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quinta-feira, 25 de agosto de 2022

METAL LORDS

Aquele filme que eu te falei

Com ecos de “Escola de Rock”, Metal Lords é (com o perdão do clichê) uma grata surpresa no enfadonho catálogo da Netflix. O filme é uma das muitas produções que apelam para um público jovem adulto ávido por nostalgia, mas surpreende ao abordar o universo do heavy metal (com todos aqueles clássicos que fizeram a cabeça de muitos adolescentes nas últimas décadas na trilha sonora). Acredito que não tenha recebido a atenção merecida, o que é uma pena. Uma hora e meia de diversão descompromissada que não vai alterar o rumo da sua vida, talvez despertar aquele garoto que ia mudar o mundo e que ainda se emociona com riffs de guitarra (ou violoncelo).


sexta-feira, 15 de julho de 2022

CONTÉM SPOILER XVIII

Aquela série que eu te falei 

Nunca tive essa urgência para consumir temporadas de série desesperadamente, maratonar títulos pela madrugada à base de café e Redbull, devorando o título do momento apenas para fugir dos famigerados spoilers, se manter antenado (ainda se diz “antenado”, Mr. Hype?) ou por mera manipulação do algoritmo. Na verdade, essa falsa sensação de liberdade, de poder assistir ao que quiser/quando quiser sempre me incomodou. Comprava boxes de DVD com as temporadas completas, mas só assistia a um episódio por dia, às vezes por semana. Sou da velha guarda, gosto de apreciar aos poucos, formular teorias enquanto o próximo episódio não é lançado (quase sinto falta dos intervalos comerciais também). “Mas você ainda pode fazer tudo isso”. E é o que tento fazer, mesmo que o aflitivo cronômetro do streaming teime por mais uma dose. 

quarta-feira, 20 de abril de 2022

CONTÉM SPOILER XVI

Aquele filme que eu te falei 

Acredito que todo mundo que se diz (ou dizem que é) cinéfilo, frequentemente é abordado sobre dicas de filmes e séries, preferencialmente “recentes e legais”. Há uma espécie de responsabilidade nessas sugestões, é preciso avaliar o tipo de produto e público para recomendar algo que melhor se adéque ao perfil e não simplesmente prescrever a última produção assistida, a que está mais ativa na memória, ao alcance da mão na gaveta das lembranças. Resumindo: ser mais caloroso e menos impessoal que o  arrogante algoritmo do streaming. Sei que deveria ser natural e não causar surpresa nenhuma, mas em um desses pedidos, me dei conta que estava indicando apenas obras protagonizadas por mulheres. Já citei nesta coluna Penélope Cruz em “Madres Paralelas”, Olivia Colman em “A Filha Perdida” e Kate Winslet na premiadíssima minissérie “Mare of Easttown”; poderia ter escrito também sobre Alana Haim em "Licorice Pizza", Elisabeth Moss em “The Handmaid’s Tale”, Phoebe Waller-Bridge em "Fleabag" ou a norueguesa Renate Reinsve em “A Pior Pessoa do Mundo”  –  para ficar nas que vêm mais fácil à cabeça. Certamente não é mera coincidência ou uma polaroid de um momento, talvez seja uma bem-vinda mudança de paradigma. Longe de príncipes encantados, souvenir de desejo ou interesse romântico do mocinho, vejo cada vez mais atrizes em papéis e interpretações notáveis. E que continue assim. Minha lista de recomendações agradece.


sábado, 26 de março de 2022

CONTÉM SPOILER XV

Aquele filme que eu te falei

 

Temporada do Oscar era época de maratonar os principais títulos, fazer bolão, divulgar palpites com os que “eu acho” e os que “eu gostaria”, realizar apostas com os amigos, contestar os indicados como se fossem os convocados da seleção era quase uma Copa do Mundo. Gradativamente, tenho dado cada vez menos atenção, talvez por entender melhor os meandros da indústria cinematográfica e os seus mecanismos fui me tornando menos ingênuo e, consequentemente, menos interessado (um tanto indiferente). Amanhã haverá uma nova premiação. Deixarei para avaliar os incensados, os injustiçados e as surpresas no dia seguinte, apenas para confirmar que teria fracassado em mais um bolão.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

CONTÉM SPOILER XIV

Aquele filme que eu te falei

Queria iniciar o texto qualificando as mães de Almodóvar, um adjetivo apenas, algo que pudesse sintetizar esse universo tão explorado pelo cineasta em sua obra (cativantes, exageradas, dramáticas, trágicas, passionais, divertidas, corajosas, fortes, inquietantes, arrebatadoras, coloridas), são muitas as possibilidades, mas nenhuma satisfatória. Um termo que convidasse o leitor a seguir naturalmente pela crônica até ao seu final, uma palavra que fosse retomada na conclusão criando uma espécie de efeito estético, cíclico – um truque barato e que ainda funciona. Mas não encontrei. Em “MADRES PARALELAS” ele nos apresenta a várias: desde a mãe que deixa a filha para cuidar da carreira como atriz às mães que criaram sozinhas os seus filhos após os maridos serem assassinados covardemente durante a guerra civil espanhola. E no meio de tudo isso uma Penélope Cruz, mais madura em seu ofício, alinhavando esse misto de melodrama (no melhor sentido) com manifesto político. Inteiras. Acho que encontrei a palavra que eu precisava.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

CONTÉM SPOILER XIII

Aquele filme que eu te falei

Não condeno quem decide não ter filhos, muito menos que isso seja um ato egoísta ou que vá contra algum mandamento divino. Na verdade, considero um posicionamento corajoso, nobre. Colocar uma criança, deliberadamente, nesse mundo está muito mais próximo da maldade do que do amor. Que se dane o que espera a sociedade e a família de um casal, roteirizando a vida a dois num final de novela das seis. Romantizar a maternidade/paternidade é um engano, como se procriar fosse trivial como brincar de casa de bonecas. O Google me informa que foi o escritor Coelho Neto quem disse que “ser mãe é padecer no paraíso”. A frase, extremamente repetida e parodiada, costuma ser enfatizada nesse tal “paraíso”, morada celestial e inalcançável, com pouco destaque para o “padecer”. Em “A Filha Perdida” (The Lost Daughter, 2021), Leda, interpretada esplendidamente pela britânica Olivia Colman, ao ser questionada como foi ter abandonado as duas filhas pequenas, simplesmente revela: maravilhoso – em um misto de dor e alegria. Um conflito sincero e carente de julgamentos, em uma das melhores atuações dos últimos anos, seguramente. Por mais incômoda que possa parecer, sua resposta não poderia ser mais honesta.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

CONTÉM SPOILER XII

Aquele filme que eu te falei 


Hoje é o Dia da Marmota. Hoje também é dia de festa no mar e dia de Nossa Senhora da Purificação, padroeira do meu torrão natal, mas o Dia da Marmota é mais importante. Segundo a tradição de uma pequena cidade estadunidense, na manhã de dois de fevereiro as pessoas devem observar uma toca de marmota, caso ela saia com o tempo nublado indica que o inverno terminará cedo, porém se o dia estiver ensolarado e o animal se assustar com a própria sombra e retornar para a toca, é sinal de que o inverno durará mais seis semanas. Esse evento célebre, para a  incredulidade de muitos, atrai milhares de turistas todos os anos. Em o FEITIÇO DO TEMPO (Groundhog Day, 1993), Bill Murray é um repórter cínico e intolerante que anuncia as previsões meteorológicas em um canal de TV, que para sua contrariedade é encarregado de fazer uma matéria sobre o encabulado roedor. No entanto, ele desperta sempre no mesmo dia e é obrigado a experienciar tudo novamente até encontrar sua fabular redenção. Também queria acordar no mesmo dia e vivenciar minha existência igual de maneira diferente. Queria cometer outros erros, ter outras dúvidas e temores – ou como Humberto Gessinger, erraria tudo exatamente igual. No entanto, acho que estou cada vez mais parecido com a marmota, me assustando com a minha própria sombra e vivendo um inverno que parece não ter fim.
 
(Publicado originalmente em fevereiro de 2012) 
 


quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

CONTÉM SPOILER XI

Aquele filme que eu te falei

 

Desde que vi “007 a Serviço Secreto de Sua Majestade” (On Her Majesty's Secret Service, 1969), George Lazenby se tornou minha usual resposta para a questão sobre qual seria meu James Bond preferido. Lazenby teve a incumbência de substituir Sean Connery e terminou protagonizando apenas um longa-metragem como o espião inglês. Não é incomum em matérias sobre 007 o seu nome sequer ser lembrado. Minha preferência tinha aparência de contrariar apenas para não ser igual, mas eu realmente gostava bastante do filme – ainda o meu favorito. Hoje eu sei que é cultuado por vários admiradores da série. O ator australiano incorporou um personagem que se aproximava da criação de Ian Fleming, um agente secreto em início de carreira, muitas vezes inseguro, passível de erros, mais humano e verossímil – uma versão bem diferente da deixada por seu antecessor. Em determinado momento ele chega a quebrar a quarta parede para nos dizer, ironicamente, que isso jamais aconteceria com o outro cara. A conclusão do filme é surpreendente e perturbadora, com sua amada sendo assassinada na estrada logo após se casarem, interrompendo abruptamente o que caminhava para um final feliz. Essa cena é aludida no mais recente título da franquia, “Sem Tempo Para Morrer” (No Time to Die, 2021), com o Bond de Daniel Craig dirigindo pela costa da Itália ao lado de Madeleine (Léa Seydoux), e com a belissíma “We Have All the Time in the World”, tema da obra de 1969, sendo referenciada no diálogo e em um arranjo instrumental no começo do filme – prenunciando, para os mais atentos, que esse romance também poderia não acabar bem. Nos créditos finais a canção retorna, dessa vez em sua versão original com a emocionante interpretação de Louis Armstrong, já debilitado devido a problemas renais e cardíacos. Não poderia haver melhor composição para simbolizar uma despedida.


segunda-feira, 29 de novembro de 2021

CONTÉM SPOILER X

Aquela lembrança que não emoldurei 

Há muito tempo, em uma galáxia muito, muito distante na Velha Bahia, quando era possível alugar filmes em lojas especializadas, conhecidas como videolocadoras, eu costumava admirar as capas das fitas nas estantes ou os posteres das produções nas vitrines no caminho para a escola. Nem sempre/quase nunca sobrava dinheiro para locação, além dos lançamentos serem disputadíssimos, com direito à fila de espera que se estendia por meses. Não pretendo soar saudosista (streaming é vida) apenas concluo que alguns hábitos não se perdem, muitas vezes se transformam. Percebi isso ao me dar conta que possuo um perfil no Instagram para catalogar os cartazes dos filmes que assisto (não, não vou postar o linque). As pessoas ficam ansiosas por trailer ou teaser, mas eu gosto mesmo é da imagem de divulgação. Sou aquele que comemora em silêncio quando a cena do poster surge na tela, bem mais do que quando o título da produção é proferido por algum personagem. Já tive as paredes do quarto, e com mais discrição as da sala, repletas de cartazes de filmes, ainda guardo alguns. Deve existir uma espécie de Oscar para os criadores dessas artes, poderia ser categoria na premiação principal. 


sexta-feira, 22 de outubro de 2021

CONTÉM SPOILER IX

Aquela série que eu te falei

Em uma pequena cidade, daquelas em que todo mundo conhece todo mundo, uma detetive investiga um caso de desaparecimento enquanto tenta sobreviver às intempéries da sua vida pessoal. Falando assim parece apenas um enlatado policial genérico com cara de Supercine, Coca-Cola sem gás e pizza fria. Mas é o primeiro de tantos enganos que Mare of Easttown (minissérie da HBO) nos propicia. O roteiro nos convida para elucidar o mistério e sorrateiramente nos passa a perna com plots inusitados, mas orgânicos dentro da proposta, transformando nossos achismos, a cada esclarecimento, em irrelevantes deduções – ser ludibriado aqui é quase um prazer. A série só não nos engana quanto às suas reais intenções, desde o título está lá, Mare de Easttown é Marianne Sheehan: uma heroína pouco usual que não esconde seus defeitos, imperfeita como qualquer um de nós, uma pessoa tendo de lidar com questões íntimas que nem ela quer encarar, priorizando o trabalho à família e às relações amorosas, descuidando-se muitas vezes da aparência, acentuando rugas, cansaços. Uma personagem ranzinza e pessimista certamente não funcionaria se não fosse interpretada por uma atriz no seu auge como Kate Winslet, em um desempenho soberbo, tornando cativante uma protagonista que nas mãos erradas teria tudo para nos repelir. O texto e o elenco de apoio transcorrem perfeitamente, fazendo nos importar com os coadjuvantes de igual maneira, peças que ajudam a descortinar as camadas dessa mulher além do mero drama policial.

Descobrir quem é o culpado nunca foi tão desnecessário.
 
 

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

CONTÉM SPOILER VIII

Aquele filme que eu te falei

Sci-fi, filosofia, quadrinhos, animes, religião, artes marciais, mitologia, cyberpunk, distopia, tecnologia, sociedade, Lewis Carroll, cinema de Hong Kong... São diversos os temas abordados em Matrix (1999), – o que nos possibilita, sem exagero, atentar para novas camadas em qualquer reexibição. Não é difícil, inclusive, traçar paralelos com a nossa realidade (realidade?), manipulados por algoritmos e cada vez mais dependentes das máquinas (como também não é difícil conhecer alguém que acredita que vivemos em uma Matrix). Revendo tudo agora, o filme original e alguns episódios de Animatrix (2003) permanecem irrepreensíveis, já as continuações (Reloaded e Revolutions) absolutamente evitáveis. Lastimo apenas que os executivos conservadores da Warner tenham recusado a ideia de Switch, personagem interpretada pela australiana Belinda McClory, possuir gêneros diferentes dentro e fora da Matrix, uma alegoria clara sobre aceitação da própria identidade, creio que hoje ela seria tão referenciada pela cultura pop quanto o triunvirato formado por Neo, Trinity e Morpheus.

Siga o coelho vermelho! 


quarta-feira, 25 de agosto de 2021

CONTÉM SPOILER VII

Aquele filme que eu te falei

Devo ter assistido à Beleza Americana (American Beauty, 1999) no distante ano dois mil (ou talvez em dois mil e um) na solidão do meu antigo quarto em Santo Amaro da Purificação. É provável que aquele espectador imberbe não tivesse bagagem para perceber certos elementos apresentados, sendo mais fácil se deslumbrar com facilitações narrativas como uma sacola plástica levada pelo vento. Mas ao rever o filme agora, cerca de vinte anos depois, a forma como as mulheres são retratadas na película causou uma espécie de incômodo. A esposa neurótica e obsessiva que tenta escapar das suas frustrações profissionais em um caso extraconjugal, a adolescente desajustada e insatisfeita com o próprio corpo que cede ao assédio do vizinho esquisito, a Lolita sexy e ingênua idealizada pelo protagonista. Imagino que “Beleza Americana” não seja uma experiência tão confortável para a plateia feminina na atualidade, muito mais consciente do seu papel social, fazendo com que o filme não passe incólume pelo crivo do tempo.

 

terça-feira, 24 de agosto de 2021

CONTÉM SPOILER VI

Aquele filme que eu te falei 

 

Um militar colecionador de armas, violento, intolerante, conservador, simpatizante do nazismo e homofóbico. Esse é o Coronel Fitts, pai de Ricky, o cinegrafista traficante de “Beleza Americana” (American Beauty, 1999). Se a figura do coronel me parecia à época excessivamente caricata, embora servisse bem ao propósito da obra, hoje assemelha-se assustadoramente com a realidade. A artificialidade do sonho americano, a narração sarcástica de Lester Burnham (Kevin Spacey inspiradíssimo), o humor cínico do texto… Diversas eram as lembranças mais marcantes. Agora, ao reencontrar o filme, perdido no catálogo de um desses serviços de streaming, me chamou a atenção o aviso de Ricky a Lester para nunca subestimar o poder da negação. E é exatamente essa negação que vai desencadear a atitude de um reprimido Coronel Fitts, fechando o arco do defunto autor que afirmou no início da exibição que em menos de um ano (ou quase duas horas depois) estaria morto.

quinta-feira, 29 de julho de 2021

CONTÉM SPOILER V

Aquele filme que eu te falei

 

Ruben (Riz Ahmed) é baterista em um duo de noise metal em O Som do Silêncio (The Sound of Metal, 2019), primeiro longa de ficção do americano Darius Marder, que rapidamente começa a perder a audição. Na cena de abertura, somos apresentados a sua banda e toda a fúria do seu ofício em atividade. A solidão do baterista no fundo do palco, a visão ampla de tudo que ocorre a sua frente, o tranquilo domínio da situação. A jornada de Ruben até a emblemática sequência final é desconfortável, inquietante. Sem legendas nos momentos em que os personagens se comunicam através dos sinais, ficamos tão desorientados quanto o protagonista. O design de som é angustiante, mudez e ruídos se confundem. O silêncio aqui não é sinônimo de calmaria, o silêncio aqui é desesperador. No meio do filme, quando todas as cartas já estiverem na mesa, novamente teremos contato com o seu instrumento, sozinho em um motorhome Ruben ataca a bateria e assim como ele, não escutamos nada. Agora não é apenas a agressividade que o estilo musical necessita, é uma raiva genuína, resignação e revolta, uma exteriorização do som através do silêncio. 


quinta-feira, 1 de julho de 2021

CONTÉM SPOILER IV

Aquele filme que eu te falei


Confundir locais, pessoas, eventos. Oscilação de humor. Apresentar uma personalidade completamente diferente. Agressividade... Quem já conviveu com alguém que sofra de doenças neurodegenerativas dificilmente não irá se identificar com “Meu Pai” (The Father), produção que vai muito além dos clichês do gênero. Anthony Hopkins aos 83 anos de idade, premiado com o Oscar de melhor ator pelo trabalho, realizou o que certamente é sua melhor interpretação. Muito se falou da sequência final, que é arrebatadora – sem dúvidas. Mas vê-lo fingir que não esqueceu, tentando entender e se adequar a um universo particular cada vez mais caótico, me atingiu de uma maneira que eu não imaginava. 


quarta-feira, 2 de junho de 2021

CONTÉM SPOILER III

Aquele filme que eu te falei
 

Aprendi com um grande músico que não importa que o show tenha sido morno, o final deve ser arrebatador (“pra você e eu e todo mundo cantar junto”). Acredito que o mesmo não se aplica ao cinema, uma boa conclusão jamais substituirá uma jornada “morna”, apenas dará ao espectador a convicção de que realmente tinha tudo para ser melhor. No entanto, quando um bom final encontra um bom filme a experiência é completa. No dinamarquês “Druk – Mais Uma Rodada”, temos um desses momentos. O último frame é perfeito, um voo congelado, sem rumo, um “vamos nos permitir”. E eu que sempre considerei bobagem aplaudir uma sessão de cinema, creio que dessa vez não resistiria.

 

sexta-feira, 14 de maio de 2021

CONTÉM SPOILER II

Aquele filme que eu te falei
 
 
A repetição temporal não é novidade no universo cinematográfico, o exemplar mais célebre acredito que seja “Feitiço do Tempo” (Groundhog Day, 1993). Nesse filme Bill Murray interpreta um arrogante meteorologista de um canal de TV que passa a reviver todos os acontecimentos de um mesmo dia até finalmente se redimir do seu comportamento egocêntrico e, definitivamente, melhorar como pessoa. Uma divertida lição de moral com sabor de sessão da tarde. Já em “Dois Estranhos” (Two Distant Strangers, 2020), vencedor do Oscar de melhor curta-metragem de ficção, Carter é um jovem cartunista bem-sucedido, descolado, gentil, carismático, espirituoso e tantos outros adjetivos que não fica difícil entender porque simpatizamos com o personagem. No entanto, nenhuma dessas qualidades é o suficiente para impedir que ele seja assassinado estupidamente em uma abordagem policial desnecessária e cheia de equívocos e acordar novamente no início do que parecia ser um ótimo dia – algo que se repetirá dezenas de vezes com idêntico e trágico desfecho. Talvez eu tenha esquecido de mencionar que Carter é negro e o policial branco, mas não temos aqui um embate maniqueísta gratuito. A discussão é muito mais complexa. Ser negro é viver em um eterno loop, tendo que provar todos os dias o que você é e principalmente o que você não é. Uma dinâmica extremamente cansativa.
 
 

terça-feira, 27 de abril de 2021

CONTÉM SPOILER I

Aquele filme que eu te falei

 

Não se discute que o gol é o grande momento do futebol, assim como não existe gol feio. Para o torcedor todo gol é importante: de bico, canela, mão, contra, impedido. Mas uns gols acabam sendo mais importantes do que outros. Aquele lance em que você narra a jogada antecipando a melhor possibilidade, como se falasse diretamente para o jogador o que ele deve fazer (dribla, segura, passa, vira para a esquerda, cruza) e que magicamente começa a acontecer até desembocar em um grito de gol que acordaria não só a sua casa, mas a vizinhança inteira é um exemplo comum.
 
Já um filme é construído de vários momentos impactantes, no entanto um bom final pode ser vibrante feito o gol da virada nos acréscimos do segundo tempo. Em “Jojo Rabbit” (direção Taika Waititi, 2019) um solitário garoto de apenas dez anos tem Hitler como amigo imaginário. Um dia ele descobre que sua mãe esconde uma jovem judia no sótão da sua casa. Questionada por Jojo o que ela faria quando acabasse a guerra, Elsa simplesmente responde: dançar. Com o término dos conflitos, quando finalmente consegue colocar os pés fora do seu esconderijo, ela inicia timidamente passos de dança em silêncio no meio da rua. Aos poucos os passos ganham mais força, enquanto os primeiros acordes de “Heroes”, de David Bowie, vão ficando cada vez mais reconhecíveis ao fundo. O volume da canção aumenta com a dança e eu dentro do cinema só desejava que o filme concluísse ali, na gaveta. O aparecimento dos créditos foi o gol de placa esperado.

O mundo vai acabar e ela só quer dançar.

 

Jojo Rabbit Cena Final

 

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