terça-feira, 18 de agosto de 2026

TODOS OS MEUS MORTOS XII

 

O táxi para no sinal. Semáforo demorado. Da janela, leio pichado no muro da escola: “Um dia você e seus amigos de infância saíram para brincar pela última vez e nenhum de vocês percebeu”. Acho que a frase deveria emocionar ou provocar algum tipo de reflexão. Não em mim. Era um domingo, daqueles que o sol de Santo Amaro inspiraria uma nova canção de Venturini, e fomos bater o baba no campinho do Maricá. No dia seguinte, bem cedo, eu viajaria para Salvador onde iniciaria os estudos na antiga escola técnica. Ninguém ali suspeitava. Nem era um segredo, eu apenas tinha vergonha de falar. Nesse dia, corri como nunca corri, encarei todas as divididas, não tinha bola perdida, e falhei miseravelmente como de praxe. Mas tudo bem. Quando ameaçou anoitecer cada um foi se retirando. Eu fiquei ainda um pouco. Só voltaria a cada quinze dias (para passar o final de semana em casa estudando). Os especialistas costumam denominar esse momento como rito de passagem ou fim da inocência. No entanto, não havia nada de mágico nisso, apenas cálculos que eu não sabia como resolver.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comente apenas se leu a postagem.

Related Posts with Thumbnails