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quinta-feira, 3 de abril de 2025

TODOS OS MEUS MORTOS: UMA PLAYLIST PARA O MEU FUNERAL

Sempre escutei, em tom de anedota, que um sinal de que estamos ficando velhos é ir a funerais com frequência – como se fosse necessário sepultar amigos e familiares para confirmar isso. Uma vez que, obviamente, tenho envelhecido, o cemitério passou a ser um local que visito bem mais do que eu imaginava que seria depois dos quarenta, essa república federativa cheia de árvores e gente dizendo adeus não dá uma trégua. Nas cerimônias de cremação o uso de música faz parte do protocolo, talvez para expressar a personalidade do falecido, uma mera homenagem ou simplesmente para tornar o ambiente e o ritual menos desagradáveis. Não é nem um pouco difícil me imaginar deitado num caixão que vai descendo lentamente até desaparecer dos olhos lacrimosos da audiência. Uma canção que costuma apresentar-se nesse instante é “Naquela Mesa” na voz inadjetivável de Nelson Gonçalves. A canção de Sérgio Bittencourt, composta para seu pai Jacob do Bandolim, é deveras comovente. A imagem de um senhor alegre e contador de histórias é quase palpável. Mas aquele cara na mesa não sou eu. Gosto bastante de música para permitir que em um momento de apreensão o responsável pelos procedimentos do meu funeral responda para o funcionário do crematório: “pode colocar qualquer música”. Espero dar o mínimo de trabalho possível quando eu morrer, deixar tudo pago e até a playlist que vai tocar no modo aleatório durante minha cremação. 


quinta-feira, 14 de setembro de 2023

TODOS OS MEUS MORTOS: NO ALICERCE DA ALEGRIA

Nunca penso no próximo texto a ser postado. Para mim o mais recente sempre será o último.  Imagino que permanecerá como uma espécie de despedida, um testamento. Os curiosos visitarão o blogue atrás de alguma mensagem subliminar, um mistério a ser desvendado. Fatalmente, encontrarão sentidos ocultos e farão dessas palavras meu epitáfio on-line, o último suspiro antes da extrema-unção. O que será que ele quis dizer? Será que já estava doente? Que fazia ideia do que aconteceria quando atravessasse a Avenida Manoel Dias às 16h de segunda-feira? Que sabia do "calibre do perigo"? Que não acordaria daquele sonho recorrente? Analisarão a imagem e o título inúmeras vezes em busca de alguém escondido nas sombras, um acrônimo ou palíndromo que a falta de paciência arqueológica não conseguiu decifrar. E se este for realmente o último? Ficará para a posteridade como um bilhete suicida? Uma premonição? Algum amigo músico enxergará versos nessas linhas e criará uma melodia triste, um réquiem? Talvez dê tempo de tocar durante a cerimônia de cremação. 

 

terça-feira, 18 de julho de 2023

TODOS OS MEUS MORTOS VI

Bóris costumava repetir que seria o último da galera a morrer. Gracejava dizendo que beberia nossos defuntos, que contaria as nossas mais vergonhosas aventuras no velório a cada lasquinê e que estaria sempre presente nos nossos túmulos (lendo algum poema ou maldizendo as novidades da estação enquanto envelhecia sem pressa). Como ficou fácil imaginar, Bóris não foi o derradeiro a morrer, também não foi o primeiro. Bóris viveu até à última ponta as dores e as delícias de ser o que era, o que sempre foi. Na reta final, já debilitado e envolto em arrependimentos, não abandonava sua verve crítica, sua mordacidade e passadismo declarado. Além disso, não abria mão de uma polêmica: adorava derrubar os argumentos alheios como um castelo de cartas ao vento. Era sua diversão. Nunca escondi que sair de Santo Amaro foi angustiante, muitos conterrâneos, por necessidade, tiveram que fazer o mesmo. No entanto, somente agora, compreendo que foi muito mais angustiante para quem decidiu permanecer, quem teve que enfrentar, dia após dia, todos os vazios da cidade. Curiosamente, os amigos que faleceram não partiram; talvez tenham cansado de ficar. 

***

Tenho um livro de contos inéditos na gaveta dedicado aos amigos que foram embora cedo demais. Infelizmente, amiúde, edito o arquivo para incluir um novo nome na dedicatória. Ainda não tive coragem de incluir o nome de Bóris nessa lápide.


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

TODOS OS MEUS MORTOS V

Três grandes amigos morreram em momentos diferentes e em circunstancias diferentes, havendo em comum apenas uma espécie de enfado, um cansaço por levar a vida e não o contrário como apregoa animadamente o cancioneiro popular. Frequentemente sonho com eles (se eu fosse religioso faria uma oração ou encontraria algum tipo de significado místico), talvez seja somente saudade ou o meu subconsciente fazendo questão de avisar que a morte nunca esteve tão perto de mim. Sei que depois de morto todo mundo é sua melhor versão. Nas rodas de conversas são exaltadas somente suas qualidades, seu altruísmo, a mão amiga que ajudou quando você mais precisava. São contadas as histórias mais divertidas, quase anedotas (lembra daquela vez que...?!).  Todos riem. Até alguém lamentar, próximo do murmúrio, que ele fará falta. E todos concordarem calados. Assim como Renato Russo em “Love In The Afternoon”, continuo me surpreendendo com pessoas boas que vão embora cedo demais, é inevitável. Evidentemente, não morrerei jovem,  há muito perdi o acesso ao clube dos 27. No meu funeral também não existirá  anedotas, causos curiosos ou exemplos de benevolência. No máximo alguém dirá que o defunto era um cara na dele, que nunca fez bem nem mal a ninguém. Poderia ser meu epitáfio.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

TODOS OS MEUS MORTOS IV


Provavelmente eu sabia que isso iria acontecer um dia, como pais que presenteiam o filho com um casal de hamsters apenas para familiariza-lo com o conceito de perda e poder falar sobre um paraíso celestial cheio de hamsters, peixinhos dourados, porquinhos da índia e a vovó. Nos últimos anos, mais do que mera rotina, a primeira coisa que eu fazia pela manhã, a primeira mesmo, era regar meu bonsai e coloca-lo na janela durante algumas horas. Podava, trocava a terra, colocava adubo, tinha todos os cuidados necessários. Mas em um dia, simplesmente, tanto cuidado não adiantava mais. E aos poucos ele começou a secar: feito o amor. Pensei em substitui-lo. Fui à floricultura, olhei as espécies e desisti. Não daria certo. Não seria igual, sequer semelhante. Agora ele tá abandonado na área de serviço: galhos ressequidos num vaso. Não tenho coragem de joga-lo fora. Deveria haver um cemitério para plantas, como existem cemitérios para animais.
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