quarta-feira, 12 de agosto de 2026

TODOS OS MEUS MORTOS XI

 

Miqueias morreu afogado no tanque da velha destilaria enquanto brincávamos subindo nas árvores. Ninguém viu como, ninguém percebeu quando. Só encontramos o corpo boiando, os olhos e os abraços abertos, e algo que parecia ser um riso de alegria. Não havia nenhum traço de desespero de afogado em sua face. Minha vó fez questão de nos levar ao sepultamento, dizia que tínhamos de “enterrar o morto” ou ele persistiria vivo pra gente. Meus irmãos menores e eu colocamos nossa roupa de domingo e seguimos o cortejo fúnebre que saiu da casa de Miqueias até o cemitério da cidade – muitas crianças presentes, estranhamente caladas, talvez tivessem sido obrigadas a enterrar o morto também. Chegando lá minha vó me puxou pelo braço pra encarar o defunto, o semblante não era mais sereno, seus olhos estavam fechados e as narinas e ouvidos com algodão. Passados tantos anos, e contrariando as crenças da minha vó, continuo sonhando com Miqueias como se ele estivesse vivo e ainda fôssemos crianças brincando ao redor das ruínas da velha destilaria.

 

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