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domingo, 3 de março de 2013

ALÉM DO QUE SE VÊ

NEM TUDO É O QUE PARECE
(Layer Cake, Reino Unido, 2004)
Direção: Matthew Vaughn 

Para quem reclama que falta “pipoca” nas minhas indicações, recomendo a estreia na direção do produtor dos primeiros trabalhos de Guy Ritchie (no tipo de filme que todos esperavam que ele continuasse a realizar, se não fosse a Madonna e Mr. Holmes). Daniel Craig (antes do estrelato) vive um bem sucedido “comerciante de narcóticos” que nunca revela seu nome e que decide se aposentar do mundo do crime, mas inicialmente tem que fazer um último trabalho, que não é tão fácil quanto aparenta: localizar a filha viciada de um magnata e distribuir um carregamento de ecstasy vindo da Holanda – se parece um clichê de filme de ação, advirto que nem tudo é o que parece. Perseguições, reviravoltas (muitas), enganos, mentiras, cinismo, clássicos ingleses da música dos anos 70 e 80, coadjuvantes excêntricos, frases de efeito, humor britânico... tudo faz parte do bem construído bolo de camadas do título original, surpreendentemente divertido até o último instante. Confirmando o talento demonstrado na estreia, Matthew Vaughn depois dirigiria “Kick-Ass - Quebrando Tudo” e “X-Men: Primeira Classe”.

TRABALHAR CANSA
(Brasil, 2011)
Direção: Juliana Rojas e Marco Dutra

Helena Albergaria é uma dona de casa de classe média que resolve levar adiante a ideia de abrir um mercadinho de bairro após o marido, Marat Descartes, perder o emprego, mas o local escolhido para o comércio guarda alguns mistérios. Ao misturar crítica social com elementos fantásticos, “Trabalhar Cansa” flerta com um gênero pouco explorado no Brasil: o terror. As incertezas e as neuroses provocadas pelo novo negócio e o desconforto e a insegurança do desemprego levam o casal de protagonistas a uma gradual transformação. No entanto, não é o típico drama familiar que mantém a trama, a crônica suburbana, com sua mesquinhez nossa de cada dia, causa no espectador uma imediata identificação, e sem meios-termos também pode provocar sentimentos de amor e ódio. Primeiro longa da dupla de diretores Juliana Rojas e Marco Dutra, que já tinha se destacado com os curtas "As Sombras", "O Lençol Branco" e "Um Ramo".


MINHA IRMÃ
(França/Suiça, 2012)
Direção: Ursula Meier

Assistiria a qualquer coisa com Léa Seydoux, isso não é segredo. Aqui ela é a “irmã” do título nacional, uma jovem acomodada que alterna pequenos trabalhos com períodos de desemprego, dorme com diferentes rapazes e costuma sumir sem explicação por dias. No entanto, a trama é focada em seu irmão Simon, um menino de 12 anos que rouba o que pode em uma estação de inverno suíça (de sanduíches a pares de esqui) e revende os objetos para sobreviver, ou poder comprar até mesmo um abraço de sua irmã. Aproximando-se bastante do naturalismo e da crise europeia, observados sem julgamentos nem sentimentalismos nas obras dos irmãos Dardenne, Ursula Meier sustenta o filme sem excessos ou melodramas, extraindo de Léa e do garoto Kacey Mottet Klein atuações excelentes, além de conduzir uma reviravolta no roteiro que não transforma o filme em outro filme. Atenção para Gillian Anderson, a eterna agente Scully de Arquivo X,  e a bela e metafórica cena final.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

MEU NOME É CHICO BENTO, SÔ

Em 2011, para comemorar os 500 longa-metragens patrocinados pela Petrobrás, a  equipe de Maurício de Sousa foi convidada para fazer um crossover entre os personagens da Turma da Mônica e alguns dos maiores sucessos do cinema brasileiro, como "O Homem que Copiava", "Tropa de Elite" e "Se eu Fosse Você". Para "Cidade de Deus" foi reservado Chico Bento, e a escolha não poderia ter sido melhor. Marco do cinema nacional, com quatro indicações ao Oscar (roteiro, direção, fotografia e montagem), "Cidade de Deus" estreou no dia 31 de agosto de 2002. Dez anos depois, o cinema feito no Brasil continua com as mesmas, e piores, dificuldades, e sem ter produzido outro trabalho tão significativo. Um documentário, uma HQ e um musical fazem parte das homenagens ao filme de Fernando Meirelles em 2012.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

VOO ABORTADO

Nasci em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano, onde a prática da capoeira é muito forte e comum. Lá todo mundo conhece ou tem uma história para contar sobre as façanhas do lendário capoeirista Besouro Mangangá. Durante a infância a figura de Besouro povoava meu imaginário das mais diversas formas: suas habilidades e feitos no começo do século passado, a se esquivar de balas no melhor estilo pré-Matrix, saltos e golpes mirabolantes a lutar contra os resquícios escravocratas, desbancando homens armados. Um heroi alcançável, símbolo de coragem e valentia, que ia além dos uniformizados dos quadrinhos e tv. Com tantas imagens cultivadas na memória acessei, como milhares de pessoas fizeram, ao trailer do filme no YouTube (mais de uma vez), afinal o mito local havia ultrapassado os limites do folclore e chegado à tela do cinema com uma arte marcial popular e pouco explorada e lutas coreografadas pelo chinês Huen Chiu Ku (de “Kill Bill” e “O Tigre e o Dragão”). Assim resolvi encarar a sessão de estreia do filme, curiosamente havia um público jovem, historicamente preconceituoso e reticente ao cinema brasileiro, porém tive as expectativas frustradas ao me deparar com uma obra cinematográfica inconsistente, com pretensões visuais exageradas e diálogos didáticos que remetem às manhãs do Telecurso. Sofro de “vergonha alheia”, um mal que ainda carece de medicamentos, e acompanhar o roteiro desestruturado se apoiar num misticismo gratuito e na desgastada fórmula do triângulo amoroso, e de quebra o amadorismo do elenco e uma montagem confusa, só fez me afundar mais na poltrona. Poderia valer pela valorização do negro como protagonista de uma grande produção, mas não é suficiente para suprir as claras deficiências de um produto inacabado. “Besouro” é um dos filmes mais caros já produzidos pelo cinema nacional, boa parte dos recursos oriundos de leis de incentivo, que nem de longe se espelha no Besouro cantado nas rodas de capoeira ou o das histórias narradas pelas pessoas mais velhas de Santo Amaro, esse sim, um Besouro sem preço e emblemático, que na minha imaginação realmente avoa.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

GARAPA (2009)


O diretor de “Tropa de Elite”, José Padilha, filmou durante um mês o cotidiano de três famílias de regiões distintas do Ceará que convivem com a fome regularmente. E é sob o ponto de vista delas que caminha o documentário “Garapa” (que é o nome da água com açúcar com que as mães tentam enganar a fome dos filhos). Não há nada em “Garapa” que eu já não conheça e tenha visto de perto. Não sou do sertão. Sou de um bairro pobre do Recôncavo Baiano, porém durante a infância a miséria sempre espreitou a minha casa com seus olhos ameaçadores e invadiu sem cerimônias as casas dos meus amigos e vizinhos; ainda assim, ao assistir ao filme, foi impossível manter a indiferença. A sensação de culpa e o desconforto são quase inevitáveis. Não é a piedade que permeia a experiência e não existe a lágrima fácil – a lágrima, quando veio, foi oriunda do ódio, da impotência e da conivência. Como ótimo documentarista, premiado em “Ônibus 174”, José Padilha preserva a distância, que foi quebrada apenas ao dar analgésico a uma criança que sofria com dores de dente. O filme não faz uso de música ou qualquer outro tipo de manipulação de sentimentos, o silêncio é perturbador e incomoda (a trilha sonora é a sinfonia das moscas). A renda familiar resume-se aos cinquenta reais do Bolsa Família, com exceção de uma jovem mãe de onze filhos que não possui nenhum tipo de documentação. Aliás, o filme é sobre mulheres. Os homens, na condição patriarcal de provedores do lar, são ociosos – o que se acha o mais esperto, por ter nascido na capital Fortaleza, é um alcoólatra odiado pela comunidade que encontra refúgio na ingenuidade da esposa, que é insultada constantemente e fecha os olhos para os desvios que ele faz do pouco que têm. Ao final da sessão você não sai com os olhos marejados, sai com a garganta seca.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

METEORANGO KID (1969)

Meteorango Kid, de André Luis Oliveira, é um clássico absoluto do cinema underground brasileiro, com trilha sonora dos Novos Baianos e intervenções sonoras mais do que bem vindas de Gil e Caetano, apresenta a trajetória desenfreada do protagonista Lula por uma Salvador ainda mais provinciana e tediosa. Interpretado magistralmente por Antonio Luiz Martins, Lula vive num universo extremamente particular, onde fantasia e realidade se confundem. O filme tem uma ação descontínua, num emaranhado de situações escatológicas e ao mesmo tempo irônicas em seqüências que parodiam o cinema comercial americano. Os personagens que acompanham esse herói intergaláctico são igualmente provocadores, como o homem vampiro que surge isoladamente em sua busca cômica por pescoços femininos nas vielas soteropolitanas e o amigo Caveira e sua “aula” de enrolar baseado. Teatro marginal, cinema de vanguarda, nouvelle vague, HQ, neo-realismo, tropicalismo, tudo condensado em 85 minutos de um caleidoscópio psicodélico e contestador.
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