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segunda-feira, 5 de maio de 2014

COSTAS-NUAS

O longo vermelho, frente única, 
não esconde a melancolia da moça que retoca a maquiagem. Sozinha no banheiro.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

MATCH POINT

Eu queria ter uma carta na manga, uma carta marcada. Talvez ele estivesse blefando, talvez aquela frieza fizesse parte da estratégia. Antes de abrir a porta e sair ele ainda olhou para trás. Talvez o jogo não estivesse perdido, talvez eu tivesse mais alguma chance.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

QUERO SER PAULO CESAR PERÉIO

Não acreditei quando ele falou que atravessando o túnel eu entraria na mente de John Malkovich. Ele insistiu para que eu fosse, argumentou que a experiência era incrível, que na noite passada ele tinha vivido o que não vivera a vida inteira, que eu não iria me arrepender, que eu passaria a ver o mundo diferentemente, que eu encontraria minha essência (ou algo assim). Com o saco cheio de tanta persistência inútil, disse-lhe, segurando seu colarinho agressivamente:
    — Não quero ser John Malkovich! Quero ser Peréio, porra!





quinta-feira, 28 de novembro de 2013

terça-feira, 22 de outubro de 2013

terça-feira, 27 de agosto de 2013

TRÊS

    
          Soube por estranhos, semanas depois, sobre o falecimento. Esbocei meu pesar numa nota de solidariedade, enquanto observava nós três, ainda jovens, no porta-retratos da escrivaninha. Mas não enviei.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

OUTRA DOSE

“Mais Uma Dose”, o livro de microcontos editado digitalmente por Ediney Santana e Herculano Neto em 2010, ganhou edição impressa cuidadosamente revista e ampliada.
Quem ainda se interessa por livros de papel 
poderá adquirir o seu AQUI.

domingo, 28 de abril de 2013

ENGANO

Dessa vez ele não conseguiu sequer voltar para casa. 
Foi algum estranho deseducado que telefonou intimando 
para eu ir buscar aquele traste sabe lá onde. 
Respondi que era engano e continuei a arrumar minha mala.

terça-feira, 23 de abril de 2013

INTRIGA DA OPOSIÇÃO

 
Foi um antigo namorado que disse para eu ficar com um pé atrás, 
que o Xavier não era flor que se cheirasse. 
Se ele não tivesse falado sem desviar o olhar do meu decote, 
poderia até ter acreditado.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

NA CALADA DA NOITE

Só me dei conta quando eu estava voltando para o
hotel, exausto, de cara e sozinho, que nem toda noite é noitada.
 
 

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

SALVADOR ABAIXO DE ZERO


cidade alta
cidade média
cidade abaixo das expectativas

O volume de contos de Herculano Neto pega emprestado o título de um livro e filme (“Jamaica Abaixo de Zero”) para desconstruir alguns estereótipos soteropolitanos, sempre enxergando a cidade de dentro pra fora, abrindo mão de uma incerta baianidade nagô mal propalada e do lugar comum do ponto de vista racial e religioso 
 
SALVADOR ABAIXO DE ZERO é a cidade dos moradores de rua, dos sacizeiros, das prostitutas, dos inoportunos vendedores de fitinha do Bonfim. É a cidade dos ambulantes, dos badameiros, de um povo que se acotovela nos pontos de ônibus e se digladia do outro lado da corda durante o carnaval. A cidade das periguetes e dos miseravões, da juventude classe média que frequenta academia usando abadás de carnavais passados. Uma cidade que não faz questão de esconder a sujeira das suas ruas embaixo do tapete, prefere estampá-la ao lado dos seus cartões-postais. Uma cidade onde periferia e centro se confundem. Uma cidade que não deixa de ser alegre e ácida na mesma medida.

Com muito humor, às vezes negro, mas sem o ranço pseudo moralista dos noticiários populares, SALVADOR ABAIXO DE ZERO nos apresenta uma Bahia contemporânea e absolutamente sugestiva.

Lançamento dia 13 de novembro
Casa de Tereza, Rio Vermelho, Salvador
Valor: R$ 15,00


SALVADOR ABAIXO DE ZERO / EDIÇÕES P55 - COLEÇÃO CARTAS BAHIANAS / 
R$ 15,00 (solicite seu exemplar diretamente com o autor) / 
OU NO SITE DA LIVRARIA CULTURA
 

segunda-feira, 9 de julho de 2012

O MESTRE DOS MAGOS

          Ele sempre aparecia quando eu precisava. E desaparecia quando eu precisava mais ainda. Um dia, me vi num inferno, num mato sem cachorro — sem enigma que pudesse quitar os meus pecados.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

PÓLVORA

 Ainda me avisaram para eu não ir, que era barril.
Só não imaginava que o pavio fosse tão curto.




segunda-feira, 14 de maio de 2012

FOGO AMIGO

Os ausentes servem de alvo fácil para qualquer tipo de comentário — não há escrúpulos. Ontem, não pude ir. Temo, também, ter sido alvo de munição pesada.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

HAROLDO

Eu tinha um tigre de sorriso triste que me acompanhava por todo lugar.
Um dia, ele foi morar numa caixa, em cima do armário. No entanto, não estava mais lá quando nos mudamos.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

VINTE E NOVE

      Dizem que Saturno leva vinte e nove anos para percorrer sua própria órbita e voltar ao ponto exato em que se encontrava no dia do nascimento de qualquer pessoa. O Retorno de Saturno. Teoricamente, significaria o início de uma nova fase na vida, quando o indivíduo teria as rédeas do seu destino nas mãos, se desligaria do passado e construiria seu futuro.
        Mas será que essa regra vale para mim também?
     Nasci no dia 29 de fevereiro de 1976 (se tudo der certo, hoje será a nona vez que comemoro meu aniversário). Ainda não descobri nenhuma vantagem em nascer em um ano bissexto, ser  múltiplo do número 4 só faz aumentar minha solidão. Não tenho nada em minhas mãos, muito menos as rédeas do meu destino. Vivo preso ao passado e pouco espero do futuro. Se Saturno passou por mim, esqueceu de dizer um olá.
       Talvez ele tenha deixado para passar por mim em 2092, no meu 29º aniversário, embora eu acredite que não viverei tanto para saber.
        Às vezes eu acho que tenho realmente nove anos. 


Livremente inspirado na canção
"Vinte e Nove" (Renato Russo, 1993) 

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

ELVIS NÃO MORREU

        Basileia, 1983.
        Os últimos anos de investigação me levaram àquele chalé. No início, encarei como mais um extravagante trabalho, depois se tornou quase obsessivo. Os contratantes me dispensaram ainda nos primeiros meses, alegaram que estavam convencidos de que ele realmente tinha morrido. Mas eu quis continuar por conta própria, era pessoal.
        Quando eu adentrei o salão, decorado com antigos quadros, ele estava sentado na poltrona, de frente para a lareira - parecia muito mais gordo do que em sua última aparição. Sem olhar para mim, ele falou num tom de voz tranquilo e extremamente grave:
        — Creio que você sabe que não poderá sair daqui.
        — Sei, mas isso é o que menos importa.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

SAÚDE

         Estou sempre espirrando. Não sei se é rinite alérgica ou qualquer outro modismo médico, só sei que estou sempre espirrando. São espirros estridentes, secos e sequenciais, geralmente entre oito e dez, que incomodam todos ao meu redor. Ultimamente, com a propagação de informações sobre surtos de gripes e viroses, espirrar em público tornou-se constrangedor. Já tentei todos os  tratamentos existentes, máscaras, homeopatia, infusões, antialérgicos, nebulização e terapias: sem sucesso.
         No último verão, uma curandeira da Chapada Diamantina me receitou uma mistura de ervas que, incrivelmente, fez cessar os espirros. No entanto, parecia que faltava algo em mim. Depois de dois dias parei de usar e voltei aos espirros.
         Espirrar, admito, é um prazer.

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