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quinta-feira, 19 de novembro de 2009

TEM PAI QUE É CEGO

          O termo axé music foi cunhado pejorativamente pelo crítico musical Hagamenon Brito, em 1987, para designar a música para dançar produzida na Bahia naquela época e foi ingenuamente adotado pela mídia local. A palavra axé é derivada do yorúbá e quer dizer força; music é um mero cognato inglês que não agrega valores, apenas expõe nosso espírito de colonizado, talvez o afã de soar tão universal e palatável como a soul music ou a black music tenha sido mais forte que o axé. Um dos seus precursores, o cantor e compositor Luiz Caldas, num artigo publicado pela impressa soteropolitana, reivindica com unhas e dentes o título de criador de axé music (o ritmo) munido de documentos e datas, só faltando pedir um teste de DNA – assemelhando-se ao pai que desconhecia a paternidade e agora tenta recuperar o amor do filho em uma dessas novelas da tv. Quando fazemos algo errado primeiramente pensamos em negar, mesmo que não o façamos, é instintivo. Já Luiz Caldas sai por aí apregoando: Fui eu! Fui eu! (exibindo orgulhosamente a mão amarela).
           Depois que o filho tanto procriou, gerando uma famigerada indústria que engloba cantoras padronizadas, cantores anabolizados, coreografias constrangedoras e a privatização do carnaval, pouco importa quem colocou a criatura no mundo, isso é irrelevante.
            Não quero saber quem sujou, quero que limpem.

quinta-feira, 19 de março de 2009

THE DARK SIDE OF DENDÊ

Tenho o hábito de começar a leitura dos jornais a partir dos segundos cadernos, mesmo que as notícias culturais não mereçam ultimamente tanto privilégio, assim como leio as revistas semanais sempre do final para o início, quase como um mangá. Uma nota chamou minha atenção recentemente, antes até de ler a tira do Dilbert: TRIBUTO AO PINK FLOYD EM SALVADOR. Não nego meu entusiasmo ainda no título, afinal o Pink Floyd, ao lado do Led Zeppelin e do Black Sabbath, formava a santíssima trindade da minha inquietude, seres acima do bem e do mal, que encerravam discussões. Porém, ao continuar a leitura meu entusiasmo se transformou em estupefação, que passou para incredulidade e culminou numa gargalhada de incomodar vizinhança quando descobri que o show seria com os vocalistas das bandas Eva, Asa de Águia, mais o repaginado Luiz Caldas. Não era primeiro de abril, homônimos nem brincadeira de programa de tv. Era show com hora e data marcadas, ingresso pago e divulgação. Ainda com o jornal nas mãos liguei para uma amiga e contei a novidade em tom de galhofa, apenas pra animar o domingo. Ela me repreendeu dizendo que eu estava sendo muito cruel, que eles poderiam ter o mesmo passado rocker que eu tive e que antes de conceber minha sentença definitiva deveria dar um pouco de crédito aos músicos baianos, o que me fez, glup, abaixar a cabeça e escantear o preconceito. Mas ao imaginar Durval Lelys, com a aba do boné virada para trás no melhor estilo Sérgio Mallandro, tentando cantar um clássico do calibre de “Wish You Were Here” com direito a “quero ver as mãozinhas galera” um riso sórdido inevitavelmente encontra um canto de boca.
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