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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

44200 (ZERO ZERO ZERO)

          Nasci em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano (acho que já iniciei um poema ou alguma crônica assim), a cerca de uma hora da capital. Cedo me vi sem alternativas e encarei a BR-324 no lombo da autoviação Camurujipe em busca de alguns caraminguás, desde então passei a aparecer somente nos finais de semana ou feriados, ato repetido por muitos estudantes e trabalhadores que não encontram perspectivas em seu torrão. Mas fatalmente, na segunda-feira antes de embarcar de volta, a cidade tinha aquele gosto e cheiro de ressaca que, mais do que natural, acreditava muitas vezes ser literal. Nunca me importei com isso.
           Com o passar do tempo, e a adaptação à nova realidade, essas visitas foram se tornando cada vez mais esporádicas. Para alívio de uns e angústia de outros. Santo Amaro, como muitas cidades do interior, possui suas idiossincrasias e lógica própria; um microcosmo onde poucos são convidados a interagir (e os que tentam confrontam-se com a maledicência e a presunção).
           Recentemente me deparei com uma cidade silenciosa, com jeito de fim de festa. O gosto e o cheiro da ressaca ainda estavam lá, mesmo sendo quarta-feira. O calor batia no deserto de suas ruas e resvalava furiosamente no meu rosto, em muito lembrando a cidade fantasma de um antigo faroeste, faltando para completar o quadro apenas o monte de feno cruzando a avenida (cenário digno de Raul Seixas em “O DIA EM QUE A TERRA PAROU”). Tentei recordar como era a vida quando eu morava ali, porém não obtive sucesso. Por mais que eu escarafunchasse nas gavetas da memória só encontrei polaroids desbotadas. Melhor assim, não poderia, levianamente, me justificar na nostalgia.
           Não sei se mudei ou se a cidade mudou, só sei que também me senti vazio.
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