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domingo, 23 de setembro de 2012

PODERIAM SER CRÔNICAS

(*) Alguns modismos, realmente, me incomodam. Ultimamente a mania de aplaudirem qualquer coisa tem me tirado do sério. Parece que estamos em um programa de auditório e temos que bater palmas toda vez que a placa de APLAUSOS acende para a claque. Durante a sessão de cinema, o pôr-do-sol e o pouso do avião são os momentos favoritos. Estou me sentindo na obrigação de aplaudir o taxista, o cabeleireiro e o porteiro do meu prédio, logo eu que não tenho paciência nem para mover uma mão contra a outra no “parabéns pra você”.

(*) Diante do encantamento que um arco-iris ainda consegue provocar, alguém  não satisfeito com a condição de ser, simplesmente, plateia da natureza, não perde tempo e saca sua arma telefônica e se fotografa tendo o fenômeno meteorológico ao fundo, um papel de parede de luxo. Há quem prefira parar na estrada, aumentando o congestionamento, para se fotografar à frente de um acidente, como se fosse um casal de namorados diante da Torre Eiffel, não basta dizer que viu, tem que mostrar que estava lá. O pior é que não falta quem curta, e compartilhe.

(*) Da série, as frases que odeio com toda a força da minha alma:
“É muito fácil, até você consegue”.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

PODERIAM SER CRÔNICAS, MAS SÃO APENAS NOTAS

(*) Não acompanho novelas, mas sei que há muito tempo elas não tinham tanta evidência. Constatei isso pelo número de matérias nas revistas semanais (inclusive capas) e pelas conversas que inevitavelmente escuto no elevador. Para quem me pergunta se vi as previsíveis revelações da noite passada, quando estou com paciência, costumo responder que dois capítulos de uma novela equivalem à duração média de um longa-metragem, ainda assim morrerei sem assistir à metade dos filmes que desejo. Melhor seria morrer, mas ter visto uma novela inteira?

(*) Não acompanho novelas, mas elas me acompanham. A filha recém-nascida de um colega de trabalho foi batizada com o nome de uma personagem do folhetim das 21 horas, pela festividade das pessoas que receberam a notícia comigo, deduzi que a tal personagem deve ser realmente muito popular, uma  heroína moderna. No meu caminho, ainda me deparo com as roupas, gírias, cortes de cabelos e músicas da novela do momento – até ela acabar e começar outra nova-novela-do-momento.

(*) Não acompanho novelas ou séries, mas não abro mão das reprises dos Simpsons, principalmente os episódios em que Nelson e Milhouse têm destaque. De alguma forma, inexplicavelmente antagônica, me identifico com as agruras de um pseudonerd ingênuo e apaixonado e com o delinquente juvenil, filho de uma prostituta relapsa, que humilha os meninos menores e mais fracos.

(*) Não acompanho novelas, mas acompanho blogues. Recentemente, li em um que “alternativa a gente não impõe, oferece”. Quando estou em uma residência em que eu não sou o dono do controle-remoto e alguém decide mudar de canal para “dar uma passadinha na novela”, olho a tela e nada vejo. “Você pode levar um cavalo até à água, mas não pode obrigá-lo a beber”.

(*) A seguir, cenas da próxima postagem... Ops! Acho que os capítulos hoje em dia terminam de maneira mas estilizada, com frames congelados, fade-out, animações... Se você for do tempo do “a seguir cenas do próximo capítulo”, definitivamente, está ficando velho.

(*) Poderiam ser crônicas, mas são apenas anúncios de acompanhante.

terça-feira, 3 de julho de 2012

PODERIAM SER CRÔNICAS, MAS SÃO APENAS NOTAS IV

(*) Há várias maneiras de saber que você está ficando velho: quando você começa suas frases com um nostálgico “antigamente...” ou “no meu tempo...”, quando você pede para diminuir o volume ou quando as pessoas ao seu redor passam a perguntar quando você terá um filho, por exemplo – e, ultimamente, esta tem me perseguido. Tenho respostas prontas que utilizo a depender do grau de intimidade que possuo com quem pergunta, falta de talento, incompetência e excesso de juízo são algumas delas. 98,98% dos pais que eu conheço, esses mesmos que me importunam com esse tipo de pergunta, tiveram filhos por “acidente”. Não quero olhar para o meu filho e vê-lo como um acidente, algo que não deveria ter acontecido, sentado no sofá a imaginar que vida eu teria se eu não fosse pai.

(*) Pessoas excessivamente convictas me cansam. Aprecio quem hesita, quem oscila. Pessoas excessivamente convictas batem o pênalti para fora, ficam em xeque a todo instante (um bom jogador não deixa de duvidar). Pessoas excessivamente convictas não são boas de papo, não são boas de copo, não são boas amantes. Pessoas excessivamente convictas têm uma velha opinião formada sobre tudo, sempre.

(*) Tenho amigos que dizem me invejar porque, segundo eles, estou constantemente “ligado” em bandas novas, livros novos, filmes novos, vida nova... Tenho um, especificamente, que diz que sou “viciado em juventude” (sem nenhum cunho pedófilo, assim espero). Outro, afirma que chega um momento da nossa efêmera existência que só é possível ouvir os mesmos discos, reler os mesmos livros, rever os mesmos filmes, ver os novos filmes dos mesmos diretores... Será? Acho o dia muito curto para ficar agonizando no repeat.

(*) Já escutei, algumas vezes, que sou um bom conciliador, que escapo com destreza de polêmicas e transito com desenvoltura em diversos ambientes – há quem me considere, inclusive, um hábil e desperdiçado político. Essa qualidade é exaltada até por pessoas que não me são simpáticas. Na verdade, não sou nada disso, tal qual  o Conselheiro Aires, de Machado de Assis, tenho tédio à controvérsia, somente.

(*) Poderiam ser crônicas, mas são apenas páginas de diário.

terça-feira, 17 de abril de 2012

PODERIAM SER CRÔNICAS, MAS SÃO APENAS NOTAS II

(*) Todo mundo tem sua caixa de e-mail infestada com dezenas de mensagens desnecessárias, cotidianamente (às vezes a mesma mensagem mais de uma vez, já que algumas pessoas acham interessante e insistem em repassar). Depois de ter recebido cinco vezes o e-mail que afirmava que o verdadeiro Titanic não afundou, deparei com um em que dizia que o ra-tim-bum, cantado em aniversários, era um termo utilizado em rituais satânicos, que serve para amaldiçoar aquele que tem o seu nome proferido na sequência. Na dúvida, e como nunca gostei de parabéns, prefiro não arriscar e continuar fugindo daquela festa surpresa. Las brujas no existen, pero que las hay las hay.

(*) Inspirado pelo verso “ao som do último blues na Rádio Cabeça”, David Byrne, entusiasta da música brasileira, compôs “Radio Head” faixa do álbum “True Stories”, do Talking Heads. Thom York, na urgência de conseguir um nome para batizar uma promissora banda de indie rock em Londres, não hesitou ao utilizar o nome da canção. Muita gente que conheço tem pensado duas vezes antes de criticar Chico Buarque. 

(*) Quando Dado e Bonfá anunciaram o fim da Legião Urbana e lançaram o disco “Uma Outra Estação”, em 1997, pensava-se que este seria um digno desfecho para uma das melhores bandas do rock brasileiro. No entanto, o que aconteceu depois foram coletâneas, tributos e discos ao vivo sem sentido algum de existir, além do financeiro. Agora, depois de ter maltratado “Será” e “Tempo Perdido” (em VIPS e O Homem do Futuro, respectivamente), Wagner Moura assumirá oficialmente os vocais da Legião Urbana em um especial da MTV, para a tristeza de muitos. Enquanto isso, as faixas que sobraram do que seria o álbum Mitologia & Intuição em 1986 e as canções em inglês do disco V, 1991, repousam em silêncio, provavelmente aguardando o momento em que as vendas comecem a baixar.

(*) Sei que a publicidade tem suas próprias regras, e que nem sempre o publicitário realiza o anúncio que pretendia, devendo seguir pesquisas e tendências de mercado. No entanto, quando estou assistindo à TV, e encontro Luciano Huck, Fausto Silva ou Ivete Sangalo de garotos propaganda, antes mesmo de procurar o controle remoto, a primeira coisa que passa por minha cabeça é não comprar, mesmo que seja a última Coca-Cola do deserto.

(*) Meu livro de contos, ainda este ano.

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