Onde reside o limite da minha tolerância? Faço essa pergunta com o perfil de um compositor aberto no Spotify, observando a lista das suas músicas, recordando como foram importantes aquelas faixas em momentos diferentes da minha existência, sem saber ainda se suas posições políticas e os acontecimentos da sua vida pessoal interferem tanto nas minhas convicções que não posso clicar no play e ouvir suas canções indiscriminadamente, com quase nenhum peso na consciência. Será que devo fazer como minha mãe que, no melhor estilo Flávio Cavalcanti, destruiu um LP de Lindomar Castilho e atirou os pedaços no lixo em algum ponto traumático da minha infância na casa alugada da Avenida João Soldado. E a mera inocência não me exime de culpa? Jamais ter identificado em sua obra os elementos que o desabonam agora não me absolve no tribunal do Feicebuque? Se eu compartilhar no Instagram o que estou escutando serei cancelado por não cancelar? Alguém menos íntimo aparecerá na DM para me dar uma lição que não pedi exigindo empatia e solidariedade? Serei acusado de “corporativista”, “passador de pano” e “isentão”? Poderei não misturar a arte com o artista e conviver naturalmente com essa justificativa? Onde reside o limite da minha tolerância?
quarta-feira, 8 de março de 2023
UMA CANÇÃO PARA LYDIA TÁR
sexta-feira, 1 de abril de 2022
NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO XIV
sábado, 26 de março de 2022
CONTÉM SPOILER XV
Aquele filme que eu te falei
Temporada do Oscar era época de maratonar os principais títulos, fazer bolão, divulgar palpites com os que “eu acho” e os que “eu gostaria”, realizar apostas com os amigos, contestar os indicados como se fossem os convocados da seleção – era quase uma Copa do Mundo. Gradativamente, tenho dado cada vez menos atenção, talvez por entender melhor os meandros da indústria cinematográfica e os seus mecanismos fui me tornando menos ingênuo e, consequentemente, menos interessado (um tanto indiferente). Amanhã haverá uma nova premiação. Deixarei para avaliar os incensados, os injustiçados e as surpresas no dia seguinte, apenas para confirmar que teria fracassado em mais um bolão.
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022
CONTÉM SPOILER XIV
Aquele filme que eu te falei
Queria iniciar o texto qualificando as mães de Almodóvar, um adjetivo apenas, algo que pudesse sintetizar esse universo tão explorado pelo cineasta em sua obra (cativantes, exageradas, dramáticas, trágicas, passionais, divertidas, corajosas, fortes, inquietantes, arrebatadoras, coloridas), são muitas as possibilidades, mas nenhuma satisfatória. Um termo que convidasse o leitor a seguir naturalmente pela crônica até ao seu final, uma palavra que fosse retomada na conclusão criando uma espécie de efeito estético, cíclico – um truque barato e que ainda funciona. Mas não encontrei. Em “MADRES PARALELAS” ele nos apresenta a várias: desde a mãe que deixa a filha para cuidar da carreira como atriz às mães que criaram sozinhas os seus filhos após os maridos serem assassinados covardemente durante a guerra civil espanhola. E no meio de tudo isso uma Penélope Cruz, mais madura em seu ofício, alinhavando esse misto de melodrama (no melhor sentido) com manifesto político. Inteiras. Acho que encontrei a palavra que eu precisava.
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022
CONTÉM SPOILER XIII
Não condeno quem decide não ter filhos, muito menos que isso seja um ato egoísta ou que vá contra algum mandamento divino. Na verdade, considero um posicionamento corajoso, nobre. Colocar uma criança, deliberadamente, nesse mundo está muito mais próximo da maldade do que do amor. Que se dane o que espera a sociedade e a família de um casal, roteirizando a vida a dois num final de novela das seis. Romantizar a maternidade/paternidade é um engano, como se procriar fosse trivial como brincar de casa de bonecas. O Google me informa que foi o escritor Coelho Neto quem disse que “ser mãe é padecer no paraíso”. A frase, extremamente repetida e parodiada, costuma ser enfatizada nesse tal “paraíso”, morada celestial e inalcançável, com pouco destaque para o “padecer”. Em “A Filha Perdida” (The Lost Daughter, 2021), Leda, interpretada esplendidamente pela britânica Olivia Colman, ao ser questionada como foi ter abandonado as duas filhas pequenas, simplesmente revela: maravilhoso – em um misto de dor e alegria. Um conflito sincero e carente de julgamentos, em uma das melhores atuações dos últimos anos, seguramente. Por mais incômoda que possa parecer, sua resposta não poderia ser mais honesta.
quarta-feira, 25 de agosto de 2021
CONTÉM SPOILER VII
Aquele filme que eu te falei
Devo ter assistido à Beleza Americana (American Beauty, 1999) no distante ano dois mil (ou talvez em dois mil e um) na solidão do meu antigo quarto em Santo Amaro da Purificação. É provável que aquele espectador imberbe não tivesse bagagem para perceber certos elementos apresentados, sendo mais fácil se deslumbrar com facilitações narrativas como uma sacola plástica levada pelo vento. Mas ao rever o filme agora, cerca de vinte anos depois, a forma como as mulheres são retratadas na película causou uma espécie de incômodo. A esposa neurótica e obsessiva que tenta escapar das suas frustrações profissionais em um caso extraconjugal, a adolescente desajustada e insatisfeita com o próprio corpo que cede ao assédio do vizinho esquisito, a Lolita sexy e ingênua idealizada pelo protagonista. Imagino que “Beleza Americana” não seja uma experiência tão confortável para a plateia feminina na atualidade, muito mais consciente do seu papel social, fazendo com que o filme não passe incólume pelo crivo do tempo.
terça-feira, 24 de agosto de 2021
CONTÉM SPOILER VI
quinta-feira, 1 de julho de 2021
CONTÉM SPOILER IV
quarta-feira, 2 de junho de 2021
CONTÉM SPOILER III
sexta-feira, 14 de maio de 2021
CONTÉM SPOILER II
quarta-feira, 20 de junho de 2012
ALÉM DO QUE SE VÊ II
BILLY ELLIOT (Inglaterra/França, 2000)Direção: Stephen Daldry
Na inacreditável filmografia de Stephen Daldry, com quatro filmes e três indicações ao Oscar (por “As Horas”, “O Leitor” e “Tão Forte, Tão Perto”), talvez “Billy Elliot” tenha sido o que mais merecesse essa honraria, não apenas pela vitória de “Gladiador”, mas porque o considero melhor que alguns indicados de 2001, como “Erin Brockovich” ou “Chocolate”. Na Inglaterra de 1984/85, Billy, Jamie Bell de “Querida Wendy”, é um jovem que vive com as lembranças da mãe falecida, o pai, o revoltado irmão mais velho e a avó esclerosada no subúrbio de uma cidade operária do interior da Inglaterra, em meio a crise provocada no país pela greve dos mineradores. Sem habilidades para o treinamento do boxe, ele termina, por acaso, descobrindo sua verdadeira vocação: o balé clássico. "Cosmic Dancer”, do T-Rex,não sai da memória.
Samsom e Delilah são dois jovens de descendência aborígine que vivem no inóspito deserto australiano, em um ambiente da mais absoluta modorra, onde nada parece subverter a ordem do tédio e onde o silêncio acaba sendo uma solução natural – praticamente não escutamos a voz do seu protagonista, em contrapartida a música é um elemento constante e que muitas vezes funciona como válvula de escape (incluindo em sua trilha sonora uma inusitada versão de “Talismã”, sucesso da dupla Sullivan e Massadas). O uso de “não-atores” torna ainda mais forte a jornada do casal, que culminará numa desalentada estadia nas ruas da metrópole, por motivos que não vale a pena aqui relatar, além de trazer questões sociais e culturais. O afeto, que brota à fórceps, torna esta uma das melhores histórias de amor já realizada pelo cinema. Prêmio Câmera D’Or em Cannes. Sugestão de Daniela Delias.
Direção: Shari Springer Berman e Robert Pulcini
Filme produzido pela HBO sobre os bastidores da série televisiva An American Family,
que foi ao ar em 1973 e acompanhava os passos dos Loud, uma típica
família estadunidense, nos moldes do que hoje chamamos de
reality show. Inspirado pelo cinema-verdade, o documentarista Craig
Gilbert propôs à recém-criada TV pública uma “experiência em
antropologia cultural”, mas em vez de mirar as lentes para culturas
exóticas e distantes, a ideia era observar de perto a sociedade
americana, o que resultou num imenso sucesso. Aos poucos, as
máscaras da família perfeita caem diante das câmeras: um filho que se
assume homossexual, outro que não quer perpetuar o negócio familiar,
traições e um casamento desfeito. Alternando ficção com cenas reais,
“Cinema Verité” tem Tim Robbins e Diane Lane em bons momentos de suas carreiras. Massacrados pela opinião pública, a
família Loud jamais seria a mesma, nem a maneira como assistimos à
televisão.sexta-feira, 20 de abril de 2012
VOCÊ TEM 15 MINUTOS?
Uma emocionante declaração de amor aos livros.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
MICKEY ROURKE








