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quarta-feira, 12 de abril de 2023

O DELICADO SOM DO TROVÃO

O plec plec é infernal. Todo possível silêncio do escritório é substituído pelo baticum raivoso dos colegas em seus teclados, como se descarregassem toda frustração acumulada durante a vida no pobre acessório. Tento escapar desse martírio aumentando o volume dos fones, o aparelho celular imediatamente alerta para o risco: desconsidero. Ainda assim é difícil evitar, de Pink Floyd a Alice Chains toda canção parece estacionada no ratatatá de “Era um Garoto que Como eu Amava os Beatles e os Rolling Stones”. Resolvo levantar e arejar um pouco, eles nem percebem. Estão cada vez mais automatizados, mais máquinas do que a própria máquina. Quando retorno o ensaio do pracatum continua, procuro me policiar, analisar se não sou parte daquilo que tanto critico. Abro um documento aleatoriamente digitando com tranquilidade os comandos. Tudo certo, nenhum erro, embora pareça que está faltando algo. Repito a movimentação, dessa vez com um pouco mais de inquietação. Melhorou, mas ainda não foi o bastante. De repente, me sinto como nas antigas animações do Pateta – quase consigo interagir com o professoral narrador em off. Novamente, agora com mais velocidade e força. Ataco as teclas com fúria no intuito de me livrar definitivamente do barulho que tanto me desassossegava. Mantenho a intensidade. Em um raro momento de calmaria percebo que o plec plec no local é apenas meu, de mais ninguém. Sou o dono do silêncio que me roubaram.

 

quinta-feira, 19 de março de 2009

THE DARK SIDE OF DENDÊ

Tenho o hábito de começar a leitura dos jornais a partir dos segundos cadernos, mesmo que as notícias culturais não mereçam ultimamente tanto privilégio, assim como leio as revistas semanais sempre do final para o início, quase como um mangá. Uma nota chamou minha atenção recentemente, antes até de ler a tira do Dilbert: TRIBUTO AO PINK FLOYD EM SALVADOR. Não nego meu entusiasmo ainda no título, afinal o Pink Floyd, ao lado do Led Zeppelin e do Black Sabbath, formava a santíssima trindade da minha inquietude, seres acima do bem e do mal, que encerravam discussões. Porém, ao continuar a leitura meu entusiasmo se transformou em estupefação, que passou para incredulidade e culminou numa gargalhada de incomodar vizinhança quando descobri que o show seria com os vocalistas das bandas Eva, Asa de Águia, mais o repaginado Luiz Caldas. Não era primeiro de abril, homônimos nem brincadeira de programa de tv. Era show com hora e data marcadas, ingresso pago e divulgação. Ainda com o jornal nas mãos liguei para uma amiga e contei a novidade em tom de galhofa, apenas pra animar o domingo. Ela me repreendeu dizendo que eu estava sendo muito cruel, que eles poderiam ter o mesmo passado rocker que eu tive e que antes de conceber minha sentença definitiva deveria dar um pouco de crédito aos músicos baianos, o que me fez, glup, abaixar a cabeça e escantear o preconceito. Mas ao imaginar Durval Lelys, com a aba do boné virada para trás no melhor estilo Sérgio Mallandro, tentando cantar um clássico do calibre de “Wish You Were Here” com direito a “quero ver as mãozinhas galera” um riso sórdido inevitavelmente encontra um canto de boca.
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