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sexta-feira, 4 de outubro de 2013

OS INFRINGENTES

Nos bastidores da capital federal o resultado de empate na votação dos embargos infringentes já era dado como certo, tanto que para os réus só bastava convencer Celso de Mello. Inicialmente ele parecia fechado para negociações, irredutível para as ofertas ele não seria tão fácil quanto os outros, mas todo homem tem seu preço, e o Zé sabia disso.

Quando Ana Laura retornava para casa dois carros fecharam seu caminho. Cena de filme. Um grupo de homens de terno e gravata e óculos escuros não tiveram trabalho para leva-la, que calmamente nem ameaçou reagir, algo que ela tinha aprendido no treinamento de segurança recebido por sua família. Do aparelho celular de Ana Laura um dos homens ligou imediatamente para o pai dela: 

 
     
 "Fala, Filha!"  
"Não é ela... mas você já sabe o que tem que ser feito."
  
Do outro lado Celso não aparentava surpresa, como se ele soubesse que isso realmente pudesse acontecer.

Ele preferiu não envolver a polícia no caso, sabia que não ia adiantar, sabia que seria pior, sabia que a polícia fazia parte do esquema. Foi uma semana terrível. Sem notícias da filha e vendo seu nome nos meios de comunicação a todo instante, dando ao seu voto uma importância e um poder além do que ele merecia, esquecendo-se completamente que outros cinco ministros já tinham votado a favor. Após concluir o seu voto, Celso se trancou no banheiro e chorou em silêncio. Libertada em uma rua deserta de uma cidade satélite, Ana Laura chorava. Desolados, alguns brasileiros ainda tentavam chorar, mas não conseguiam.

segunda-feira, 11 de março de 2013

PROMESSAS, MEU BEM, PROMESSAS

Ser blogueiro é trotar por uma senda pantanosa (vixe, que raio de frase foi essa?). Blogueiro é um bicho vaidoso, se considera formador de opinião e odeia ser questionado aliás, tem verdadeiro pavor. Ser blogueiro talvez não seja para todos, tem que ter senso de humor, espírito esportivo, não levar a sério o excesso de elogios nem se chatear com as críticas (que podem ser muitas). Sem paciência, alguns radicalizam e excluem o blogue ou bloqueia para comentários ou limita para um círculo restrito de leitores. Cada um na sua, mas prefiro sempre o debate. Com dez anos de blogue fica fácil saber quando determinada postagem será solenemente ignorada ou se tornará uma controvertida polêmica. Afinal, lugar de bom moço é no Feicebuque, no blogue é possível errar, não gostar, se arrepender. No blogue todo assunto é permitido, mas é preciso jogo de cintura para abordar temas espinhosos, algo que às vezes me falta. Então, para evitar aborrecer os poucos que ainda dedicam uma parte do seu tempo para me ler, resolvi tornar pública minha lista de promessas para este ano, mesmo não sendo, nem pretendendo ser, candidato a nada:

(*) Prometo nunca mais propagar meu gosto musical duvidoso, divulgando vídeos e discos de cantores/bandas que todo mundo deveria conhecer;

(*) Prometo que nunca mais postarei nada que ofenda às telenovelas brasileiras ou às séries britânicas/americanas, repetindo meu argumento simplista de que a vida é curta e que dois capítulos/episódios equivalem, em média, à duração de um longa-metragem, e que eu tenho muitos filmes para ver/rever antes do fim;


(*) Prometo não transformar Clarice Lispector em musa da autoajuda;

(*) Prometo nunca mais escrever sobre relacionamentos, não sou nenhum Carpinejar, que acredita que o amor é receita de bolo. Cada casal possui suas peculiaridades e a graça é exatamente essa – querer generalizar é bobeira;

(*) Prometo que não farei nenhuma postagem enlutada quando alguma celebridade desencarnar, mesmo que seja o Roberto Carlos;

(*) Prometo que não direi durante a próxima campanha eleitoral que não voto mais no PT;

(*) Prometo não retrucar mais comentários copy-cola;


(*) Prometo não fazer listas de melhores no final do ano;

(*) Prometo que não emitirei minha desnecessária opinião sobre o assunto do momento;

(*) Prometo nunca mais falar mal do Vasco, do Big Brother, do Carnaval, da Veja, de William Bonner, Adele ou Malafaia;

(*) Prometo que não comentarei nos blogues alheios quando eu detestar a postagem;

(*) Prometo que nunca mais questionarei o Feicebuque;

(*) Prometo não fazer mais promessas;

(*) Não prometo não grafar mais “Feicebuque”.


segunda-feira, 10 de setembro de 2012

(NÃO) VOTE EM MIM

Tem gente que não suporta, que desliga a TV, que nem quer ouvir falar, mas contrariando o bom senso e toda lógica possível, costumo aguardar ansiosamente pelo início do horário eleitoral gratuito no rádio e na TV (que sem muito esforço consegue ser mais divertido do que muito programa de estrela global por aí), especialmente quando é dia dos candidatos a vereador.

Impossível permanecer indiferente aos personagens, jingles e slogans que se sucedem na tela, ainda estou rindo de um e já surgem mais dois igualmente inusitados e cômicos. Sei, sei, sei... Não é muito elegante fazer pouco caso e rir das pessoas dessa forma, mas depois de eleitos eles não farão isso durante quatro anos com a gente?

Campanha municipal possui suas peculiaridades e nos coloca mais perto dos candidatos: é a caixa do banco, o cara do cafezinho, a revoltada do sindicato, o médico boa praça, um tio, um amigo, um conhecido, um vizinho, um colega do trabalho, um ex-colega da escola... Todo mundo postulando uma cadeira na Câmara da cidade. Todos com o sorriso fabricado na foto do santinho. Todos “em pânico mal dissimulado” nos seus preciosos segundos televisivos. Todos em rápidas e breves frases, às vezes apenas uma, resumindo sua proposta de campanha.

Depois de ver um candidato se enrolar completamente com as palavras, percebi como deve ser difícil resumir suas ideias e promessas em tão pouco tempo. Tentei fazer esse exercício em casa, em frente ao espelho, e o ridículo foi inevitável. Na poesia e no conto, procuro buscar sempre a concisão, fazer do mínimo o máximo, mas como fazer o mesmo numa propaganda eleitoral? Tentei novamente e dessa vez pareci ainda mais ridículo.

Melhor ligar a TV e rir dos mestres.

domingo, 20 de novembro de 2011

MEU PÉ ESQUERDO

        O soteropolitano, e quem visitou Salvador recentemente, sabe que a capital baiana está abandonada, diferente da sua alegria folclórica no colorido do cartão-postal.
        Vivendo no centro dessa cidade há oito anos, não muito distante do que será a “nova Fonte Nova”, sequer me proponho imaginar como esse lugar sediará os jogos da Copa do Mundo de Futebol (nem todos os tapetes do planeta seriam suficientes para esconder tanta sujeira, nem toda maquiagem conseguiria disfarçar tanto descaso).
        Ao caminhar por suas históricas ruas, suas ladeiras, desviando-me habilmente dos vendedores ambulantes que ocupam todos os espaços, não tive a mesma habilidade para escapar dos buracos na calçada, que já fazem parte da paisagem, e, inevitavelmente, meu pé esquerdo sucumbiu pateticamente no meio da via, promovendo uma virada forçada do tornozelo. Resultado: os ligamentos rompidos e condenado a ficar “preso” dentro de casa, minha prisão sem grades, sabe-se lá por quantos dias, deslocando-me com o auxílio de muletas, com os movimentos reduzidos que transformam o simples em complexo, o corriqueiro em estafante, e digladiando contra o tédio (entre tantos insucessos, a angústia que senti ao utilizar uma cadeira de rodas no hospital foi uma das piores desta minha parca existência).
        Mas que Salvador acolha em 2012 um novo governante, que não se afogue no pouco caso e nas promessas demagógicas.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

DOMINGO ESMERALDA


No romance O Leopardo, do escritor italiano Giuseppe di Lampedusa, o Príncipe de Salina (imortalizado no cinema por Burt Lancaster no clássico de Luchino Visconti), expressa todo seu desencanto com a política na célebre frase: “Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude.”. Impossível não ser remetido à principal bandeira da atual campanha presidencial: o continuísmo. Ao contrário do Príncipe de Salina, acredito que às vezes é preciso mudar para que as coisas fiquem diferentes.

"De repente
me lembro do verde
da cor verde
a mais verde que existe
a cor mais alegre
a cor mais triste
o verde que vestes
o verde que vestiste
o dia em que eu te vi
o dia em que me viste."
(Paulo Leminski)

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

UMA RAZÃO

No site oficial da candidata Marina Silva estão enumeradas 43 razões para ela receber o nosso voto. Certamente, tenho bem mais que quarenta e três motivos. Basta observar seus adversários políticos, no famigerado horário eleitoral, em algum noticiário ou em qualquer debate, para se constatar que não é muito difícil encontrar uma razão o que já é mais do que suficiente.

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