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terça-feira, 7 de maio de 2013

OS PIORES VERSOS DE RENATO RUSSO

Renato Russo, líder e principal compositor da cultuada Legião Urbana, tem seu nome comumente associado ao epíteto poeta (rótulo tão banalizado e desgastado que até Chorão, do Charlie Brown Jr., foi agraciado com ele). Letrista, realmente, de qualidade bem acima dos seus pares – inclusive Cazuza, outro equivocado “poeta” -, Renato Russo tem suas letras reproduzidas como hinos por seguidas gerações de jovens, e de não tão jovens assim, angustiados com o mal do século, além de ocupar o espaço destinado a autênticos poetas em exemplos utilizados nos livros didáticos. E como se já não fosse suficiente a literatura, o Trovador Solitário invadiu também os cinemas. Primeiramente com o raso documentário “Rock Brasília”, agora com os rebeldes sem causa da imberbe capital federal em “Somos Tão Jovens”, uma caricatura com algum rock e sem sex and drugs, pra não assustar a família-brasileira-tela-quente. E ainda vem aí “Faroeste Caboclo”. Tenho medo de imaginar qual será o próximo, “Eduardo e Mônica?”, “Dezesseis?”, “Pais e Filhos?”, “Ainda Somos Tão Jovens?”. Enquanto isso, me atrevo a listar seus versos menos interessantes (pra ficar no eufemismo):

BENZINA
Poderia ter poupado Renato Russo desse retrato do artista quando jovem, mas a partir do momento em que os Irmão$ Lemo$ e Dinho (e aí, moçadaaaa) Ouro-Preto chafurdaram o espólio do Aborto Elétrico para um projeto insosso, não tive como deixar essa pérola de fora. O engraçado é que quase trinta anos depois de ter sido escrita, constato que o rock feito no Brasil encaretou, já que no disco do Capital Inicial a música foi gravada sem a letra, com receio de ser considerada apologia às drogas, mas o mundo não perdeu grande coisa:

“Fui até à farmácia
Eu e minha prima
Levei os 20 mangos
Pra comprar benzina”


DEPOIS DO COMEÇO
Dos fóruns online à mesa de bar, “Depois do Começo” é praticamente hors concours quando o assunto é música da Legião Urbana que você não gosta, seja porque ta mais pros Paralamas ou por causa do “Deus, somos todos ateus”. No encarte do disco “Que País é Este”, somos advertidos que a letra contém diversas mensagens codificadas e quem tentar decifrá-la encontrará mais coisas sobre si do que sobre a música. Bobagem. Raramente executada ao vivo, recentemente foi resgatada por Dado Villa-Lobos nos seus shows, numa espécie de lado B da sua antiga banda, como se a Legião Urbana tivesse algum lado B. Os fãs mais ardorosos comparam a letra a uma viagem lisérgica, meio “Lucy in the Sky with Diamonds”, outra bobagem. Na verdade, os versos são de um nonsense constrangedor: “cair como um saxofone na calçada”, “usar um extintor como lençol”, “jogar polo-aquático na cama”, não faltam opções para pior verso, mas me incomoda mesmo é o refrão que diz que depois do começo o que vier vai começar... Sic, sic, sic.

QUÍMICA

Em um cena retratada no filme “Somos Tão Jovens”, o baterista Fê Lemo$ ousa questionar a qualidade do trabalho do até então genial Manfredini Jr., o que bastou para o vocalista rodar a baiana e abandonar o barco de vez. Ironicamente, foi essa canção que levou a Legião Urbana ao Rio de Janeiro, após ter sido gravada no disco de estreia dos Paralamas do Sucesso. Propositadamente pueril, boba até, mas comparar a pressão da sociedade para o jovem se tornar um profissional bem sucedido com um campo de concentração da Alemanha nazista (o “Belsen tropical”) é forçar a barra.

SUBMISSA
O que o dinheiro não faz, “Química” não servia, mas essa “Submissa” serve, e nessa nem da pra reconhecer o cara que escreveu "Ainda é Cedo" no texto. Outra que os Irmão$ Lemo$ foram escarafunchar.

“Conheci uma garota submissa
Tudo o que eu mandava ela fazia
Tudo o que eu queria ela fazia
Tudo o que eu sonhava ela fazia”.


MAIS DO MESMO

Nunca, nunca mesmo, simpatizei com os versos iniciais de “Mais do Mesmo” (“Hey, menino branco/ o que você faz aqui?”), a sonoridade das palavras na canção, a ideia simplista sobre quem vende e quem consome drogas (algo que também me incomodou no primeiro “Tropa de Elite”), nada me agrada. E depois que você descobre que esses versos horríveis foram supostamente chupados de "I'm Waiting for the Man", do Velvet Underground, (“Hey, white boy, what you doin' uptown?”), a coisa piora ainda mais. Há quem diga que os doentes na enfermaria cantando sucessos populares é mais bizarro.

OS ANJOS   
Se a postagem fosse sobre a pior música da Legião Urbana, não pensaria duas vezes, mas a letra também não fica pra trás, a impressão é que Renato pegou as sobras de “Perfeição”, requentou e fez esse prato. “Um tablete e meio de preguiça” ou “duas xícaras de indiferença?”. O gosto é do freguês.

MARCIANOS INVADEM A TERRA
“Cuidado com a coisa coisando por aí/
a coisa coisa sempre e também coisa por aqui”. 
Dispensa maiores comentários.

MAIS UMA VEZ
Tá bom, Renato Russo era fã declarado dos mineiros e pretendia gravar um disco só com canções do Clube da Esquina, certo. Mas isso não faz essa letra ser o que ela não é. Recomendo anotar cada verso em um pedacinho de papel, embrulhar, jogar para cima e sortear o pior verso. Autoajuda em letra de música é dose.

OUTRAS ESTAÇÕES
Ao comentar que eu pretendia realizar uma postagem com os versos pouco inspirados de Mr. Russo, amigos legionários, curiosamente, fizeram várias sugestões, demostrando que são menos radicais do que aparentam, ao contrário dos fãs de Raul Seixas, que ameaçaram minha integridade física. Citaram “PLANTAS EMBAIXO DO AQUÁRIO” (pior música do disco “Dois” para alguns) e prima-irmã de “A Canção do Senhor da Guerra” e “Soldados”; o mertiolate de “METRÓPOLE”; as baratas voadoras de “LEILA”; a feijoada de “O MUNDO ANDA TÃO COMPLICADO”; a tríade “A DANÇA”, “PETRÓLEO DO FUTURO” e “PERDIDOS NO ESPAÇO” do primeiro disco; O tê enorme de “TÉDIO”; o quem inventou o amor de “ANTES DAS SEIS”, entre outras.

segunda-feira, 18 de março de 2013

AS PIORES CANÇÕES DE RAUL SEIXAS


A cada aniversário de Raul Seixas, de nascimento ou morte, o baiano é amplamente celebrado: são shows tributos, coletâneas, regravações, relançamentos, o diabo a quatro, e quase tudo de gosto duvidoso. Para fugir um pouco desse marasmo com hora marcada, resolvi provocar e selecionar as cinco piores canções de Raul Seixas, lembrando que a escolha foi feita por um raulseixista legítimo, mas nem tão xiita assim:

VIM DIZER QUE AINDA TE AMO (Raulzito/ Mauro Motta)
Em sua fase de produtor da CBS, Raulzito, como ele assinava, teve mais de cem canções gravadas pelos populares artistas que faziam parte do casting da gravadora (algumas ele reutilizou depois com novas letras). Tesouros perdidos dessa época merecem ser descobertos, embora os nossos bem intencionados intérpretes prefiram não se arriscar e requentar os clássicos que já fazem parte do cardápio do grande público. Por outro lado, algumas devem continuar no fundo do baú do Raul, é o caso de “Vim Dizer que Ainda te Amo”, na voz do ilustre desconhecido Raphael, gravada em 1972. O derramamento de glicose é tão grande que nem me atrevo a classificá-la como “brega”, acho que nem Zezé Di Camargo a cantaria, visto que quando foi convocado a gravar algo de Raul, escolheu “Medo da Chuva”, uma música que prega a liberdade conjugal. Em um raro instante de desprendimento financeiro, Kika Seixas impediu o lançamento de uma caixa contendo o material desse período, talvez temendo que a obra do maluco beleza fosse manchada. MOMENTO POR QUÊ? PRA QUÊ?: “Vim dizer que ainda te amo/ meu coração é seu/ vim dizer que ainda te amo/ que nada se perdeu”.




CANTIGA DE NINAR (Raul Seixas/ Paulo Coelho)
Creio que "chata" é característica obrigatória para as canções de ninar. Faixa do pouco inspirado “Há Dez Mil Anos Atrás”, de 1976, esta parece completamente deslocada, principalmente por surgir logo após o animado baião “Os Números”. O que deveria ser um acalanto funciona realmente como uma canção de ninar, mas por outros motivos: no auge de sua forma vocal a performance de Raul não alcança  a delicadeza de “A Maçã” ou a singeleza de “ A Hora do Trem Passar” ou “Ave-Maria da Rua”, como o gênero exige, talvez tenha faltado poesia para provocar a emoção. Sem entregar o que promete, a canção, além de deixar o bebê acordado, ocupa desnecessariamente o lugar de algo mais relevante no disco, como “Love is Magick”, lado B do single do mesmo ano. É o tipo de música que quando executada alguém diz: "pula essa". MOMENTO POR QUÊ? PRA QUÊ?:“Você chora quando tem fome/ mas vem logo uma mamadeira”.



 

O SEGREDO DO UNIVERSO (Raul Seixas/ Oscar Rasmussem)
1979 foi um ano conturbado para Raul: seu contrato foi encerrado, se separou de Tania Menna Barreto, seu segurança foi assassinado dentro do seu apartamento, retirou metade do pâncreas e como se não pudesse piorar, conheceu Ângela (Kika). Mas a nossa história começa alguns meses antes, reza a lenda que ele teve contato com um caderno de poemas escritos pelo argentino Oscar Rasmussem em uma festa daquelas, o que foi suficiente para ele se encantar e compor as nove canções que fariam parte do seu último trabalho pela Warner, “Por Quem os Sinos Dobram”. A substituição da anárquica letra inspirada em Hemingway e no Gênesis, em parceria com Cláudio Roberto, por um arremedo de pílulas de autoajuda do quilate de “nunca se vence uma guerra lutando sozinho” ou “é sempre mais fácil achar que a culpa do é do outro”, gerou uma breve rusga entre os dois amigos. Não é difícil selecionar uma canção ruim nesse disco, “Ide a Mim Dadá” e “Da-lhe que Dá” são fortes concorrentes, mas “O Segredo do Universo” não tem rival. O título, que emula um Raul mais profético e místico, não passa de um rock simples, básico, decepcionando quem esperava algo épico, uma nova “Gita”. Percebendo o poder comercial do título, anos depois a gravadora lançaria uma coletânea com essa denominação. Há quem acredite que seja uma letra enigmática, repleta de simbologias, mas fã de Raul Seixas acredita em tanta coisa. MOMENTO POR QUÊ? PRA QUÊ?: “Dentro do mambo e da consciência/ está o segredo do universo”.

 

 

CANÇÃO DO MELÂNCIO (Raul Seixas/ Kika Seixas)
Obrigatoriamente eu teria que colocar alguma faixa do  “Metrô Linha 743”, de 1984, de preferência alguma parceria com Kika Seixas. Implicância gratuita? Talvez. No disco há cinco “parcerias” com Kika, além de uma irritante participação em “Mamãe, Eu Não Queria” (costumo creditar a ela o péssimo refrão de “Meu Piano”
talvez seja realmente implicância). Metrô Linha é um disco que nunca me conquistou: o som é ruim, os arranjos, as letras, a gravadora... Para piorar, ainda há duas inexplicáveis regravações que nem chegam perto das originais (“O Trem das Sete” e “Eu Sou Egoísta”), o que só confirma a falta de material inédito de Raul. Mas para não ser injusto com músicas como “Quero Ser o Homem que sou”, preferi incluir a “Canção do Melâncio”, interpretada pelo falecido cantor religioso Reinaldo Cominato para a trilha sonora do programa infantil TV TUTTI-FRUTTI, exibido pela Bandeirantes entre 1983 e 1984, onde os protagonistas eram frutas e vegetais (Milhofone, Prefeito Gerimum, Chico Pimentão, Melâncio, entre outros). A música nada mais é do que uma versão hortifruti para “Peixuxa” o amiguinho dos peixes, do álbum “Novo Aeon, de 1975 – que apesar de surrupiar descaradamente "Ob-La-Di, Ob-La-Da" dos Beatles passa pelo meu crivo por sua mensagem ecologicamente correta, em uma época em que meio-ambiente não era tendência. Apropriando-se do fonograma original gravado pelos Fevers, excluindo apenas a voz, no melhor estilo karaokê, foi inserida uma letra onde verduras e frutas curtem uma festa animada na hortolândia. Tudo bem, era para as crianças, mas custava compor uma música nova? MOMENTO POR QUÊ? PRA QUÊ? “E se não é noite/ e se não é dia/ Melâncio amavelmente dá melancia”.
 

 

VOCÊ ROUBOU MEU VIDEOCASSETE e CÂIMBRA NO PÉ (Raul Seixas/ Marcelo Nova)
Sempre desconfiei da real participação de Raul nas canções com Marcelo Nova em “A Panela do Diabo”, como ao longo da carreira ele “herdou” algumas parcerias (sendo “Capim Guiné” a mais célebre) em seu derradeiro trabalho não seria diferente. Não só por sua condição física, mas tenho dificuldade para visualizar Raul nas músicas que encerram o disco. Se “Nenhuma Conexão” não tivesse ficado de fora, fatalmente receberia o carimbo Raulzito e Marceleza, mas como só foi gravada cinco anos depois, Marcelo assumiu sozinho a autoria. “Câimbra no Pé” é uma genuína composição de Marcelo Nova, em gênero, número e grau, não estranharia se ela aparecesse em alguma sobra de estúdio do álbum “Duplo Sentido”, do Camisa de Vênus, com sua letra original, “saiba esperto ou burro, você vai morrer aqui, isso é um perigo eu sei, mas esse é um país perigoso, se não nos detectarem não há tumulto na imprensa”. Já o início de “Você Roubou Meu Videocassete” é emblemático, com a banda entrando antes do tempo e Raul tentando corrigir. MOMENTO POR QUÊ? PRA QUÊ? “Você roubou meu videocassete pensando que eu fosse o controle-remoto”.


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