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sexta-feira, 4 de junho de 2010

“A MINHA ALMA NUA”

Houve um tempo em que eu tinha desistido de mim, não sabia o que era a luz do dia nem alimento que não fosse bebido, injetado ou aspirado. Quis cair de boca na boca da noite e acabei caindo nos dentes da Boca do Rio. Era requisitado pelos playboys da Pituba, pois constava sempre a massa boa, "a de qualidade". Curtia a noite até a última ponta: suas dores; seus atalhos; seus clichês; suas miragens. Até conhecer Pérola, uma negra de porte altivo e cabelos de nylon, que realizava um trabalho social com as prostitutas e travestis afrodescendentes da orla. Eu era útil para ela porque sabia o ponto e o nome de todas, algumas até o nome de batismo. Cheia de revolta e ideais socialistas, me fascinou seu discurso caduco, suas vestes de princesa africana e sua idolatria por Omolu, "o que mata sem faca". (Pérola era o arco-íris de Madagascar). Seu conceito de igualdade pouco se chocou com meu desencanto humanitário. Foi minha pele parda, de mestiço do Recôncavo, que não combinava com a dela - que me considerava muito branco para o seu universo.


REFERÊNCIAS

- O título do conto é um verso da canção ALEGRIA DA CIDADE (Lazzo/ Jorge Portugal), gravada pela cantora Margareth Menezes em 1988: “A minha pele de ébano é a minha alma nua”;- “Eu sou o arco-íris de Madagascar” é parte da canção MADAGASCAR OLODUM (Rey Zulu), emblemático sucesso da extinta Banda Reflexu’s em 1987;
- Omolu é um orixá africano cultuado nas religiões afrobrasileiras que o tem como o Senhor da Morte. “O que mata sem faca” é um epíteto utilizado pelo escritor João Ubaldo Ribeiro em VIVA O POVO BRASILEIRO, publicado em 1984;
- Boca do Rio e Pituba são bairros, aparentemente, da orla marítima de Salvador;
- O Recôncavo baiano é a região geográfica localizada em torno da Baía de Todos os Santos;
- Modelo da fotografia: não sei;
- Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança terá sido apenas semelhança.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

DEU SAUDADE

Deu Saudade
(Roberto Mendes/ Herculano Neto)

Eu vou embora eu aqui num fico mais
(Eu vou embora eu aqui num fico mais)
Porque deu saudade, ai ai
(Porque deu saudade, ai ai)

Que dor minha mãe
Que dor minha mãe
Que dor minha mãe, que dor...
(É porque deu saudade)

Eu vou embora, minha mãe eu vou
Eu vou embora, vou rever o meu amor

Eu vou embora
Nem que seja de bonde
Nem que seja de barco
Nem que seja a pé
(Porque deu saudade).

Eu vou minha mãe
Eu vou minha mãe
Eu vou minha mãe (eu vou)

Quer ir mais eu vâmo
Quer ir mais eu vombora
(Porque deu saudade, ai ai)


Outro dos meus trabalhos musicais. Agora é Alcione que interpreta essa canção ao lado do baiano Roberto Mendes, uma composição que mais parece um pout-pourri devido às suas muitas possibilidades de refrão. Lançada em 2008 no disco CIDADE E RIO, pela gravadora Biscoito Fino, e regravada em 2009 pelo cantor pernambucano Gonzaga Leal.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

44200 (ZERO ZERO ZERO)

          Nasci em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano (acho que já iniciei um poema ou alguma crônica assim), a cerca de uma hora da capital. Cedo me vi sem alternativas e encarei a BR-324 no lombo da autoviação Camurujipe em busca de alguns caraminguás, desde então passei a aparecer somente nos finais de semana ou feriados, ato repetido por muitos estudantes e trabalhadores que não encontram perspectivas em seu torrão. Mas fatalmente, na segunda-feira antes de embarcar de volta, a cidade tinha aquele gosto e cheiro de ressaca que, mais do que natural, acreditava muitas vezes ser literal. Nunca me importei com isso.
           Com o passar do tempo, e a adaptação à nova realidade, essas visitas foram se tornando cada vez mais esporádicas. Para alívio de uns e angústia de outros. Santo Amaro, como muitas cidades do interior, possui suas idiossincrasias e lógica própria; um microcosmo onde poucos são convidados a interagir (e os que tentam confrontam-se com a maledicência e a presunção).
           Recentemente me deparei com uma cidade silenciosa, com jeito de fim de festa. O gosto e o cheiro da ressaca ainda estavam lá, mesmo sendo quarta-feira. O calor batia no deserto de suas ruas e resvalava furiosamente no meu rosto, em muito lembrando a cidade fantasma de um antigo faroeste, faltando para completar o quadro apenas o monte de feno cruzando a avenida (cenário digno de Raul Seixas em “O DIA EM QUE A TERRA PAROU”). Tentei recordar como era a vida quando eu morava ali, porém não obtive sucesso. Por mais que eu escarafunchasse nas gavetas da memória só encontrei polaroids desbotadas. Melhor assim, não poderia, levianamente, me justificar na nostalgia.
           Não sei se mudei ou se a cidade mudou, só sei que também me senti vazio.
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