sábado, 8 de dezembro de 2012

GESTOS

GESTOS*
(Roberto Mendes/ Herculano Neto)



E deixe a valsa, e deixe o samba,
E deixe aquela canção antiga que não me cansa,
Ouvindo-a posso sentir comigo seus vestígios,
Os seus domínios, os seus encantos.

E deixe o barco, e deixe a ilha,
E deixe uma lembrança bonita que não ansia,
Lembrando-a posso preencher com gestos meus vícios,
Os meus princípios, meus acalantos.

Não deixe a mágoa,
Não deixe a ira,
Não deixe a volta,
Não deixe a ida
Que eu deixo a vida seguir seu destino.

E deixe o sonho,
E deixe o instante,
Deixe o encontro,
Deixe o constante,
Que eu deixo a vida moldar o meu destino.
 
 


*Faixa extraída do DVD
“Tempos Quase Modernos”
Gravado ao vivo no Teatro XVIII
Salvador, 2006


 

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

007 - TEMA MUSICAL

No ano em que se comemoram os cinquenta anos de lançamento do primeiro filme da franquia James Bond, e todos aproveitaram para citar seu 007 preferido, sua Bond Girl preferida, seu vilão preferido, etc.,  eu não poderia passar incólume, principalmente depois de adquirir, e reassistir, aos filmes da coleção (quem tem mais de trinta anos, fatalmente acompanhou o Festival 007 em alguma Sessão da Tarde), no entanto, a minha lista restringe-se a enumerar as canções, e consequentemente as aberturas, que mais me entusiasmaram:

"We Have All The Time In The World"*
Louis Armstrong
A SERVIÇO SECRETO DE SUA MAJESTADE (1969)

*essa não é a da abertura, mas é a minha faixa preferida

"Live and let die"
Paul McCartney & Wings
VIVA E DEIXE MORRER (1973)




"You know my name"
Chris Cornell
CASSINO ROYALE (2006)



"Nobody does it better"
Carly Simon
O ESPIÃO QUE ME AMAVA (1977)



"Goldfinger"
Shirley Bassey
CONTRA GOLDFINGER (1964)




quarta-feira, 28 de novembro de 2012

SALVADOR ABAIXO DE ZERO, por Edgard Navarro*

Superoutro, 1987, direção Edgard Navarro
Fatos de uma tragédia urbana e existencial contaminam e perpassam os contos de Herculano Neto. Seu estilo imprevisível faz trapaça com o leitor, promete e negaceia; sacaneia e pirraça, entorna o caldo e lamenta o ocorrido. Temerário e malcriado, ele trafega na contramão, nunca estando onde se espera. E assim surpreende com momentos de veracidade e dor pungente. Sempre dilacerado, Herculano reúne coragem e velhacaria, prosódia barata ou complicada, conforme a conveniência, tudo de caso pensado, desorientando a seu bel prazer. Me espanta o desencanto humanitário desse mestiço do Recôncavo! Deuses me defendam da saliva sulfúrica, corrosiva, desse gracioso íncubo, desgraçado súcubo. Bukowski! Quanto asco, sordidez, sarcasmo, desventura, cinismo, Peréio! Penso em rituais macabros de injúria e autopunição. Amar o verdugo, lamber o aço impiedoso de sua espada. Aqui e ali Camões e Camus me assaltam, o desconcerto do mundo, o absurdo e o suicídio: um dia os cenários desabam e é preciso imaginar Sísifo feliz. Também nos evoca o humor-escárnio de Augusto dos Anjos: tuberculose, impotência, desprezo e mais asco. E a tudo preside a náusea-sartre. De Clarice nos chega a mesmice, a vida sem magia e sem romance de uma Macabéa, o fabuloso destino de uma Emília Pereira (Amélie Poulain). Além de uma colecionadora de borboletas de mentira, os braços amputados de bonecas carecas com câncer nos ossos e um menino suicida a quem disseram que teria o corpo retalhado para ser utilizado em feitiçarias. Pobre de mim, animal compassivo, lá no fundo desse pântano viscoso diviso a pálida sombra de uma fina coisa qualquer – digna, diáfana, volátil. E embaixo dos escombros da mina encontro beleza. Toda a beleza que se negou no instante primeiro da abordagem. Afinal, um mineiro soterrado precisa de luz e ar e (valham-me os deuses!) de amor! 

Cineasta


SALVADOR ABAIXO DE ZERO / EDIÇÕES P55 - COLEÇÃO CARTAS BAHIANAS / 
R$ 15,00 (solicite seu exemplar diretamente com o autor) / 
OU NO SITE DA LIVRARIA CULTURA

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

SALVADOR, A CAPITAL NOIR DE HERCULANO NETO

 (CLIQUE NA IMAGEM PARA AMPLIAR)
Matéria publicada no jornal A TARDE, 
edição de 20 de novembro de 2012, 
pelo poeta e crítico de literatura Henrique Wagner.

Há um velho palhaço pançudo que circula pela praça do Campo Grande, muito bem caracterizado, vendendo brinquedos baratos, mas com um ar de enfado terrível. Volta e meia para num ou noutro poste e acende um cigarro. Um palhaço velho, cansado, fumando e vendendo brinquedos numa das mais importantes e populares praças da Bahia. Esse palhaço, que não sei se ainda vive nesse exato momento, representa muito bem uma cidade grande mutilada por seus governantes e pelo descaso com a cultura e a educação de nossas décadas. Esse palhaço é atual. Visão cruel, impiedosa, de algo originariamente engraçado.

O novo livro de Herculano Neto, SALVADOR ABAIXO DE ZERO, é esse palhaço, é essa cidade atual. É essa Bahia sem abadá, a pele de ébano que é a alma nua do baiano do bairro da Liberdade (cidade média, diria Herculano): é essa alegria trágica e essa piada sem graça. Herculano, em seu pequeno volume de contos curtos, é um ficcionista com mão suja de papel de jornal o mais barato. Seu livro, deliberadamente pulp, é marcado por uma deliciosa linguagem jornalística, ágil, fluente, e cada um dos pequenos textos parece uma notícia. E uma notícia chocante, sobretudo quando não choca.

Primeiro a registrar, em literatura, o termo “Pituaço”, essa ortoepia inventada pelo povo para evitar a rima, num dos contos do livro. Herculano Neto é atualíssimo e atualiza seus leitores, naturalmente. Pode-se dizer, sem embargo, que Herculano é um repórter, e quase estamos diante de um jornalismo literário, mais para Hunter Thompson do que para Thomas Wolfe. Essa marca humana faz com que o leitor se identifique de imediato com o texto, a ponto de seguir uma história não só pelo que há de bem engendrado em literatura, mas pelo que há de verossímil e de utilidade pública. Um escritor é, antes de qualquer coisa, um cronista de seu tempo. O que seria da Bahia dos anos 40 e 50 sem Jorge Amado? Uma Bahia registrada por historiadores; portanto, sem a arte e o estilo de um ficcionista. Aprender sobre a Bahia com Jorge Amado é muito mais prazeroso que aprendê-la com Theodoro Sampaio ou até mesmo com José Valladares, que tinha uma escrita saborosíssima.

Baiano sem nostalgias, urbano com vista para o Recôncavo, de onde viera, Herculano Neto inscreve Salvador no rol das grandes metrópoles literárias, ao lado do Rio de Janeiro de Rubem Fonseca (antecipado por um gênio do porte de Marques Rebelo, autor de Marafa e A Estrela Sobe, dentre outros livros, quase sempre ambientados no subúrbio carioca dos anos 30 e 40; vale ainda lembrar que a primeira edição de Marafa trazia uma espécie de dicionário de carioquês em suas últimas páginas) e da São Paulo de Marcos Rey. Seus contos são citadinos, mas de passagem, uma vez que é possível sentir o pincel do santo-amarense aqui e ali. E é russo por seguir os preceitos do conto tchecoviano, com seus finais dissimulados, silenciosos.

Sua primeira pessoa é devastadora. Insere subitamente o leitor na história, no livro, no bolso. Admirável habilidade para vestir personas, ser a pessoa do texto – e todo tipo de pessoa. Se a narrativa na primeira pessoa, de um modo geral, tem fácil capacidade para aumentar a identificação do homem de cidade grande com o texto e o herói do texto, no caso de Herculano essa capacidade é catapultada com tremenda força em função da matéria compacta de que dispõe, em seus contos curtos, e da linguagem despojada de todo e qualquer maneirismo ou pessoas outras – que seriam fantasmas, em verdade; talvez de Canterville, talvez dos sonos culpados de um Scrooge.

Cruel e engraçado como os palhaços de circo que fumam, ainda fantasiados, SALVADOR ABAIXO DE ZERO inventa uma Bahia hollywoodiana para desconstruí-la com a força com que Hollywood construiu e destruiu Marilyn Monroe. Uma Bahia existente, mas revelada em sua polpa pela escrita de um brutalista literário, termo usado por Alfredo Bosi para designar o estilo do mineiro Rubem Fonseca.

Eis um livro que orgulha o baiano que tem vergonha de ser baiano, em certas ocasiões e lugares, e reinaugura uma cidade cheia de um ritmo frenético e decadente, cheia de uma literatura úmida e soturna, contrária ao sol de uma cidade que ainda tenta ser apenas litorânea.        


SALVADOR ABAIXO DE ZERO / EDIÇÕES P55 - COLEÇÃO CARTAS BAHIANAS / 
R$ 15,00 (solicite seu exemplar diretamente com o autor) / 
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segunda-feira, 19 de novembro de 2012

DEPOIS

      O fim era inevitável, não como uma tragédia anunciada (foi até surpreendente para muitos), mas como uma lógica prática: sem exceções; sem poréns; sem aforismos... Era tão evidente o aproximar do final que duvidar era a única opção. E assim foi. Duvidei até o último instante, não querendo me enganar, queria somente empregar emoção ao derradeiro ato de um relacionamento que sempre foi movido a excessos. No último dia não havia medo, angústia ou lágrima em seu olhar. Havia certeza. Ouvi palidamente uma sequência de clichês de despedida e esbocei sem muito convencimento um “se é o que você quer...” (um etéreo abraço fechou o ato). Não era noite, não chovia, a rua não estava deserta e ninguém observou parado o outro ir, embora, eu deva admitir, que após alguns segundos de lenta caminhada, tenha olhado para trás.
         Depois foi o vazio...

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

SALVADOR ABAIXO DE ZERO


cidade alta
cidade média
cidade abaixo das expectativas

O volume de contos de Herculano Neto pega emprestado o título de um livro e filme (“Jamaica Abaixo de Zero”) para desconstruir alguns estereótipos soteropolitanos, sempre enxergando a cidade de dentro pra fora, abrindo mão de uma incerta baianidade nagô mal propalada e do lugar comum do ponto de vista racial e religioso 
 
SALVADOR ABAIXO DE ZERO é a cidade dos moradores de rua, dos sacizeiros, das prostitutas, dos inoportunos vendedores de fitinha do Bonfim. É a cidade dos ambulantes, dos badameiros, de um povo que se acotovela nos pontos de ônibus e se digladia do outro lado da corda durante o carnaval. A cidade das periguetes e dos miseravões, da juventude classe média que frequenta academia usando abadás de carnavais passados. Uma cidade que não faz questão de esconder a sujeira das suas ruas embaixo do tapete, prefere estampá-la ao lado dos seus cartões-postais. Uma cidade onde periferia e centro se confundem. Uma cidade que não deixa de ser alegre e ácida na mesma medida.

Com muito humor, às vezes negro, mas sem o ranço pseudo moralista dos noticiários populares, SALVADOR ABAIXO DE ZERO nos apresenta uma Bahia contemporânea e absolutamente sugestiva.

Lançamento dia 13 de novembro
Casa de Tereza, Rio Vermelho, Salvador
Valor: R$ 15,00


SALVADOR ABAIXO DE ZERO / EDIÇÕES P55 - COLEÇÃO CARTAS BAHIANAS / 
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segunda-feira, 29 de outubro de 2012

A NOVELA DE UM LIVRO

Possuo um livro de contos engavetado há algum tempo, mas não por minha vontade, que fique claro. No distante ano de 2010, parte desses textos foi publicada pela revista Bravo!, tendo boa acolhida pelo público e uma expectativa crescente com relação ao lançamento oficial. No entanto (sempre um “no entanto” no caminho), devido a divergências com a editora (traduzindo: um contrato escroto), acabei escanteado, relegado à geladeira de um mercado violentamente  competitivo. A essa altura alguém já perguntou: “por que não lançou independente?”. Respondo: bancar um projeto do próprio bolso é fácil, difícil é fazer com que o livro seja lido, que tenha divulgação, distribuição, que sobreviva além da noite de autógrafos e que atinja várias pessoas e não apenas meus fiéis amigos. Já lancei um livro independente e confesso que fora a satisfação pessoal e o foda-se editoras não há muito o que comemorar. Desanimado, aguardei. Este ano, me acenaram com a possibilidade de publicação por uma editora que  me agrada, principalmente por seu projeto gráfico charmoso e pelo respeito que é dispensado aos seus contratados. Assim, tive tempo para reescrever alguns contos, excluir outros e incluir um material recente e que não foge da unidade temática, o que parecia ruim inicialmente, terminou sendo o melhor para mim. Hoje, tenho um trabalho em mãos bem mais instigante e maduro do que eu tinha há dois anos. “Tudo tem seu tempo”, algum sábio conformado já disse, porém não costumo exercitar minha resignação com muita frequência. Em breve, livro novo na praça – finalmente.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

ANTES DA MEIA-NOITE

ANTES DO AMANHECER, 1995
ANTES DO PÔR-DO-SOL, 2004
ANTES DA MEIA NOITE, 2013

Espero que a conclusão 
da trilogia nao seja como eu imaginei.


terça-feira, 16 de outubro de 2012

QUANDO EU REENCONTRAR XICO SÁ


    



    Noutra noite, num simpático boteco do Rio Vermelho, Xico Sá me disse que homens bonitos sempre tentam ganhar uma mulher por nocaute — às vezes no primeiro round. E que homens inteligentes (ou seria “esteticamente prejudicados”?) como nós, ganham as mulheres por pontos.
      Preciso dizer para ele que perdi minha luta por  insistência.

domingo, 14 de outubro de 2012

RUMER (P.F. SLOAN)

Se a vida tivesse trilha sonora, como nos filmes, “P.F. Sloan”, na acalentadora voz  da paquistanesa Rumer, teria me acompanhado nos últimos dias, tristes dias.

“No no no no no no no no
Don't sing this song
No, don't sing this song”


 

terça-feira, 9 de outubro de 2012

OS OLHOS DA RUA

"É esse o futuro que você quer para os seus filhos?", na entrada de Nova Conquista, em Santo Amaro da Purificação (BA)
Garoto solitário no campo de Nova Conquista, Santo Amaro da Purificação (BA)
Coisas que só vejo em minha cidade, Santo Amaro da Purificação (BA)

Todas as fotografias por Herculano Neto

terça-feira, 2 de outubro de 2012

CHÁ DE ABU

      Fiz essa foto uma manhã no parque, fiz várias naquele dia, mas essa, com ele me olhando, foi a que eu mais gostei. Jamais poderia imaginar que a usaria num anúncio de “desaparecido”. Espalhei os cartazes pela cidade, perguntei pela vizinhança, mas ninguém sabia. Esperar era tudo o que eu podia fazer.
    Foi numa manhã de novembro, pouco antes das férias, voltei da escola e ele já não estava. “Fugiu”foi o que a minha mãe disse. Nas primeiras semanas, costumava sonhar com ele, saudável, alegre, parado numa esquina perto da minha casa, quando eu tentava me aproximar ele se afastava, e eu corria sem conseguir alcançá-lo, cada vez mais distante de mim. Acordava ofegante e assustado.
       O médico disse que era só questão de tempo, que ele estava sofrendo, que poderia passar a doença para alguém, que o melhor seria sacrificá-lo. Ainda insisti com  todo tipo de medicamento possível: nenhuma melhora. Deus sabe como foi difícil para mim levá-lo àquele lugar, mas não tive coragem de deixá-lo para trás.
     Agora eu fico aqui, do sétimo andar, aguardando o telefone trazer alguma notícia, observando os cães vadios que correm pelo parque, imaginando que ele talvez seja um deles, que talvez se lembre do quanto brincávamos ali. Enquanto eu tomo meu café frio.


Livremente inspirado na canção “Do Sétimo Andar”,
Los Hermanos.



 

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

ALÉM DO QUE SE VÊ

OS INOCENTES
(The Innocents, EUA/Inglaterra, 1961)
Direção: Jack Clayton

A governanta vivida por Deborah Kerr (um dos seus melhores momentos no cinema, em uma atuação que cresce gradativamente) aceita o emprego em uma mansão no campo para cuidar de um casal de irmãos órfãos. Desde a sua chegada ao local, ela passa a ser atormentada por visões de pessoas estranhas rondando a propriedade e a acreditar que as crianças, que ela acha que não seriam tão inocentes quanto aparentam, também podem vê-las. A sombria fotografia realça o tom acentuadamente gótico da Inglaterra vitoriana e o final surpreendente nos permite uma série de interpretações. Com status de obra-prima do terror psicológico, OS INOCENTES, baseado na novela “A Volta do Parafuso”, de Henry James, e com roteiro de Truman Capote, ainda serve de modelo para uma série de imitações  que amiúde aparece por aí.

QUERIDA WENDY
(Dear Wendy, Dinamarca, 2004)
Direção: Thomas Vinterberg 

 
Jovens sem perspectivas e sem autoestima se reúnem em um clube secreto, fundamentado no contraditório princípio do pacifismo e da posse de armas, uma evidente crítica à cultura bélica norte-americana. Produzido entre DOGVILLE e MANDERLAY (a incompleta trilogia “EUA, terra das oportunidades”), QUERIDA WENDY não esconde seu parentesco, e talvez se passe, inclusive, em algum lugar entre as duas cidades. Com roteiro de Lars von Trier, tem em comum a narração em off, os tipos sociais bem específicos e a rotina de uma cidade pequena com seus espaços claramente delimitados (embora não haja a ausência de divisórias). Jamie Bell (de BILLY ELLIOT) encabeça o ótimo elenco juvenil ao lado de  Alison Pill (presente nos últimos trabalhos de Woody Allen). A trilha sonora, com clássicos da banda inglesa The Zombies, é outro destaque.


O GUARDA
(The Guard, Irlanda, 2011)
Direção: John Michael McDonagh 
 
Dupla de policiais que não possuem nada em comum, e que utilizam métodos completamente diferentes no desempenho das suas funções, são forçados a trabalhar juntos e acabam solucionando um caso que parecia fora do alcance dos dois. Provavelmente você já viu algum filme assim, mas a comédia policial irlandesa O GUARDA subverte e brinca com alguns clichês do gênero. Com seu humor ácido e politicamente incorreto, repleto de bons diálogos e uma interpretação afiadíssima de Brendan Gleeson, como o policial corrupto e entendiado de uma pequena cidade do interior da Irlanda, que é obrigado a colaborar com a investigação de um agente do FBI, Don Cheadle, para desbaratar uma operação milionária do tráfico internacional de drogas. Destaque para o trio de criminosos que discute filosofia.

domingo, 23 de setembro de 2012

PODERIAM SER CRÔNICAS

(*) Alguns modismos, realmente, me incomodam. Ultimamente a mania de aplaudirem qualquer coisa tem me tirado do sério. Parece que estamos em um programa de auditório e temos que bater palmas toda vez que a placa de APLAUSOS acende para a claque. Durante a sessão de cinema, o pôr-do-sol e o pouso do avião são os momentos favoritos. Estou me sentindo na obrigação de aplaudir o taxista, o cabeleireiro e o porteiro do meu prédio, logo eu que não tenho paciência nem para mover uma mão contra a outra no “parabéns pra você”.

(*) Diante do encantamento que um arco-iris ainda consegue provocar, alguém  não satisfeito com a condição de ser, simplesmente, plateia da natureza, não perde tempo e saca sua arma telefônica e se fotografa tendo o fenômeno meteorológico ao fundo, um papel de parede de luxo. Há quem prefira parar na estrada, aumentando o congestionamento, para se fotografar à frente de um acidente, como se fosse um casal de namorados diante da Torre Eiffel, não basta dizer que viu, tem que mostrar que estava lá. O pior é que não falta quem curta, e compartilhe.

(*) Da série, as frases que odeio com toda a força da minha alma:
“É muito fácil, até você consegue”.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

INSÔNIA

 Às vezes eu fico acordado à noite e me pergunto “onde foi que eu errei?”
Então uma voz me diz: “Isso vai levar mais do que uma noite.”

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

PORTUGAS X BRASUCAS

“Brasuca” foi a resposta portuguesa à “portuga”, termo empregado até hoje como um sinônimo depreciativo de brasileiro (o sufixo UCA não esconde isso, o mesmo de “muvuca” ou “mixuruca”) e que, equivocadamente, muitos entendem como uma referência carinhosa. A grafia com “Z”, que despreza qualquer regra ortográfica, foi a escolhida para denominar a bola da Copa do Mundo de 2014, ressaltando a infelicidade da escolha. Já o mascote da Copa será o tatu-bola, que ainda não teve seu nome definido, embora não tenha faltado sugestões pejorativas ou trocadilhos envolvendo a palavra tatu.

ANEDOTA DE BRASUCA

Era uma partida entre a selecção brasuca e a equipa portuguesa de futebol. De repente, o juiz marca uma falta na entrada da área a favor da esquadra lusitana. Cristiano Ronaldo prepara-se para a cobrança e a barreira formada pelos brasucas fica de frente para o guarda-redes.
Vocês permanecerão de costas para a bola? pergunta o árbitro, a estranhar a atitude.
Mas, claro! justifica um dos brasucas, o senhor acha que perderemos um golo desses?
O MASCOTE É O DA ESQUERDA

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

(NÃO) VOTE EM MIM

Tem gente que não suporta, que desliga a TV, que nem quer ouvir falar, mas contrariando o bom senso e toda lógica possível, costumo aguardar ansiosamente pelo início do horário eleitoral gratuito no rádio e na TV (que sem muito esforço consegue ser mais divertido do que muito programa de estrela global por aí), especialmente quando é dia dos candidatos a vereador.

Impossível permanecer indiferente aos personagens, jingles e slogans que se sucedem na tela, ainda estou rindo de um e já surgem mais dois igualmente inusitados e cômicos. Sei, sei, sei... Não é muito elegante fazer pouco caso e rir das pessoas dessa forma, mas depois de eleitos eles não farão isso durante quatro anos com a gente?

Campanha municipal possui suas peculiaridades e nos coloca mais perto dos candidatos: é a caixa do banco, o cara do cafezinho, a revoltada do sindicato, o médico boa praça, um tio, um amigo, um conhecido, um vizinho, um colega do trabalho, um ex-colega da escola... Todo mundo postulando uma cadeira na Câmara da cidade. Todos com o sorriso fabricado na foto do santinho. Todos “em pânico mal dissimulado” nos seus preciosos segundos televisivos. Todos em rápidas e breves frases, às vezes apenas uma, resumindo sua proposta de campanha.

Depois de ver um candidato se enrolar completamente com as palavras, percebi como deve ser difícil resumir suas ideias e promessas em tão pouco tempo. Tentei fazer esse exercício em casa, em frente ao espelho, e o ridículo foi inevitável. Na poesia e no conto, procuro buscar sempre a concisão, fazer do mínimo o máximo, mas como fazer o mesmo numa propaganda eleitoral? Tentei novamente e dessa vez pareci ainda mais ridículo.

Melhor ligar a TV e rir dos mestres.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

ASSIM É A VIDA, CHARLIE BROWN!

Charlie Brown, por vários anos, foi o exemplo de amizade que desejei para mim, sem sucesso. Procurava visualizar entre os meus colegas, na escola ou na rua, alguém como ele. Solidário, afável, sensível... Sua turma era minha turma, seus medos eram os meus medos, sua total inabilidade com as atividades infantis também era minha. A idealização do primeiro amor como um sentimento inatingível foi o ponto mais em comum dessa fase. Charlie Brown e eu sofríamos com as desventuras de relacionamentos apenas fantasiados (entre as cores da imaginação e o cinza da realidade, pouco sobrava de nós). A garotinha ruiva deve ter sido a nossa maior identificação: uma garota sem nome, traduzida somente pela cor dos seus cabelos, um amor completamente idílico. Temendo não ser aceito, ele não se apresentou à garotinha ruiva, e em seu lugar foi seu melhor amigo, Linus – que a beijou, se apaixonou e quebrou a magia ao descobrir seu verdadeiro nome. Charlie Brown amargou mais uma derrota com a resignação de quem se acostumou a não vencer. Não me lembro bem, mas acho que era inverno. Muitas estórias passavam-se no inverno. No inverno é tudo mais triste. (Jamais toquei a neve).
     A minha garotinha ruiva não era ruiva; ainda hoje seus cabelos negros visitam minhas lembranças pueris. Nunca mais a encontrei, nem pretendo encontrá-la. Não posso furtar do que me resta de inocência essa recordação doce. É possível até que eu tenha passado por ela em uma avenida qualquer, esbarrado e pedido desculpas no supermercado ou sentado ao seu lado no ônibus ou num banco de praça sem tê-la reconhecido. Melhor assim.
     Hoje, olhando para trás, não vejo aquele menino introvertido em mim. Tudo parece distante e inacreditável, quase paralelo. Talvez por ter vivido a perda com tanta intensidade eu tenha decidido na prática o que não queria ser.
      Nunca perdoei Linus por ter beijado a garotinha ruiva. Nunca perdoei Charlie Brown por ter perdoado Linus. Nunca me perdoei por não ter perdoado os dois.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

MEU NOME É CHICO BENTO, SÔ

Em 2011, para comemorar os 500 longa-metragens patrocinados pela Petrobrás, a  equipe de Maurício de Sousa foi convidada para fazer um crossover entre os personagens da Turma da Mônica e alguns dos maiores sucessos do cinema brasileiro, como "O Homem que Copiava", "Tropa de Elite" e "Se eu Fosse Você". Para "Cidade de Deus" foi reservado Chico Bento, e a escolha não poderia ter sido melhor. Marco do cinema nacional, com quatro indicações ao Oscar (roteiro, direção, fotografia e montagem), "Cidade de Deus" estreou no dia 31 de agosto de 2002. Dez anos depois, o cinema feito no Brasil continua com as mesmas, e piores, dificuldades, e sem ter produzido outro trabalho tão significativo. Um documentário, uma HQ e um musical fazem parte das homenagens ao filme de Fernando Meirelles em 2012.

domingo, 26 de agosto de 2012

DRIVE

    Veio numa caixa não muito maior que os volumes de enciclopédia enfileirados em prateleira na sala de visitas atrás das estátuas de anjos e peixes. Como uma coisa daquelas poderia caber ali? Uma mesa? Uma mesa de canto, dizia o anúncio, confeccionada por um dos mais premiados designers norte-americanos. Requer montagem.
     Chegou ao meio-dia. A mãe ficou muito empolgada. “Vamos esperar para abri-la depois do almoço”, disse ela.
    Ela pedira a mesa pelo correio. Ele se lembrava de ter ficado impressionado com isso. Será que o carteiro tocaria a campainha e, quando a mãe abrisse a porta, ele estaria ali com a mesa nas mãos? “Sua mesa”, madame. Você faz um círculo, escreve um número num pedaço de papel, anexa um cheque e pronto! Uma mesa aparece na sua porta. Tudo isso já é mágico o bastante. Mas ela também vem numa caixinha de nada dessas?
    Memórias mais antigas de sua mãe quando ele era criança afloravam ocasionalmente nas horas que antecediam o amanhecer. Ele acordava com as memórias alojadas na mente, embora, nos momentos em que tentava se lembrar delas de maneira consciente, ou expressá-las, elas desaparecessem.
     Ele tinha o quê? Nove, dez anos? Sentado à mesa da cozinha, ele devorava um sanduíche enquanto a mãe tamborilava os dedos na bancada.
     “Terminou?”, ela perguntou.
     Ele não terminara, ainda tinha metade do sanduíche no prato e estava faminto, mas assentiu. Sempre concordar. Essa era a primeira regra.
     “Então vamos dar uma olhada”. Ela golpeou com um cutelo numa das extremidades da caixa para abri-la.
     Foi colocando as peças no chão com todo o carinho. Que quebra-cabeças impossível! Pedaços de metal barato contorcido e tubos, chavetas e saquinhos com parafusos e outras peças.
     Os olhos da mãe retornavam à folha de instruções e, passo a passo, peça a peça, ela montou a mesa. No momento em que as tarraxas dos pés foram encaixadas e as metades inferiores das pernas foram colocadas no lugar, a expressão no rosto da mãe, a qual ele estava ainda mais atento, passou de feliz a intrigada. Enquanto ela unia as partes superiores das pernas, os apoios de sustentação e os parafusos, a expressão se tornava triste. Aquele prospecto de tristeza se espalhava por todo o seu corpo, tomava conta da sala.
     Preste bastante atenção: esta é a segunda regra.
     A mãe ergueu o tampo da mesa do fundo da caixa e ajustou-o no lugar.
     Uma coisa horrorosa, de aparência barata, instável.
     A sala e o mundo ficaram muito quietos. Ambos silenciaram por um longo tempo.
     “Eu simplesmente não entendo”, a mãe disse.
     Ela se sentou no chão, imóvel, alicates e chaves de fenda espalhados a seu redor. Lágrimas jorravam de seu rosto.
     “Parecia tão lindo no catálogo. Tão lindo. Bem diferente dessa coisa”.



Não costumo postar nada que eu não tenha escrito, aliás isso faz parte DAS COISAS QUE EU ODEIO EM BLOGUES, mas após reler algumas vezes o capítulo vinte e cinco (texto acima) do irregular best-seller de James Sallis, que deu origem ao filme homônimo estrelado por Ryan Gosling, não resisti, talvez porque seja o melhor momento do livro, talvez porque a estrutura se assemelhe a um conto, talvez porque eu tenha me identificado com a prosaica lembrança da infância, talvez porque eu tenha ficado com inveja.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

NELSON

Para quem dizia que toda unanimidade é burra, 
não deixa de ser irônico que o tempo o tenha transformado em uma.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

PODERIAM SER CRÔNICAS, MAS SÃO APENAS NOTAS

(*) Não acompanho novelas, mas sei que há muito tempo elas não tinham tanta evidência. Constatei isso pelo número de matérias nas revistas semanais (inclusive capas) e pelas conversas que inevitavelmente escuto no elevador. Para quem me pergunta se vi as previsíveis revelações da noite passada, quando estou com paciência, costumo responder que dois capítulos de uma novela equivalem à duração média de um longa-metragem, ainda assim morrerei sem assistir à metade dos filmes que desejo. Melhor seria morrer, mas ter visto uma novela inteira?

(*) Não acompanho novelas, mas elas me acompanham. A filha recém-nascida de um colega de trabalho foi batizada com o nome de uma personagem do folhetim das 21 horas, pela festividade das pessoas que receberam a notícia comigo, deduzi que a tal personagem deve ser realmente muito popular, uma  heroína moderna. No meu caminho, ainda me deparo com as roupas, gírias, cortes de cabelos e músicas da novela do momento – até ela acabar e começar outra nova-novela-do-momento.

(*) Não acompanho novelas ou séries, mas não abro mão das reprises dos Simpsons, principalmente os episódios em que Nelson e Milhouse têm destaque. De alguma forma, inexplicavelmente antagônica, me identifico com as agruras de um pseudonerd ingênuo e apaixonado e com o delinquente juvenil, filho de uma prostituta relapsa, que humilha os meninos menores e mais fracos.

(*) Não acompanho novelas, mas acompanho blogues. Recentemente, li em um que “alternativa a gente não impõe, oferece”. Quando estou em uma residência em que eu não sou o dono do controle-remoto e alguém decide mudar de canal para “dar uma passadinha na novela”, olho a tela e nada vejo. “Você pode levar um cavalo até à água, mas não pode obrigá-lo a beber”.

(*) A seguir, cenas da próxima postagem... Ops! Acho que os capítulos hoje em dia terminam de maneira mas estilizada, com frames congelados, fade-out, animações... Se você for do tempo do “a seguir cenas do próximo capítulo”, definitivamente, está ficando velho.

(*) Poderiam ser crônicas, mas são apenas anúncios de acompanhante.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

RODRIGO


Quando minha mãe chama: “Digo
Vou brincando
Vou feliz
Pois eu sei que sou querido

Quando meu pai chama: “Digão
Vou correndo
Vou sem medo
Pois eu sei que é diversão

Mas quando um dos dois grita:
RO-DRI-GO
Fico quieto, nada digo
Pois eu sei que é perigo

(Trecho do livro infantil inédito 
UM MENINO CHAMADO RODRIGO)

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

JORGE

      Há algum tempo, encontrei em um sebo de Salvador algumas edições de Jorge Amado devidamente autografadas, provavelmente vendidas por algum familiar que herdou a biblioteca, mas não enxergava naquele monte de livros utilidade, vai saber. O engraçado é que nem mesmo o esperto vendedor se deu conta de que aqueles rabiscos eram do próprio autor, em diferentes períodos, resultado: comprei cada um por cinco reais.
      Tenho uma espécie de fetiche por livros autografados para terceiros, para pessoas que não conheci. Reservo uma prateleira especialmente para essas relíquias. Há quem diga que autógrafo só tem validade em um cheque, em uma nota promissória. Outros, dizem que autografar estraga o livro, a capa do disco, e ficam chateados quando são presenteados com um livro “riscado”.
      Será que quando eu for apenas uma fotografia post mortem, quando eu deixar de existir que nem a Bahia de Jorge Amado, a minha coleção irá parar em algum sebo por cinco reais cada?

terça-feira, 7 de agosto de 2012

EMANUEL

        Depois de ler uma matéria no jornal (sim, ainda leio jornais de papel) com todo clima de celebração em torno dos setenta anos de Caetano Veloso, decidi não reavaliar a obra do cara, mas tentar organizar meus velhos discos. No entanto, cada capa, cada dedicatória, trazia uma história para revisitar. No final, acabei mais bagunçando do que arrumando.      
      Ser conterrâneo de Caetano Veloso, ao contrário do que pode aparentar, não é fácil, principalmente quando você se encontra fora do seu torrão. Quando digo que sou de Santo Amaro, quase que consigo escutar o pensamento do meu interlocutor: “Meu Deus, outro que pensa que é artista”. Mas essa lógica-preconceituosa-de-botequim não é problema, pior é ter que prestar contas de cada declaração polêmica ou regravação de axé ou funk-carioca, como se fosse eu o culpado (quem é santoamarense sabe o que estou falando). 
        


Acima, a ótima versão da banda de indie rock inglesa MAGIC NUMBERS  para o clássico "You Don’t Know Me", 
faixa do disco "A Tribute to Caetano"
      

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

OS OLHOS DA RUA

FOTOGRAFIAS Herculano Neto  
(julho 2012)
SOB O CÉU DE SANTO AMARO as ruínas da antiga siderúrgica Trzan
(manhã de 29 de julho de 2012)


CARETAS DE ACUPE
Não, não são doces ou travessuras, trata-se de uma manifestação cultural de Acupe, distrito de Santo Amaro, que celebra a Independência da Bahia. Com fantasias artesanais assustam e divertem durante os domingos de julho.


DINHO FAGUNDES E AS CARETAS DE ACUPE
Não confunda com nenhuma contracapa de disco de rock nem revival de Thriller, na cena, aparentemente programada, apenas o amigo santoamarense Dinho Fagundes, sem se dar conta da aproximação das Caretas de Acupe.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

ALÉM DO QUE SE VÊ III

PRIMER (EUA, 2004)
Direção: Shane Carruth

Com apenas, inacreditáveis, sete mil dólares, um matemático desencantado com a profissão decidiu escrever, dirigir, atuar, compor a trilha sonora, escalar um elenco amador, usar a própria garagem como estúdio de filmagem, editar em um computador caseiro, e mesmo sem utilizar nenhum efeito especial, acabou realizando uma das melhores ficções científicas da história do cinema, e a melhor no sub-gênero “viagem no tempo”, sem dúvidas.  Com um roteiro que consegue tratar da maneira inteligente os paradoxos temporais, o calcanhar de Aquiles desse tipo de produção, PRIMER é um quebra-cabeças que exige do espectador a máxima atenção, são tantos os detalhes que é necessário ser visto mais de uma vez. E acredite: a cada exibição o filme fica ainda mais interessante.

O OLHAR INVÍSIVEL
(La Mirada Invisible, Argentina, 2010)
Direção:  Diego Lerman
Com ecos de Lucrecia Martel, essa película se passa em 1982, quase que exclusivamente dentro do Colégio Nacional de Buenos Aires, durante os últimos dias da ditadura militar argentina. O microcosmo do colégio reflete, naturalmente, a repressão e rigidez que acometia o país naquela época. Marita, inspetora encarregada de vigiar o cumprimento das severas regras escolares, o olhar invisível do título, e que usa o seu cargo como pretexto para observar os alunos no banheiro, é a típica representante de uma classe média utópica, que em busca de valorização profissional vivia alheia ao regime ditatorial. Feito de breves gestos, de olhares, temos, novamente, outro bom exemplar do cinema argentino, mas afirmar isso é chover no molhado.
 
O ABRIGO
(Take Shelter, EUA, 2011)
Direção: Jeff Nichols
Sempre questiono se os distribuidores brasileiros, tão preocupados com estratégias de mercado, conhecem efetivamente a sétima arte quando vejo um filme como esse estrear diretamente em home vídeo. Espécie de primo-pobre de MELANCOLIA, de Lars von Trier, e A ÁRVORE DA VIDA, de Terrence Malick, O ABRIGO acompanha de perto Curtis, ótima performance de Michael Shannon, um homem dócil, introvertido, pai de família devotado, que tem sua rotina afetada quando a iminência de uma tempestade devastadora, que somente ele consegue observar, escutar e sentir, o leva a construir um abrigo subterrâneo, decisão que terá graves consequências em sua vida. Sem sabermos se essa tempestade é real, ou se compartilhamos dos delírios de Curtis, O ABRIGO possui mais incitações psicológicas do que mera angústia apocalíptica.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

POST MORTEM

Por mais mórbido que possa parecer, antigamente era comum fotografar um ente querido morto (costume que ainda é preservado em algumas localidades). A fotografia "Post Mortem" era a última homenagem prestada ao falecido, principalmente nas famílias mais ricas e tradicionais. Para a produção dos retratos eram criados situações e cenários que simulavam um ato corriqueiro, que parecesse natural, como sentar com as pernas cruzadas, segurar livros ou bebês, abraçar um parente, ou ficar “em pé”, com o auxílio de madeiras por dentro da roupa. Fotos “post mortem” aparecem em um dos melhores momentos do filme OS OUTROS (The Others, 2001). Abaixo, alguns exemplos:
A moça em pé está morta
Garotinha apreensiva ao lado do irmão morto

Pai e filho mortos
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