terça-feira, 21 de maio de 2013

RAY MANZARECK (1939 - 2013)

Raymond Daniel Manczarek Jr. (12 de fevereiro de 1939 - 20 de maio de 2013) - conhecido pelo nome artístico de Ray Manzareck - atuou como escritor e diretor de filmes. Mas foi como músico que o tecladista norte-americano sai de cena na Alemanha, aos 74 anos, para ficar eternamente em lugar de honra na história da música pop. É que Ray Manzarek foi um dos fundadores do grupo norte-americano The Doors, criado em 1965 com Manzarek nos teclados, Jim Morrison (1943 - 1971) nos vocais, John Densmore na bateria e Robby Krieger na guitarra. Com o The Doors, o tecladista ficou de 1965 a 1973, ano da extinção do grupo que tinha sido celebrizado na segunda metade dos anos 60 por sua mistura psicodélica de rock e blues e pela figura sensual e carismática de Morrison. Som marcado pelos teclados de Manzarek, morto nesta segunda-feira - 20 de maio de 2013 - vítima de complicações decorrentes de um câncer.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

PODERIAM SER CRÔNICAS

(*) Quando achei de listar as piores canções de Raul Seixas, seus fa(náticos) entraram em polvorosa, chegando a ameaçar minha integridade física. Eu, tão tísico e inofensivo, quase não saí de casa de tanto medo de me deparar com algum maluco beleza mirando em minha lata seu estilingue. Agora, após relacionar os versos nada geniais de Renato Russo, seus discípulos pediram carinhosamente que eu analisasse a possibilidade de cometer suicídio, fiquei tão tocado que por pouco não me atirei da janela do quinto andar, vá entender. Bom, de qualquer forma é melhor não correr tantos riscos e pensar duas ou três vezes antes de apontar os trabalhos menos interessantes de artistas como Mano Brown ou Chorão, talvez sua horda de asseclas queira me submeter a alguma sessão de tortura pior do que escutar repetidamente suas canções.

(*) Nunca gostei de me resignar, me conformar, sempre gostei de fazer acontecer, de mover as peças do tabuleiro independentemente dos valores nos dados. Esperar não é algo que se pareça muito comigo, prefiro tentar, me arrepender, quebrar a cara. Costumo escutar as pessoas lamentarem, entre suspiros, adágios do tipo “o pouco com Deus é muito”, pode ser, sou um ateu que não duvida, mas o muito sem Deus continua sendo muito, não o contrário.

(*) Carpinejar escreveu no “Zero Hora” que quando ficou solteiro outra vez se decepcionou com o mundo, se sentiu amaldiçoado, raivoso com a falta de sorte, logo ele, que defendia a vida a dois, que alardeava como seu aforismo maior que liberdade na vida é ter alguém para se prender. Reclamava, ainda, que as suas roupas sujas não enchiam mais uma máquina de lavar, que a comida estragava na geladeira, que toda noite era fim melancólico de domingo. Esse sou eu.

(*) O sitar de George Harrison em "Norwegian Wood" e o meu mundo já não é mais o mesmo.


terça-feira, 14 de maio de 2013

SÍLVIO SANTOS VEM AÍ!

 Foi uma fulana da Vila Madalena que organizou a caravana. Tentei participar durante alguns meses, mas nunca tinha vaga. O único jeito de conseguir foi comprando.
    
Embarcamos bem cedo, alguns rapazes queriam ir, porém a organizadora foi enfática: apenas co-le-gas de trabalho. Chegamos aos estúdios cerca de quatro horas antes das gravações. A produção selecionou as mais jovens para a maquiagem e as posicionaram na frente do auditório, as mais velhas ficavam afastadas. Fiquei na frente. Proibiram bolsas, câmeras e celulares, explicaram procedimentos técnicos e recomendaram que evitássemos qualquer comportamento exagerado. Fizeram uma revista rápida, sem muito apuro. Nem me tocaram.
   
Música. O diretor pediu palmas pelo alto-falante e avisou: gravando em dez segundos. Nove, oito... busquei a arma entre minhas pernas. Sete, seis, cinco... estavam todas ansiosas, sequer perceberam quando coloquei o cartucho. Quatro, três, dois... No ar.

terça-feira, 7 de maio de 2013

OS PIORES VERSOS DE RENATO RUSSO

Renato Russo, líder e principal compositor da cultuada Legião Urbana, tem seu nome comumente associado ao epíteto poeta (rótulo tão banalizado e desgastado que até Chorão, do Charlie Brown Jr., foi agraciado com ele). Letrista, realmente, de qualidade bem acima dos seus pares – inclusive Cazuza, outro equivocado “poeta” -, Renato Russo tem suas letras reproduzidas como hinos por seguidas gerações de jovens, e de não tão jovens assim, angustiados com o mal do século, além de ocupar o espaço destinado a autênticos poetas em exemplos utilizados nos livros didáticos. E como se já não fosse suficiente a literatura, o Trovador Solitário invadiu também os cinemas. Primeiramente com o raso documentário “Rock Brasília”, agora com os rebeldes sem causa da imberbe capital federal em “Somos Tão Jovens”, uma caricatura com algum rock e sem sex and drugs, pra não assustar a família-brasileira-tela-quente. E ainda vem aí “Faroeste Caboclo”. Tenho medo de imaginar qual será o próximo, “Eduardo e Mônica?”, “Dezesseis?”, “Pais e Filhos?”, “Ainda Somos Tão Jovens?”. Enquanto isso, me atrevo a listar seus versos menos interessantes (pra ficar no eufemismo):

BENZINA
Poderia ter poupado Renato Russo desse retrato do artista quando jovem, mas a partir do momento em que os Irmão$ Lemo$ e Dinho (e aí, moçadaaaa) Ouro-Preto chafurdaram o espólio do Aborto Elétrico para um projeto insosso, não tive como deixar essa pérola de fora. O engraçado é que quase trinta anos depois de ter sido escrita, constato que o rock feito no Brasil encaretou, já que no disco do Capital Inicial a música foi gravada sem a letra, com receio de ser considerada apologia às drogas, mas o mundo não perdeu grande coisa:

“Fui até à farmácia
Eu e minha prima
Levei os 20 mangos
Pra comprar benzina”


DEPOIS DO COMEÇO
Dos fóruns online à mesa de bar, “Depois do Começo” é praticamente hors concours quando o assunto é música da Legião Urbana que você não gosta, seja porque ta mais pros Paralamas ou por causa do “Deus, somos todos ateus”. No encarte do disco “Que País é Este”, somos advertidos que a letra contém diversas mensagens codificadas e quem tentar decifrá-la encontrará mais coisas sobre si do que sobre a música. Bobagem. Raramente executada ao vivo, recentemente foi resgatada por Dado Villa-Lobos nos seus shows, numa espécie de lado B da sua antiga banda, como se a Legião Urbana tivesse algum lado B. Os fãs mais ardorosos comparam a letra a uma viagem lisérgica, meio “Lucy in the Sky with Diamonds”, outra bobagem. Na verdade, os versos são de um nonsense constrangedor: “cair como um saxofone na calçada”, “usar um extintor como lençol”, “jogar polo-aquático na cama”, não faltam opções para pior verso, mas me incomoda mesmo é o refrão que diz que depois do começo o que vier vai começar... Sic, sic, sic.

QUÍMICA

Em um cena retratada no filme “Somos Tão Jovens”, o baterista Fê Lemo$ ousa questionar a qualidade do trabalho do até então genial Manfredini Jr., o que bastou para o vocalista rodar a baiana e abandonar o barco de vez. Ironicamente, foi essa canção que levou a Legião Urbana ao Rio de Janeiro, após ter sido gravada no disco de estreia dos Paralamas do Sucesso. Propositadamente pueril, boba até, mas comparar a pressão da sociedade para o jovem se tornar um profissional bem sucedido com um campo de concentração da Alemanha nazista (o “Belsen tropical”) é forçar a barra.

SUBMISSA
O que o dinheiro não faz, “Química” não servia, mas essa “Submissa” serve, e nessa nem da pra reconhecer o cara que escreveu "Ainda é Cedo" no texto. Outra que os Irmão$ Lemo$ foram escarafunchar.

“Conheci uma garota submissa
Tudo o que eu mandava ela fazia
Tudo o que eu queria ela fazia
Tudo o que eu sonhava ela fazia”.


MAIS DO MESMO

Nunca, nunca mesmo, simpatizei com os versos iniciais de “Mais do Mesmo” (“Hey, menino branco/ o que você faz aqui?”), a sonoridade das palavras na canção, a ideia simplista sobre quem vende e quem consome drogas (algo que também me incomodou no primeiro “Tropa de Elite”), nada me agrada. E depois que você descobre que esses versos horríveis foram supostamente chupados de "I'm Waiting for the Man", do Velvet Underground, (“Hey, white boy, what you doin' uptown?”), a coisa piora ainda mais. Há quem diga que os doentes na enfermaria cantando sucessos populares é mais bizarro.

OS ANJOS   
Se a postagem fosse sobre a pior música da Legião Urbana, não pensaria duas vezes, mas a letra também não fica pra trás, a impressão é que Renato pegou as sobras de “Perfeição”, requentou e fez esse prato. “Um tablete e meio de preguiça” ou “duas xícaras de indiferença?”. O gosto é do freguês.

MARCIANOS INVADEM A TERRA
“Cuidado com a coisa coisando por aí/
a coisa coisa sempre e também coisa por aqui”. 
Dispensa maiores comentários.

MAIS UMA VEZ
Tá bom, Renato Russo era fã declarado dos mineiros e pretendia gravar um disco só com canções do Clube da Esquina, certo. Mas isso não faz essa letra ser o que ela não é. Recomendo anotar cada verso em um pedacinho de papel, embrulhar, jogar para cima e sortear o pior verso. Autoajuda em letra de música é dose.

OUTRAS ESTAÇÕES
Ao comentar que eu pretendia realizar uma postagem com os versos pouco inspirados de Mr. Russo, amigos legionários, curiosamente, fizeram várias sugestões, demostrando que são menos radicais do que aparentam, ao contrário dos fãs de Raul Seixas, que ameaçaram minha integridade física. Citaram “PLANTAS EMBAIXO DO AQUÁRIO” (pior música do disco “Dois” para alguns) e prima-irmã de “A Canção do Senhor da Guerra” e “Soldados”; o mertiolate de “METRÓPOLE”; as baratas voadoras de “LEILA”; a feijoada de “O MUNDO ANDA TÃO COMPLICADO”; a tríade “A DANÇA”, “PETRÓLEO DO FUTURO” e “PERDIDOS NO ESPAÇO” do primeiro disco; O tê enorme de “TÉDIO”; o quem inventou o amor de “ANTES DAS SEIS”, entre outras.

domingo, 28 de abril de 2013

ENGANO

Dessa vez ele não conseguiu sequer voltar para casa. 
Foi algum estranho deseducado que telefonou intimando 
para eu ir buscar aquele traste sabe lá onde. 
Respondi que era engano e continuei a arrumar minha mala.

terça-feira, 23 de abril de 2013

INTRIGA DA OPOSIÇÃO

 
Foi um antigo namorado que disse para eu ficar com um pé atrás, 
que o Xavier não era flor que se cheirasse. 
Se ele não tivesse falado sem desviar o olhar do meu decote, 
poderia até ter acreditado.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

PODERIAM SER CRÔNICAS

(*) Que o Brasil não é um país de leitores não é novidade. Mas começo a desconfiar que somos leitores de títulos. Melhor do que uma boa capa o livro necessita de um bom título, “inesquecível”, para ser citado cheio de confiança entre os amigos. Quando digo que estou escrevendo um romance ninguém se atreve a perguntar como ele é, querem saber apenas o título. Quem chegou com o meu livro embaixo do braço, ou dentro da bolsa, após o lançamento pode nem mesmo ter folheado, mas leu o título. Penso em utilizar no próximo a sinopse na capa, assim a conversa “intelectual” de mesa de bar poderá render um pouco mais.

(*) Catequizado pelas regras do rádio, ainda hoje costumo escutar as canções no modo aleatório. Gosto de apostar na imprevisibilidade, de não saber qual será a faixa seguinte. Mas, misteriosamente, quando estou me aproximando de Santo Amaro da Purificação, minha terra natal, o tocador de MP3 insiste em tocar algo de Caetano Veloso. 
Meu shuffle cretino adora uma emoção barata.

(*) Quero me permitir a irresponsabilidade, a incerteza.
Quero chegar atrasado, quero não chegar.
Cansei de ser Bob Esponja; feliz é ser Patrick.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

DO OUTRO LADO

    Espero o sinal ficar vermelho para poder atravessar.
    Do outro lado, uma menina triste com os olhos tristes espera a mesma coisa.
    Daqui, consigo perceber suas angústias, suas aflições, suas inquietações.
    Desejamos a mesma coisa, mas caminhos diferentes.
    Verde.
    Nossa interseção não dura um segundo.


terça-feira, 2 de abril de 2013

HÁBITO




me acostumei a ficar
                  a esperar

me acostumei a temer
                  a perder

me acostumei a enganar
                  a desapegar

me acostumei a desistir

me acostumei a me acostumar

quarta-feira, 27 de março de 2013

TARANTINO (50 ANOS)

Nos cinquenta anos de Quentin Tarantino só algo vem à minha mente: a trilha sonora dos seus filmes. E nenhuma faixa soa mais emblemática para mim do que “Girl You'll Be a Woman Soon”, que embala uma (entre tantas) das sequências inesquecíveis de “Pulp Fiction”. Se todo mundo costuma lembrar de Uma Thurman dançando com John Travolta ao som de Chuck Berry, sempre preferi ela cantando e dançando sozinha na sala antes de sofrer uma overdose. Clássica.

sábado, 23 de março de 2013

segunda-feira, 18 de março de 2013

AS PIORES CANÇÕES DE RAUL SEIXAS

A cada aniversário de Raul Seixas, de nascimento ou morte, o baiano é amplamente celebrado: são shows tributos, coletâneas, regravações, relançamentos, o diabo a quatro, e quase tudo de gosto duvidoso. Para fugir um pouco desse marasmo com hora marcada, resolvi provocar e selecionar as cinco piores canções de Raul Seixas, lembrando que a escolha foi feita por um raulseixista legítimo, mas nem tão xiita assim:

VIM DIZER QUE AINDA TE AMO (Raulzito/ Mauro Motta)
Em sua fase de produtor da CBS, Raulzito, como ele assinava, teve mais de cem canções gravadas pelos populares artistas que faziam parte do casting da gravadora (algumas ele reutilizou depois com novas letras). Tesouros perdidos dessa época merecem ser descobertos, embora os nossos bem intencionados intérpretes prefiram não se arriscar e requentar os clássicos que já fazem parte do cardápio do grande público. Por outro lado, algumas devem continuar no fundo do baú do Raul, é o caso de “Vim Dizer que Ainda te Amo”, na voz do ilustre desconhecido Raphael, gravada em 1972. O derramamento de glicose é tão grande que nem me atrevo a classificá-la como “brega”, acho que nem Zezé Di Camargo a cantaria, visto que quando foi convocado a gravar algo de Raul, escolheu “Medo da Chuva”, uma música que prega a liberdade conjugal. Em um raro instante de desprendimento financeiro, Kika Seixas impediu o lançamento de uma caixa contendo o material desse período, talvez temendo que a obra do maluco beleza fosse manchada. MOMENTO POR QUÊ? PRA QUÊ?: “Vim dizer que ainda te amo/ meu coração é seu/ vim dizer que ainda te amo/ que nada se perdeu”.




CANTIGA DE NINAR (Raul Seixas/ Paulo Coelho)
Creio que "chata" é característica obrigatória para as canções de ninar. Faixa do pouco inspirado “Há Dez Mil Anos Atrás”, de 1976, esta parece completamente deslocada, principalmente por surgir logo após o animado baião “Os Números”. O que deveria ser um acalanto funciona realmente como uma canção de ninar, mas por outros motivos: no auge de sua forma vocal a performance de Raul não alcança  a delicadeza de “A Maçã” ou a singeleza de “ A Hora do Trem Passar” ou “Ave-Maria da Rua”, como o gênero exige, talvez tenha faltado poesia para provocar a emoção. Sem entregar o que promete, a canção, além de deixar o bebê acordado, ocupa desnecessariamente o lugar de algo mais relevante no disco, como “Love is Magick”, lado B do single do mesmo ano. É o tipo de música que quando executada alguém diz: "pula essa". MOMENTO POR QUÊ? PRA QUÊ?:“Você chora quando tem fome/ mas vem logo uma mamadeira”.



 

O SEGREDO DO UNIVERSO (Raul Seixas/ Oscar Rasmussem)
1979 foi um ano conturbado para Raul: seu contrato foi encerrado, se separou de Tania Menna Barreto, seu segurança foi assassinado dentro do seu apartamento, retirou metade do pâncreas e como se não pudesse piorar, conheceu Ângela (Kika). Mas a nossa história começa alguns meses antes, reza a lenda que ele teve contato com um caderno de poemas escritos pelo argentino Oscar Rasmussem em uma festa daquelas, o que foi suficiente para ele se encantar e compor as nove canções que fariam parte do seu último trabalho pela Warner, “Por Quem os Sinos Dobram”. A substituição da anárquica letra inspirada em Hemingway e no Gênesis, em parceria com Cláudio Roberto, por um arremedo de pílulas de autoajuda do quilate de “nunca se vence uma guerra lutando sozinho” ou “é sempre mais fácil achar que a culpa do é do outro”, gerou uma breve rusga entre os dois amigos. Não é difícil selecionar uma canção ruim nesse disco, “Ide a Mim Dadá” e “Da-lhe que Dá” são fortes concorrentes, mas “O Segredo do Universo” não tem rival. O título, que emula um Raul mais profético e místico, não passa de um rock simples, básico, decepcionando quem esperava algo épico, uma nova “Gita”. Percebendo o poder comercial do título, anos depois a gravadora lançaria uma coletânea com essa denominação. Há quem acredite que seja uma letra enigmática, repleta de simbologias, mas fã de Raul Seixas acredita em tanta coisa. MOMENTO POR QUÊ? PRA QUÊ?: “Dentro do mambo e da consciência/ está o segredo do universo”.

 

 

CANÇÃO DO MELÂNCIO (Raul Seixas/ Kika Seixas)
Obrigatoriamente eu teria que colocar alguma faixa do  “Metrô Linha 743”, de 1984, de preferência alguma parceria com Kika Seixas. Implicância gratuita? Talvez. No disco há cinco “parcerias” com Kika, além de uma irritante participação em “Mamãe, Eu Não Queria” (costumo creditar a ela o péssimo refrão de “Meu Piano”
talvez seja realmente implicância). Metrô Linha é um disco que nunca me conquistou: o som é ruim, os arranjos, as letras, a gravadora... Para piorar, ainda há duas inexplicáveis regravações que nem chegam perto das originais (“O Trem das Sete” e “Eu Sou Egoísta”), o que só confirma a falta de material inédito de Raul. Mas para não ser injusto com músicas como “Quero Ser o Homem que sou”, preferi incluir a “Canção do Melâncio”, interpretada pelo falecido cantor religioso Reinaldo Cominato para a trilha sonora do programa infantil TV TUTTI-FRUTTI, exibido pela Bandeirantes entre 1983 e 1984, onde os protagonistas eram frutas e vegetais (Milhofone, Prefeito Gerimum, Chico Pimentão, Melâncio, entre outros). A música nada mais é do que uma versão hortifruti para “Peixuxa” o amiguinho dos peixes, do álbum “Novo Aeon, de 1975 – que apesar de surrupiar descaradamente "Ob-La-Di, Ob-La-Da" dos Beatles passa pelo meu crivo por sua mensagem ecologicamente correta, em uma época em que meio-ambiente não era tendência. Apropriando-se do fonograma original gravado pelos Fevers, excluindo apenas a voz, no melhor estilo karaokê, foi inserida uma letra onde verduras e frutas curtem uma festa animada na hortolândia. Tudo bem, era para as crianças, mas custava compor uma música nova? MOMENTO POR QUÊ? PRA QUÊ? “E se não é noite/ e se não é dia/ Melâncio amavelmente dá melancia”.
 

 

VOCÊ ROUBOU MEU VIDEOCASSETE e CÂIMBRA NO PÉ (Raul Seixas/ Marcelo Nova)
Sempre desconfiei da real participação de Raul nas canções com Marcelo Nova em “A Panela do Diabo”, como ao longo da carreira ele “herdou” algumas parcerias (sendo “Capim Guiné” a mais célebre) em seu derradeiro trabalho não seria diferente. Não só por sua condição física, mas tenho dificuldade para visualizar Raul nas músicas que encerram o disco. Se “Nenhuma Conexão” não tivesse ficado de fora, fatalmente receberia o carimbo Raulzito e Marceleza, mas como só foi gravada cinco anos depois, Marcelo assumiu sozinho a autoria. “Câimbra no Pé” é uma genuína composição de Marcelo Nova, em gênero, número e grau, não estranharia se ela aparecesse em alguma sobra de estúdio do álbum “Duplo Sentido”, do Camisa de Vênus, com sua letra original, “saiba esperto ou burro, você vai morrer aqui, isso é um perigo eu sei, mas esse é um país perigoso, se não nos detectarem não há tumulto na imprensa”. Já o início de “Você Roubou Meu Videocassete” é emblemático, com a banda entrando antes do tempo e Raul tentando corrigir. MOMENTO POR QUÊ? PRA QUÊ? “Você roubou meu videocassete pensando que eu fosse o controle-remoto”.


segunda-feira, 11 de março de 2013

PROMESSAS, MEU BEM, PROMESSAS

Ser blogueiro é trotar por uma senda pantanosa (vixe, que raio de frase foi essa?). Blogueiro é um bicho vaidoso, se considera formador de opinião e odeia ser questionado aliás, tem verdadeiro pavor. Ser blogueiro talvez não seja para todos, tem que ter senso de humor, espírito esportivo, não levar a sério o excesso de elogios nem se chatear com as críticas (que podem ser muitas). Sem paciência, alguns radicalizam e excluem o blogue ou bloqueia para comentários ou limita para um círculo restrito de leitores. Cada um na sua, mas prefiro sempre o debate. Com dez anos de blogue fica fácil saber quando determinada postagem será solenemente ignorada ou se tornará uma controvertida polêmica. Afinal, lugar de bom moço é no Feicebuque, no blogue é possível errar, não gostar, se arrepender. No blogue todo assunto é permitido, mas é preciso jogo de cintura para abordar temas espinhosos, algo que às vezes me falta. Então, para evitar aborrecer os poucos que ainda dedicam uma parte do seu tempo para me ler, resolvi tornar pública minha lista de promessas para este ano, mesmo não sendo, nem pretendendo ser, candidato a nada:

(*) Prometo nunca mais propagar meu gosto musical duvidoso, divulgando vídeos e discos de cantores/bandas que todo mundo deveria conhecer;

(*) Prometo que nunca mais postarei nada que ofenda às telenovelas brasileiras ou às séries britânicas/americanas, repetindo meu argumento simplista de que a vida é curta e que dois capítulos/episódios equivalem, em média, à duração de um longa-metragem, e que eu tenho muitos filmes para ver/rever antes do fim;


(*) Prometo não transformar Clarice Lispector em musa da autoajuda;

(*) Prometo nunca mais escrever sobre relacionamentos, não sou nenhum Carpinejar, que acredita que o amor é receita de bolo. Cada casal possui suas peculiaridades e a graça é exatamente essa – querer generalizar é bobeira;

(*) Prometo que não farei nenhuma postagem enlutada quando alguma celebridade desencarnar, mesmo que seja o Roberto Carlos;

(*) Prometo que não direi durante a próxima campanha eleitoral que não voto mais no PT;

(*) Prometo não retrucar mais comentários copy-cola;


(*) Prometo não fazer listas de melhores no final do ano;

(*) Prometo que não emitirei minha desnecessária opinião sobre o assunto do momento;

(*) Prometo nunca mais falar mal do Vasco, do Big Brother, do Carnaval, da Veja, de William Bonner, Adele ou Malafaia;

(*) Prometo que não comentarei nos blogues alheios quando eu detestar a postagem;

(*) Prometo que nunca mais questionarei o Feicebuque;

(*) Prometo não fazer mais promessas;

(*) Não prometo não grafar mais “Feicebuque”.


quarta-feira, 6 de março de 2013

VELHAS POLAROIDES V

 
 
 
  

SALVADOR ABAIXO DE ZERO / EDIÇÕES P55 - COLEÇÃO CARTAS BAHIANAS / 
R$ 15,00 (solicite seu exemplar diretamente com o autor) / 
OU NA LIVRARIA CULTURA

domingo, 3 de março de 2013

ALÉM DO QUE SE VÊ

NEM TUDO É O QUE PARECE
(Layer Cake, Reino Unido, 2004)
Direção: Matthew Vaughn 

Para quem reclama que falta “pipoca” nas minhas indicações, recomendo a estreia na direção do produtor dos primeiros trabalhos de Guy Ritchie (no tipo de filme que todos esperavam que ele continuasse a realizar, se não fosse a Madonna e Mr. Holmes). Daniel Craig (antes do estrelato) vive um bem sucedido “comerciante de narcóticos” que nunca revela seu nome e que decide se aposentar do mundo do crime, mas inicialmente tem que fazer um último trabalho, que não é tão fácil quanto aparenta: localizar a filha viciada de um magnata e distribuir um carregamento de ecstasy vindo da Holanda – se parece um clichê de filme de ação, advirto que nem tudo é o que parece. Perseguições, reviravoltas (muitas), enganos, mentiras, cinismo, clássicos ingleses da música dos anos 70 e 80, coadjuvantes excêntricos, frases de efeito, humor britânico... tudo faz parte do bem construído bolo de camadas do título original, surpreendentemente divertido até o último instante. Confirmando o talento demonstrado na estreia, Matthew Vaughn depois dirigiria “Kick-Ass - Quebrando Tudo” e “X-Men: Primeira Classe”.

TRABALHAR CANSA
(Brasil, 2011)
Direção: Juliana Rojas e Marco Dutra

Helena Albergaria é uma dona de casa de classe média que resolve levar adiante a ideia de abrir um mercadinho de bairro após o marido, Marat Descartes, perder o emprego, mas o local escolhido para o comércio guarda alguns mistérios. Ao misturar crítica social com elementos fantásticos, “Trabalhar Cansa” flerta com um gênero pouco explorado no Brasil: o terror. As incertezas e as neuroses provocadas pelo novo negócio e o desconforto e a insegurança do desemprego levam o casal de protagonistas a uma gradual transformação. No entanto, não é o típico drama familiar que mantém a trama, a crônica suburbana, com sua mesquinhez nossa de cada dia, causa no espectador uma imediata identificação, e sem meios-termos também pode provocar sentimentos de amor e ódio. Primeiro longa da dupla de diretores Juliana Rojas e Marco Dutra, que já tinha se destacado com os curtas "As Sombras", "O Lençol Branco" e "Um Ramo".


MINHA IRMÃ
(França/Suiça, 2012)
Direção: Ursula Meier

Assistiria a qualquer coisa com Léa Seydoux, isso não é segredo. Aqui ela é a “irmã” do título nacional, uma jovem acomodada que alterna pequenos trabalhos com períodos de desemprego, dorme com diferentes rapazes e costuma sumir sem explicação por dias. No entanto, a trama é focada em seu irmão Simon, um menino de 12 anos que rouba o que pode em uma estação de inverno suíça (de sanduíches a pares de esqui) e revende os objetos para sobreviver, ou poder comprar até mesmo um abraço de sua irmã. Aproximando-se bastante do naturalismo e da crise europeia, observados sem julgamentos nem sentimentalismos nas obras dos irmãos Dardenne, Ursula Meier sustenta o filme sem excessos ou melodramas, extraindo de Léa e do garoto Kacey Mottet Klein atuações excelentes, além de conduzir uma reviravolta no roteiro que não transforma o filme em outro filme. Atenção para Gillian Anderson, a eterna agente Scully de Arquivo X,  e a bela e metafórica cena final.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

PODERIAM SER CRÔNICAS

(*) Não participar do Feicebuque ou não possuir um tablete ou um telefone celular de penúltima geração não é mero charme (não é meu esporte ser do contra), apenas gosto de preservar minha privacidade, ignorar o que os outros fazem ou deixam de fazer e me dedicar inteiramente aos amigos dos dias reais, e não ter uma conversa interrompida com o tec-tec deselegante de alguém digitando: “pode continuar falando, eu estou ouvindo”. Prefiro silenciar.

(*) Mas não poso de intelectual ofendido diante dos novos costumes, alegando que antigamente era assim ou no meu tempo era assado. Tudo tem seu tempo e o meu tempo é o agora, com todas as fissuras que ele apresenta.

(*) Não, o ano não começou após o carnaval nem a vida começa aos quarenta. Se engane, mas não tente me enganar.


(*) Confirmando meu histórico, tive 13 acertos na premiação do Oscar deste ano. E acreditem, já fui bem pior.

(*) Blogues costumam comemorar quando alcançam determinado número de acessos, de postagens, de comentários... Sem recorrer às estatísticas, sei que a palavra que mais utilizei foi o advérbio “não”, curiosamente mais para justificar do que para realmente negar. Uma palavra que pouco costumo dizer, até aqui ela já apareceu nove vezes.

(*) Santa Maria, Papa, meteoritos, sinalizador corintiano, blogueira...

(*) Não, obrigado (dez vezes).


terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

MEUS PALPITES: OSCAR 2013

     Gostar de cinema nunca me fez um grande acertador do Oscar, pelo contrário, mas para não perder o hábito, segue abaixo minha relação dos possíveis vencedores deste ano, quem quiser copiar para participar de algum possível bolão fique à vontade, mesmo correndo o risco. Mudando de tática, os palpites deste ano não expressam necessariamente minha preferência, apenas aqueles que eu acredito que serão premiados no próximo dia 24 (apesar de ignorar o superestimado "O Lado Bom da Vida").
        Agora é só aguardar.

Melhor Filme
Argo

Melhor Ator
Daniel Day-Lewis

Melhor Atriz
Emmanuellle Riva

                                              Melhor Ator coadjuvante 
                                             Christoph Waltz

  
Melhor Atriz coadjuvante
Anne Hathaway

Melhor Diretor
Steven Spielberg

Melhor Roteiro original
Quentin Tarantino

Melhor Roteiro adaptado
Argo

 
Melhor Filme em lingua estrangeira
Amor

Melhor Longa Animado
Detona Ralph

Melhor Trilha sonora original
Anna Karenina

Melhor Canção Original
Skyfall
 
Melhor Efeito visual
As Aventuras de Pi

Melhor Maquiagem
O Hobbit: Uma Jornada Inesperada

Melhor Fotografia
Lincoln

Melhor Figurino
Anna Karenina

Melhor Direção de Arte 
Os Miseráveis

Melhor Documentário
The Invisible War

Melhor Documentário de curta-metragem
Inocente

Melhor Montagem
Argo

                                          Melhor Curta
                       Death of a Shadow (Dood van een Schaduw)
 
Melhor Curta animado
Paperman

Melhor Edição de som
As Aventuras de Pi

Melhor Mixagem de som
As Aventuras de Pi

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

VELHAS POLAROIDES IV

 
 
    
SALVADOR ABAIXO DE ZERO / EDIÇÕES P55 - COLEÇÃO CARTAS BAHIANAS / 
R$ 15,00 (solicite seu exemplar diretamente com o autor) / 
OU NA LIVRARIA CULTURA

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

SOTEROPOLITANA

“Soteropolitana” foi escolhida para ser o primeiro videoclipe do disco ALELUIA, da banda  Cascadura, um álbum temático que ousa abordar as particularidades, problemas, personagens e riquezas de Salvador, sem os seus, cada vez mais folclóricos, estereótipos de baianidade. A letra traça um olhar panorâmico sobre a cidade, contextualizando-a geograficamente e culturalmente, apresentando suas características, o cotidiano das pessoas, dos seus bairros, além do comportamento da elite e a questão do negro em uma cidade que, ao contrário do que a propaganda superficial-oficial propõe, não é somente negra. A canção combina o samba-reggae com “Street Fight Man”, dos Stones, em uma levada que se amalgama naturalmente, sem forçação alguma. O clipe corrobora essa ideia mesclando uma narrativa ficcional, com um garoto e um jovem representando a presença  do etnógrafo e fotógrafo Pierre Verger, personagem único na afirmação das manifestações culturais da Bahia no século XX, a partir do elemento que ele mais valorizava: as gentes. A narrativa documental mostra os populares em toda a sua amplitude e diversidade: os adeptos do candomblé e os cristãos-evangélicos, a bateria do bloco-afro e os adolescentes “roqueiros”,  o trabalho e o lazer, a natureza e a vida urbana. O clipe conta ainda com a presença do dançarino Negrizu, cantado por Caetano Veloso como “o moço lindo do Badauê”, na canção “Beleza Pura”. Fico feliz por, coincidentemente, no mesmo ano de “Aleluia” ter publicado um livro sobre Salvador. E se como dizia Tolstói “se queres ser universal começa por pintar a tua aldeia”, então, comecemos.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

NESTE CARNAVAL

“Desconfio de hinos, músicas lineares, puramente motivacionais, em que tudo-tudo-tudo-vai-dá-pé-quando-o-sol-brilhar-tudo-de-bom-vai-acontecer-e-quando-a-noite-chegar-vai-rolar-a-festa. Honestamente, não sei até que ponto esta overdose de alto-astral ajuda as pessoas. Não me surpreenderia se o número de suicídios no carnaval fosse maior do que na quaresma. Não acho que uma música melancólica aumente a melancolia. Na verdade, ela faz companhia.”

(Humberto Gessinger: Nas Entrelinhas do Horizonte, 2012. Ed. Belas Letras, p. 76).

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

VELHAS POLAROIDES III

 
 
 
 


SALVADOR ABAIXO DE ZERO / EDIÇÕES P55 - COLEÇÃO CARTAS BAHIANAS / 
R$ 15,00 (solicite seu exemplar diretamente com o autor) / 
OU NA LIVRARIA CULTURA

sábado, 2 de fevereiro de 2013

CRÔNICA DA MULHER BROTHER

O homem quer liberdade, quer espaço. Quer uma mulher que lhe compreenda, que silencie quando ele estiver em silêncio, que escute quando ele quiser ser o centro das atenções. O homem quer uma mulher que torça por seu clube, que sofra na derrota e tire sarro dos adversários na vitória. O homem quer uma mulher que não implique com a pelada de final de semana nem com as consecutivas, e simultâneas, partidas de futebol na TV – seguidas de repetitivas mesas redondas. O homem quer uma mulher que rache as contas, que não se importe com datas ou churrascarias, que compre cerveja, que fale alto, que goste de rock and rool e não se esquive de uma roda de samba, que não leve desaforo pra casa, que ria das suas piadas, que conte piadas, que aposte, que jogue cartas, que goste de fumar de quando em vez, de beber, de assistir a filmes adultos, que seja amiga dos seus amigos, que não tenha ciúmes das suas amigas. Mas uma mulher que não seja subserviente, que tenha força, que não se anule, que seja cúmplice e álibi, uma mulher que seja mais que um mero estereótipo de fetiche masculino. O mais engraçado é que esse tipo de mulher existe, e quando ela aparece em sua vida, quase sempre, assusta.
Related Posts with Thumbnails