Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

A CASA DA ÁRVORE

A CASA DA ÁRVORE
Herculano Neto

O mundo era mais simples
na casa da árvore

Não havia antenas
telefone
campainha
portas

Pessoas que dizem adeus
mas não vão embora

O mundo era menos triste
na casa da árvore.

(POEMA INÉDITO)

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

RAIMUNDO FAGNER - “FAZ DE CONTA” (TEMA DA NOVELA COMO UMA ONDA)

Em 2004, após uma sucessão de acasos, Fagner desejou gravar a canção “Faz de Conta”, parceria minha com o amigo e conterrâneo Roberto Mendes, no disco DONOS DO BRASIL – seu trabalho mais poético, segundo a crítica, em muitos anos. Pouco depois a faixa ganhava a programação das rádios brasileiras e era incluída na trilha da novela da Rede Globo COMO UMA ONDA. Acima, vídeo da canção com cenas da novela.

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

SAUDADES DO POWER TRIO NORDESTINO

Os festejos juninos sempre me agradaram, bem mais do que qualquer outra festa de calendário. Pode ser pelo clima, o cheiro, a cor ou qualquer outra característica difícil de explicar, mas comum para quem frequenta o interior do nordeste nessa época. Menos complicado tentar explicar o som: não sou conservador nem vou resgatar algum episódio de jenipapos absolutos da infância, apenas acreditava que o autêntico forró resistia às tendências, compartilhando seu espaço cativo com artistas antes onipresentes (e reverentes) como Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Zé Ramalho e afins, no entanto tudo que vi nas últimas festas foram grupos lascivos de tecnoforró moldados na mesma forma e um indigesto neo sertanejo de garagem. Ainda assim esperava que cedo ou tarde surgissem soberanos a zabumba, o triângulo e a sanfona: o genuíno power trio. Mas juntamente com as cinzas da fogueira só apareceu a saudade. O remédio foi cantar.
(ILUSTRAÇÃO JOÃO WERNER)

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

A DANÇA DOS ZUMBIS

A primeira imagem que tenho de Michael Jackson é a mesma que trago hoje: do cara descontraído saindo com sua garota da sessão de cinema de Thriller. Em suas mãos o vídeoclipe era uma ferramenta perfeita, era a forma dele se comunicar conosco, mortais. Quando se fala em Michael Jackson, mais do que dizer “prefiro o primeiro disco”, diz-se apenas que gostava dele na época de tal clipe. Eles não só contam a história do artista, nos remetem para períodos que parecem cada vez mais distantes, perdidos na memória. No centro da cidade sempre vejo cópias piratas dos seus vídeos dividindo espaço com versões de filmes ainda em cartaz e crianças imitando os passos de suas coreografias como costumávamos fazer. Nos últimos anos os vídeos cederam o lugar às fotografias sensacionalistas de tablóides, lamentavelmente. Espero que a próxima vez que eu passar pela frente de um cemitério à meia-noite ao invés de zumbis tentarem me atacar eles comecem a dançar.

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

TERRY REID: O CARA MAIS AZARADO DO MUNDO?

Prodígio inglês, guitarrista e vocalista de timbre vocal largamente imitado, foi convidado por Jimmy Page aos 18 anos para integrar o ainda embrionário Led Zeppelin (New Yardbirds), Terry recusou o convite e indicou o seguidor e admirador Robert Plant (que por sua vez levou junto o baterista John Bonham). Anos depois recebeu novo convite: assumir os vocais do Deep Purple – novamente recusou e a vaga foi para o desconhecido Ian Gillan. O resto é história. Detentor de obra autoral admirável gravou dois discos excepcionais no final dos anos sessenta, com arranjos cheios de psicodelia, folk e blues (elementos precursores da sonoridade de várias bandas, inclusive o Led Zeppelin). Nessa época participou da turnê americana do Cream e do Festival da Ilha de Wight. Apesar do reconhecimento de seu talento por Eric Clapton, Van Morrison e Jimmy Hendrix, seus discos nunca alcançaram o grande público, que somente nos últimos anos redescobriu seu trabalho - mesmo continuando na estrada. Sempre li (e ouvi) o nome de Terry Reid seguido de sentenças como “o cara mais azarado do mundo”, se for verdade eu não sei o que sou.

Sábado, 13 de Junho de 2009

PEANUTS ANIME

Quarta-feira, 10 de Junho de 2009

BEIRUT EM SALVADOR

Depois da confirmação da cantora e atriz inglesa Marianne Faithfull no Teatro Castro Alves em agosto pela Série TCA 2009, agora é a vez do festival PERCPAN garantir a presença da banda americana Beirut em setembro. Capitaneada pelo jovem músico Zack Condon, que toca trompete e ukelele, a banda formada em 2006 no Novo México combina elementos do folk rock e da música do leste europeu. Com diversos singles e três álbuns lançados - o último este ano, March Of The Zapotec Realpeople Holland. Beirut ficou conhecida pelo grande público brasileiro através da canção “Elephant Gun”, que alcançou as primeiras posições das, ainda existentes, paradas de sucesso. Parece que Salvador tá virando uma mocinha, enquanto outras capitais recebem atrações internacionais como os Irmãos Jonas os soteropolitanos assistirão à Marianne Faithfull e Beirut – isso até começar os famigerados ensaios de verão.

Sábado, 6 de Junho de 2009

O FANTASMA DE ARACY DE ALMEIDA

Não sou crítico musical, sou um reles cronista de pequenos posts, o que me permite abordar o show de Caetano Veloso na Concha Acústica em Salvador ontem por qualquer ótica. Poderia dizer que gato e cachorro na cidade pagam meia entrada, o que sempre me deixa a impressão de que estou sendo lesado ou que a centenária matriarca Claudionor Velloso parecia enfadada em seu canto do palco, tirando a mão do queixo somente ao identificar os versos de “Não Identificado”. No entanto, prefiro escrever sobre fantasmas. Diferentemente do que apresentou no começo do ano em Santo Amaro - onde sempre subestima o público presente com um repertório sem novidades pra você e eu e todo mundo cantar junto – ele evitou o aplauso fácil ao cantar onze canções do disco “Zii e Zie” (escutadas silenciosamente pela maior parte da platéia que claramente desconhecia o trabalho, como ficou evidente nos risos involuntários provocados pela letra de “Incompatibilidade de Gênios”). Acompanhado pela ótima Banda Cê, bem mais encorpada do que na última turnê, seus indie-sambas e sua postura eram extremamente rock, principalmente em canções como “Maria Bethânia” e “Eu sou Neguinha” (a melhor do show). Surpreendente para mim apenas a inclusão da cover “Água” de Kassin + 2 e o bis com a tecno-marchinha “Manjar de Reis”. A abertura foi com “A Voz do Morto”, feita especialmente para Aracy de Almeida em 1968 - que não suportava mais ter que carregar o fantasma de Noel Rosa e que injusta e ironicamente é lembrada hoje como a rabugenta jurada do Programa Sílvio Santos. À canção foi incorporado o pegajoso refrão “tem que ser viola” do grupo de pagode baiano Fantasmão, e embora não faça eco às suas teorias exageradas sobre a música carnavalesca feita na Bahia, admito sem a menor culpa que ficou perfeito. Um híbrido inusitado e bem mais interessante que o barzinho e violão de “Mimar Você” da Timbalada, que ele fez em “Noites do Norte” em 2001. No final do show me deparei com os rockers baianos Glauber Guimarães, Fábio Cascadura e Ronei Jorge esperando despretensiosamente por uma oportunidade de falar com o ídolo, talvez que a verdadeira Bahia é o Rio Vermelho. Ao ver Ronei recordei que naquela mesma Concha Acústica em 1999, comandando ainda a extinta banda Saci Tric, ele exibia uma camiseta com a frase Aracy de Almeida is a punk rocker. E ainda teve aquele frevo axé.

Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

GARAPA (2009)

O diretor de “Tropa de Elite”, José Padilha, filmou durante um mês o cotidiano de três famílias de regiões distintas do Ceará que convivem com a fome regularmente. E é sob o ponto de vista delas que caminha o documentário “Garapa” (que é o nome da água com açúcar com que as mães tentam enganar a fome dos filhos). Não há nada em “Garapa” que eu já não conheça e tenha visto de perto. Não sou do sertão. Sou de um bairro pobre do Recôncavo Baiano, porém durante a infância a miséria sempre espreitou a minha casa com seus olhos ameaçadores e invadiu sem cerimônias as casas dos meus amigos e vizinhos; ainda assim, ao assistir ao filme, foi impossível manter a indiferença. A sensação de culpa e o desconforto são quase inevitáveis. Não é a piedade que permeia a experiência e não existe a lágrima fácil – a lágrima, quando veio, foi oriunda do ódio, da impotência e da conivência. Como ótimo documentarista, premiado em “Ônibus 174”, José Padilha preserva a distância, que foi quebrada apenas ao dar analgésico a uma criança que sofria com dores de dente. O filme não faz uso de música ou qualquer outro tipo de manipulação de sentimentos, o silêncio é perturbador e incomoda (a trilha sonora é a sinfonia das moscas). A renda familiar resume-se aos cinquenta reais do Bolsa Família, com exceção de uma jovem mãe de onze filhos que não possui nenhum tipo de documentação. Aliás, o filme é sobre mulheres. Os homens, na condição patriarcal de provedores do lar, são ociosos – o que se acha o mais esperto, por ter nascido na capital Fortaleza, é um alcoólatra odiado pela comunidade que encontra refúgio na ingenuidade da esposa, que é insultada constantemente e fecha os olhos para os desvios que ele faz do pouco que têm. Ao final da sessão você não sai com os olhos marejados, sai com a garganta seca.

Quinta-feira, 28 de Maio de 2009

“AQUI TUDO PARECE QUE É AINDA CONSTRUÇÃO E JÁ É RUÍNA”

O Palacete Aramaré era a residência dos Viscondes de Aramaré em Santo Amaro da Purificação (BA). Construído pelo italiano Rafael Pillar Baggi, aliado à família Gonçalves Martins pelo casamento com D. Ana Joaquina Martins Baggi, a quem o imóvel foi adquirido em 1859 por 50 contos de réis pelos irmãos Antonio da Costa Pinto e Manuel Lopes da Costa Pinto, futuros Conde de Sergimirim e Visconde de Aramaré, respectivamente, a fim de instalarem suas famílias quando da visita do Imperador Dom Pedro II à Santo Amaro. Em março de 1864 o então ainda Barão de Sergimirim, por ter sua esposa herdado, conforme a tradição, outro sobrado na cidade, vendeu sua parte por 25 contos de réis ao irmão Manuel. O palacete é exemplo do estilo neoclássico no Recôncavo, com um sabor da arquitetura italiana em suas arcadas, sua platibanda e seu terraço lateral.
Todas as lembranças que possuo já são do abandono. A imponência fantasmagórica nas noites na Rua do Imperador após as aulas na Filarmônica Filhos de Apolo.
Na última semana o que ainda restava do palacete tombou, melancolicamente, num dia triste e chuvoso. A evidente falta de interesse das autoridades marcou mais um gol.

Sexta-feira, 22 de Maio de 2009

MORRISSEY 50 ANOS

Morrissey é o único artista vivo que reverencio, o único pelo qual permito a designação de fanático (pôsteres, livros, dvd’s importados, camisetas, coleção de vinil, raridades, bootlegs, etc., se acumulam pela casa). Suas canções, com letras que estão muito além do convencional, fazem parte do que sou desde o começo da adolescência - e ainda conseguem me causar a mesma sensação, a mesma empatia juvenil, a mesma estranheza. Sua postura e seu trabalho nunca me decepcionaram e duvido que isso possa acontecer. Ter abandonado no auge do sucesso uma banda incrível como The Smiths e ter construído uma carreira solo tão interessante, com um nível de qualidade e maturidade respeitável, influenciando gerações distintas só demonstra sua relevância. Shows disputados, singles e discos excepcionais, admiradores que aumentam a cada dia. Hoje, 22 de maio de 2009, o bardo inglês Steven Patrick Morrissey completa 50 anos de idade, e para mim essa data possui mais do que mero simbolismo. Viva Moz!

“You have never been in love
until you’ve seen sunlight thrown
over smashend human bone”

Segunda-feira, 18 de Maio de 2009

CALVIN E HAROLDO

Ainda não havia percebido, mas já possuo mais revistas e livros em quadrinhos do que discos, filmes e livros em não-quadrinhos (e, acredite, estes tenho bastante). Dos que brigam por espaço na minha estante Calvin talvez seja o que mais consegue me entusiasmar hoje (criado pelo americano Bill Watterson em 1985 e publicado em mais de 2000 jornais pelo mundo, Calvin é um garoto de 6 anos com uma visão muito peculiar do mundo, sempre acompanhado do seu tigre de pelúcia Haroldo – que funciona como uma espécie de parte racional de sua própria personalidade. A última tira foi publicada em 1995 e seu autor não cedeu à pressão dos editores que insistiam em comercializar seu trabalho, algo que ele acreditava que “diminuiria” sua tira, recusando propostas para estampar suas criações em produtos e não permitindo que fosse feita uma versão em desenho animado). As tiras abaixo foram retiradas do livro FELINO SELVAGEM PSICOPATA HOMICIDA – VOLUME 2, uma das raras pechinchas que encontrei na IX Bienal do Livro da Bahia – sugestão direta do amigo/escritor Lima Trindade, outro apaixonado por quadrinhos juntamente com Victor Mascarenhas.

(CLIQUE NAS TIRAS PARA AUMENTAR.
NÃO É ANÚNCIO DE ACOMPANHANTE, MAS NÃO TERÁ DECEPÇÃO)

Sexta-feira, 15 de Maio de 2009

MARIANNE FAITHFULL "AS TEARS GO BY" (1965)

Terça-feira, 12 de Maio de 2009

CORRA LOLA, CORRA (1998)

O diretor e roteirista Tom Tykwer conseguiu produzir uma obra pulsante neste cult movie alemão que não cessa de ganhar admiradores. Há quem chame de videoclipe de luxo, mas CORRA LOLA, CORRA é bem mais que isso, e reduzi-lo a mero entretenimento pop é querer desmerecer suas qualidades. Partindo da simples premissa de que Lola, a ótima Franka Potente, tem apenas 20 minutos para salvar seu namorado, que esqueceu no metrô uma sacola com 100.000 marcos de uma quadrilha de contrabandistas, a ação passa a se desenvolver em três possibilidades, inclusive para todos que atravessam o caminho de Lola e sua corrida frenética pelas ruas de Berlim. Um filme curto e muito diferente do que preconceituosamente pode se esperar do cinema europeu, seu findar e recomeçar não cansa o espectador que é abduzido por sua edição vertiginosa, incluindo uma antológica seqüência em animação. Três diferentes finais - é só escolher um.

Sexta-feira, 8 de Maio de 2009

COMO JÁ DIZIA CHICO ANYSIO

"A felicidade é uma ilusão.
E eu sou um realista".

COMO JÁ DIZIA FRANCISCO CARVALHO

A poesia hoje é uma arte pouco valorizada, depreciada e desgastada. Está em extinção o verso perfeito, o verso sincero. O que há são apenas arremedos, ajuntamento de palavras e ajuntadores profissionais – que deveriam respeitar a poesia antes de saírem por aí autoproclamando-se poetas (a poesia não é a escolhida, como uma amante exigente é ela quem escolhe). Não gosto quando me chamam de poeta, além de não me sentir confortável sempre acho que é um elogio maledicente, se possível corrijo a alcunha – não quero ser colocado no mesmo balaio. Também nunca recito, faço apenas raras leituras. Reler publicamente o que escrevi é deveras doloroso, é sangue que somente eu vejo jorrar e que demora dias para estancar. Recitar virou um circo, é uma mise en scène afetada e constrangedora; cheia de caras, bocas e espalhafatos. “Grupos poéticos” com números orquestrados, figurinos e cenários transformam poemas em teatro amador, e ainda costumam cobrar couvert em eventos. Isso não torna a poesia popular, a torna caricata. Como diria o poeta (este sim) Francisco Carvalho: “a poesia não é um jogo irresponsável para divertimento de desocupados”.

Segunda-feira, 4 de Maio de 2009

MARIANNE FAITHFULL EM SALVADOR

Se não for alarme falso a cantora e atriz inglesa Marianne Faithfull se apresentará no Teatro Castro Alves em agosto. Salvador que é tão carente em shows internacionais receberá a musa de Mick Jagger e Bob Dylan nos anos 60 (uma das primeiras vozes femininas do rock, autora da letra da canção Sister Morphine, sobre heroína, do clássico álbum Sticky Fingers dos Stones). Marianne mergulhou no mundo das drogas pesadas nos anos 70 de onde ressurgiu em 1979 com o ótimo disco Broken English. Na sua filmografia destacam-se A Garota da Motocicleta, com o galã francês Alain Delon em 1968 e mais recentemente Maria Antonieta (2006) da diretora Sophia Coppola. Cultuada pelo público e fãs ilustres, certamente merece o clichê de “lenda viva”. Já é meu presente de aniversário antecipado.

Quinta-feira, 30 de Abril de 2009

BOB ESPONJA NÃO É GAY!

A busca por mensagens escondidas em desenhos animados não é novidade, começou “oficialmente” em 1954 com a publicação nos EUA do livro “A Sedução dos Inocentes”, do psicólogo Frederick Wertham, onde afirmava que os quadrinhos incentivam crimes e degeneração. Entre suas teorias estavam que a dupla dinâmica era um casal homossexual, que a Mulher Maravilha era lésbica e que as orelhas do Pernalonga eram dois pênis e que ao se levantarem nada mais era do que ereções. Pode parecer absurdo, mas o livro originou o famigerado código americano de censura dos quadrinhos.
Quando eu assistia às reprises de A Caverna do Dragão, já sem a esperança de que os garotos escapassem daquele mundo, ouvia as mais diversas versões sobre o que teria acontecido. A mais popular dizia que eles teriam morrido num acidente no parque de diversões e que estariam na verdade no inferno (o Mestre dos Magos seria o diabo e pai do Vingador, Uni um demônio e o dragão Tiamate seria Deus). Associar as personagens infantis ao consumo de drogas também era muito comum: Gargamel seria um viciado em chá de cogumelos que em seus delírios persegue homenzinhos azuis; Salsicha um maconheiro paranóico que conversa com cães e vive na maior larica; além de Popeye, que seria o maior apologista de marijuana da história, inclusive ficando fraco em suas crises de abstinência. A sexualidade era outro viés exaustivamente explorado, não valendo nem a pena enumerar quem ficava ou deixava de ficar com quem. Essas teorias da conspiração não devem cessar facilmente, não faz muito tempo que sopraram nos meus ouvidos que A Turma da Tina seria a verdadeira Turma da Mônica Jovem. Já nos animes e nas grandes produções da Pixar, DreamWorks e Disney há quem jure haver imagens ocultas em segundo plano. Tudo que sei é que o Louco é uma projeção da mente inquieta do Cebolinha (feito Calvin e Haroldo) e que independentemente de ser ou não bipeniano Pernalonga é sarcástico e mordaz, assim como Garfield e Pica-Pau, e se Bob Esponja e Patrick não são gays (conforme informação de seu criador Stephen Hillenburg), certamente Lula Molusco é, mas não me pergunte porquê.

Sexta-feira, 24 de Abril de 2009

NOITE DE 23 DE ABRIL DE 2009

9ª BIENAL DO LIVRO DA BAHIA
CENTRO DE CONVENÇÕES - SALVADOR
Eliseu Moreira Paranaguá, Vânia Melo e Herculano Neto

Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

“EU SOU CRIANÇA E NÃO CONHEÇO A VERDADE”

O que você vai ser quando crescer?
Pais, tios, padrastos e vizinhos violentam crianças. Outros tantos aliciam menores em praças, estradas, esquinas, chats – a pedofilia me enoja, pedofilia é crime. Madonna não consegue adotar uma menina de três anos no Malauí porque uma juíza decidiu que era melhor para a criança continuar num orfanato. Na Índia o pai da atriz de nove anos Rubina Ali, a Latika de “Quem Quer Ser Um Milionário?”, teria tentado vender a filha, que mora com a madrasta numa favela na periferia de Mumbai. Aqui a miséria enfeita a cidade: crianças subnutridas pedem pelas ruas, fazem malabarismos nos sinais, dormem nas calçadas, nas marquises; bebês nos braços das supostas mães servem de munição para o terrorismo emocional; meninos cometem pequenos furtos para sustentar o vício em drogas; meninas se prostituem para sustentar o vício em drogas. Manchetes que não vendem jornais.

Sábado, 18 de Abril de 2009

KELVIN PROFUNDO E A MULHER MODERNA

Caminhava pelo centro da cidade, à noite e meio apressado, quando uma mulher se aproximou e me ofereceu seus serviços de “Kelvin Profundo sem embalagem e sem arrependimento por vinte conto” – como se fosse uma dessas panfletistas que ocupam a calçada divulgando empréstimos, cursos e exames médicos. Despertada a curiosidade parei para perguntar sobre o que se tratava e didaticamente ela me explicou, acariciando meu ombro numa tentativa vã e desajeitada de sedução, que Kelvin Profundo nada mais era do que a prática requentada da outrora célebre Garganta Profunda, com direito a ejacular goela abaixo (daí o “sem embalagem” do comercial). Não demonstrando surpresa agradeci e recusei, o que ocasionou um muxoxo de criança mimada, e sem perder tempo renegociando comigo passou naturalmente para outro possível cliente. (Depois descobri que Kelvin é uma corruptela de “quer vim”, modismo no calçadão de Copacabana). Já em casa, durante o intervalo do futebol nosso de quarta-feira, me deparei com o canal GNT e o programa “Saia Justa”, onde Mônica Waldvogel, Betty Lago, Maitê Proença e Márcia Tiburi, representantes da mulher moderna e de um mundo perfeito sem clichês masculinos, devidamente acomodadas num sofá, dissertam descontraidamente sobre comportamento, tendências e atualidades. Tudo no seu lugar, embora tenha me incomodado que o patrocinador seja o Caldo Knorr, símbolo do arquétipo da dona de casa ideal – ao lado do Bombril e de qualquer anúncio de margarina. Num exercício desnecessário de imaginação tentei, com muito esforço, visualizar a mulher que encontrei na rua sorridente e de avental numa cozinha branca cheia de luz natural ou o Kelvin Profundo patrocinando o programa, com direito a filme ilustrativo e slogan com duplo sentido. Porém começou o 2º tempo.

Quinta-feira, 16 de Abril de 2009

9ª BIENAL DO LIVRO DA BAHIA
(PRAÇA DE CORDEL E POESIA)

17 a 26 de abril
CENTRO DE CONVENÇÕES DA BAHIA

Dia 23 (quinta-feira)

20h 20min - POESIA
Elizeu Moreira Paranaguá
Vânia Melo
Herculano Neto

Terça-feira, 14 de Abril de 2009

REVOLVER (2005)


“Os amigos estão próximos,
mas o inimigo está mais próximo.”
Estrada para o Suicídio

Segunda-feira, 6 de Abril de 2009

TUDO O QUE EU SEMPRE QUIS DIZER SOBRE CERVEJA

Gosto de cerveja. Cerveja escura, chopp de vinho, bock, flavorizadas. Gosto de beber sozinho, com aquela indiferença que aprendi a carregar nos olhos. No bar minha cerveja é no balcão, estilo copiado de filme americano: long neck, sem copo. Detesto copos. Nunca me deixo acompanhar à mesa, a garrafa de 600 ml no centro, gargalhadas, futebol, mulheres, samba - tudo previsivelmente ritualístico me repele. Recuso com destreza convites, um intelectualoide à mesa é pior que cerveja quente. Sempre acreditei que quem compartilha cerveja não gosta de cerveja, gosta de jogar conversa fora, e eu não desperdiço nada, sequer conversa. (Parafraseando Cazuza: quando eu estiver bebendo não se aproxime). Minha cerveja não desce redondo, redonda nem redondamente, ela fica no caminho, é um engano, um desvio de rota, um atraso, tráfego. Minha cerveja ignora a noite fria e reduz o meu domingo a um marasmo ainda maior. Minha cerveja não protagoniza o anúncio da tv, não enfeita o cartaz da gostosa fabricada na tela do designer, não patrocina a alegria com prazo de validade. Minha cerveja não tem happy hour, apenas dias de infelicidade. Sem moderação, sem interação, sem folia, sem slogans. Minha cerveja não é praia, é pub; não é celebridade, é Bukowski.

Sábado, 4 de Abril de 2009

MUITO TRABALHO E NENHUMA DIVERSÃO FAZEM DE JACK UM GAROTO ESTÚPIDO

Quarta-feira, 1 de Abril de 2009

CALYPSO E O NOBEL DA PAZ

Nunca entendi a utilidade, nem mesmo simbólica, do Prêmio Nobel da Paz. Sempre me soou excêntrico, distante, político e pouco prático – e irônico pelo fato de ser o inventor da dinamite o sueco Alfred Nobel. De acordo com as normas o prêmio deveria distinguir a pessoa ou organização que tivesse feito a maior/melhor ação pela fraternidade entre as nações, no entanto o Brasil trata a premiação como se fosse uma competição esportiva, assim como fez com a escolha do papa. Não faz muito tempo que o presidente Lula, Xuxa e Pelé desejaram conquistar o prêmio; agora o Comitê da Paz do Estado do Pará indicou o grupo Calypso “por seu relevante trabalho humanitário em prol dos carentes da região norte”. As batidas que costumo dar com minha cabeça na parede após as derrotas do Bahia devem ter causado algum dano ao meu cérebro, pois não me surpreendi nem um pouco. Deve ter sido porque sua vocalista foi eleita uma das mulheres mais sexy do país e seu parceiro um dos melhores músicos em atividade – opinião, inclusive, de Herbert Vianna. Não quero maliciosamente, e covardemente, comparar os paraenses a laureados como Nelson Mandela, Madre Teresa de Calcutá ou Martin Luther King, não seria justo. No máximo colocá-los no mesmo balaio que Al Gore, Jimmy Carter, Kofi Annan e Mikhail Gorbachev – que já tiveram seu momento de representantes da paz mundial, porém com menos molejo. Mas se a dançarina Carla Perez e o seu constrangedor (adjetivo menos desrespeitoso que encontrei) “Cinderela Baiana”, tentou a candidatura brasileira à disputa do Oscar em 1998, então não há mal algum a Joelma e Chimbinha aspirarem ao Nobel.

Quarta-feira, 25 de Março de 2009

CINEMA DE SHOPPING

Definitivamente, quem vai ao cinema no shopping não vai ao cinema, vai ao shopping e passa pelo cinema como se passasse em mais uma loja. Ainda na fila é perceptível a desinformação e durante a sessão é evidente o desinteresse.

Quinta-feira, 19 de Março de 2009

THE DARK SIDE OF DENDÊ

Tenho o hábito de começar a leitura dos jornais a partir dos segundos cadernos, mesmo que as notícias culturais não mereçam ultimamente tanto privilégio, assim como leio as revistas semanais sempre do final para o início, quase como um mangá. Uma nota chamou minha atenção recentemente, antes até de ler a tira do Dilbert: TRIBUTO AO PINK FLOYD EM SALVADOR. Não nego meu entusiasmo ainda no título, afinal o Pink Floyd, ao lado do Led Zeppelin e do Black Sabbath, formava a santíssima trindade da minha inquietude, seres acima do bem e do mal, que encerravam discussões. Porém, ao continuar a leitura meu entusiasmo se transformou em estupefação, que passou para incredulidade e culminou numa gargalhada de incomodar vizinhança quando descobri que o show seria com os vocalistas das bandas Eva, Asa de Águia, mais o repaginado Luiz Caldas. Não era primeiro de abril, homônimos nem brincadeira de programa de tv. Era show com hora e data marcadas, ingresso pago e divulgação. Ainda com o jornal nas mãos liguei para uma amiga e contei a novidade em tom de galhofa, apenas pra animar o domingo. Ela me repreendeu dizendo que eu estava sendo muito cruel, que eles poderiam ter o mesmo passado rocker que eu tive e que antes de conceber minha sentença definitiva deveria dar um pouco de crédito aos músicos baianos, o que me fez, glup, abaixar a cabeça e escantear o preconceito. Mas ao imaginar Durval Lelys, com a aba do boné virada para trás no melhor estilo Sérgio Mallandro, tentando cantar um clássico do calibre de “Wish You Were Here” com direito a “quero ver as mãozinhas galera” um riso sórdido inevitavelmente encontra um canto de boca.

Segunda-feira, 16 de Março de 2009

por que você faz poema?

para dizer sem dizer
e irritar quem não me entende
(quem me detesta
mas esmiúça minha palavra)

para alentar meu público fiel
meu público efêmero

para exibir minha verve
em troca do elogio oco
do pouco-caso

para que os conhecidos
busquem meus enganos nas entrelinhas
e os desconhecidos espelho na minha farsa

para transformar minha frase em verso
meu verso em canção
cartão-postal
epígrafe
tatuagem
epitáfio
sacada genial

“para chatear os imbecis”

Herculano Neto

Para Joaquim Pedro de Andrade

Quinta-feira, 5 de Março de 2009

CADÊ A DALILA, MORAL?

Não sou um misantropo que assiste à vida e à banda passar, mas é quase impossível manter-se indiferente (com dificuldade apenas a pose) ao carnaval. Moro em Salvador praticamente no intitulado “circuito da folia” e se pela tv é um belo espetáculo é porque não há cheiros nem insegurança. Pouco me convence aqueles que dizem que vão para a avenida em busca de bocas ansiosas ou as teorias apaixonadas e antropofágicas do senhor Caetano Veloso. Carnaval para mim não passa de mais um feriado. Durante os festejos ouvi à revelia, e sem reclamar, Ivete Sangalo e sua Dalila incessantemente, e não adianta argumentar que música de carnaval é somente mera diversão no melhor estilo “eu me remexo muito” de Madasgacar - meu bom senso não costuma requebrar. No entanto o carnaval já terminou e continuo ouvindo Dalila por todo lado: de nome de recém-nascido a batismo de virose. Um amigo me disse numa conversa de bar que Dalila era gíria para droga e que “vá buscar Dalila ligeiro” nada mais era do que o sujeito na bruxa mandando alguém fazer um avião. Sei que conversa de bar não se leva pra casa, porém na última semana ao ouvir no ônibus um indivíduo mais do que mal encarado perguntar para outro idem “cadê a dalila, moral?” já não estou bem certo.

Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2009

MICKEY ROURKE

Sei que a Academia de Hollywood adora premiar filmes sobre superação, redenção, expiação, etc... Talvez por isso, mas não só por isso, acreditei que Mickey Rourke ficaria com a estatueta de melhor ator – o que me deixou dez reais mais pobre devido a uma aposta perdida. Transitando sem excessos entre o real e a ficção, sua interpretação contida em “O Lutador” me convenceu mais do que os trejeitos histriônicos de Sean Pean (apesar de ser um excepcional ator seu Harvey Milk me diz menos do que Heath Ledger em Brokeback Mountain). Para quem cresceu vendo Mickey Rourke nas sessões da madrugada em clássicos instantâneos como “Coração Satânico” e, principalmente, “O Selvagem da Motocicleta” fica difícil manter a indiferença ao vê-lo agora: esquivando-se de um clichê aqui e outro ali e divertindo-se sem culpa ao som de um bom e descompromissado metal farofa. Se ele merecia o Oscar ® ou não pouco importa (fica a discussão apenas para a mesa do bar). E ainda havia a belíssima canção de Bruce Springsteen, “The Wrestler”, que premiada com o Globo de Ouro foi completamente ignorada pela Academia – que adora musicais da Disney e afins.

Quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2009

BORA BAÊA!

Time se escolhe.
Mas a nítida sensação é que eu já nasci tricolor, muitos torcedores dirão igualmente, e não é apenas frase de efeito: é realidade. Se me perguntarem jamais conseguirei determinar exatamente quando passei a torcer – só sei que torcia.
Na tarde de 19 de fevereiro de 1989, aos dez anos, aguardava ansioso pela transmissão da final do campeonato brasileiro do ano anterior (entre Internacional de Porto Alegre e Bahia da Bahia mesmo). A espera era solitária. Meus amigos e meu irmão eram mais jovens do que eu e da bola só queriam o baba; meu pai, torcedor do Vitória, pertencia ao grupo dos descontentes e naquela tarde, antes de sair pra trabalhar, me incumbiu de colocar a areia que estava na rua desde a manhã passada para o quintal. Deixei a tarefa para ser cumprida após a partida – a construção não tinha pressa.
Pouco antes de começar o jogo meu tio Rui, rubro negro fanático, chegou discretamente em sua cadeira de rodas e se ajeitou do lado de fora, de onde podia assistir sem incomodar ou ser incomodado – ficou em silêncio e assim foi embora.
Bahia campeão. A imagem do goleiro Ronaldo agradecendo aos céus e minha mãe desligando a televisão:
- Vai fazer o que teu pai mandou!
Ok, manda quem pode e, embora não pareça, nunca me faltou juízo.
Enquanto carregava um balde caindo aos pedaços, cheio de areia, acompanhava o espocar dos fogos e os gritos de euforia dos torcedores que não paravam de multiplicar. Num momento de distração feri meu punho no alumínio do balde e ainda tive de ouvir de minha mãe alguns impropérios antes dela isolar o ferimento com uma faixa feita de tiras de pano.
Ainda trago a cicatriz.

Sábado, 14 de Fevereiro de 2009

CINE-TEATRO SÃO PEDRO

Inaugurado em 12 de agosto de 1865 em Santo Amaro (BA), e considerado o segundo principal teatro da Bahia, o Teatro São Pedro era uma cópia fiel do Teatro São João, na capital do estado. Situado na Praça do Rosário (onde hoje se encontra o hospital), o São Pedro pertencia a um grupo de intelectuais santamarenses, idealistas que conseguiram arrecadar dezesseis mil réis e ergueu um dos mais belos monumentos arquitetônicos já existentes em Santo Amaro. O Teatro São Pedro tinha 60 palmos de largura por 140 de comprimento, o seu pano de boca representava a alegoria “O Florestamento do Brasil” e seu palco media 44 palmos de fundo por 34 de largura. A platéia continha cerca de 200 cadeiras de palhinha bem cômodas. No primeiro pavimento havia 20 camarotes e no segundo uma bela varanda que acomodava 210 pessoas, além de um grande salão de recreio e um saguão de entrada que tinha de cada lado salas que vendiam lanches e bebidas. Sua iluminação era a gás carbônico. Grandes companhias líricas, dramáticas e operetas se exibiram com sucesso porque satisfaziam as exigências de uma platéia culta e refinada. Após passar por uma enorme reforma o Teatro São Pedro tornou-se Cine-Teatro (novidade absoluta na época) e reabriu suas grandes portas envidraçadas ao público, inaugurando suas novas instalações com o filme “Bombeiros Improvisados” na noite de 02 de outubro de 1910, um domingo. Mas por uma fatalidade, ou cruel ironia, o teatro foi tomado pelas chamas e destruído em poucas horas, transformando seus espectadores em verdadeiros bombeiros improvisados. Desaparecendo, dessa forma, o imponente Teatro São Pedro em uma data trágica para a cultura de Santo Amaro. Nas décadas seguintes, conforme se observa nos antigos periódicos santamarenses, tentou-se sem êxito a restauração do teatro, bem como a construção de uma nova casa de espetáculos na cidade.

TEATRO SÃO JOÃO (SALVADOR)

Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2009

RIO SUBAÉ (2009)

(CLIQUE NA IMAGEM PARA AMPLIAR)
RIO SUBAÉ (SANTO AMARO - BA)
MANHÃ DE 01 FEV 2009
FOTOGRAFIA HERCULANO NETO

Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009

CASA DE TAIPA

Na antiga vila em que meus avós moravam havia um compromisso tácito, um tipo de acordo comunitário, onde todos se ajudavam – uma organização social sonhada por teóricos, mas praticada por indivíduos simples. Na construção das casas de taipa, por exemplo, homens e mulheres tinham funções distintas, enquanto as pessoas mais velhas pisavam o barro entoando cantos, ditando o ritmo do trabalho, as mulheres passavam aos homens os montes de massa para ser socado entre as estacas, tudo regado com muito samba e alegria. Numa época de costumes rígidos e recato a entrega do barro possuía um simbolismo próprio, uma espécie de rito de passagem: para quem a mulher entregasse mais barro era como se ela também se ofertasse, como se ela dissesse que estava pronta, era um momento disputado, quando ela escolhia seu parceiro. Meus avós, que cresceram juntos, decidiram que seriam um do outro na construção da casa de uma tia-avó que não conheci, surpreendendo muitos.
Vivi meus primeiros anos numa casa de taipa bem pequena, embora sempre a recordo maior do que foi. Da parede perto da minha cama, certa feita, caiu um pouco de barro e surgiu uma fenda, que se transformou num buraco – era a minha janela. Do buraco observava o terreno baldio onde brincavam os cães. Numa manhã chuvosa, improvisando com plástico preto, meu pai fechou o buraco. Não há um único dia, ao apertar o número 6 do elevador, que eu não lembre da casinha de taipa e da janela dos cães.

Terça-feira, 27 de Janeiro de 2009

O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON

Benjamin nasceu velho. Um bebê idoso que vai progressivamente rejuvenescendo – no ritmo contrário da vida, mas não da morte. (Emula um pouco o mito de Obaluaê ao ser abandonado pelo pai e se tornar um Brad Pitt no esplendor de sua beleza na idade adulta). Também conheço pessoas que nasceram velhas, ou que parecem ter nascido velhas. Com suas ideias caducas são avessos às mudanças e à novidade. Num conservadorismo puritano empunham bandeiras gastas como a da “moral e dos bons costumes”, posando de baluartes da sociedade. Igualmente conheço pessoas que, diferentemente de Benjamin, parecem retroceder a cada dia, sempre mais imaturas e infantis, que não valem sequer uma simples conversa, além de outras que vivem numa eterna adolescência. Acho triste quando vejo uma criança travestida de adulto em algum programa de TV, e não me importo se é “prodígio” ou “madura demais para a idade”, para mim é apenas uma criança. E ainda há aquelas pessoas que tentam desesperadamente evitar o inevitável, com laser, peeling, botox, cremes, fórmulas mágicas de clínicas estéticas e cirurgiões de anúncios classificados. Alguém precisa dizer para elas que para manter o espírito jovem não é necessário academia.