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sexta-feira, 31 de outubro de 2025

“A PURIFICAÇÃO NA CALADA DA NOITE PRETA”

 

Resolvi reassistir à novela  VAMP, do remoto ano de 1991 (época em que eu havia recém-adentrado na adolescência e o mundo parecia ser um lugar menos hostil). Quem sabe eu só quisesse sentir o sabor da sopa da minha mãe novamente, o pão da padaria de Seu Vadu; ouvir a urgência dos amigos que me chamavam para escarafunchar as ruas do bairro em busca de diversão. A vida como se não houvesse amanhã, mesmo que o amanhã me reservasse prova de geografia no Polivalente. No entanto, algo passou a me incomodar já nos primeiros minutos. Poderia dizer que era a ausência de atores pretos no elenco (ironicamente a personagem mais “escurinha” se chama Branca) ou que após o “estamos apresentando” aguardei pelos intervalos comercias que não vieram, apenas um imediato “voltamos a apresentar”. Mas não era nada disso. Apesar do apelo da trilha sonora essa viagem nostálgica rumo ao início dos anos 90 na Baía dos Anjos, digo, Santo Amaro da Purificação não se concretizou e acabei desembarcando durante o terceiro capítulo. Talvez porque não existisse mais a sopa com pão na hora do jantar, meus velhos e saudosos amigos, a minha mãe.

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

"NADA DO QUE FOI SERÁ"

 

FAZ DE CONTA é uma parceria minha com Roberto Mendes gravada por Raimundo Fagner em seu disco DONOS DO BRASIL, escolhida para ser o tema de Sandoval Peixoto, interpretado por Herson Capri, na novela COMO UMA ONDA de Walther Negrão – que tentava repetir o sucesso alcançado na década anterior com TROPICALIENTE, mas sem o mesmo encanto. A melancolia da canção dialogava diretamente com a solidão do personagem, parecia ser feita por encomenda. No entanto, Sandoval, que deveria ser o protagonista do núcleo praiano e par romântico de Maria Fernanda Cândido, dá o ar da graça rapidamente apenas no sexto capítulo, mantendo um certo clima de mistério, momento que a música toca pela primeira vez. Quando ele realmente adentra a trama, o público já estava seduzido pela química que ela tinha ao lado do líder dos pescadores vivido por Kadu Moliterno (que inicialmente morreria em um acidente de barco, mas com as bênçãos de Nossa Senhora da Obra Aberta acabou sobrevivendo e relegando nosso herói a mero coadjuvante, mesmo com seu nome encabeçando os créditos na abertura). Consequentemente, a música tocou menos do que o esperado na novela, embora tenha sido bem executada nas rádios – ainda hoje há quem me ligue apenas para dizer que escutou a minha música na Nova Brasil. COMO UMA ONDA estreou durante o horário de verão de 2004, quando a programação televisiva seguia o horário de Brasília, assim o folhetim era exibido às 16:50h em muitos estados, inclusive na Bahia. Na época, consegui assistir a poucos capítulos, mas valeu a experiência. Para quem tiver curiosidade, encontra-se disponível na GloboPlay.

 


 

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

PODERIAM SER CRÔNICAS, MAS SÃO APENAS NOTAS

(*) Não acompanho novelas, mas sei que há muito tempo elas não tinham tanta evidência. Constatei isso pelo número de matérias nas revistas semanais (inclusive capas) e pelas conversas que inevitavelmente escuto no elevador. Para quem me pergunta se vi as previsíveis revelações da noite passada, quando estou com paciência, costumo responder que dois capítulos de uma novela equivalem à duração média de um longa-metragem, ainda assim morrerei sem assistir à metade dos filmes que desejo. Melhor seria morrer, mas ter visto uma novela inteira?

(*) Não acompanho novelas, mas elas me acompanham. A filha recém-nascida de um colega de trabalho foi batizada com o nome de uma personagem do folhetim das 21 horas, pela festividade das pessoas que receberam a notícia comigo, deduzi que a tal personagem deve ser realmente muito popular, uma  heroína moderna. No meu caminho, ainda me deparo com as roupas, gírias, cortes de cabelos e músicas da novela do momento – até ela acabar e começar outra nova-novela-do-momento.

(*) Não acompanho novelas ou séries, mas não abro mão das reprises dos Simpsons, principalmente os episódios em que Nelson e Milhouse têm destaque. De alguma forma, inexplicavelmente antagônica, me identifico com as agruras de um pseudonerd ingênuo e apaixonado e com o delinquente juvenil, filho de uma prostituta relapsa, que humilha os meninos menores e mais fracos.

(*) Não acompanho novelas, mas acompanho blogues. Recentemente, li em um que “alternativa a gente não impõe, oferece”. Quando estou em uma residência em que eu não sou o dono do controle-remoto e alguém decide mudar de canal para “dar uma passadinha na novela”, olho a tela e nada vejo. “Você pode levar um cavalo até à água, mas não pode obrigá-lo a beber”.

(*) A seguir, cenas da próxima postagem... Ops! Acho que os capítulos hoje em dia terminam de maneira mas estilizada, com frames congelados, fade-out, animações... Se você for do tempo do “a seguir cenas do próximo capítulo”, definitivamente, está ficando velho.

(*) Poderiam ser crônicas, mas são apenas anúncios de acompanhante.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

AS TRÊS VIDAS DE MILDRED PIERCE

Confira o ensaio de Herculano Neto sobre o filme ALMAS EM SUPLÍCIO, de 1945, a telenovela VALE TUDO, de 1988 e a série MILDRED PIERCE, de 2011, 
na revista eletrônica Verbo 21.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

DA LAPA A ITAPUÃ: LOST, SARAMAGO, VAMPIROS E NOVELA

Hoje pela manhã, um jovem casal discutia a relação dentro do ônibus. Por algum motivo que não sei precisar, um disse para o outro uma expressão popular que eu não escutava há anos: “Pare de me acompanhar que eu não sou novela”. Foi quando, percebi que quem acompanhava a discussão, como se fosse uma genuína telenovela, era eu. Não vejo novelas: considero-as chatas, previsíveis, repetitivas, canhestras. Além do que, dois capítulos equivalem à duração média de um longa-metragem — mesmo eu já tendo me convencido de que morrerei sem assistir a todos os filmes que eu gostaria, não posso me permitir esse luxo. Até já tentei acompanhar algumas séries que aparentavam ser interessantes, mas acabei desistindo antes do meio do caminho. Minha última tentativa foi com LOST: nunca fui um grande entusiasta das desventuras de Dr. Jack, Locke, Kate e Cia (a camisa pólo da Iniciativa DHARMA que ganhei no Natal, e que só usei uma vez para não “fazer desfeita”, não me contradiz), apenas queria saber como terminaria. Talvez por não ter expectativas, seu final não tenha me decepcionado.
O casal parou de brigar, agora quem dava as cartas era um silêncio constrangedor. Ainda assim, resolvi mudar de assento, dá play no meu genérico de iPod e folhear sem muita atenção uma revista semanal da semana passada (sempre leio esse tipo de revista de trás para frente, feito um mangá, apenas para apreciar as notícias culturais antes de qualquer outra página — embora, muitas vezes nem valha a pena). Enquanto soava os acordes iniciais de “Acabou Chorare”, li que a Playboy rescindiu o contrato de sua versão portuguesa, que durou pouco mais de um ano, por estampar em sua última capa a representação de Jesus Cristo com uma mulher seminua na cama. A intenção era homenagear José Saramago e criar polêmica, mas não conseguiu nem uma coisa nem outra. Juntamente com uma entrevista do escritor, foram publicadas outras fotografias, que fazem referência ao Evangelho Segundo Jesus Cristo. No entanto, Cristo é a última pessoa que alguém quer encontrar no pôster central da Playboy. Virando a página, descobri que Hollywood pretende refilmar o sueco DEIXE ELA ENTRAR, um dos melhores filmes de terror que já vi — que traz vampiros adolescentes, mas não se pode comparar com nenhuma tendência juvenil. Refilmagem de clássicos, de sucessos asiáticos e europeus, adaptação de séries televisivas; não é somente crise criativa que assola os grandes estúdios, é falta de talento. Nem preciso dizer que passarei longe desse pastiche, como passarei ainda mais longe do super bebê vampiro que deve chegar por aí. Ainda tive tempo para ler que as novelas brasileiras também fazem suas refilmagens, e lembrei que a mais recente assisti quando eu era criança (pois é, um dia acompanhei novelas).
Levantei-me ao perceber a proximidade do meu ponto. Quase duas horas dentro de um ônibus e nem uma em Itapuã (quem me dera, uma tarde). Antes de sair, vi o casal se beijando apaixonadamente. Pelo jeito, o final foi feliz — por enquanto.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

CAPITU (2008)

Já faz algum tempo que desisti da tv, não foi uma decisão taxativa, aconteceu gradativamente. Hoje só me permito os jogos da quarta-feira à noite e o telejornal local, há dias que nem a ligo, fica ali morta na sala acumulando poeira e silêncio, a servir de pedestal para o troféu de terceiro colocado do II Torneio de Futebol de Mesa de Santo Amaro – 1996, num canto que quase não incomoda o tráfego, juntamente com velhos quadros, lembranças de viagens e capas de LP’s – que vira e mexe recebem observações sem muito valor das visitas. Ao saber por acaso, escutando uma conversa que não me pertencia, que a rede globo produziria um especial de final de ano baseado no romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, resolvi arriscar - o que eu poderia perder? Afinal, esse é o único, até agora, livro que li mais de duas vezes (descontando, inclusive, a obrigatoriedade da 8ª série). Após a exibição do primeiro capítulo, mesmo não nutrindo muitas expectativas, não me decepcionei, confesso – apesar do clima excessivamente teatral que parece querer exorcizar da televisão brasileira alguma culpa. Pretensamente emulando a idéia da diretora Sofia Coppola em MARIA ANTONIETA (2006), onde enchia de referências contemporâneas uma personagem histórica, a adaptação me ganhou, não apenas por isso, principalmente pela fidelidade ao delicioso texto original embalado por uma trilha pop. Mesmo assim pouco mudou: o título da obra para Capitu, que muitos entendem ser bem mais apropriado; a re-organização dos micro-capítulos para uma melhor narrativa televisiva e uma coisinha aqui e outra ali – nada demais. Os puristas devem franzir a testa e fazer saltar aos olhos aquela veia de descontentamento, os noveleiros mudarão de canal sem muita paciência e irão dizer na repartição ou no ponto de ônibus no dia seguinte que odiaram, talvez chato seja o adjetivo mais utilizado. Já eu descobri com a série que preciso de um lugar para esconder minhas velharias, como o troféu do II Torneio de Futebol de Mesa, para não servirem de papo furado aos que me visitam de quando em vez.
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