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terça-feira, 2 de outubro de 2012

TODOS OS MEUS MORTOS I

      Fiz essa foto uma manhã no parque, fiz várias naquele dia, mas essa, com ele me olhando, foi a que eu mais gostei. Jamais poderia imaginar que a usaria num anúncio de “desaparecido”. Espalhei os cartazes pela cidade, perguntei pela vizinhança, mas ninguém sabia. Esperar era tudo o que eu podia fazer.
    Foi numa manhã de novembro, pouco antes das férias, voltei da escola e ele já não estava. “Fugiu”foi o que a minha mãe disse. Nas primeiras semanas, costumava sonhar com ele, saudável, alegre, parado numa esquina perto da minha casa, quando eu tentava me aproximar ele se afastava, e eu corria sem conseguir alcançá-lo, cada vez mais distante de mim. Acordava ofegante e assustado.
       O médico disse que era só questão de tempo, que ele estava sofrendo, que poderia passar a doença para alguém, que o melhor seria sacrificá-lo. Ainda insisti com  todo tipo de medicamento possível: nenhuma melhora. Deus sabe como foi difícil para mim levá-lo àquele lugar, mas não tive coragem de deixá-lo para trás.
     Agora eu fico aqui, do sétimo andar, aguardando o telefone trazer alguma notícia, observando os cães vadios que correm pelo parque, imaginando que ele talvez seja um deles, que talvez se lembre do quanto brincávamos ali. Enquanto eu tomo meu café frio.


Livremente inspirado na canção “Do Sétimo Andar”,
Los Hermanos.



 

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

NOSSO PRÓPRIO TEMPO

Sempre gostei de ficção científica e sempre odiei minha vida de adolescente, afirmar que eu habitava um episódio de Todo Mundo Odeia o Chris não seria exagero, embora, naquela época, eu estivesse mais para Kevin Arnold ou Doug Funny. Com as inseguranças típicas da idade, vivia arrependido por tudo que fazia ou (principalmente) deixava de fazer, imaginando como poderia ter sido as outras possibilidades e a procurar onde ficava o CTRL+Z da vida real (acho que todo adolescente é um pouco assim). Quisera eu ter despertado na mesma manhã, seguidamente, como se fosse o dia da marmota. Acreditava que a qualquer momento poderia aparecer um “eu” vindo diretamente do futuro, mais velho e mais sagaz, que me ensinaria o caminho das pedras, que me explicaria como eu deveria agir para garantir uma existência futura sem remorsos. Costumava brincar dizendo que não me assustaria se algum dia eu aparecesse para mim e ainda me cumprimentaria firmemente, olhando nos meus olhos: “estava te esperando”. No entanto, não demorei para descobrir que não conseguiria fugir das minhas responsabilidades e que tudo que eu considerava danoso ajudaria a moldar a pessoa que agora eu sou. Curiosamente, ou obviamente, nada muito diferente disso acontece em O HOMEM DO FUTURO, de Cláudio Torres (“Redentor”, “A Mulher Invisível”). Wagner Moura é um amargurado cientista e professor universitário chamado Zero, que teve sua vida modificada a partir de uma fatídica festa à fantasia no, agora distante, ano de 1991, onde foi humilhado por Helena (Alinne Moraes), seu grande amor. Acidentalmente, Zero viaja no tempo exatamente para o dia da festa e aproveita a oportunidade para modificar sua própria história, mas nem tudo sai como esperado.
         O cinema tem verdadeiro fascínio pelos paradoxos temporais ocasionados pelas viagens no tempo – que é praticamente uma espécie de sub-gênero da ficção científica. “O Planeta dos Macacos”, “De Volta Para o Futuro”, “Jornada nas Estrelas”, “Efeito Borboleta” sobram exemplos. Gosto, particularmente, do curta-metragem “Barbosa”, de Jorge Furtado, onde um homem tenta impedir a derrota brasileira na final da Copa do Mundo de 1950 no estádio do Maracanã, trauma de sua infância, no entanto ele próprio se torna o motivo da distração do goleiro Barbosa, que resulta no gol vitorioso da seleção uruguaia. Sei que não faltará cético para dizer que se fosse possível viajar no tempo algum viajante já teria retornado do futuro (a não ser que o considerassem louco, como ocorre em “Os 12 Macacos”), nem crédulo para explanar sobre universos paralelos e futuros alternativos (a contrapor a teoria de causa e efeito, que diz que se alguém voltasse no tempo para impedir um acidente e conseguisse, o acidente, que é o motivo da viagem, deixaria de existir, consequentemente a viagem também).
          O enredo de O HOMEM DO FUTURO poderia se resumir, simplesmente, à letra da canção “Tempo Perdido”, emblemático sucesso da Legião Urbana, que permeia toda a película: de “todos os dias quando acordo”, passando por “então me abraça forte” e culminando com “somos tão jovens”. Aliás, boa parte da obra parece condensada no clipe musical que serviu como divulgação (vídeo abaixo). Se a filme fosse apenas esse vídeo, como aconteceu com “Eduardo e Mônica” em uma campanha de telefonia celular, teria sido genial. Propositalmente, não há nada original. Mas a ideia é mesmo essa: resgatar a simpatia de uma descontraída sessão da tarde. Para quem não viu, aviso que quanto menor a expectativa, menor será a impressão de tempo perdido (sem trocadilho). Com viagens temporais, uma festa à fantasia e um hino juvenil de pano de fundo, o trabalho do diretor Cláudio Torres não sai da adolescência, mergulha no raso, assim como em seu filme anterior, onde era idealizada a mulher perfeita, outro desejo da juventude, ainda que o exemplo de perfeição fosse Luana Piovani.

          Já não quero voltar no tempo, quero apenas mais tempo para realizar tudo que desejo.
       
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