Mostrando postagens com marcador documentário. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador documentário. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 1 de abril de 2022

NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO XIV

Porque sou o meu próprio Mariozinho Rocha

Acho que faz parte do imaginário de boa parte dos fãs de classic rock ter presenciado o Festival de Woodstock e inalado aqueles dias de flower-power – fascínio absolutamente justificável. No entanto, naquele mesmo verão de 1969, em Nova York, cerca de trezentas mil pessoas acompanharam outro evento. Sem tanta popularidade e praticamente esquecido da história por décadas, o Harlem Cultural Festival, brilhantemente documentado no filme Summer of Soul (...ou, Quando a Revolução Não Pôde Ser Televisionada), muito mais politizado que seu colega afamado, trazia um line-up formado por artistas negros se apresentando para um público majoritariamente negro. Com uma programação que reunia Stevie Wonder, B.B. King, Nina Simone, Mahalia Jackson, Chambers Brothers, Sly & the Family Stone, Chuck Jackson, The 5th Dimension, David Ruffin, Hugh Masakela, Gladys Knight & the Pips, entre outros. Analisando agora, já não sei dizer em qual dos festivais gostaria de ter participado. 


segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

LIXO EXTRAORDINÁRIO

          O bairro de Jardim Gramacho, no município de Duque de Caxias, região metropolitana do Rio de Janeiro, abriga o maior aterro sanitário da América Latina, e é o palco do documentário LIXO EXTRAORDINÁRIO, candidato ao Oscar 2011 (Jardim Gramacho já tinha servido de cenário para o ótimo documentário ESTAMIRA, em 2006).
          Vencedor de prêmios de público nos festivais de Sundance e Berlim em 2010 e aplaudido de pé no Festival de Paulínia, LIXO EXTRAORDINÁRIO, dirigido por João Jardim, Lucy Walker e Karen Harley, foi filmado entre agosto de 2007 e maio de 2009, e acompanha o trabalho do artista plástico brasileiro Vik Muniz – filho de retirantes cearenses e radicado em Nova York, onde é considerado um dos mais importantes artistas plásticos da atualidade, principalmente por experimentar novas mídias recriando de maneira inusitada trabalhos célebres como as pinturas de Monet e Leonardo da Vinci. Após passar por uma crise artística sobre a real utilidade de sua obra, ele decide passar dois anos no Jardim Gramacho, onde pretende ajudar os moradores do local produzindo arte com materiais retirados do lixo. Inicialmente falando em inglês, Vik Muniz assemelha-se mais a um estrangeiro pregando assistencialismo. Mas, se a ideia era buscar no aterro material para sua obra, serão as pessoas que lá trabalham sua verdadeira matéria-prima, e é a partir desse contato que o filme se humaniza e desce do pedestal. A realidade dessas pessoas, que aparentemente viviam felizes e conformadas no seu trágico universo, torna o filme ainda mais forte e comovente, sem pieguices. Depois de selecionar e fotografar um grupo de catadores de material reciclável, Vik vai exercer sobre eles um poder transformador ao aproximá-los da dignidade esquecida. Utilizando objetos retirados do lixo todos vão trabalhar na confecção dessas obras, onde todo valor arrecadado será empregado na comunidade. Introduzidos no mundo da arte, eles percebem como são poderosos, e que tudo é arte. Com a autoestima renovada, mudanças externas e internas serão produzidas. O conflito provocado é voltar ou não para o lixão com o fim do projeto.
          O documentário começa e termina com imagens extraídas de entrevistas realizadas no “Programa do Jô”, há quem diga que TV é lixo e que essas imagens são uma espécie de metáfora, mas teorias da conspiração à parte, foi a televisão que proporcionou a Vik Muniz popularizar seu trabalho no Brasil ao aceitar um convite para reutilizar a mesma ideia na abertura da novela global “Passione”, de Sílvio de Abreu.
          Após assistir ao filme é impossível você olhar para o seu próprio lixo, ou para os catadores de material reciclável na rua, da mesma maneira, deixando bem claro que a coleta seletiva é uma necessidade que não pode ser desprezada pelas autoridades nem pela sociedade, e que 99 não é 100.


quinta-feira, 4 de junho de 2009

GARAPA (2009)


O diretor de “Tropa de Elite”, José Padilha, filmou durante um mês o cotidiano de três famílias de regiões distintas do Ceará que convivem com a fome regularmente. E é sob o ponto de vista delas que caminha o documentário “Garapa” (que é o nome da água com açúcar com que as mães tentam enganar a fome dos filhos). Não há nada em “Garapa” que eu já não conheça e tenha visto de perto. Não sou do sertão. Sou de um bairro pobre do Recôncavo Baiano, porém durante a infância a miséria sempre espreitou a minha casa com seus olhos ameaçadores e invadiu sem cerimônias as casas dos meus amigos e vizinhos; ainda assim, ao assistir ao filme, foi impossível manter a indiferença. A sensação de culpa e o desconforto são quase inevitáveis. Não é a piedade que permeia a experiência e não existe a lágrima fácil – a lágrima, quando veio, foi oriunda do ódio, da impotência e da conivência. Como ótimo documentarista, premiado em “Ônibus 174”, José Padilha preserva a distância, que foi quebrada apenas ao dar analgésico a uma criança que sofria com dores de dente. O filme não faz uso de música ou qualquer outro tipo de manipulação de sentimentos, o silêncio é perturbador e incomoda (a trilha sonora é a sinfonia das moscas). A renda familiar resume-se aos cinquenta reais do Bolsa Família, com exceção de uma jovem mãe de onze filhos que não possui nenhum tipo de documentação. Aliás, o filme é sobre mulheres. Os homens, na condição patriarcal de provedores do lar, são ociosos – o que se acha o mais esperto, por ter nascido na capital Fortaleza, é um alcoólatra odiado pela comunidade que encontra refúgio na ingenuidade da esposa, que é insultada constantemente e fecha os olhos para os desvios que ele faz do pouco que têm. Ao final da sessão você não sai com os olhos marejados, sai com a garganta seca.
Related Posts with Thumbnails