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segunda-feira, 13 de setembro de 2021

SOCIAL DISTANCIAMENTO VII

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda

(Janeiro, 2021)

De repente alguém pressionou “continue” e o jogo prosseguiu, melancolicamente.
“Nothing changes on New Year's Day”.



(Fevereiro, 2021)

Amigo coach, lembro que você afirmou naquela laive que falta de tempo não é desculpa, que o tempo é a gente quem faz (mesmo que o tempo não exista) e que basta a gente querer (querer é realmente poder, amigo coach?), que é possível ser feliz (felicidade foi o tema de outra laive, eu sei), que é imprescindível ter hábitos saudáveis, sucesso profissional, praticar exercícios físicos com regularidade, manter uma boa alimentação, ser o amigão da vizinhança, participar de projetos sociais, conservar a casa organizada e a despensa em dia, viver seu relacionamento amoroso intensamente, viajar, frequentar lugares agradáveis, ser politicamente engajado, cuidar da família, levar o cachorro para passear, cultivar algum hobby, maratonar aquela série que estão todos comentando, ser bem informado e nem um pouco alienado, ter vida social, continuar estudando, ser vaidoso e não deixar de se amar, se preocupar com o outro e com a natureza, ler alguns capítulos daquele livro antes de dormir e, principalmente, se preservar mentalmente equilibrado, em paz consigo e com o mundo. 

Amigo coach, sinceramente, mas prefiro fazer escolhas e conviver bem com elas, sem obrigações ou esse sentimento de fracasso que você assegura que ocorrerá ao final do dia se eu não tiver riscado todas as atividades que listei na agenda no começo da manhã. A areia da ampulheta já é bastante cruel, amigo coach, não seja cruel também.

 

terça-feira, 17 de agosto de 2021

SOCIAL DISTANCIAMENTO VI

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda


(Novembro, 2020)

De quando em vez, reencontro algum conhecido que se perdeu no labirinto do tempo nesses desvios das chamadas redes sociais ou me deparo com alguém que admiro a espera de um simples clique para seguir. Termino não clicando. Meus perfis não possuem atividade, nada que posso oferecer em retribuição; também não costumo distribuir laiques ou comentários. Nem como voyeur eu sirvo. Tem dias que até sinto vontade de compartilhar qualquer coisa, nem que seja um efêmero “storie”, um trecho de livro que considerei pertinente, uma fotografia antiga da cidade das minhas infâncias, o sorriso do meu filho, uma canção… São tantas notícias ruins que se avolumam e se atropelam diariamente que publicar algo que não seja uma indignação vem carregado de um sentimento de culpa – a indiferença é praticamente um crime. Enquanto desisto de postar, um mero instante de tranquilidade sem aplausos, sem plateia, sem curtidas, sem julgamentos acontece no meu coração.



(Dezembro, 2020)

Nunca me despedi tanto de pessoas como nos últimos meses. O Brasil de Oswald de Andrade agora é mais do que uma simples frase de efeito, é realmente uma república federativa cheia de árvores (por enquanto) e gente dizendo adeus. 

 

quinta-feira, 22 de julho de 2021

SOCIAL DISTANCIAMENTO V

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda

 

(Setembro, 2020)

Costumo travar diálogos imaginários que não acontecerão tão cedo. Temas polêmicos, filosóficos, amenidades, o trending topic mais quente de todos os tempos da última hora com velhos amigos, conhecidos, colegas de estrada, amigos dos amigos que o acaso coloca lado a lado numa mesa de bar. Mas tudo que resta é a solitude. E um silêncio constrangedor.



(Outubro, 2020)

Era questão de tempo para oficializar minha aposentadoria, precoce dirão alguns, da literatura. Na verdade já tinha parado e não percebi. Meu blogue há tempos não era atualizado, não existia nenhum projeto na gaveta, na cabeça ou vontade de iniciar algo do zero. Longe da superficialidade e glamourização do universo literário, encontrei um alívio que ingenuamente buscava na escrita. Às vezes a rota contrária é o melhor caminho. Escrever é um ato doloroso, exige coragem, determinação e um pouco de teimosia. Meu único entusiasmo agora é ter bons livros para ler.

 

 

segunda-feira, 21 de junho de 2021

SOCIAL DISTANCIAMENTO IV

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda

(Julho, 2020)

Sempre busquei a inquietude, o desassossego. Acostumar-se me parecia uma sentença fatal, era algo a ser evitado. Mas de alguma maneira fomos todos obrigados a nos acostumar com a presença inevitável dessa pandemia. Quando entendi isso, gradativamente todos os sintomas começaram a cessar e aos poucos pude retomar o prazer da leitura, da música, dos filmes... A vida voltava a fazer um pouco de sentido.



(Agosto, 2020)

Curiosamente, na minha infância não havia festas de aniversário, nem minhas nem de amigos. Não consigo lembrar de ter ido a nenhuma (desconheço a existência de registros fotográficos em alguma festinha dos anos de 1980 que possam me contradizer). Em minha casa nunca teve, era apenas mais um dia comum. O que era falta de opção, quando adulto, se tornou opção – e mesmo contrariando o desejo de pessoas queridas, e avesso a surpresas, nunca permiti que algum aniversário meu fosse comemorado. No entanto, hoje tudo o que eu queria era a companhia dos meus amigos, familiares e abraços de parabéns. 


sexta-feira, 4 de junho de 2021

SOCIAL DISTANCIAMENTO III

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda

 
 
 

(Maio, 2020)

A dormência e os formigamentos agora têm a companhia de suores, vertigem, palpitações, tremores na face, indigestão, sensação iminente da morte e sufocamento. Em um mês utilizo o plano de saúde mais do que nos últimos vinte anos: cardiologista, neurologista, alergologista, gastroenterologista, urologista, oftalmologista, angiologista, oncologista e mais uma bateria de exames sem resultados anormais. 
 
Stress, depressão, transtorno de ansiedade social, síndrome de Burnout, do pânico, do impostor, fobia social. “Quando os antidepressivos e os calmantes não fazem mais efeito”


(Junho, 2020)

“É São João, e eu aqui tão só”


terça-feira, 18 de maio de 2021

SOCIAL DISTANCIAMENTO II

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda


(Março, 2020)

Saíram os primeiros decretos autorizando o trabalho em home office. O que seria temporário vai se tornando permanente a cada semana de prorrogação. As notícias se atropelam sem nenhum sinal de alento, enquanto um expediente de oito horas se arrasta pelo dia todo. Da varanda, observo a rua e a praça desertas sem seus habituais praticantes de caminhadas, crianças correndo ou cães passeando. Um angustiante e eterno domingo. No elevador o aviso de um caso confirmado no condomínio, o medo do outro só aumenta. Formigamento e dormência nos pés e nas pernas não cessam, mas não quero dar atenção para isso agora. Não agora. Ir ao mercado ou à farmácia requer estratégia de guerrilha: “que pra nós dois sair de casa já é se aventurar”.


        
(Abril, 2020)

Adormecer é praticamente uma vitória. As poucas horas de sono são regadas com sonhos inquietantes que me fazem acordar mais cansado do que quando fui deitar. Em um deles as águas cristalinas de um dilúvio cobrem os prédios vizinhos e rapidamente começam a invadir a varanda do 15º andar. Pego a mão do meu filho e em silêncio aguardamos o inevitável. “Where Is My Mind” do Pixies toca aleatoriamente no despertador. 



quarta-feira, 5 de maio de 2021

SOCIAL DISTANCIAMENTO I

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda
 
 

(Dezembro, 2019)

Em meio a confraternizações o receio quanto ao novo vírus é cada vez maior. Inicialmente parecia ser algo quase inatingível, distante da nossa realidade. Agora parece cada vez mais próximo. Feiques nius e relatos catastróficos se misturam com memes supostamente engraçados sobre a “ameaça chinesa”. Os fogos artificiais nunca soaram tão tristes.

            

(Janeiro/Fevereiro, 2020)

Férias e aquela tradicional distância dos festejos carnavalescos ditam o começo do ano. “Trouxe um vinho para você” é a mensagem de amigos que acabam de retornar de uma Europa afetada pela pandemia. Começo a tomar as primeiras medidas de prevenção mesmo sem nenhum protocolo definido pelas autoridades de saúde. “Deixe de paranoia” é o comentário mais frequente que escuto nesses dias. Ainda não fui buscar aquele vinho. 



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