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sexta-feira, 6 de setembro de 2024

A ARTE DO SILÊNCIO


Acho engraçados alguns títulos de filmes como “O Silêncio dos Inocentes”, “Os Gritos do Silêncio” ou a trilogia do silêncio de Bergman. Há também uma vastidão de títulos de livros, poemas e canções que abusam do silêncio. O silêncio é realmente uma arte, escutar também deveria ser, mas ninguém quer ouvir, só quer falar. Sempre falei o que vinha à cabeça, destituído de filtro ou freio. Não faço o tipo falastrão, na verdade sou bastante econômico, embora incisivo. Considerava-me o “supersincero” até perceber (a não muito tempo) que eu não passava do super inconveniente. Demorei para aprender a me calar, a entender que nem tudo necessita de uma réplica e que algumas perguntas são mais bonitas sem resposta. Às vezes ainda me vejo em saias justas que eu mesmo criei. Quando dou por mim as palavras já estão saindo, me arrependo imediatamente enquanto falo, mas é impossível trazê-las de volta, editar o que foi falado, interromper a rota da bala após o tiro. Preciso somente conviver com as consequências e não remoer durante semanas o que não deveria ter dito. Atualmente o inconveniente são os outros: todo mundo tem algo a dizer, todos conhecem tudo o que está sendo feito, já foi e será. O problema é escutar despropósitos sem contestar. Silenciar é uma arte complexa pra caralho.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

DESPERCEBIDOS

…e o mundo não acabou. Mas eu só notei há alguns dias, talvez há algumas horas. Eu sou assim: despercebido. Demorei para perceber quando ela sentou ao meu lado, num banco da praça (tenho esse delay, esse descompasso). Demorei para perceber quando perdi meus amigos, quando o afeto se converteu em mágoa, em rancor. Demorei para perceber que eu não sentia mais medo, que viver era só atravessar a  porta. Demorei para perceber o domínio dos cabelos brancos sobre o Império da Minha Cabeça. Demorei para perceber que amores têm prazo de validade, são perecíveis. Demorei para perceber que os meus sonhos mudaram. Demorei para perceber que era engano, que eu não era bem vindo. Demorei para perceber os olhos de Bette Davis, a voz de Aracy de Almeida, a poesia de Henriqueta Lisboa. Demorei para perceber que o meu silêncio começa na minha saudade. Demorei para perceber que sou um leonino que gosta de passar despercebido. Demorei para perceber que eu não tenho pressa. Demorei para perceber que já era ano novo.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

CONTRA O SILÊNCIO

          Grande parte dos meus desafetos nasceu da minha palavra, não apenas a escrita, principalmente a falada, em alto e nem sempre bom som.
          Não costumo omitir o que penso, até tento, mas não consigo. Para quem pessoalmente não me conhece, advirto que não sou nenhum falastrão, o rei da festa com suas tiradas sem graça. Na verdade, sou introspectivo, de breves comentários, observador. No entanto, o pouco que digo é o suficiente para fomentar rancores ou paixões.
          Não quero o aplauso fácil, desconheço o meio-termo, o alto do muro. Diplomacia, conheço somente de vista. Não falo duas vezes antes de pensar, sei o que falo. Nem simplifico a questão me comparando à natureza de uma criança, não terceirizo minha responsabilidade. Frequentemente, sou tachado de deselegante, de deseducado. Mas se me desagrada, não falo o contrário para satisfazer ninguém.
          Sempre falei o que pensava, mesmo que depois eu me arrependesse (não do que disse, mas por ter dito). É um risco me pedir a opinião sobre algo, desde os testes nucleares na Coréia do Norte à cor do vestido. Não tenho medo de destoar, de contra-argumentar, de desmentir, de desmistificar. Não tenho medo da maioria. Só não quero me martirizar por que não disse o que sentia. A palavra represada amargura, corrói, causa câncer.
          Sofri quando quis me esconder atrás do silêncio.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

O SILÊNCIO


          – Prefiro o primeiro disco - foi a frase feita que ele disse, com aquele ar superior característico. Como se o disco de estréia dos Beatles, Raul Seixas, Titãs ou Los Hermanos tivesse sido sensacional. Experimentei perguntar sobre uma banda desconhecida de pós-punk-psicodélico do sul da Finlândia e ouvi uma resposta meio blasé:
          – Já vi o clipe.
          A MTV, assim como o Google, terminará nos fodendo – pensei.
          – Qual som você curte? – ele perguntou numa inversão abrupta de papéis. Respondi que não gosto de muitas coisas. Não gosto de vídeo-clipe, principalmente vídeo-clipe com atores de novelas, por melhor que seja a canção aquelas imagens me ensurdecem. Não gosto de versões; releituras; show tributo; acústico; ao vivo; coletâneas; playback em programa de auditório; nova formação; parada de sucessos; flashback; o fenômeno do momento... Gosto apenas do silêncio. E silenciamos.
          Mas já era tarde.
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