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segunda-feira, 13 de setembro de 2021

SOCIAL DISTANCIAMENTO VII

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda

(Janeiro, 2021)

De repente alguém pressionou “continue” e o jogo prosseguiu, melancolicamente.
“Nothing changes on New Year's Day”.



(Fevereiro, 2021)

Amigo coach, lembro que você afirmou naquela laive que falta de tempo não é desculpa, que o tempo é a gente quem faz (mesmo que o tempo não exista) e que basta a gente querer (querer é realmente poder, amigo coach?), que é possível ser feliz (felicidade foi o tema de outra laive, eu sei), que é imprescindível ter hábitos saudáveis, sucesso profissional, praticar exercícios físicos com regularidade, manter uma boa alimentação, ser o amigão da vizinhança, participar de projetos sociais, conservar a casa organizada e a despensa em dia, viver seu relacionamento amoroso intensamente, viajar, frequentar lugares agradáveis, ser politicamente engajado, cuidar da família, levar o cachorro para passear, cultivar algum hobby, maratonar aquela série que estão todos comentando, ser bem informado e nem um pouco alienado, ter vida social, continuar estudando, ser vaidoso e não deixar de se amar, se preocupar com o outro e com a natureza, ler alguns capítulos daquele livro antes de dormir e, principalmente, se preservar mentalmente equilibrado, em paz consigo e com o mundo. 

Amigo coach, sinceramente, mas prefiro fazer escolhas e conviver bem com elas, sem obrigações ou esse sentimento de fracasso que você assegura que ocorrerá ao final do dia se eu não tiver riscado todas as atividades que listei na agenda no começo da manhã. A areia da ampulheta já é bastante cruel, amigo coach, não seja cruel também.

 

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

DESPERCEBIDOS

…e o mundo não acabou. Mas eu só notei há alguns dias, talvez há algumas horas. Eu sou assim: despercebido. Demorei para perceber quando ela sentou ao meu lado, num banco da praça (tenho esse delay, esse descompasso). Demorei para perceber quando perdi meus amigos, quando o afeto se converteu em mágoa, em rancor. Demorei para perceber que eu não sentia mais medo, que viver era só atravessar a  porta. Demorei para perceber o domínio dos cabelos brancos sobre o Império da Minha Cabeça. Demorei para perceber que amores têm prazo de validade, são perecíveis. Demorei para perceber que os meus sonhos mudaram. Demorei para perceber que era engano, que eu não era bem vindo. Demorei para perceber os olhos de Bette Davis, a voz de Aracy de Almeida, a poesia de Henriqueta Lisboa. Demorei para perceber que o meu silêncio começa na minha saudade. Demorei para perceber que sou um leonino que gosta de passar despercebido. Demorei para perceber que eu não tenho pressa. Demorei para perceber que já era ano novo.

domingo, 1 de janeiro de 2012

(...)

       Parece que na noite de 31 de dezembro alguém esqueceu de pressionar a tecla “reiniciar”, pois na manhã de primeiro de janeiro não aconteceu nenhum milagre, nenhum encanto (acho que meu sapatinho ainda espera na janela do quintal). Continuei com as mesmas dores, com os mesmos sonhos, mesmas dúvidas. Continuei com as mesmas angústias, mágoas, medos e ansiedades, com os mesmos delírios e dívidas. Com a mesma cara borrada no espelho.
           A vida não estancou para assistir à queima de fogos no réveillon.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

FICÇÃO CIENTÍFICA

VIAGEM À LUA, 1902, Georges Méliès
Possuo dezenas de teorias estapafúrdias, que apenas eu pareço disposto a acreditar. Acredito, por exemplo, que o teletransporte, recurso tão comum em produções de ficção científica, como a série "Star Wars", salvaria a humanidade de um inevitável colapso emocional. Principalmente no cada vez mais confuso final do ano. Com o teletransporte não desperdiçaríamos nosso precioso tempo, não existiria atrasos, frustrações. Teríamos uma melhor qualidade de vida, viver valeria realmente à pena. Com o teletransporte teríamos o fim dos congestionamentos e acidentes na estrada, o fim do caos aéreo, o fim da espera, o fim da saudade (uma mãe em Feira de Santana poderia dar um beijo de boa noite em sua filha em Tóquio e voltar à Bahia antes do almoço).
        Mas acho que estou vendo muitos filmes...
    Ficção científica talvez seja o único gênero cinematográfico que não se encerra completamente ao final da sessão. Um bom exemplar deixa saudáveis arestas, que propiciam discussões e interpretações. Sempre tive o desejo de participar, ou fundar, um clube de ficção científica, onde os sócios poderiam rever “Blade Runner”, “Os 12 Macacos”, “2001”, entre outros. Por enquanto, isso é mais fácil de ser resolvido do que a criação do teletransporte, infelizmente.
          Então, que venha 2012! 
          Os aeroportos me aguardam!

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

UMA ÚLTIMA CRÔNICA FRAGMENTADA

      Adeus, ano novo!
     Estive nas páginas da Bravo!, da Piauí, da Cult, mas quase ninguém viu. Para os meus sempre espirituosos amigos, melhor seria se eu estivesse na Caras, talvez essa “honra” me rendesse um desconto no cabeleireiro ou notoriedade na sala de espera do dentista, poderia ter dito para eles que quem lê Caras não vê coração, mas nos poupei do medíocre trocadilho. Inclusive, sei que essas efemeridades não me darão fama alguma - fama é ser reconhecido por meus vizinhos. Por enquanto, ficaria satisfeito se eu descobrisse por que as pessoas ao invés de me desejarem saúde e paz, me desejam sucesso.
        Recortes amarelados de jornais, fotografias, medalhas e cartas de amor se amontoam, desordenadamente, na sala do ego (aquele sorriso na parede não é meu, aquele “eternamente tua” não era para mim). Preciso afastar a mobília, limpar a poeira do meu blog. Este ano, fiz listas de melhores isso, melhores aquilo (muitas sequer me atrevi a publicar). Acreditei num Brasil mais verde, menstruei, fiz epitáfios, canções, pedi outras doses, questionei, me equivoquei, dei o braço a torcer, abri as janelas da minha solidão com vista pro mar, quis ser Paulo César Pereio (agora quero ser Paul Giamatti ou PJ Harvey). A verdade é que escrevo cada vez menos. Não me falta inspiração, não me falta paciência. O problema deve ser ideias e calma demais.
        Anônimo(a), não adianta  me procurar nas entrelinhas, nas cores que uso para enfeitar o meu dia. Creio que já disse algo parecido num poema. Minha vida não é uma película do Almodóvar, talvez nem a de Lara seja. Minha vida está mais para um filme do Todd Solondz, para um conto do Lima Barreto ou para uma canção da Dolores Duran. Meu passado está em branco, meu futuro me condena. Humberto, não há luz no fim do túnel do tempo.
        Quero entardecer numa praia de Saubara.
        Quero minhas manhãs de domingo com Inezita Barroso.
        Novamente, como numa reprise da Sessão da Tarde, não me impressionei com as luzes tristes do natal, com os ornamentos da cidade, com as guirlandas penduradas nas portas dos apartamentos do meu edifício. Certamente, também não me impressionarei com a contagem regressiva ou com os fogos artificiais que celebrarão o funeral de 2010.
        Tenho um planeta no porão que precisa entrar em órbita.
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