergo Maurício se aproximando. Ele me beija e com a ajuda da língua coloca em minha boca um comprimido. Mentir é muito fácil e Maurício faz isso muito bem. Prometo que acreditarei em suas mentiras esta noite -, ele sorri sem exibir os dentes. No bolso, encontro uma fotografia 3x4, mas não a saudade mais bonita. Deixo a foto ser pisoteada pelo chão. Em seguida, me entrego ao álcool e às bocas que me procuram, como se não houvesse outro dia, sem pensar . 

        Minha sede não tem fim. 
        Um cara abre uma mala sobre a mesa com drogas demais e é muito festejado. Maurício toma a frente e diz para começarem por mim, ninguém se opõe. O cara prepara calmamente uma seringa, com a precisão de um verdadeiro especialista, depois procura um local em mim para poder injetar, mas não há mais lugar para as agulhas entrarem. Sem perder a calma, ele aperta meu braço violentamente, ao perceber um vestígio de veia surgir, não desperdiça a oportunidade. Não sei o que há de errado comigo. Todos comemoram com aplausos: é a última imagem, o resto é escuridão. Será que desta vez, peguei o bonde errado e chegarei à entrada do inferno?
(...)
        Acordei no hospital vendo minha mãe com as mãos fechadas, num gesto de agradecimento, repetindo: graças a Deus, graças a Deus. Meu pai teve uma reação mais fria, queria saber como foi, quem foi, onde ele está. Voltou para o esgoto – era o que eu queria responder.

Casa da Fernanda, meio-dia
 
        O tempo fechou de uma hora para outra. “É assim nessa época do ano” -, alguém diz, não sei quem. Fernanda manda os meninos correrem, pois vai chover. Rapidamente, os pingos de chuva ganham a companhia dos relâmpagos e dos trovões. As crianças vão gritando alucinadamente, para elas tudo é diversão. O sol estava me entristecendo, não combinava com meu estado inquebrantável de espírito. A tempestade me cai bem melhor. 
        Agora, o dia está realmente perfeito.



Conto livremente inspirado na canção “Um Dia Perfeito” (Dado Villa-Lobos/ Renato Russo), da Legião Urbana, lançada no disco O DESCOBRIMENTO DO BRASIL, em 1993. Com ecos de outras vinte e oito canções.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

NOSSO PRÓPRIO TEMPO

Sempre gostei de ficção científica e sempre odiei minha vida de adolescente, afirmar que eu habitava um episódio de Todo Mundo Odeia o Chris não seria exagero, embora, naquela época, eu estivesse mais para Kevin Arnold ou Doug Funny. Com as inseguranças típicas da idade, vivia arrependido por tudo que fazia ou (principalmente) deixava de fazer, imaginando como poderia ter sido as outras possibilidades e a procurar onde ficava o CTRL+Z da vida real (acho que todo adolescente é um pouco assim). Quisera eu ter despertado na mesma manhã, seguidamente, como se fosse o dia da marmota. Acreditava que a qualquer momento poderia aparecer um “eu” vindo diretamente do futuro, mais velho e mais sagaz, que me ensinaria o caminho das pedras, que me explicaria como eu deveria agir para garantir uma existência futura sem remorsos. Costumava brincar dizendo que não me assustaria se algum dia eu aparecesse para mim e ainda me cumprimentaria firmemente, olhando nos meus olhos: “estava te esperando”. No entanto, não demorei para descobrir que não conseguiria fugir das minhas responsabilidades e que tudo que eu considerava danoso ajudaria a moldar a pessoa que agora eu sou. Curiosamente, ou obviamente, nada muito diferente disso acontece em O HOMEM DO FUTURO, de Cláudio Torres (“Redentor”, “A Mulher Invisível”). Wagner Moura é um amargurado cientista e professor universitário chamado Zero, que teve sua vida modificada a partir de uma fatídica festa à fantasia no, agora distante, ano de 1991, onde foi humilhado por Helena (Alinne Moraes), seu grande amor. Acidentalmente, Zero viaja no tempo exatamente para o dia da festa e aproveita a oportunidade para modificar sua própria história, mas nem tudo sai como esperado.
         O cinema tem verdadeiro fascínio pelos paradoxos temporais ocasionados pelas viagens no tempo – que é praticamente uma espécie de sub-gênero da ficção científica. “O Planeta dos Macacos”, “De Volta Para o Futuro”, “Jornada nas Estrelas”, “Efeito Borboleta” sobram exemplos. Gosto, particularmente, do curta-metragem “Barbosa”, de Jorge Furtado, onde um homem tenta impedir a derrota brasileira na final da Copa do Mundo de 1950 no estádio do Maracanã, trauma de sua infância, no entanto ele próprio se torna o motivo da distração do goleiro Barbosa, que resulta no gol vitorioso da seleção uruguaia. Sei que não faltará cético para dizer que se fosse possível viajar no tempo algum viajante já teria retornado do futuro (a não ser que o considerassem louco, como ocorre em “Os 12 Macacos”), nem crédulo para explanar sobre universos paralelos e futuros alternativos (a contrapor a teoria de causa e efeito, que diz que se alguém voltasse no tempo para impedir um acidente e conseguisse, o acidente, que é o motivo da viagem, deixaria de existir, consequentemente a viagem também).
          O enredo de O HOMEM DO FUTURO poderia se resumir, simplesmente, à letra da canção “Tempo Perdido”, emblemático sucesso da Legião Urbana, que permeia toda a película: de “todos os dias quando acordo”, passando por “então me abraça forte” e culminando com “somos tão jovens”. Aliás, boa parte da obra parece condensada no clipe musical que serviu como divulgação (vídeo abaixo). Se a filme fosse apenas esse vídeo, como aconteceu com “Eduardo e Mônica” em uma campanha de telefonia celular, teria sido genial. Propositalmente, não há nada original. Mas a ideia é mesmo essa: resgatar a simpatia de uma descontraída sessão da tarde. Para quem não viu, aviso que quanto menor a expectativa, menor será a impressão de tempo perdido (sem trocadilho). Com viagens temporais, uma festa à fantasia e um hino juvenil de pano de fundo, o trabalho do diretor Cláudio Torres não sai da adolescência, mergulha no raso, assim como em seu filme anterior, onde era idealizada a mulher perfeita, outro desejo da juventude, ainda que o exemplo de perfeição fosse Luana Piovani.

          Já não quero voltar no tempo, quero apenas mais tempo para realizar tudo que desejo.
       

sexta-feira, 10 de junho de 2011

O DIA DOS NAMORADOS DE EDUARDO E MÔNICA

Cindy e Dean
In Memoriam de Bartô,
o surdo-mudo mais falastrão que já conheci
   
         O “Dia dos Namorados” é habilmente aproveitado, e manipulado, pelo mercado (como qualquer outro “dia de...”). Nenhuma novidade. Mas o que agora chamou minha atenção foi a equivocada estratégia de colocar “Blue Valentine” para representar os namorados nas salas dos cinemas em junho, talvez na falta de uma comédia romântica os distribuidores acreditaram que este “Namorados Para Sempre” (título que o filme recebeu por aqui) seria suficiente. No entanto, “para sempre” é tudo que não veremos.
         “Blue Valentine” acompanha os últimos momentos do casamento de Dean (Ryan Gosling) e Cindy (Michelle Williams, que foi indicada ao Oscar de melhor atriz), um pintor de paredes sem emprego fixo e uma enfermeira que dividem a casa simples com a filha de seis anos e um cachorro. Quando o filme começa, nos deparamos com o casal quase no término do relacionamento, são raras as conversas, os poucos gestos de carinho são evitados por ela – que não sabemos, apenas imaginamos, os motivos. O premiado roteiro transita entre o início e o fim da relação, nos privando de conhecer o que aconteceu durante. Os flashbacks não revelam muito, e surgem aleatoriamente. A entrega dos atores permite bons improvisos, como na sequencia em que Ryan canta para Michelle dançar (ela sem saber que música escutaria e ele sem saber que ela realmente sabia sapatear). “Blue Valentine” é o título de uma canção, e de um disco, de Tom Waits, que narra a trajetória de um casal que se apaixona e se desapaixona. O filme é sobre isso. Não é, como nos acostumamos a ver, a descoberta do amor. É o final, ou a aceitação do final. Pode ser um programa depressivo, e reflexivo, para se fazer a dois, mas valerá a pena se a intenção for apreciar um filme sobre pessoas normais e dramas normais.
         (Dean e Cindy não são Eduardo e Mônica).
         Acredito que nesse momento todo mundo já viu (ou já ouviu falar sobre) a campanha do dia dos namorados de uma empresa de telefonia móvel que transporta a canção de Renato Russo para os dias atuais, um mundo onde ninguém pode viver sem telefone celular. Nunca simpatizei muito com música com “historinha”, típica dos anos 80, e “Eduardo e Mônica” menos ainda, soava classe média demais para minha realidade, algo que se confirma ainda mais agora.
         Eu tinha um amigo surdo-mudo que adorava Legião Urbana, gostava dos encartes dos LP's, gostava das letras das canções, mesmo sem nunca ter podido escutar a voz de Renato Russo. Ele não suportava ser tratado com piedade, além de ser genialmente irônico e mordaz, e odiava videoclipes (e ainda há quem diga que videoclipe é música para surdos). Certamente, ele também detestaria essa campanha. Quando alguém diz que não entendeu uma canção, provavelmente esperando que eu a explique, digo: veja o clipe.
         Dean e Cindy não são Eduardo e Mônica, mas nada impede que os Eduardos e as Mônicas da vida real um dia se tornem “Blue Valentine”, num mundo onde as pessoas ainda podem viver sem telefone celular.
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