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sexta-feira, 28 de março de 2025

NAVIO MERCANTE

Há muito escritor ruim sendo publicado. Até aí nenhuma novidade, sempre foi assim. A diferença é que agora eles sabem se vender. Não adianta apenas ser escritor, é preciso dizer, principalmente para aqueles possíveis compradores do seu livro, acumulados numericamente na aba de seguidores, que você é um escritor – como produtos na prateleira do supermercado que não são o que aparentam ser. Não quero dar a entender que envelheci mal, na verdade sou até entusiasta de mídias sociais, só não me peçam para alimentar com migalhas de dopamina quem ousar acompanhar minha rotina em reels e stories opinando sobre a polêmica do momento ou humor com trends banais ou check-in de todo local que piso. Não, não me peçam isso; logo eu que não passo de um escritor ruim que não sabe se vender além de reclamar em uma rede social que ninguém acessa.

 

sexta-feira, 3 de maio de 2024

POETA DO INTERIOR

 

Retornando, aos poucos, a frequentar eventos sociais, percebi que as pessoas vinculam o meu nome imediatamente a Santo Amaro, o que é bastante lisonjeiro, e à poesia (o que não é tão lisonjeiro assim), gênero no qual estreei, mas logo deixei de lado para me dedicar a produzir uma prosa urbana. Apenas há pouco tempo, me dei conta que em breve (se não houver nenhum plot twist) terei existido mais tempo na capital do que no interior – algo assustador, já que abandonei meu torrão natal a fórceps. Em um lançamento literário recente, fui saudado na entrada como “poeta do interior”, me causando inevitável embaraço. Às vezes acho que me imaginam usando chapéu de couro e recitando cordel sob um sol inclemente em alguma feira do sertão. Recordo que em 2015 precisei catalogar a biografia de alguns autores baianos para um projeto. Inesperadamente um deles se recusou a informar a cidade de nascimento, alegou que não queria que a sua carreira fosse reduzida ao epíteto de “escritor do interior”. Na época, achei uma grande bobagem, mas acatei. Sua biografia fora a única que não constou o local de nascença. De quando em vez, penso que o escritor de Ribeira do Pombal (ops) tinha razão.

domingo, 24 de dezembro de 2023

“FELIZ NATAL, SEU ANIMAL IMUNDO! E UM FELIZ ANO NOVO!”

  

Não estou aqui para te chamar de porco capitalista (acho que deixei meu espírito punk em alguma gaveta da memória) nem para fazer promessas que não cumprirei – mentiras sinceras não me interessam. Não me tornei mais altruísta e menos mesquinho nas últimas semanas, não fiz um balanço do que aconteceu no ano em minha vida, não pedi perdão pelo local de privilégio que ocupo na sociedade, não enviei uma mensagem de agradecimento no grupo da firma. Aqui estou sem contabilizar erros ou acertos. Entretanto, queria fazer um último pedido: gostaria de escrever sobre as mesmas coisas, do mesmo jeito, com o mesmo vocabulário, mesma embocadura, mesmos personagens. Algo que meus detratores denominarão como repetitivo e os meus admiradores chamarão de estilo. E se possível, também, gostaria de ser poupado da tarde/noite de lançamento, entrevistas de divulgação e postagem em rede social com centenas de “parabéns” na aba de comentários. Ah, e bloqueie quem postar “guarde o meu”.


Atenciosamente,

O Neto do Herculano

 

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

VIRADA DE PÁGINA XII

Papel jornal, couché, off-set, polén, reciclado, kindle ou pdf

Houve uma época em que eu costumava me designar como escritor, ao ser apresentado a  amigos de amigos ou ao preencher algum formulário, pouco importava, assim eu compreendia quem eu era – o que levava muitas pessoas a me inquirir sobre qual seria meu "trabalho de verdade", como se escrever não fosse profissão. Para a prosa não render, há algum tempo me identifico, meramente, como um reles barnabé. Por outro lado, quando esbarro com executivos, bancários, ratos de repartição ou workaholics em geral me atrevo a perguntar: e quem você realmente queria ser? A intenção não é ser desmancha-prazeres nem guru (des)motivacional de ninguém, de coach de autoajuda o planeta tá infestado, apenas confirmar que muitos músicos, pintores, estilistas, artesãos que por suposta segurança financeira ou pressão social vão adiando seus sonhos, deixando para “depois”, um “depois” que parece não ter data para acontecer. Contradizendo o Clube da Esquina, sonhos envelhecem. 

DUAS VIDAS, do francês Fabien Toulmé, parte de uma premissa aparentemente simples, um jovem advogado descobre ter câncer terminal e é impulsionado pelo irmão a aproveitar o que ainda lhe resta de vida fazendo o que sempre desejou e não teve coragem, uma jornada comovente que desembocará em um bem construído plot twist despertando reflexões que se prolongarão após o término da leitura. A HQ abre com uma célebre citação de Confúcio que diz que temos duas vidas, mas a segunda começa quando percebemos que só temos uma. Recordo de uma música de Raul e Cláudio Roberto e de repente me dou conta, com inevitável desalento, que posso ter me tornado o personagem daquela canção.

 

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

SOCIAL DISTANCIAMENTO X

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda

(Maio, 2021)

Onde estiverem dois ou mais escritores reunidos fatalmente surgirá o questionamento/curiosidade/falta do que falar se você está escrevendo algo no momento. Mesmo que o projeto apenas habite a sua cabeça, ou gaveta, bastará revelar a ideia do título para surgirem teóricos que dissequem com maestria sua escolha. Conheço autores que são hábeis em cunhar títulos para os seus livros, existe toda uma lógica/ciência envolvida que vai desde a extensão e sonoridade até o uso de palavras a ser evitadas. Há outros que são especializados em arte da capa, alguns desses livros mereceriam um quadro na parede da sala de estar e não a poeira da biblioteca. Tem ainda os que conseguem os prefaciadores mais sagazes, que realizam a proeza do trabalho parecer mais interessante do que ele verdadeiramente é, além dos que dispõem das fotos mais bacanas na orelha do livro, como se fossem astros do rock dos anos 80 no encarte do vinil. Sei que o livro é um produto e que precisa ser vendido (não sou tão ingênuo, só um pouco chato), mas a máxima de não julgar um livro pela capa parece não valer para livros. 


(Junho, 2021)

O “fique em casa” da pandemia me possibilitou ler/reler muitos livros, acho que nunca li tanto. Quase caí, inocentemente, na tentação de postar em alguma rede social as leituras concluídas, mas logo lembrei daqueles que fazem gincana no Instagram contabilizando com soberba cada obra lida e rapidamente desisti. 


quarta-feira, 27 de agosto de 2014

OS MISSIVISTAS

Um amigo escritor iniciou um papo contra as mídias digitais, alegou que tudo é muito veloz, fútil, desnecessário; que não se documenta mais nada, que tudo se perde no oceano da web; que se abandonar sua caixa de entrada por algum tempo tudo é excluído automaticamente; que muitas biografias se fundamentam, principalmente, pela correspondência trocada pelo biografado... Enfim, toda uma ladainha preambular para propor que trocássemos cartas nos moldes tradicionais: papel, caneta, envelope e selo. Argumentou que poderíamos expor, sem medo da censura do nosso tempo, todas as nossas mais reprimidas ideias e que talvez o futuro nos agraciasse com a publicação dessa correspondência, como Mário de Andrade e Carlos Drummond. Prosseguiu, entusiasmadamente, que Fulano e Beltrano, dois conhecidos escritores locais, já faziam isso há alguns anos. Com muito tato e elegância, declinei do convite. Ele pareceu não se importar com a minha recusa, confessou que tinha convidado, através do Feicebuque, uma jovem escritora ascendente, mas ela ainda não havia respondido.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

O INFAME DA VILEZA

Escritores tendem a se achar semideuses, a única Pepsi-Cola do Jardim de Alah, o pote de ouro no final do arco-íris (muitas vezes se acham o próprio arco-íris) mesmo quando não publicaram nenhuma nota de rodapé, mas isso é o que menos importa, para um escritor é comum acreditar que um dia serão descobertos, compreendidos, cultuados; serão figurinhas fáceis em feiras literárias, terão trechos recitados por Tony Ramos no Fantástico, obras adaptadas para cinema e TV, darão opinião sobre-tudo-e-qualquer-coisa mais do que Caetano Veloso. E se a vida, essa pequenez divina, não os contemplar a tempo, restará a posteridade póstuma, quando serão estudados pelas melhores faculdades, pelas mais brilhantes cabeças pensantes do futuro. Outra característica do escritor é desmerecer o trabalho alheio: só ele escreve bem, o resto chafurda na mediocridade, e quando o colega é realmente bom não passa de um copiador barato, um repetidor de cânones consagrados. Resumindo, escritor no Brasil é um chato de galochas. Sempre que me acho melhor do que realmente sou, abandono minha Bic e vou secar a louça, repor a despensa, limpar os armários: genialidades de pessoas comuns.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

EPÍGRAFES

epígrafes dizem mais
não se escondem

a epígrafe é você na pena do outro
é o verso certeiro
a referência
a deferência
a bênção

epígrafes são traiçoeiras
decorativas
desnecessárias

epígrafes são maledicentes
pretensiosas
tendenciosas

epígrafes são autossuficientes
epígrafes são epitáfios

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

JORGE + 100

O Centro Histórico de Salvador abrigará de 10 a 13 de dezembro um evento literário que vai discutir a Literatura que se faz hoje na Bahia, tendo como referência o mais famoso dos escritores baianos: Jorge Amado. O “Jorge + 100” é uma iniciativa patrocinada pelos Correios, com realização do Ministério da Cultura, apoio da Fundação Casa de Jorge Amado e organização da produtora Canto de Ideias. O encontro será no Centro Cultural dos Correios, no Largo do Cruzeiro do São Francisco, Pelourinho, com acesso gratuito ao público até a capacidade máxima do auditório. O Jorge +100 reunirá diversos escritores e especialistas que debaterão sobre as obras ficcionais atuais e os temas relacionados, que vão desde as ruas de Salvador como inspiração à baianidade da população e influência da capital nos trabalhos dos autores locais. Estão confirmadas as participações de nomes de destaque no cenário nacional, como o baiano Antônio Torres, recém-eleito para a Academia Brasileira de Letras, Liv Sovik, pesquisadora de temas multiculturais, e a atriz e poeta Elisa Lucinda, além do escritor santoamarense Herculano Neto.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

OS ÚLTIMOS CARTUCHOS

Tenho alguns amigos escritores que não possuem blogue, ou têm mas não atualizam, deixam a página a hibernar indefinidamente, a apanhar poeira virtual, visitantes desavisados e ocasionais. De quando em vez o blogue recebe alguma postagem, geralmente a divulgação de algum evento envolvendo o autor ou um texto antigo que foi agraciado com algum prêmio – mero exercício do ego –, feito uma nau perdida no espaço e que repentinamente pisca. O argumento deles é que publicar em blogues (“pra ninguém”, “de graça”) é queimar cartucho à toa, melhor guardar o esforço, as ideias supostamente geniais, para livros que encontrarão poucos e rasos leitores.

Não compartilho desse pensamento Tio Patinhas.

Gosto do cheiro da pólvora, da surpresa esperada dos fogos de artifício. Portanto, permita-me queimar meus últimos cartuchos, afinal, como todo bom pacifista com uma arma nas mãos, o máximo que posso fazer é atirar para cima, para dissipar a multidão que pretendia linchar algum trombadinha de avenida.

Nunca miro no peito de ninguém.



segunda-feira, 29 de outubro de 2012

A NOVELA DE UM LIVRO

Possuo um livro de contos engavetado há algum tempo, mas não por minha vontade, que fique claro. No distante ano de 2010, parte desses textos foi publicada pela revista Bravo!, tendo boa acolhida pelo público e uma expectativa crescente com relação ao lançamento oficial. No entanto (sempre um “no entanto” no caminho), devido a divergências com a editora (traduzindo: um contrato escroto), acabei escanteado, relegado à geladeira de um mercado violentamente  competitivo. A essa altura alguém já perguntou: “por que não lançou independente?”. Respondo: bancar um projeto do próprio bolso é fácil, difícil é fazer com que o livro seja lido, que tenha divulgação, distribuição, que sobreviva além da noite de autógrafos e que atinja várias pessoas e não apenas meus fiéis amigos. Já lancei um livro independente e confesso que fora a satisfação pessoal e o foda-se editoras não há muito o que comemorar. Desanimado, aguardei. Este ano, me acenaram com a possibilidade de publicação por uma editora que  me agrada, principalmente por seu projeto gráfico charmoso e pelo respeito que é dispensado aos seus contratados. Assim, tive tempo para reescrever alguns contos, excluir outros e incluir um material recente e que não foge da unidade temática, o que parecia ruim inicialmente, terminou sendo o melhor para mim. Hoje, tenho um trabalho em mãos bem mais instigante e maduro do que eu tinha há dois anos. “Tudo tem seu tempo”, algum sábio conformado já disse, porém não costumo exercitar minha resignação com muita frequência. Em breve, livro novo na praça – finalmente.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

QUANDO EU REENCONTRAR XICO SÁ


    



    Noutra noite, num simpático boteco do Rio Vermelho, Xico Sá me disse que homens bonitos sempre tentam ganhar uma mulher por nocaute — às vezes no primeiro round. E que homens inteligentes (ou seria “esteticamente prejudicados”?) como nós, ganham as mulheres por pontos.
      Preciso dizer para ele que perdi minha luta por  insistência.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

PODERIAM SER CRÔNICAS, MAS SÃO APENAS NOTAS III

(*) Já escrevi AQUI que prefiro ir à banca de revistas, conferir as novidades, ver as manchetes dos jornais, do que ser assinante. Faço isso desde moleque, quando colecionava minhas primeiras Hqs, não mudaria agora – tornar-se adulto é mero detalhe.
      Algumas publicações, numa estratégia de mercado, costumam colocar duas ou mais capas diferentes à disposição do leitor, algo que tem se tornado cada vez mais comum e me agradado bastante. Em junho de 2010, a “Rolling Stone” disponibilizou uma capa com Mick Jagger e outra com Keith Richards, com suas faces mais imberbes. Ao perguntar ao jornaleiro se a revista já havia chegado, ele prontamente me ofereceu a edição com Jagger, educadamente recusei e disse que preferia a outra, sem se dar por vencido, ele argumentou que era Mick Jagger. “E este é Keith Richards” – sentenciei. Depois, fiquei imaginando qual seria a capa que escolheriam para mim se eu fosse assinante.
      Poder escolher, ainda, é o meu maior trunfo.

(*) Tenho pavor a diminutivos, desde sempre. Falsa intimidade ou excesso de intimidade pouco importa para mim, é constrangedor de qualquer forma. Penso que os “inhos” e  “inhas” deveriam se restringir, no máximo, ao ambiente familiar. Os irmãos Fernandinho e Fernandinha, ao se encontrarem no pátio da escola, se tratariam como Fernando e Fernanda, sem carinhos... Ops! Será que “carinho” também é um diminutivo?

(*) Fotógrafos, Djs, escritores e comediantes se espalham por aí, feito uma virose pós-carnaval. Acho que falta quem diga que apertar um botão não faz de ninguém fotógrafo, colocar um disco para tocar não faz de ninguém DJ, ajuntar palavras não faz de ninguém poeta, contar uma piada não faz de ninguém comediante. No entanto, enquanto houver quem “curta” e “compartilhe” a ausência de talento ainda será a bola da vez.
       A busca por um padrão diminui as possibilidades, e nunca houve tantas.

(*) Poderiam ser crônicas, mas são apenas parágrafos. Falta de fôlego do cronista ou preguiça do leitor? Preguiça do cronista ou falta de fôlego do leitor? Falta do leitor ou falta do cronista? Falta de leitor?

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

PARA UMA APRENDIZ DE FEITICEIRA

 "Queridos pai e mãe, obrigado pela minha infância feliz.
Vocês arruinaram toda a chance que eu tinha de me tornar escritora!"

Cartum de Alex Gregory para 
a revista americana The New Yorker

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

ZUCKERMAN X BARTLEBY

Sempre preferi o factóide ao fato, a inverossimilhança à realidade, a fantasia ao documentário. Sempre fui o último no telefone sem fio, sempre fui ludibriado pelas aparências. Por isso, costumo me irritar quando ignoram meu mérito de ficcionista, quando confundem o criador com a criatura, o contista com o cronista – e, ultimamente, isso tem sido cada vez mais comum. Nem tudo que eu escrevo é fruto das minhas experiências, das minhas observações do mundo. Além do ocorrido, há o imaginado.
          Já perdi a conta de quantas vezes me perguntaram sobre situações e personagens, como se tivessem acontecido comigo, como se fossem eu. Sinto a decepção no olhar dessa parcela de leitores quando respondo contrariado que nunca fui preso, nunca fiz programa com travestis, nunca fui travesti, nunca sofri uma overdose, nunca trabalhei para o tráfico, nunca fraudei documentos para fugir do país, nunca testemunhei uma chacina, nunca morei nas ruas ou numa tribo indígena, nem sou jornalista, estudante de veterinária ou tive um cãozinho chamado Sabido. Uma explicação pouco convincente, talvez seja porque construo quase todos os meus contos em primeira pessoa, o que gera certa cumplicidade e aproxima mais a ação do leitor. No entanto, isso está distante de ser uma característica de estilo ou artimanha, é apenas resultado da minha inabilidade em desenvolver satisfatoriamente textos em terceira pessoa. Parece desnecessário dizer, mas a minha biografia não está nos meus livros.
          Algumas pessoas se aproximam de mim achando que sou “diferente”, “especial”, que o meu coloquialismo é poesia vinte e cinco horas por dia, que a minha vida é repleta de histórias absurdas e divertidas. Não sou nenhum super-homem, sou um humano que erra, chora, sonha, atrasa as contas, esquece, se arrepende, pede desculpas. Citando Lulu Santos: “não leve o personagem pra cama, pode acabar sendo fatal”. É possível que essas pessoas sofram da Síndrome de Zuckerman, que segundo Rubem Fonseca, em DIÁRIO DE UM FESCENINO, é um mal que acomete os leitores e os faz pensar que autor e personagem sejam uma coisa só. (Nathan Zuckerman é o protagonista de diversos livros do romancista norte-americano Philip Roth. Após publicar um livro, Zuckerman é perseguido pelos leitores, que acreditam que tudo que ele escreveu se refere aos seus amigos ou parentes). Melhor seria que fosse diagnosticada em mim, por uma equipe de questionáveis especialistas, a Síndrome de Bartleby, que é quando os autores deixam de produzir novas obras, e excluísse meu blog, me mudasse para uma ilha ou me isolasse definitivamente no meu apartamento.
          Somente agora, compreendo porque as telenovelas avisam ao final do capítulo que “essa é uma obra de ficção”. Poderia ter usado artifício similar desde o começo, em Santo Amaro. Hoje, seria reconhecido pelo que realmente sou. E seria mais infeliz.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

PROFISSÃO: ESCRITOR


          O apresentador Serginho Groisman, recentemente em seu programa, ao receber um livro de um convidado indagou:
           - E além de escrever você faz o quê?
           A pergunta não causou estranhamento, soou com naturalidade tanto para a plateia quanto para o entrevistado (que não se constrangeu ao dizer sua formação). No entanto foi o suficiente para afugentar o que ainda me restava de sono. Fiquei a pensar que a pergunta, apesar da aparência, não era corriqueira nem simplista. Era emblemática. Carregava uma série de preconceitos e descasos culturais históricos. Se o convidado fosse um filatelista, adestrador, exorcista, deputado, surfista, luthier, enxadrista, enófilo ou uma celebridade instantânea não haveria nenhum tipo de questionamento. Tudo por aqui é plausível, menos escrever. Num país onde quase não se lê escrever é encarado como um hobby, uma desocupação; é praticamente uma excentricidade. Lamentável que formadores de opinião também tenham essa opinião (melhor que o epíteto do programa fosse “vida conveniente na madrugada”). Escritor no Brasil não é profissão, eu sei - é qualidade.


(Publicado no jornal A TARDE, Salvador_Ba, edição nº 33.275, ano 98, de 16/05/2010)

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

MANUAL PRÁTICO DO ESCRITOR IMBERBE

Uma garota me abordou hoje no parque, enquanto eu caminhava, e me perguntou, após alguma cerimônia, sobre meu processo criativo. A pergunta não foi original, uma jornalista já havia me perguntado algo semelhante. Solícito, respondi que não possuía segredos, que apenas me dedicava, reverentemente, à leitura e à vida: quem não lê não sabe escrever, e quem não vive não tem o que escrever – mandei um aforismo. Ao desviar os olhos percebi que ela ficou decepcionada, imaginei que ela esperava algo mirabolante, uma fórmula mágica óbvia (no melhor estilo Mister M.) ou uma receita de bolo. A resposta pronta foi a mais sincera e educada que encontrei. Deselegante eu seria se dissesse que a literatura, em todas as suas vertentes, deveria ser mais respeitada e menos maculada; que gostar de livros não qualifica ninguém a ser escritor; que escrever deveria sempre ser a última alternativa, mesmo para a alma mais sensível; que o talento é inato e não faz parte do programa semestral de nenhuma faculdade; que diário não é romance e ajuntar versos não é poesia; que entre a caneta e o papel existe um oceano, para alguns o infinito; que modernidade não é sinônimo de má literatura; que só pode transgredir a gramática quem a conhece; que o escritor jamais deixa de estudar; que escrever é um peso e não dá pra arriar o balaio e descansar; que acordo cedo todas as manhãs para bater ponto num trabalho que me consome física e espiritualmente; que tenho compromissos, contas a pagar; que a literatura não coloca pão na minha mesa; que sou arrimo de família; que cozinho minha comida e lavo minha roupa; que abasteço regularmente meus parceiros musicais com letras para canções; que escrevo crônicas para jornais do interior e sites (pelas quais não recebo nenhum centavo); que atualizo meus blogs duas vezes na semana (às vezes mais); que estou escrevendo um livro infantil e outro de contos; que estou reescrevendo o roteiro esquizofrênico de um curtametragem e revisando o romance soteropolitano de um amigo; que escrever é trabalhoso, não é psicografia; que “estou sem tempo” não é justificativa para quem faz o que gosta; que nem todo escrito é publicável; que se pudesse escolher não escreveria; que não poso de celebridade em coquetéis e prefácios; que sou convidado para feiras e bienais, mas nunca me oferecem cachê; que quem precisa de reconhecimento não é o escritor, é a obra; que escrever, para mim, é muito doloroso, me extenua, me absorve, e que mesmo assim jamais será uma obrigação; que escrever é uma necessidade, um vício; que escrever não deve ser válvula de escape ou passatempo; que escrever é estar em queda-livre, num trem sem freios; que muitas vezes me sinto como a dona de casa que cuida dos filhos, do lar, trabalha, estuda e à noite tem que estar perfumada, arrumada, depilada e disponível para um sexo rápido, sem beijos ou preliminares, para um marido que não se esforça para entendê-la e que toca mais o controle-remoto do que suas pernas.
Poderia ter dito tudo isso, mas alguém nos interrompeu.
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