sexta-feira, 14 de maio de 2021

CONTÉM SPOILER II


A repetição temporal não é novidade no universo cinematográfico, o exemplar mais célebre acredito que seja “Feitiço do Tempo” (Groundhog Day, 1993). Nesse filme Bill Murray interpreta um arrogante meteorologista de um canal de TV que passa a reviver todos os acontecimentos de um mesmo dia até finalmente se redimir do seu comportamento egocêntrico e, definitivamente, melhorar como pessoa. Uma divertida lição de moral com sabor de sessão da tarde.

Já em “Dois Estranhos” (Two Distant Strangers, 2020), vencedor do Oscar de melhor curta-metragem de ficção, Carter é um jovem cartunista bem-sucedido, descolado, gentil, carismático, espirituoso e tantos outros adjetivos que não fica difícil entender porque simpatizamos com o personagem. No entanto, nenhuma dessas qualidades é o suficiente para impedir que ele seja assassinado estupidamente em uma abordagem policial desnecessária e cheia de equívocos e acordar novamente no início do que parecia ser um ótimo dia – algo que se repetirá dezenas de vezes com idêntico e trágico desfecho. Talvez eu tenha esquecido de mencionar que Carter é negro e o policial branco, mas não temos aqui um embate maniqueísta gratuito. A discussão é muito mais complexa. Ser negro é viver em um eterno loop, tendo que provar todos os dias o que você é e principalmente o que você não é. Uma dinâmica extremamente cansativa.

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