Questionado pelo parceiro e amigo Milton Primo sobre qual seria a trilha sonora para o meu próximo livro, preferi não citar apenas uma canção e preparei um verdadeiro setlist. Play enquanto o livro não vem.
01) Fuga nº 3 da Rua Nestor – Cícero
02) O Monstro do Armário – Nei Van Soria
03) Filho – Dado Villa-Lobos
04) Circo – Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta
05) Beatle George – Júpiter Apple
06) Taxi – Marcionílio
07) Noite Torta – Ney Matogrosso
08) Runaway – The National
09) Beleza de Ser – Tony Maro
10) Je T'aime Tant – Julie Delpy
11) Traumas – Roberto Carlos
12) Papel de Bandido – Marcelo Nova
13) Velho Pai – Dialética
14) A Volta de Xanduzinha – Jussara Silveira
15) Melhor – Wado
16) Come Share my Life – Legião Urbana
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segunda-feira, 31 de março de 2014
LEIA NO VOLUME MÁXIMO
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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
(...)
Quando eu era criança, costumávamos passar as férias na Ilha. Lembro-me, frequentemente, de uma louca que vivia pelas ruas, a carregar um saco de pano cheio de bonecas velhas recolhidas pela vizinhança - um cemitério ambulante de infâncias. Entoando uma antiga canção do Roberto, as outras crianças a perturbavam diuturnamente, apenas para, após o verso “que você não vê que ele está ficando démodé”*, ouvi-la pronunciar uma variedade infinita de impropérios e atirar pedras a esmo, para a alegre e desesperada fuga de todos. Parecia ser o único divertimento do verão. Teorias pouco imaginativas, diziam que ela tinha sido professora na capital durante a juventude e tinha aversão a estrangeirismos; ou que ela enlouqueceu depois que o noivo a trocou por uma dançarina francesa de um cabaré itinerante. Na verdade, sua ingenuidade religiosa confundia “démodé” com demônio, nada mais. Queria terminar este parágrafo afirmando que ela desapareceu misteriosamente, deixando à beira-mar dezenas de cabeças de bonecas. No entanto, ela foi covardemente assassinada por um pai furioso, depois de ter acertado uma pedra na perna do seu filho.
Os verões nunca mais foram os mesmos na Ilha, nem rei nem Roberto.
*CIÚME DE VOCÊ (Luiz Ayrão, 1968)
domingo, 13 de março de 2011
NÃO É DA SUA CONTA
“Como Vai Você?”, de Mário Marcos e Antônio Marcos, é uma canção que sempre me incomodou. Gravada desde os anos 70 por diversos artistas da música brasileira, de Roberto Carlos a Daniela Mercury, de Nelson Gonçalves a Cauby Peixoto, vem, frequentemente, embalando os mais diversos romances e fossas. Mas ao contrário do que aparenta, não se trata necessariamente de uma “canção de amor”: sua melodia adocicada é acompanhada por uma letra extremamente egocêntrica, onde a primeira pessoa conduz e é a razão de ser do discurso. A pergunta do título, seguidamente repetida, não demonstra preocupação no bem estar alheio, é apenas uma possessiva curiosidade, típica de quem não aceita o fim do relacionamento, num tom contraditório e autoritário, a exigir satisfações:
como vai você?
EU PRECISO saber da sua vida
EU PRECISO saber da sua vida
Sem ter satisfeito seu desejo individualista, o narrador apela para outras artimanhas, como sugerir um portador para a informação requerida:
peça a alguém PRA ME CONTAR sobre o seu dia
Anoiteceu, e EU PRECISO SÓ SABER
E ao acrescentar o advérbio “só” à frase EU PRECISO SABER, tenta esboçar alguma fragilidade, mas não convence:
Até quando resolve qualificar o outro, o uso do pronome possessivo é recorrente, não estranharia se eles tivessem escrito um verso como o melhor de você sou eu:
razão de MINHA PAZ já esquecida
que já modificou A MINHA VIDA
que já modificou A MINHA VIDA
É quase cômica a falsa dúvida levantada, praticamente uma declaração de amor:
nem sei se gosto MAIS DE MIM ou de você
Os argumentos para a reconciliação são ainda mais egoístas. Não há em nenhum momento interesse no conjunto. A felicidade do casal não existe, é tudo muito unilateral. Chego a imaginar que a musa da canção tenha sido uma boneca inflável:
Vem, que a sede de te amar ME FAZ MELHOR
EU QUERO amanhecer ao seu redor
PRECISO TANTO ME FAZER FELIZ
EU QUERO amanhecer ao seu redor
PRECISO TANTO ME FAZER FELIZ
“Como Vai Você?” não é uma canção para ser ouvida a dois, ela é opressora, mesquinha, masturbatória. Produto da vaidade de alguém que não sabe o que é amar, e nem o que é sofrer.
terça-feira, 28 de julho de 2009
ERASMO CARLOS: 50 ANOS DE MÚSICA
Erasmo Carlos lançou recentemente um disco intitulado ROCK ‘N’ ROLL – título mais do que auto-explicativo. É seu primeiro trabalho de inéditas (e sem nenhuma suposta parceria com Roberto Carlos) desde 2004 e tem o mérito de não soar retrô entre baladas, blues rock e country. É um disco surpreendentemente contemporâneo, agradável, bem humorado e bem executado. Canções como "Cover de Mim" e "Olhar de Mangá" são, certamente, bem mais interessantes que qualquer exagero requentado. Erasmo também completou 50 anos de música, não houve apresentações festivas pelo país nem programas de tv, talvez alguma menção no suplemento cultural dos jornais. Imagino apenas o Tremendão de preto empunhando sua guitarra e um repertório pouco óbvio no show Elas Cantam Erasmo com Ângela Rorô, Pitty, Rita Lee, Mallu Magalhães, Elza Soares, Céu, Marina Lima... Ao invés de brincar com sua própria caricatura emulando emoções ele cantaria languidamente "não leve a mal se eu lhe disser: a guitarra é uma mulher".
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