quarta-feira, 9 de junho de 2021

SPLASH PAGES III

 
Segundo pesquisas realizadas no Japão, um em cada quatro homens solteiros no país nunca teve relações sexuais – número que só vem aumentando. Esse fenômeno é muito bem exposto no mangá-documentário VIRGEM DEPOIS DOS 30 (Editora Pipoca e Nanquim, 2019). Se o início chega a ser cômico os tipos apresentados, extremamente grotescos, aos poucos o riso fácil vai dando lugar à reflexão. Os sentimentos aos oito homens documentados variam entre a piedade e a indignação, mas jamais à indiferença. Em uma sociedade tão competitiva quanto a japonesa sobreviver sendo uma pessoa abaixo dos padrões estéticos e intelectuais impostos não é tão simples como acreditamos que poderia ser. 
 
 

sexta-feira, 4 de junho de 2021

SOCIAL DISTANCIAMENTO III

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda

 
 
 

(Maio, 2020)


A dormência e os formigamentos agora têm a companhia de suores, vertigem, palpitações, tremores na face, indigestão, sensação iminente da morte e sufocamento. Em um mês utilizo o plano de saúde mais do que nos últimos vinte anos: cardiologista, neurologista, alergologista, gastroenterologista, urologista, oftalmologista, angiologista, oncologista e mais uma bateria de exames sem resultados anormais. 
 
Stress, depressão, transtorno de ansiedade social, síndrome de Burnout, do pânico, do impostor, fobia social. “Quando os antidepressivos e os calmantes não fazem mais efeito”



(Junho, 2020)

“É São João, e eu aqui tão só”


quarta-feira, 2 de junho de 2021

CONTÉM SPOILER III

Aprendi com um grande músico que não importa que o show tenha sido morno, o final deve ser arrebatador (“pra você e eu e todo mundo cantar junto”). Acredito que o mesmo não se aplica ao cinema, uma boa conclusão jamais substituirá uma jornada “morna”, apenas dará ao espectador a convicção de que realmente tinha tudo para ser melhor. No entanto, quando um bom final encontra um bom filme a experiência é completa. No dinamarquês “Druk – Mais Uma Rodada”, temos um desses momentos. O último frame é perfeito, um voo congelado, sem rumo, um “vamos nos permitir”. E eu que sempre considerei bobagem aplaudir uma sessão de cinema, creio que dessa vez não resistiria.

 

sexta-feira, 28 de maio de 2021

NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO III

Molly Sarlé foi uma das poucas cantoras que passei a escutar antes da pandemia e continuei escutando durante. Era praticamente a trilha sonora daqueles primeiros dias. Agora tenho medo de que quando esse terror terminar ela se torne uma lembrança ruim, algo que me remeta automaticamente para uma época que eu apenas quero esquecer. Espero que o mundo aprenda a melhorar e que Molly Sarlé, no futuro, seja uma lembrança doce. 

 





quarta-feira, 26 de maio de 2021

SPLASH PAGES II

 

O Demônio de Hell’s Kitchen sempre foi agraciado com ótimos roteiristas: Brian Michael Bendis, Ed Brubaker, Ann Nocenti, Mark Waid, Chip Zdarsky… a lista é longa. Mas o principal destaque continua sendo Frank Miller, foi ele quem pavimentou toda mitologia do homem sem medo, abrindo caminho para boa parte do que seria feito depois. Vários de seus trabalhos com o Demolidor tornaram-se clássicos dos quadrinhos (A Queda de Murdock, A Morte de Elektra, Roleta Russa, Amor e Guerra, The Man Without Fear, entre outros).

Tenho especial predileção pela edição 179 de Daredevil, de fevereiro de 1982, publicada no Brasil dois anos depois na saudosa Superaventuras Marvel nº 20. A história narrada em primeira pessoa pelo repórter investigativo Ben Urich chamou minha atenção ainda na infância. Com ares de literatura noir e sem vilões megalomaníacos ou seres superpoderosos, aquela crônica urbana me apontou outras possibilidades no universo das HQs, algo bem diferente do que eu estava habituado. Ainda sinto pela morte (naquele momento) do velho jornalista do Clarim Diário no desfecho da edição. Malditos cigarros. 



terça-feira, 18 de maio de 2021

SOCIAL DISTANCIAMENTO II

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda


(Março, 2020)

Saíram os primeiros decretos autorizando o trabalho em home office. O que seria temporário vai se tornando permanente a cada semana de prorrogação. As notícias se atropelam sem nenhum sinal de alento, enquanto um expediente de oito horas se arrasta pelo dia todo. Da varanda, observo a rua e a praça desertas sem seus habituais praticantes de caminhadas, crianças correndo ou cães passeando. Um angustiante e eterno domingo. No elevador o aviso de um caso confirmado no condomínio, o medo do outro só aumenta. Formigamento e dormência nos pés e nas pernas não cessam, mas não quero dar atenção para isso agora. Não agora. Ir ao mercado ou à farmácia requer estratégia de guerrilha: “que pra nós dois sair de casa já é se aventurar”.


        
(Abril, 2020)

Adormecer é praticamente uma vitória. As poucas horas de sono são regadas com sonhos inquietantes que me fazem acordar mais cansado do que quando fui deitar. Em um deles as águas cristalinas de um dilúvio cobrem os prédios vizinhos e rapidamente começam a invadir a varanda do 15º andar. Pego a mão do meu filho e em silêncio aguardamos o inevitável. “Where Is My Mind” do Pixies toca aleatoriamente no despertador. 



sexta-feira, 14 de maio de 2021

CONTÉM SPOILER II


A repetição temporal não é novidade no universo cinematográfico, o exemplar mais célebre acredito que seja “Feitiço do Tempo” (Groundhog Day, 1993). Nesse filme Bill Murray interpreta um arrogante meteorologista de um canal de TV que passa a reviver todos os acontecimentos de um mesmo dia até finalmente se redimir do seu comportamento egocêntrico e, definitivamente, melhorar como pessoa. Uma divertida lição de moral com sabor de sessão da tarde.

Já em “Dois Estranhos” (Two Distant Strangers, 2020), vencedor do Oscar de melhor curta-metragem de ficção, Carter é um jovem cartunista bem-sucedido, descolado, gentil, carismático, espirituoso e tantos outros adjetivos que não fica difícil entender porque simpatizamos com o personagem. No entanto, nenhuma dessas qualidades é o suficiente para impedir que ele seja assassinado estupidamente em uma abordagem policial desnecessária e cheia de equívocos e acordar novamente no início do que parecia ser um ótimo dia – algo que se repetirá dezenas de vezes com idêntico e trágico desfecho. Talvez eu tenha esquecido de mencionar que Carter é negro e o policial branco, mas não temos aqui um embate maniqueísta gratuito. A discussão é muito mais complexa. Ser negro é viver em um eterno loop, tendo que provar todos os dias o que você é e principalmente o que você não é. Uma dinâmica extremamente cansativa.

terça-feira, 11 de maio de 2021

SPLASH PAGES I

Às vezes me pergunto se foi difícil crescer em Royal City... ou se foi simplesmente difícil crescer
 

O canadense Jeff Lemire é dos autores de HQs mais profícuos de sua geração. Frequentemente publicado no Brasil, seus trabalhos transitam entre o mainstream das grandes editoras ao cult das publicações autorais. Em Royal City: Segredos em Família (Editora Intrínseca, 2020), os elementos que o tornaram famoso, como a vida nas pequenas cidades e as relações humanas, estão amplamente presentes. Na história uma família é acompanhada pela presença do caçula que morreu misteriosamente anos atrás. Para cada membro ele aparece com uma idade e personalidade diferente: a criança ingênua, o adolescente rebelde, o homem religioso e o bêbado inconsequente. A cidade decadente de Royal City é praticamente personagem dos dilemas familiares que permeiam a obra. Quem vem do interior, definitivamente, carrega uma Itabira ou Santo Amaro no peito. 

Enquanto a série não é finalizada, fico na torcida para que algum dia se torne uma produção televisiva – de preferência pela HBO. 

sexta-feira, 7 de maio de 2021

NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO II

 

Sem a grife de um Caetano Veloso, Gilberto Gil ou Chico Buarque, o santo-amarense Roberto Mendes é um dos compositores mais gravados por sua conterrânea Maria Bethânia. Presente em sua discografia desde a gravação de “Filosofia Pura” (no disco Ciclo, 1983) com raras ausências desde então.

Seleção na playlist “Maria Bethânia Canta Roberto Mendes” no Spotify. 


quarta-feira, 5 de maio de 2021

SOCIAL DISTANCIAMENTO I

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda
 
 

Dezembro, 2019

Em meio a confraternizações o receio quanto ao novo vírus é cada vez maior. Inicialmente parecia ser algo quase inatingível, distante da nossa realidade. Agora parece cada vez mais próximo. Feiques nius e relatos catastróficos se misturam com memes supostamente engraçados sobre a “ameaça chinesa”. Os fogos artificiais nunca soaram tão tristes.

            

Janeiro/Fevereiro, 2020

Férias e aquela tradicional distância dos festejos carnavalescos ditam o começo do ano. “Trouxe um vinho para você” é a mensagem de amigos que acabam de retornar de uma Europa afetada pela pandemia. Começo a tomar as primeiras medidas de prevenção mesmo sem nenhum protocolo definido pelas autoridades de saúde. “Deixe de paranoia” é o comentário mais frequente que escuto nesses dias. Ainda não fui buscar aquele vinho. 



terça-feira, 27 de abril de 2021

CONTÉM SPOILER I

 

Não se discute que o gol é o grande momento do futebol, assim como não existe gol feio. Para o torcedor todo gol é importante: de bico, canela, mão, contra, impedido. Mas uns gols acabam sendo mais importantes do que outros. Aquele lance em que você narra a jogada antecipando a melhor possibilidade, como se falasse diretamente para o jogador o que ele deve fazer (dribla, segura, passa, vira para a esquerda, cruza) e que magicamente começa a acontecer até desembocar em um grito de gol que acordaria não só a sua casa, mas a vizinhança inteira é um exemplo comum.
 
Já um filme é construído de vários momentos impactantes, no entanto um bom final pode ser vibrante feito o gol da virada nos acréscimos do segundo tempo. Em “Jojo Rabbit” (direção Taika Waititi, 2019) um solitário garoto de apenas dez anos tem Hitler como amigo imaginário. Um dia ele descobre que sua mãe esconde uma jovem judia no sótão da sua casa. Questionada por Jojo o que ela faria quando acabasse a guerra, Elsa simplesmente responde: dançar. Com o término dos conflitos, quando finalmente consegue colocar os pés fora do seu esconderijo, ela inicia timidamente passos de dança em silêncio no meio da rua. Aos poucos os passos ganham mais força, enquanto os primeiros acordes de “Heroes”, de David Bowie, vão ficando cada vez mais reconhecíveis ao fundo. O volume da canção aumenta com a dança e eu dentro do cinema só desejava que o filme concluísse ali, na gaveta. O aparecimento dos créditos foi o gol de placa esperado.

O mundo vai acabar e ela só quer dançar.

 

Jojo Rabbit Cena Final

 

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