Não faz muito tempo que alguém me disse que a escritora (e dublê de apresentadora) Fernanda Young sairia na Playboy. Apesar da mensagem clara, sem figuras de linguagem esquizofrênicas ou complicações de sintaxe, acreditei que na revista ela seria simplesmente a entrevistada do mês. Como a informação para mim era totalmente desinteressante dei de ombros, afinal não leio seus livros nem assisto aos telefilmes e programas de tv que ela coescreve. Mas para a minha surpresa, ao me dirigir esta manhã para a banca de jornais, me deparei com a capa da publicação prometendo desnudar Fernanda Young num ensaio fotográfico eroticamente irreal (não tão irreal quanto a edição americana que traz em suas páginas Margie Simpson), repetindo o feito inimaginável da cantora Marina Lima em 1999. Fiquei surpreso pois não se trata de nenhuma celebridade instantânea ou o mais recente fetiche fabricado na novela, na verdade ela é exatamente o contrário de todos os estereótipos de mulheres frutas e afins. Fernanda Young tentou, desnecessariamente, se justificar alegando que se expõe muito mais em seus livros, mas isso eu não sei, como disse não sou leitor dos seus livros, tudo que sei é que por trafegar na contramão do culto ao efêmero e provocar discussão sobre o que é o belo ela já tem muitos méritos. Gostaria apenas de ter um pouco de sua coragem e fazer algo semelhante, mas não possuo a capacidade de um Vampeta.segunda-feira, 23 de novembro de 2009
IMITANDO FERNANDA YOUNG
Não faz muito tempo que alguém me disse que a escritora (e dublê de apresentadora) Fernanda Young sairia na Playboy. Apesar da mensagem clara, sem figuras de linguagem esquizofrênicas ou complicações de sintaxe, acreditei que na revista ela seria simplesmente a entrevistada do mês. Como a informação para mim era totalmente desinteressante dei de ombros, afinal não leio seus livros nem assisto aos telefilmes e programas de tv que ela coescreve. Mas para a minha surpresa, ao me dirigir esta manhã para a banca de jornais, me deparei com a capa da publicação prometendo desnudar Fernanda Young num ensaio fotográfico eroticamente irreal (não tão irreal quanto a edição americana que traz em suas páginas Margie Simpson), repetindo o feito inimaginável da cantora Marina Lima em 1999. Fiquei surpreso pois não se trata de nenhuma celebridade instantânea ou o mais recente fetiche fabricado na novela, na verdade ela é exatamente o contrário de todos os estereótipos de mulheres frutas e afins. Fernanda Young tentou, desnecessariamente, se justificar alegando que se expõe muito mais em seus livros, mas isso eu não sei, como disse não sou leitor dos seus livros, tudo que sei é que por trafegar na contramão do culto ao efêmero e provocar discussão sobre o que é o belo ela já tem muitos méritos. Gostaria apenas de ter um pouco de sua coragem e fazer algo semelhante, mas não possuo a capacidade de um Vampeta.quinta-feira, 19 de novembro de 2009
TEM PAI QUE É CEGO
Depois que o filho tanto procriou, gerando uma famigerada indústria que engloba cantoras padronizadas, cantores anabolizados, coreografias constrangedoras e a privatização do carnaval, pouco importa quem colocou a criatura no mundo, isso é irrelevante.
Não quero saber quem sujou, quero que limpem.
terça-feira, 17 de novembro de 2009
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
O DELICADO CHARME DA VERDADE
Sou viciado em verdade. Para mim a mentira é uma ofensa e a omissão, covardia.Sem perceber falo o que me vem à mente, falta-me freio, bom senso até. Não tenho receio de ofender, de magoar, de ouvir o que não quero (desde que não sejam mentiras). Não sou diplomático, não tenho traquejo social. Às vezes ajo como uma criança e falo o que vejo, o que sinto; não consigo ser diferente. Assim não faço amizades, as cultivo. Não trago na manga frases feitas nem respondo ao “tudo bem?” com um “tudo bem”. Meu maior refúgio é o silêncio, é onde me sinto seguro (queiram-me calado, certamente todos sairão ganhando).
Quando eu sei que não devo falar, que é a deixa para mentir, me complico, troco os pés pelas mãos. Dizem que não só mentimos várias vezes todos os dias como também aceitamos naturalmente a mentira alheia, é a chamada “mentira branca”, “mentira social”. Mente-se para evitar conflitos, por estratégia, obrigação, preguiça, medo, cobiça, conquista, quando consideram a verdade desnecessária. Mas para mim a verdade é sempre necessária, quero a verdade negra, a honestidade incolor, embora nem todos entendam isso. Se alguém me diz que posso confiar e falar o que penso sei que é somente uma armadilha, ninguém quer ouvir a verdade, quer ouvir uma mentira (mesmo sabendo que é uma mentira). Não se exige franqueza, apenas conveniências.
A mentira não é uma arte, como o talentoso Ripley faz entender - mentir não tem charme.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
MORANGOS SILVESTRES
Herculano Neto
quando mainha chamou:
- vem pra dentro que invernou!
era de tarde e eu ainda não
sabia o que era a melancolia
quando mainha chamou
o quintal era grande
chôle e os vizinhos ainda estavam vivos
eu era outro menino
quando mainha
*“Morangos Silvestres” é o título de um filme de 1957, do cineasta sueco Ingmar Bergman. No filme o velho professor Isak Borg revê a juventude a partir de sonhos e recordações. Com perspectiva semelhante, embora nem tão distanciada, cunhei os versos acima buscando a inocência da infância que em algum momento temos que abandonar. O poema foi publicado primeiramente no fanzine O ATAQUE, em dezembro de 2006, e na REVISTA CULT, em janeiro de 2007, antes de integrar, com leves modificações, o livro “Cinema” em 2008.
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
terça-feira, 3 de novembro de 2009
COMO FARIA PEREIO
Ontem alguém me disse, em circunstâncias constrangedoras, que eu não valia nada. Não foi o xeque-mate, faltou ênfase, mas me calei -, também não me ofendi, pelo titubear da pronúncia sabíamos que não era verdade (devo valer pouco como o refugo de feira ou o jornal de ontem). A expressão “você não vale nada” é uma tendência, está na dublagem dos filmes, dos desenhos animados, em toques de celulares, em trilhas de novelas. Faz as vezes da palavra “canalha”, que já teve lugar cativo nas artes cênicas. O silabar de canalha na voz de uma musa da pornochanchada ou de uma diva hoolywoodiana ganhava contornos dramáticos, resumia tramas, despedaçava relacionamentos, fomentava paixões. Se espalhava na ferocidade do grito lancinante de Walter Franco no campo de batalha.Canalha é uma palavra musical, sôfrega, excitante até. Fabrício Carpinejar, numa crônica famosa, diz que ser chamado de canalha por uma mulher é o domingo da língua portuguesa, é um elogio, uma agressão afetuosa. Talvez haja quem não simpatize com ofensas de nenhuma maneira, esses, certamente, não se deixaram aquecer na febre da inquietação e apanharam o primeiro paracetalmol que encontraram na gaveta, arrefecendo o devaneio, o desejo. Queria ser chamado de canalha ao menos uma vez, seria um prêmio, a certeza de que alcancei o pódio no coração de uma mulher. Queria ser chamado de canalha, soaria mais impactante, violento, vivo. Mas não se fazem mais calúnias como antigamente, canalha é uma ofensa em desuso, démodé.
Ontem, quando disseram que eu não valia nada, dei um riso cínico, irritante, como faria Paulo César Pereio.
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
VOO ABORTADO
Nasci em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano, onde a prática da capoeira é muito forte e comum. Lá todo mundo conhece ou tem uma história para contar sobre as façanhas do lendário capoeirista Besouro Mangangá. Durante a infância a figura de Besouro povoava meu imaginário das mais diversas formas: suas habilidades e feitos no começo do século passado, a se esquivar de balas no melhor estilo pré-Matrix, saltos e golpes mirabolantes a lutar contra os resquícios escravocratas, desbancando homens armados. Um heroi alcançável, símbolo de coragem e valentia, que ia além dos uniformizados dos quadrinhos e tv. Com tantas imagens cultivadas na memória acessei, como milhares de pessoas fizeram, ao trailer do filme no YouTube (mais de uma vez), afinal o mito local havia ultrapassado os limites do folclore e chegado à tela do cinema com uma arte marcial popular e pouco explorada e lutas coreografadas pelo chinês Huen Chiu Ku (de “Kill Bill” e “O Tigre e o Dragão”). Assim resolvi encarar a sessão de estreia do filme, curiosamente havia um público jovem, historicamente preconceituoso e reticente ao cinema brasileiro, porém tive as expectativas frustradas ao me deparar com uma obra cinematográfica inconsistente, com pretensões visuais exageradas e diálogos didáticos que remetem às manhãs do Telecurso. Sofro de “vergonha alheia”, um mal que ainda carece de medicamentos, e acompanhar o roteiro desestruturado se apoiar num misticismo gratuito e na desgastada fórmula do triângulo amoroso, e de quebra o amadorismo do elenco e uma montagem confusa, só fez me afundar mais na poltrona. Poderia valer pela valorização do negro como protagonista de uma grande produção, mas não é suficiente para suprir as claras deficiências de um produto inacabado. “Besouro” é um dos filmes mais caros já produzidos pelo cinema nacional, boa parte dos recursos oriundos de leis de incentivo, que nem de longe se espelha no Besouro cantado nas rodas de capoeira ou o das histórias narradas pelas pessoas mais velhas de Santo Amaro, esse sim, um Besouro sem preço e emblemático, que na minha imaginação realmente avoa.terça-feira, 27 de outubro de 2009
NA BOLHA
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
VERSOS EXCLUÍDOS
tenho vocação para o abismo
para o abraço
tenho fixação por detalhes
por olhares
por silêncios
sou irremediavelmente insatisfeito
displicentemente franco
o melhor amigo dos meus amigos
o melhor amante das minhas tristes
obsessivo
tenho vocação para infelizes
terça-feira, 20 de outubro de 2009
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
FRASCOS COMPRIMIDOS COMPRESSAS
Escute algumas faixas no Myspace da banda:
http://www.myspace.com/roneijorgeeosladroes
terça-feira, 13 de outubro de 2009
BASTARDOS INGLÓRIOS
Bastardos Inglórios é Quentin Tarantino de volta à grande forma num dos melhores filmes do ano (tentei não escrever no calor da hora para evitar lugares comuns como esse). Seguindo à risca a cartilha de “como produzir um cult movie”, ele nos presenteia mais uma vez com diálogos memoráveis e personagens carismáticos, como o coronel nazista Hans Landa, “o caçador de judeus”, interpretado magnificamente (também queria evitar hipérboles e superlativos) pelo ator austríaco Christoph Waltz, que deu vida a um dos maiores antagonistas de toda história do cinema (não é exagero). Tarantino divide sua obra em capítulos (até aí nenhuma novidade) para apresentar durante a 2ª Grande Guerra as trajetórias do tenente Aldo “Apache” Raine, vivido por Brad Pitt, líder dos Bastardos, um batalhão especializado em escalpelar nazistas na França ocupada por Hitler, e Shosanna, a judia que escapa de um massacre em família e se torna (sem muitas explicações plausíveis, talvez na especulada continuação) proprietária de um cinema em Paris. Com essas duas premissas o enredo caminha paralelamente até a aguardada intersecção, que culmina numa sanguinolenta sequência - que já foi o sonho politicamente incorreto de qualquer pessoa que preze a dignidade humana (não, não contei o final).sábado, 10 de outubro de 2009
PATTY DIPHUSA
Costumo ler no ônibus, enquanto vou ao trabalho. Diferentemente dos meus colegas de viagem, que já embarcam temerosos, leio tranquilamente – sem me importar com o imprevisível. Durante duas dessas ocasiões comecei e terminei a leitura de “PATTY DIPHUSA”, do cineasta Pedro Almodóvar. Uma série de contos publicados originalmente na revista espanhola “La Luna” a partir de 1982 e copilados em livro em 1991 (ano em que filmou “De Salto Alto”). Impossível não imaginar aquelas histórias (e acredite que tentei) em película, provavelmente a trajetória da estrela pornográfica internacional Patty Diphusa por Madri não tivesse espaço no cinema de hoje (nem uma atriz como Victoria Abril como protagonista), talvez soasse demais como um Almodóvar de antigamente, o que já seria bem melhor do que suas últimas produções.terça-feira, 6 de outubro de 2009
NOTAS DE UM POEMA
“lembranças de donzelas
do tempo do Imperador”
Herculano Neto
da janela do meu apartamento
vejo outras janelas de apartamento
janelas fechadas
cortinas
um muro
aviões
da janela do meu apartamento
eu não vejo a Bahia.
Poema do Beco
Manuel Bandeira
Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
- O que eu vejo é o beco.
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
PRA NÃO DIZER QUE NÃO FAÇO DO MEU BLOG PÁGINA DE DIÁRIO
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
QUERIDA WENDY (DEAR WENDY)
Querida Wendy, Dinamarca 2005, tem direção de Thomas Vinterberg e roteiro de Lars von Trier (que abandonou a direção de Dear Wendy para se dedicar a Manderlay). No filme o jovem Dick compra por acaso um pequeno revólver e juntamente com outros “excluídos” funda um contraditório clube baseado no pacifismo e na posse de armas. Esteticamente lembra um pouco “Dogville”, principalmente a cidade Estherslope e seus peculiares habitantes, embora seja bem menos pretensioso e descontraído. Atenção especial para a excepcional trilha sonora, com clássicos do grupo inglês The Zombies. quarta-feira, 30 de setembro de 2009
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
GESTOS
GESTOS*
(Roberto Mendes/ Herculano Neto)
E deixe a valsa, e deixe o samba,
E deixe aquela canção antiga que não me cansa,
Ouvindo-a posso sentir comigo seus vestígios,
Os seus domínios, os seus encantos.
E deixe o barco, e deixe a ilha,
E deixe uma lembrança bonita que não ansia,
Lembrando-a posso preencher com gestos meus vícios,
Os meus princípios, meus acalantos.
Não deixe a mágoa,
Não deixe a ira,
Não deixe a volta,
Não deixe a ida
Que eu deixo a vida seguir seu destino.
E deixe o sonho,
E deixe o instante,
Deixe o encontro,
Deixe o constante,
Que eu deixo a vida moldar o meu destino.
*Faixa extraída do DVD
“Tempos Quase Modernos”
Gravado ao vivo no Teatro XVIII
Salvador, 2006
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
CINEMA
Herculano Neto
quanto custa uma saudade
o peso agudo no peito
de carregar uma cidade”.
P. Leminsky
onde não havia mais cinemas
as cenas aconteciam nas ruas
nas gentes
projetadas a esmo
personagens felinianos
se sucediam
nas seqüências
da minha infância
cresci numa cidade
onde não havia muita coisa
apenas história pra contar
terça-feira, 15 de setembro de 2009
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
DIRETAMENTE DA MESA DO BAR
"A Festa da Menina Morta", de Matheus Nachtergaele
"Besouro", de João Daniel Tikhomiroff
"Budapeste", de Walter Carvalho
"Feliz Natal", do ator Selton Mello
"Jean Charles", de Henrique Goldman
"O Contador de Histórias", de Luiz Villaça
"O Menino da Porteira", de Jeremias Moreira
"Salve Geral", de Sérgio Rezende
"Se Nada Mais der Certo", de Eduardo Belmonte
"Síndrome de Pinocchio - Refluxo", de Thiago Moyses.
***
A inclusão da capital pernambucana na turnê de Paul McCartney, em abril de 2010, entrou sem cerimônias no Top Five de POR QUE NÃO MORAR EM SALVADOR, ocupando o 5º lugar, posição que pertencia aos ensaios de verão.
***
Meus herois morreram de overdose; os de Pedro Bial são pseudocelebridades; os dos narradores esportivos são os que alcançarem o alto do pódio no final de semana; os do McDonalds nem precisam usar capa, basta ajudar a vender aquilo que eles chamam de comida; outros tantos estampam camisas. Uma família subsistir com menos de cem reais por mês é pôster no quarto de quem?
***
Não consigo entender quem organiza a própria festa de aniversário, deve ser algum tipo de carência ou medo de ser esquecido, se a festa for temática pior ainda. Consigo tolerar crianças fantasiadas soprando velinhas, mas não adultos (vergonha alheia é algo que não me abandona). Odeio “parabéns pra você” e outras cantigas supostamente engraçadinhas, todo aquele ritual me enoja. E desprezo quem esconde a própria idade atrás de subterfúgios e eufemismos infantis, como dizer que completou 4.7 feito um aparelho eletrônico de última geração. Desconheçam minha data de nascimento e se não for possível ignorem – é o melhor presente que posso receber. E não me convidem para festas de aniversário.
***
O filho de Érico Veríssimo atacou de professor de gramática em sua coluna nos jornais de domingo ao afirmar que o pré-sal deveria se chamar pós-sal, porque a perfuração ocorrerá de cima para baixo, havendo ali um evidente erro de semântica. Só que o mesmo artigo denomina-se, em letras garrafais, PEQUENOS DETALHES. Até onde eu saiba todo detalhe é pequeno, logo o título é bem mais do que um pleonasmo – é mera redundância.
***
Documentários musicais são a bola da vez do cinema brasileiro. Figuras como Caetano Veloso, Wilson Simonal, Titãs, Batatinha, Herbert Vianna, Cartola, Arnaldo Batista (e até Waldick Soriano) já encontraram seu lugar na tela grande. Espero somente não me deparar com nenhum cartaz de “Em Breve” com a imagem do Dj Marlboro ou de alguma cantora de música para dançar fabricada na Bahia.
***
Sem nunca ter escrito um livro o ex-presidente (clichê necessário) Fernando Collor de Melo foi eleito para a Academia Alagoana de Letras. Se tivesse escrito algum o Prêmio Nobel seria pouco.
***
Ultimamente o substantivo inexpressivo “coisa” tem desnecessariamente me incomodado. Na suposta ausência de palavras ou por simples preguiça emprega-se “coisa” em quase tudo: “foi a melhor coisa que li este ano”; “que coisa linda”; “a única coisa que prestou naquele show”... Não respondo quando desconhecidos me abordam na rua chamando-me de “coisinho” e não gostaria jamais de escutar de quem amo algo como “você foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida”. Êta papo qualquer coisa.
Traz a conta.
sábado, 5 de setembro de 2009
BEIRUT EM SALVADOR II
- Eu não posso cantar mais, boa noite.
E ainda tive que suportar o descontentamento do taxista, que detesta fazer corridas curtas.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
O SILÊNCIO
– Já vi o clipe.
A MTV, assim como o Google, terminará nos fodendo – pensei.
– Qual som você curte? – ele perguntou numa inversão abrupta de papéis. Respondi que não gosto de muitas coisas. Não gosto de vídeo-clipe, principalmente vídeo-clipe com atores de novelas, por melhor que seja a canção aquelas imagens me ensurdecem. Não gosto de versões; releituras; show tributo; acústico; ao vivo; coletâneas; playback em programa de auditório; nova formação; parada de sucessos; flashback; o fenômeno do momento... Gosto apenas do silêncio. E silenciamos.
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
PARA NINAR O MEU AMOR*
Herculano Neto
ando farto do quase
do meio-termo
das boas maneiras
do mais ou menos
e do pode ser dito de
canto de boca
(do talvez não quero saber)
ando farto de lugares-comuns
e olhares esquivos
das cartas marcadas
e do disse-me-disse
das galerias
ando farto de
finais felizes
*(do livro “CINEMA”, Prêmio Brakem Cultura e Arte 2007)
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
SE VOCÊ VIER ME PERGUNTAR POR ONDE ANDEI
terça-feira, 25 de agosto de 2009
NOVES FORA
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
NA PISTA*
Voltei pro meu ponto toda banderosa, meio de semana o centro parece um cemitério. A fama de baixo astral da Avenida já correu a cidade e a concorrência cada vez mais louca entre as bonecas provoca, quase toda noite, desavença e confronto por causa de clientes. Homem no pedaço pra constar uma ponta legal virou produto raro e disputadíssimo, tem noite que não rola nada, quem pára nas esquinas é pra procurar pó. Antigamente eu sentava a mão nas piranhas que desciam a Avenida atravessando nosso lado. Hoje eu não me estresso mais, deixo acontecer.
Dei um rolé pela rua pra vê se achava alguma coisinha pra compensar o que gastei no bar, mas as bonecas, delicadas como sempre, me xingavam de tudo quanto é nome, teve uma perua que deu a voz:
- Não vai parar aqui não, ô barangona, senão te quebro toda!
- Eu quero é prova! – falei mostrando o dedo que nem um caralho e continuei sem me importar, não seria qualquer vadia que iria cortar minha lombra.
Na Praça me bati com uma presa de vacilo sozinho no ponto do buzu com uma pasta embaixo do braço. Não contei conversa, cheguei mais e intimei o cara perguntando logo se ele tava afim de se envolver e ofereci um programinha rápido: uma chupetinha; uma punheta... Ele disse que não curtia traveco, mas me olhou de cima abaixo conferindo se ao redor não tinha crocodilagem. Quase meia-noite, o ocó aproveitou e apalpou meus silico sobre o top e deu um tapinha malicioso na minha coxa:
- Pernão, heim?!
- Já é!
Caminhei alguns passos e num gesto de cabelos, feito comercial de xampu, pedi que me seguisse. Acho que ele não pensou duas vezes. Fomos para um módulo policial abandonado e o empurrei pra parede segurando seu pau duro pulsando. Paguei logo um boquete alisando suas bolas, mal comecei e já tava com a boca cheia de porra – bofe que goza depressa é uó. No instante que ele levantava a calça apanhei na calcinha um canivete e cortei o rosto do infeliz com um único e certeiro golpe. Falando sem a voz de montada apontei a lâmina para a sua garganta:
- Fica na sua mané, só vou fazer a limpa.
Assustado, o otário chorava e implorava, enquanto um fio de sangue descia na maresia por seu pescoço:
- Deixa eu ir embora, na moral!
- Ainda não é hora de dizer tchau. Daqui a pouco a gente se despede e você adianta o seu lado – ele não tinha celular nem relógio, na carteira só tinha umas canela seca e na pasta um monte de papel e lápis. Cortei novamente o rosto dele e perguntei virado na porra:
- Tá me tirando, é? Como é que você ia me pagar?
(Silêncio)
- Responda filho da puta, ia me pagar como?
(Silêncio)
Coloquei meu pau pra fora e mandei ele se esforçar.
*(Conto de Herculano Neto publicado na antologia SOB PRESCRIÇÃO, Laetitia Editore, 2006)
sábado, 15 de agosto de 2009
XUXA E A NATUREZA SELVAGEM
terça-feira, 11 de agosto de 2009
NÃO TENHO TWITTER!
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
A NOITE
Herculano Neto
passo noites inteiras
admirando os quadros
pintura abstrata
auto-retrato
passo noites inteiras vagando
de um lado ao outro da casa
olhando as paredes desbotadas
contando as gotas na vidraça
passo as noites
procurando pelos cantos
um resto de alguém
que a vassoura não levou
*(do livro “CINEMA”, Prêmio Brakem Cultura e Arte 2007)
terça-feira, 4 de agosto de 2009
TRANCELIM DOS INCRÉDULOS
Tive a honra e a felicidade de debutar em livro ao lado de Miguel Carneiro, em 2004 na antologia OS OUTROS POEMAS DE QUE FALEI. Juntamente com o escritor conheci a pessoa e desde então minha admiração por ambos se mantém crescente. Homem de valores raros, tento, sem muito sucesso, absorver um pouco de sua serenidade. Uma queixa recorrente que Miguel amiúde faz é que pouco nos encontramos, mesmo habitando a mesma cidade média - talvez em decorrência de minha personalidade arredia, não sei. Numa dessas oportunidades ele me presenteou com seu livro TRANCELIM DOS INCRÉDULOS (Ed. Virtual Books), um conjunto de “apenas” três contos (Trancelim dos Incrédulos, Galo de Ouro e Naquele Dia eu vi o Diabo de Perto). Se posso reclamar de algo é que a publicação é demasiadamente curta, tende-se a querer ler tudo num só fôlego e o desejo de mais não se evapora com facilidade ao transpor suas 56 páginas. Com sua prosa rica Miguel nos conquista com suas expressões populares e personagens carismáticos que são ótimos contadores de história, valorizando sempre a oralidade do nosso povo. Fica a vontade de ver um dia, dignamente reunidas, a poesia, ficção e dramaturgia de Miguel Carneiro num merecido tomo de obras completas. sexta-feira, 31 de julho de 2009
terça-feira, 28 de julho de 2009
ERASMO CARLOS: 50 ANOS DE MÚSICA
sábado, 25 de julho de 2009
segunda-feira, 20 de julho de 2009
SÓ
Herculano Neto
A noite é longa e estou em casa
com meus discos
reprises suportáveis
livros emprestados
sonhos inacabados
e refrigerante sem gás na geladeira.
(Prêmio Banco Capital de Literatura, 2004)
sexta-feira, 17 de julho de 2009
“FOTOGRAFEI VOCÊ NA MINHA ROLLEYFLEX”
Essa típica pergunta de programa de auditório tem como resposta Newton Mendonça. Pianista e compositor carioca, conheceu Tom Jobim ainda na juventude, na histórica Rua Nascimento Silva, no Rio de Janeiro, juntos tocavam em boates noturnas na década de 50 e fizeram poucas, mas memoráveis canções (como “Discussão”, “Samba de uma nota só”, “Incerteza” e “Meditação”). “Foi a Noite”, gravada por Silvinha Telles em 1956, é considerada por alguns especialistas como o marco inicial da bossa nova – logo o tão alardeado 50 Anos de Bossa Nova deveria ter acontecido dois anos antes ou ter se chamado 52 Anos de Bossa. Newton Mendonça foi um dos mais importantes compositores surgidos no Brasil, porém sua personalidade arredia, o descaso e as omissões fizeram com que ele se tornasse desconhecido, além da disseminação do mito de que ele era “somente” letrista. Com Tom Jobim música e letra eram feitas juntamente, revezando-se os dois entre o piano e o caderno. Segundo Marcelo Câmara, autor da biografia sobre Newton Mendonça, “Tom só é vanguarda com Newton. Sem ele é apenas samba canção”. Se com o primeiro parceiro Tom compôs “Só saudade, foi o pouco que ficou”, com Vinicius de Moraes decretava: “Chega de Saudade” – era um novo momento. Newton Mendonça gravou o disco EM CADA AMOR UMA CANÇÃO e considerava-se incompreendido pelo público e parceiros. Morreu aos 33 anos, em 1960, vítima de ataque cardíaco enquanto se apresentava numa boate no beco do Joga a Chave. Tom Jobim pouco falava sobre o parceiro obscuro, se redimiu apenas em 1993, numa entrevista para o programa Roda Viva, da TV Cultura. Apaixonado por fotografia, Newton Mendonça brigou para incluir na letra de “Desafinado” o bem humorado e profético verso: “Fotografei você na minha Rolleyflex, revelou-se a sua enorme ingratidão”.
terça-feira, 14 de julho de 2009
EU QUERO SER O SULTÃO NO LUGAR DO SULTÃO
sexta-feira, 10 de julho de 2009
GUY RITCHIE
JOGOS, TRAPAÇAS E DOIS CANOS FUMEGANTES (1998)
SNATCH – PORCOS E DIAMANTES (2000)
REVOLVER (2005)
ROCKNROLLA – A GRANDE ROUBADA (2008)
segunda-feira, 6 de julho de 2009
A CASA DA ÁRVORE
Herculano Neto
O mundo era mais simples
na casa da árvore
Não havia antenas
telefone
campainha
portas
Pessoas que dizem adeus
mas não vão embora
O mundo era menos triste
na casa da árvore.




