O escritor Mayrant Gallo, que havia abandonado as publicações por motivos que se convergem com os meus, lançou um novo livro após sete anos: fragmentos da memória que causariam frenesi em Sundance se fosse adaptado pela escocesa Charlotte Wells. Frequentemente me perguntam quando será o meu próximo lançamento literário. Ainda que eu não publique nada há quase dez anos, gosto de imaginar que seja algum tipo de gentileza, dar a entender que se importa, ir além das impressões céleres sobre previsão do tempo ou os derrotados da rodada antes da porta do elevador se abrir. Poderia limpar minhas gavetas e tentar publicar, embora eu saiba que nenhum editor aceitaria não incluir foto na orelha ou que eu não participasse da noite de autógrafos, feiras literárias, nem desse entrevistas e não compartilhasse posts de divulgação em redes sociais. Confesso que às vezes sinto vontade de parar de corrigir meus rascunhos e publicar novamente, uma espécie de calor, quase uma centelha, algo que dificilmente se tornaria um incêndio.
segunda-feira, 8 de maio de 2023
quinta-feira, 21 de julho de 2022
SOCIAL DISTANCIAMENTO XX
Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda
Publiquei em 2012 SALVADOR ABAIXO DE ZERO, um volume de breves contos sobre uma soterópolis suja, insalubre, nada solar, que não aparece no cartão-postal. Certamente, o trabalho que mais gostei de realizar, além de ter alcançado um resultado autoral satisfatório e com inesperada repercussão, simultaneamente me afastava daquela roupa de poeta que nunca me coube muito bem. Entusiasmado, decidi produzir contos de maior fôlego apresentando protagonistas absolutamente escrotos que, feito Marco Aurélio em “Vale Tudo”, escapavam impunes na conclusão. Eram agentes do antigo DOPS inconformados com os rumos do país, carlistas saudosos de um verão mais truculento, xenófobos, homofóbicos, conservadores hipócritas, neonazistas, feminicidas, milicianos, corruptores, entre outros elementos repulsivos. Apesar da temática, tudo era abordado com bastante humor ácido, crítico; parecia ser, naquele momento, uma continuação natural da obra anterior e não um prenúncio de tempos sombrios. A cada revisão e reorganização da ordem dos textos o conjunto ganhava um novo título, “EU NÃO SOU UM BOM LUGAR”, um empréstimo de uma canção dos Titãs, fora o que mais resistiu às impressões e encadernações na papelaria, sendo, inclusive, finalista de alguns prêmios literários – o que me iludiu ao ponto de esperar por “uma oportunidade melhor” de publicação, com isso fui protelando e consequentemente perdendo o trem da história. Na época, o cidadão que seria eleito democraticamente presidente em 2018 através do sistema de urnas eletrônicas não era alguém a ser levado a sério e os personagens nocivos do livro, para mim, eram apenas caricaturas, uma fotografia desbotada de um mundo que eu acreditava não existir mais. Quanta ingenuidade. Inicialmente o que era divertido foi no decorrer dos anos se tornando indigesto, talvez tenha sido melhor, realmente, não ter sido publicado, sabe lá como ele seria entendido na atualidade, se adequando conforme a narrativa mais conveniente, o que me obrigaria a sempre me justificar e justificar a obra. Enfim, taí um inédito na gaveta que não desejaria ver nas prateleiras, mesmo que aqueles vermes retratados retornem para as trevas algum dia.
terça-feira, 17 de maio de 2022
SOCIAL DISTANCIAMENTO XVIII
domingo, 20 de março de 2022
SOCIAL DISTANCIAMENTO XV
Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda
(Fevereiro, 2022)
Estou aqui há vinte anos, criei o primeiro blog em 2002 no portal da IG; em 2004 migrei para o UOL e o seu zip.net, onde tive também um fotolog – espécie de antepassado do Instagram; e desde 2008 estou no Blogger. Essa cronologia não serve para muita coisa, apenas para confirmar que o tempo voa, amor, escorre pelas mãos. Portanto, não estranho quem classifica o blog como vintage, retrô ou divã de boomer (ainda dizem “cringe”?) nem fantasio que em algum momento ocorrerá fenômeno semelhante ao do vinil – não mesmo (embora eu acredite que esteja mais para cool do que kitsch, ao contrário do Feicebuque que tem envelhecido muito mal). Já é possível, inclusive, tecer comentários saudosistas rememorando uma época em que havia blogs destinados aos mais diversos assuntos, informativos e com bastante interação e repercussão, porém sem o ranço bélico das redes sociais. Agora isso aqui não passa de um cemitério de jazigos abandonados esperando por esporádicas visitas. Às vezes me sinto solitário como Wall-E trafegando pelo ferro-velho.
quarta-feira, 26 de maio de 2021
VIRADA DE PÁGINA II
Papel jornal, couché, off-set, polén, reciclado, kindle ou pdf
O Demônio de Hell’s Kitchen sempre foi agraciado com ótimos roteiristas: Brian Michael Bendis, Ed Brubaker, Ann Nocenti, Mark Waid, Chip Zdarsky… a lista é longa. Mas o principal destaque continua sendo Frank Miller, foi ele quem pavimentou toda mitologia do homem sem medo, abrindo caminho para boa parte do que seria feito depois. Vários de seus trabalhos com o Demolidor tornaram-se clássicos dos quadrinhos (A Queda de Murdock, A Morte de Elektra, Roleta Russa, Amor e Guerra, The Man Without Fear, entre outros).
Tenho especial predileção pela edição 179 de Daredevil, de fevereiro de 1982, publicada no Brasil dois anos depois na saudosa Superaventuras Marvel nº 20. A história narrada em primeira pessoa pelo repórter investigativo Ben Urich chamou minha atenção ainda na infância. Com ares de literatura noir e sem seres superpoderosos, aquela crônica urbana me apontou outras possibilidades no universo das HQs, algo bem diferente do que eu estava habituado. Ainda sinto pela morte (naquele momento) do velho jornalista do Clarim Diário no desfecho da edição. Malditos cigarros.