segunda-feira, 29 de março de 2010

PONTO CEGO

ponto cego*
Herculano Neto

cansei dos olhos
do brilho falso dos olhos
dos cabelos tingidos dos olhos

cansei

cansei do olhar
do desvio do olhar
do branco vestido do olhar
de me cansar



*Um poema ingenuamente dramático esquecido na gaveta da adolescência entre fotos e outros papéis. Ilustrado com os olhos de Zooey Deschanel e um novo título.

quarta-feira, 24 de março de 2010

A VINGANÇA DOS INTITULADORES

          Quem acompanha cinema conhece os filmes antes deles serem lançados no Brasil, por isso é comum escutar algum cinéfilo, não por esnobismo, pronunciar o título na língua original. Este ano alguns filmes que concorriam ao Oscar® me chamaram a atenção não pela obra, mas pela denominação que ganharam por aqui. Fiquei impressionado com a criatividade dos departamentos de marketing das distribuidoras brasileiras, que conseguiram transformar “The Blind Side” em UM SONHO POSSÍVEL, “Up in The Air” em AMOR SEM ESCALAS e, acredite, “A Single Man” no novelesco DIREITO DE AMAR. Sei que filme é um produto e que deve ser vendido da melhor forma, mas não precisa tripudiar a inteligência do espectador com inusitadas criações – que confundem mais do que explicam e até afugenta e engana parte do público. Não estou a fazer campanha para o uso dos títulos originais nem para a tradução literal, mesmo porque alguns são de difícil pronúncia e outros são intraduzíveis ou ininteligíveis, apenas queria que houvesse um pouco de bom senso e tentassem ao máximo preservar seu sentido. Na maioria das vezes os funcionários desses departamentos sequer assistem aos filmes, apenas se valem da sinopse e palavras chave. Termos como: do barulho, da pesada, confusão, em apuros, fatal, uma família, segredo, vingança, surpresa, atrapalhada, loucura, mortal, entre outros, estão sempre na mesa. Parece até que as palavras são sorteadas e o resultado é o nome do filme. Não me surpreenderia se eu encontrasse numa prateleira de locadora algo como UMA VINGANÇA DA PESADA ou LOUCURA MORTAL (se é que já não existem). Expressões populares também fazem a alegria desses profissionais, daí “The Heartbreak Kid” transfigurar-se em ANTES SÓ DO QUE MAL CASADO, “Knocked Up” virar LIGEIRAMENTE GRÁVIDOS e “Uncle Buck”, QUEM VÊ CARA NÃO VÊ CORAÇÃO. Experimente observar o título original do próximo filme a que assistir e é quase certo que encontrará algo inacreditável, vide “Shane” (OS BRUTOS TAMBÉM AMAM), “Bonnie and Clyde” (UMA RAJADA DE BALAS), “The Graduate” (A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM) “The Giant” (ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE), “West Side Story” (AMOR, SUBLIME AMOR) ou “Total Recall” (O VINGADOR DO FUTURO). Se o tempo tornou aceitável esses o que dizer de “Fly me to the Moon” (OS MOSCONAUTAS NO MUNDO DA LUA), “Zack and Miri Make a Porno” (PAGANDO BEM QUE MAL TEM) e “The Hangover” (SE BEBER, NÃO CASE)? Além dos casos de “Down by Law” que foi abrasileirado para DAUNBAILÓ e “Taxi Driver” que ganhou e perdeu o epíteto MOTORISTA DE TAXI. Já “Ocean’s Eleven” se tornou ONZE HOMENS E UM SEGREDO, pior foi em Portugal que o rebatizaram como FAÇAM AS VOSSAS APOSTAS (“Vertigo”, um dos muitos clássicos do mestre Hitchcock, que aqui é UM CORPO QUE CAI virou A MULHER QUE VIVEU DUAS VEZES para os portugueses).
           Os professores de gramática poderiam utilizar esses títulos em suas aulas, um exemplo de paradoxo seria MEU PRIMEIRO AMOR 2, de pleonasmo O PEQUENO STUART LITTLE e de cacófato FÉ DEMAIS NÃO CHEIRA BEM. É raro, mas há vezes em que a versão brasileira é melhor que a original, como “The Shawshank Redemption” (UM SONHO DE LIBERDADE), o oscarizado “Million Dollar Baby” (MENINA DE OURO) ou o filme de 1986 com Anthony Hopkins e Anne Bancroft sobre a longa correspondência entre dois desconhecidos, cujo título original é o endereço de uma livraria (“84, Charing Cross Road”) que no Brasil gerou o suspirante NUNCA TE VI, SEMPRE TE AMEI.
           Por brincadeira resolvi submeter a denominação do meu blog, POR QUE VOCÊ FAZ POEMA?, ao departamento de marketing de uma famosa distribuidora, juntamente com as palavras chave POESIA, CINEMA e INTERSECÇÕES, alegando que eu era um produtor e pretendia divulgar por aqui essa nova comédia argentina. Surpreendentemente, duas semanas depois, recebi a inspirada sugestão: DEU A LOUCA NA POESIA.

sexta-feira, 19 de março de 2010

INÉDITO & DISPERSO

inédito & disperso
Herculano Neto
-
publicado deixei de ser inédito
mas esse espírito disperso
esse
é impublicável

quarta-feira, 10 de março de 2010

A COR DO MENINO



A COR DO MENINO 
(Milton Primo/ Herculano Neto)
 

Se é negro, branco ou índio
O que importa a cor do menino?

Se é mulato ou se é pardo
O que importa se for misturado?

Se é verde, amarelo ou vermelho
O que importa o que diz o espelho?

Se é ruivo ou se é loiro
O que importa a cor do seu olho?

Se ele é branco ou não
Se ele é negro ou não
O importante é o seu coração
(O importante é que ele é meu amigo).


Canção infantil que faz parte do disco/livro PAPOS D’VERSOS, que será distribuído este ano na rede municipal de ensino de Salvador (BA)

segunda-feira, 8 de março de 2010

MANHÃ DE SEGUNDA-FEIRA

           Domingo é dia de futebol (até quem não gosta do esporte bretão sabe disso). No domingo são disputados os grandes jogos, as grandes batalhas. Domingo é dia de ir ao estádio, de estender a bandeira na janela, de lavar o carro escutando o hino do seu time. Domingo é dia de remarcar compromissos, de não marcar compromissos, de bater ponto na frente do televisor, de sintonizar o radinho na resenha esportiva. Domingo é dia de torcer, se enfurecer, se decepcionar, xingar a mãe alheia. Mas, principalmente, é dia de festa, de êxtase, de epifania (domingo também é dia de ir à igreja, mas só é sagrado por causa do futebol).
           Caderno de esportes, campeonatos europeus, jogos ao vivo, mesa redonda, gols da rodada, artilheiro pedindo música... É tanta bola no domingo que chega a ser insuficiente suas vinte e quatro horas, talvez por isso o futebol avance sem pudores pela manhã de segunda-feira – que começa no cumprimento do porteiro; passa pelo papo informal na padaria; pelas manchetes dos jornais nas bancas de revista; pela diversidade colorida dos uniformes dos clubes ostentados com orgulho pelas ruas; pela conversa animada na barbearia; pelos pontos de ônibus, praças, escritórios, construção. O grito do gol de ontem ecoa sem cessar, para a alegria sem fim de uns e dor de cabeça de outros. Aliás, para quem perde, a manhã de segunda-feira é assustadoramente longa - e chuvosa mesmo com sol. O cafezinho na repartição é mais amargo, não se folheia jornais nem se assiste à tv, ouve-se calado o gracejo vingativo do colega e conta-se os minutos para que o dia termine ou que logo chegue a próxima segunda. O certo é que a segunda-feira é dia de comemorar, dia de deixar o riso fácil ganhar o rosto; dia de rememorar, de tirar sarro do adversário; dia de estender o horário do almoço até o final do último programa esportivo só para rever os melhores momentos como se fosse a primeira vez – com direito a nova reclamação da arbitragem. Na segunda não há mais tensão, apenas alívio e certezas.
           Enfim, o futebol pode ser casado com o domingo e dormir fora na quarta, mas a manhã de segunda-feira ainda é sua melhor amante.

terça-feira, 2 de março de 2010

O SEU RETRATO


o seu retrato
Herculano Neto

o seu retrato já não
me incomoda
o seu sorriso já não
me incomoda
o seu perfume já não
me incomoda
sua lembrança já não
me distrai


Escute o poema recitado
pelo autor no PALCO MP3.



sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

A FITA BRANCA

          Um grande filme é grande em qualquer lugar, até no visor do telefone celular, mas alguns são ainda maiores na tela do cinema: é o caso de A FITA BRANCA (Das Weisse Band, 2009) do diretor austríaco Michael Haneke (“Violência Gratuita”, “Caché” e “A Professora de Piano”). Rodado originalmente em cores, embora o diretor de fotografia Christian Berger afirme que a iluminação tenha sido pensada em preto e branco, resultou, realmente, num belíssimo trabalho – com sua neve que de tão branca chega a doer os olhos, como diria o professor que narra a história.
           A fita branca do título é utilizada pelo pastor local para simbolizar a inocência em seus filhos, que na verdade são muito cruéis. O subtítulo original, Uma História de Crianças Alemãs, já destaca a participação do ótimo elenco infanto-juvenil, com traços e presença fortes, fundamental no desenvolvimento da trama que tem início com a queda de um médico, literalmente, do cavalo, que desencadeia uma série de atos violentos num vilarejo alemão pouco antes da I Guerra Mundial.
           Muito se discute se o filme faz alusão à gênese do nazismo, como seu autor, Michael Haneke, não se manifesta a respeito cabe ao espectador suas próprias conclusões - mas quem conhece sua obra sabe que o diretor não costuma oferecer respostas fáceis nem conforto ao público. A câmera estática, a ausência de cor, de estrelas hollywoodianas e de trilha musical, por exemplo, devem ter provocado algum incômodo no crítico de cinema Rubens Ewald Filho (que se está longe de ser um dos melhores do país, certamente é um dos mais conhecidos), que na transmissão do Globo de Ouro disse que o filme é chato e pretensioso, para intelectuais saírem do cinema fingindo que entenderam (talvez por ter gostado bastante de A FITA BRANCA eu não entenda muito sobre cinema ou ele não entenda muito poesia). Indicado ao Oscar® de filme estrangeiro, A FITA BRANCA já conquistou a Palma de Ouro e o prêmio da crítica em Cannes, além de outras premiações.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

POR QUE VOCÊ FAZ POEMA?


por que você faz poema?
Herculano Neto

para dizer sem dizer
e irritar quem não me entende
(quem me detesta
mas esmiúça minha palavra)

para alentar meu público fiel
meu público efêmero

para exibir minha verve
em troca do elogio oco
do pouco-caso

para que os conhecidos
busquem meus enganos nas entrelinhas
e os desconhecidos espelho na minha farsa

para transformar minha frase em verso
meu verso em canção
cartão-postal
epígrafe
tatuagem
epitáfio
sacada genial

“para chatear os imbecis”


POR QUE VOCÊ FAZ CINEMA?*
Para chatear os imbecis / Para não ser aplaudido depois de sequências dó-de-peito / Para viver à beira do abismo / Para correr o risco de ser desmascarado pelo grande público / Para que conhecidos e desconhecidos se deliciem / Para que os justos e os bons ganhem dinheiro, sobretudo eu mesmo/ Porque, de outro jeito, a vida não vale a pena / Para ver e mostrar o nunca visto, o bem e o mal, o feio e o bonito / Porque vi Simão no Deserto / Para insultar os arrogantes e poderosos, quando ficam como cachorros dentro d’água no escuro do cinema / Para ser lesado em meus direitos autorais.

*(Joaquim Pedro de Andrade. In: Pourquoi filmez-vous? Paris: Libération, maio de 1987)



quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

44200 (ZERO ZERO ZERO)

          Nasci em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano (acho que já iniciei um poema ou alguma crônica assim), a cerca de uma hora da capital. Cedo me vi sem alternativas e encarei a BR-324 no lombo da autoviação Camurujipe em busca de alguns caraminguás, desde então passei a aparecer somente nos finais de semana ou feriados, ato repetido por muitos estudantes e trabalhadores que não encontram perspectivas em seu torrão. Mas fatalmente, na segunda-feira antes de embarcar de volta, a cidade tinha aquele gosto e cheiro de ressaca que, mais do que natural, acreditava muitas vezes ser literal. Nunca me importei com isso.
           Com o passar do tempo, e a adaptação à nova realidade, essas visitas foram se tornando cada vez mais esporádicas. Para alívio de uns e angústia de outros. Santo Amaro, como muitas cidades do interior, possui suas idiossincrasias e lógica própria; um microcosmo onde poucos são convidados a interagir (e os que tentam confrontam-se com a maledicência e a presunção).
           Recentemente me deparei com uma cidade silenciosa, com jeito de fim de festa. O gosto e o cheiro da ressaca ainda estavam lá, mesmo sendo quarta-feira. O calor batia no deserto de suas ruas e resvalava furiosamente no meu rosto, em muito lembrando a cidade fantasma de um antigo faroeste, faltando para completar o quadro apenas o monte de feno cruzando a avenida (cenário digno de Raul Seixas em “O DIA EM QUE A TERRA PAROU”). Tentei recordar como era a vida quando eu morava ali, porém não obtive sucesso. Por mais que eu escarafunchasse nas gavetas da memória só encontrei polaroids desbotadas. Melhor assim, não poderia, levianamente, me justificar na nostalgia.
           Não sei se mudei ou se a cidade mudou, só sei que também me senti vazio.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

OUTRO CARNAVAL

outro carnaval
Herculano Neto

sou uma porta-bandeira
sem samba-enredo
sem adereço
sem alegria

sou uma porta-bandeira
sem cadência
sem evolução
sem fantasia

sou uma porta-bandeira
sem artifícios
sem cor ou brilho

sem eira nem beira

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

A CASA DA PRAIA

a casa da praia
Herculano Neto

nos encontrávamos
apenas
durante os invernos

(quando era silente
a vida na beira-mar)

hoje os invernos
são restos de sóis
que esmaecem no avarandado


(poema inédito)

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

MANUAL PRÁTICO DO ESCRITOR IMBERBE

Uma garota me abordou hoje no parque, enquanto eu caminhava, e me perguntou, após alguma cerimônia, sobre meu processo criativo. A pergunta não foi original, uma jornalista já havia me perguntado algo semelhante. Solícito, respondi que não possuía segredos, que apenas me dedicava, reverentemente, à leitura e à vida: quem não lê não sabe escrever, e quem não vive não tem o que escrever – mandei um aforismo. Ao desviar os olhos percebi que ela ficou decepcionada, imaginei que ela esperava algo mirabolante, uma fórmula mágica óbvia (no melhor estilo Mister M.) ou uma receita de bolo. A resposta pronta foi a mais sincera e educada que encontrei. Deselegante eu seria se dissesse que a literatura, em todas as suas vertentes, deveria ser mais respeitada e menos maculada; que gostar de livros não qualifica ninguém a ser escritor; que escrever deveria sempre ser a última alternativa, mesmo para a alma mais sensível; que o talento é inato e não faz parte do programa semestral de nenhuma faculdade; que diário não é romance e ajuntar versos não é poesia; que entre a caneta e o papel existe um oceano, para alguns o infinito; que modernidade não é sinônimo de má literatura; que só pode transgredir a gramática quem a conhece; que o escritor jamais deixa de estudar; que escrever é um peso e não dá pra arriar o balaio e descansar; que acordo cedo todas as manhãs para bater ponto num trabalho que me consome física e espiritualmente; que tenho compromissos, contas a pagar; que a literatura não coloca pão na minha mesa; que sou arrimo de família; que cozinho minha comida e lavo minha roupa; que abasteço regularmente meus parceiros musicais com letras para canções; que escrevo crônicas para jornais do interior e sites (pelas quais não recebo nenhum centavo); que atualizo meus blogs duas vezes na semana (às vezes mais); que estou escrevendo um livro infantil e outro de contos; que estou reescrevendo o roteiro esquizofrênico de um curtametragem e revisando o romance soteropolitano de um amigo; que escrever é trabalhoso, não é psicografia; que “estou sem tempo” não é justificativa para quem faz o que gosta; que nem todo escrito é publicável; que se pudesse escolher não escreveria; que não poso de celebridade em coquetéis e prefácios; que sou convidado para feiras e bienais, mas nunca me oferecem cachê; que quem precisa de reconhecimento não é o escritor, é a obra; que escrever, para mim, é muito doloroso, me extenua, me absorve, e que mesmo assim jamais será uma obrigação; que escrever é uma necessidade, um vício; que escrever não deve ser válvula de escape ou passatempo; que escrever é estar em queda-livre, num trem sem freios; que muitas vezes me sinto como a dona de casa que cuida dos filhos, do lar, trabalha, estuda e à noite tem que estar perfumada, arrumada, depilada e disponível para um sexo rápido, sem beijos ou preliminares, para um marido que não se esforça para entendê-la e que toca mais o controle-remoto do que suas pernas.
Poderia ter dito tudo isso, mas alguém nos interrompeu.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

ENTRE A RUA DIREITA E A ESTRADA DOS CARROS

entre a rua direita e
a estrada dos carros*

Herculano Neto

revendo os caras
olhando as caras
contemplando cada olho castanho
cada olhar distante
cada ser infame

sorrindo a esmo
esperando reciprocidade
dias melhores
amores menores
sonhos assim

compreendendo cada olhar castanho
cada olho distante


* SOB PRESCRIÇÃO, 2006

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

MUITO ALÉM DO JARDIM

MUITO ALÉM DO JARDIM (Being There, 1979) conta a trajetória de Chance, um jardineiro ingênuo e analfabeto que conhece o mundo apenas pelo que assiste na TV e que depois da morte do seu patrão é obrigado a se deparar com a realidade da vida externa. Interpretado genialmente por Peter Sellers, que ganhou o Globo de Ouro pelo trabalho, Chance vive uma fábula moderna com sua falta de malícia na metrópole, onde suas “metáforas” sobre jardinagem são interpretadas como lições políticas, econômicas e sociais. “Muito Além do Jardim” antecipa o culto à celebridade instantânea, ironiza o lugar de destaque que a televisão ganhou na sociedade, desconstrói mitos e a manipulação promovida pelos meios de comunicação (exemplo emblemático é quando questionado sobre jornais Chance simplesmente responde que não lê, e a repórter imediatamente anuncia para a câmera: "Muitos homens não leem jornal algum, mas apenas um teve coragem de admitir"). Todos tentam entender, sem sucesso, Chance (agentes federais, jornalistas e até o presidente americano) e esse não entender é transportado em sua célebre cena final para o espectador – que, ao querer deduzir o que aconteceu, se vê na mesma situação das demais personagens. MUITO ALÉM DO JARDIM é uma das melhores comédias de todos os tempos, refinada e sem as artimanhas desgastadas do humor físico, tudo habilmente resolvido no texto inteligente e engraçadíssimo. Seria a refilmagem certa no momento certo, mas atores como Jim Carrey, Steve Carell ou Adam Sandler (por mais que já tenham tentado) jamais encontrariam o tom e a cadência de um Peter Sellers – melhor então ficar, até que a indústria apareça, com o original.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

CAIXA-POSTAL

caixa-postal*
Herculano Neto

o meu amor é uma carta que voltou
mas o meu ódio tem endereço certo


(*POEMA PUBLICADO ORIGINALMENTE EM 1999, NO FANZINE “MÃOS MORTAS”, ANTES DE INTEGRAR A ANTOLOGIA “OS OUTROS POEMAS DE QUE FALEI”, PRÊMIO BANCO CAPITAL DE LITERATURA, EM 2004.)


terça-feira, 12 de janeiro de 2010

OS OUTROS

os outros*
Herculano Neto

o sétimo selo
o sexto sentido
o quinto elemento
o quarto poder

a terceira guerra
a segunda chance
à primeira vista

o último dos moicanos


(*POEMA PUBLICADO ORIGINALMENTE NA ANTOLOGIA
"SOB PRESCRIÇÃO" EM 2006)

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

COSTAS NUAS

costas nuas
(Herculano Neto)

o longo vermelho
frente única
não esconde a tristeza
da moça que retoca a maquiagem

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

ZELDA SCOTT SEM TARJA PRETA

O meu dia poderia começar, ao menos uma vez, com um bom riff de guitarra, feito o de “Say What You Will”, da esquecida banda Fastway. Poderia haver também um narrador questionando meus passos, tecendo suas considerações sobre mim, não pragmático como o de “Mais Estranho que a Ficção”, mas descontraído como o DJ Black Boy. Ao invés da assepsia de lobos e vampiros que aceito sem reclamar na fila das matinês eu poderia ser estagiário no “Correio do Crepúsculo”, ter um chefe que coloca sapatos no pé da letra e uma amiga na crista da onda igual a Ronalda Cristina - e não um card repetido do Cristiano Ronaldo. Só não queria ter duas namoradas, para mim bastaria que o roteirista fosse mais bacana e colocasse na minha praia uma Zelda Scott sem tarja preta.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

CINEMA DE GRAÇA

 


Em 2008 fui premiado pela Fundação Casa de Jorge Amado, em Salvador, com a publicação do livro de poesias chamado CINEMA. Na época ganhei mais tapinhas nas costas do que leitores de fato, afinal não é oferecida logística ao escritor, apenas festa; e não me interessa brincar de “celebridade”. A verdade é, como já me acostumei a repetir, que por não haver distribuição esse tipo de livro nasce e morre na noite de lançamento, depois o autor tem que peregrinar pelas livrarias com seu livro/prêmio embaixo do braço como se pedisse um favor. Alguns foram vendidos, outros tantos dei ou doei – me interessa ser lido e não dinheiro. “Não quero ser útil, quero ser utilizado”. Para quem não comprou ou ganhou o livro pode ser baixado gratuitamente, em PDF, no site do JORNAL DE POESIA.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

COMENTÁRIOS MODERADOS

          Recebo semanalmente a visita de um anônimo. Ele nunca falha, espalha seus comentários impertinentes pelas últimas postagens e retorna na semana seguinte. Nunca publico seus comentários levianos, principalmente por não ter assinatura, mas ele parece não se importar. Às vezes penso que ele não quer comentar, apenas se divertir (deve ser suficiente imaginar que leio suas mensagens). Contextualizado relevaria até alguém que usasse um pseudônimo, é um pouco romântico, mas anonimato não tolero. A maioria se vale dessa condição para ofender, menosprezar, maldizer, destilar seu rancor - e eu não posso ser cúmplice de atos infantis e covardes.
           A moderação desta página está ativada não para eu filtrar o que discordo, longe disso, mas para evitar inconvenientes - e também não quero ter o trabalho de apagar nada depois, até porque já pode ser tarde, vide o exemplo do blogueiro Emílio Moreno, e seu blog LIBERDADE DIGITAL, que em março de 2008 postou uma análise sobre uma briga que ocorreu numa escola particular na cidade de Fortaleza. A postagem recebeu apenas um comentário, único, porém ofendia a diretora da escola onde aconteceu a confusão, o que bastou para o dono do blog ser acionado na Justiça e condenado a indenizar a diretora em dezesseis mil reais por danos morais, tudo por causa do veneno de um anônimo.
           Os comentários não são como anúncios de bebida alcoólica, não posso pedir aos internautas algo como “comente com moderação”. O comentário é uma opinião livre, salutar, que é tão lido quanto o texto principal, não pode servir de mural de recados nem de munição oportunista para francos atiradores. Já o comentário do comentário é mais do que metalinguagem, é a expansão do debate, é quando todos saem ganhando.
           A última mensagem do anônimo foi: “Obrigado, por jamais aceitar meus comentários”. Não posso negar que senti um pouco de piedade dessa figura solitária, carente, medrosa, sem nome e sem rosto, entristecida por minha indiferença no computador escanteado de alguma lan house. Agora ele tem mais do que um comentário publicado.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

PRIMEIRO PERSONAGEM GAY DE MAURICIO DE SOUSA

          Independentemente de teorias mirabolantes e mensagens subliminares, sempre considerei, dentro dos quadrinhos produzidos por Maurício de Sousa, a “Turma da Tina” como a primeira, e verdadeira, “Turma da Mônica Jovem” - embora apenas recentemente tenha ganhado sua própria revista. Tina é sem dúvida sua personagem mais antenada com a juventude, surgiu em 1964 com visual hippie e foi se moldando às atualidades, hoje faz faculdade de jornalismo e tem um blog, mas tudo com o humor leve característico de seu criador.
           Maurício de Sousa, que foi muito criticado durante os anos da ditadura por se manter à margem do cenário político, diferentemente do argentino Quino e sua personagem Mafalda, demonstrou estar interessado nos novos tempos e na mudança de costumes ao nos apresentar Caio, na sexta edição da revista da Tina, seu primeiro personagem gay. Caio em latim quer dizer “alegre” e aparece como o melhor amigo de Tina já na capa da publicação. Maurício de Sousa, sem soar panfletário, polêmico ou oportunista, dá um passo importante na luta contra a intolerância e o preconceito ao abordar com naturalidade a diversidade sexual.
           O nonsense dos planos infalíveis é certeza de diversão, mas no momento em que os tribunais brasileiros legitimam seguidamente relações homoafetivas, permitindo que as crianças tenham em seus documentos o nome de duas mães ou dois pais, temas como gravidez na adolescência, drogas, violência urbana e aliciamento virtual não podem habitar um universo paralelo.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

TEM PAI QUE É CEGO

          O termo axé music foi cunhado pejorativamente pelo crítico musical Hagamenon Brito, em 1987, para designar a música para dançar produzida na Bahia naquela época e foi ingenuamente adotado pela mídia local. A palavra axé é derivada do yorúbá e quer dizer força; music é um mero cognato inglês que não agrega valores, apenas expõe nosso espírito de colonizado, talvez o afã de soar tão universal e palatável como a soul music ou a black music tenha sido mais forte que o axé. Um dos seus precursores, o cantor e compositor Luiz Caldas, num artigo publicado pela impressa soteropolitana, reivindica com unhas e dentes o título de criador de axé music (o ritmo) munido de documentos e datas, só faltando pedir um teste de DNA – assemelhando-se ao pai que desconhecia a paternidade e agora tenta recuperar o amor do filho em uma dessas novelas da tv. Quando fazemos algo errado primeiramente pensamos em negar, mesmo que não o façamos, é instintivo. Já Luiz Caldas sai por aí apregoando: Fui eu! Fui eu! (exibindo orgulhosamente a mão amarela).
           Depois que o filho tanto procriou, gerando uma famigerada indústria que engloba cantoras padronizadas, cantores anabolizados, coreografias constrangedoras e a privatização do carnaval, pouco importa quem colocou a criatura no mundo, isso é irrelevante.
            Não quero saber quem sujou, quero que limpem.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O DELICADO CHARME DA VERDADE

           Sou viciado em verdade. Para mim a mentira é uma ofensa e a omissão, covardia.
           Sem perceber falo o que me vem à mente, falta-me freio, bom senso até. Não tenho receio de ofender, de magoar, de ouvir o que não quero (desde que não sejam mentiras). Não sou diplomático, não tenho traquejo social. Às vezes ajo como uma criança e falo o que vejo, o que sinto; não consigo ser diferente. Assim não faço amizades, as cultivo. Não trago na manga frases feitas nem respondo ao “tudo bem?” com um “tudo bem”. Meu maior refúgio é o silêncio, é onde me sinto seguro (queiram-me calado, certamente todos sairão ganhando).
           Quando eu sei que não devo falar, que é a deixa para mentir, me complico, troco os pés pelas mãos. Dizem que não só mentimos várias vezes todos os dias como também aceitamos naturalmente a mentira alheia, é a chamada “mentira branca”, “mentira social”. Mente-se para evitar conflitos, por estratégia, obrigação, preguiça, medo, cobiça, conquista, quando consideram a verdade desnecessária. Mas para mim a verdade é sempre necessária, quero a verdade negra, a honestidade incolor, embora nem todos entendam isso. Se alguém me diz que posso confiar e falar o que penso sei que é somente uma armadilha, ninguém quer ouvir a verdade, quer ouvir uma mentira (mesmo sabendo que é uma mentira). Não se exige franqueza, apenas conveniências.
           A mentira não é uma arte, como o talentoso Ripley faz entender - mentir não tem charme.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

MORANGOS SILVESTRES

“morangos silvestres”*
Herculano Neto

quando mainha chamou:
- vem pra dentro que invernou!
era de tarde e eu ainda não
sabia o que era a melancolia

quando mainha chamou
o quintal era grande
chôle e os vizinhos ainda estavam vivos
eu era outro menino

quando mainha


*“Morangos Silvestres” é o título de um filme de 1957, do cineasta sueco Ingmar Bergman. No filme o velho professor Isak Borg revê a juventude a partir de sonhos e recordações. Com perspectiva semelhante, embora nem tão distanciada, cunhei os versos acima buscando a inocência da infância que em algum momento temos que abandonar. O poema foi publicado primeiramente no fanzine O ATAQUE, em dezembro de 2006, e na REVISTA CULT, em janeiro de 2007, antes de integrar, com leves modificações, o livro “Cinema” em 2008.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

VOO ABORTADO

Nasci em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano, onde a prática da capoeira é muito forte e comum. Lá todo mundo conhece ou tem uma história para contar sobre as façanhas do lendário capoeirista Besouro Mangangá. Durante a infância a figura de Besouro povoava meu imaginário das mais diversas formas: suas habilidades e feitos no começo do século passado, a se esquivar de balas no melhor estilo pré-Matrix, saltos e golpes mirabolantes a lutar contra os resquícios escravocratas, desbancando homens armados. Um heroi alcançável, símbolo de coragem e valentia, que ia além dos uniformizados dos quadrinhos e tv. Com tantas imagens cultivadas na memória acessei, como milhares de pessoas fizeram, ao trailer do filme no YouTube (mais de uma vez), afinal o mito local havia ultrapassado os limites do folclore e chegado à tela do cinema com uma arte marcial popular e pouco explorada e lutas coreografadas pelo chinês Huen Chiu Ku (de “Kill Bill” e “O Tigre e o Dragão”). Assim resolvi encarar a sessão de estreia do filme, curiosamente havia um público jovem, historicamente preconceituoso e reticente ao cinema brasileiro, porém tive as expectativas frustradas ao me deparar com uma obra cinematográfica inconsistente, com pretensões visuais exageradas e diálogos didáticos que remetem às manhãs do Telecurso. Sofro de “vergonha alheia”, um mal que ainda carece de medicamentos, e acompanhar o roteiro desestruturado se apoiar num misticismo gratuito e na desgastada fórmula do triângulo amoroso, e de quebra o amadorismo do elenco e uma montagem confusa, só fez me afundar mais na poltrona. Poderia valer pela valorização do negro como protagonista de uma grande produção, mas não é suficiente para suprir as claras deficiências de um produto inacabado. “Besouro” é um dos filmes mais caros já produzidos pelo cinema nacional, boa parte dos recursos oriundos de leis de incentivo, que nem de longe se espelha no Besouro cantado nas rodas de capoeira ou o das histórias narradas pelas pessoas mais velhas de Santo Amaro, esse sim, um Besouro sem preço e emblemático, que na minha imaginação realmente avoa.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

NA BOLHA


Conheço duas pessoas, que por óbvios motivos aqui lhes poupo os nomes, que gradativamente passaram a viver numa bolha. Não literalmente, como o menino da bolha de plástico, ou como a metáfora mais corriqueira levaria a entender por isolamento social – na verdade esses indivíduos até interagem socialmente. À maneira deles criaram um universo particular onde as engrenagens funcionam perfeitamente, onde nenhum mal lhes afeta e onde eles sempre saem vencendo, sempre têm certeza. Inicialmente os classificava como “mentirosos inofensivos”, desses que abundam em qualquer repartição ou banco de praça, hoje acredito que sofram de algum transtorno psicológico que minha ignorância não sabe precisar. Eles criaram uma falsa situação de conforto da qual nem tentam se desvencilhar, se enredam mais e mais, talvez inconscientemente. Não vejo como problema imaginar lugares, pessoas e situações melhores (menos mesquinhas, mais divertidas); inconveniente é fazer da vida uma fantasia, sem distinguir mais o que é e o que não é real, e inadvertidamente trazer suas invencionices e idiossincrasias para o cotidiano, querendo que todos compactuem passivamente com seus paralelismos. Desconheço as razões e prefiro não especular sobre mentes tão complexas, só sei que ao minar as intempéries da vida, transformando o dia numa eterna masturbação, quem passa a viver numa bolha são os outros.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

VERSOS EXCLUÍDOS

versos excluídos
Herculano Neto

tenho vocação para o abismo
para o abraço
tenho fixação por detalhes
por olhares
por silêncios

sou irremediavelmente insatisfeito
displicentemente franco
o melhor amigo dos meus amigos
o melhor amante das minhas tristes

obsessivo

tenho vocação para infelizes

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

FRASCOS COMPRIMIDOS COMPRESSAS

Frascos Comprimidos Compressas é o título do segundo disco dos baianos da banda Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta. Com produção esmerada de Pedro Sá, o trabalho é um alento no cenário musical da Bahia, sempre cheio de estereótipos. Seus integrantes agora parecem demonstrar mais consciência ao combinar os elementos de rock e samba, soando mais natural do que no disco anterior e consequentemente realçando as ótimas composições e arranjos -, sobretudo as letras de Ronei Jorge (já há algum tempo letrista destacado). Não faltará quem compare aos últimos discos de Caetano Veloso (“Cê” e “Zii e Zie”), apenas impressões pré-formuladas que numa audição menos preguiçosa se dissipam. Ressalto no conjunto a faixa título; a já conhecida dos fãs “Aquela Dança” – com resquicios de Novos Baianos e pré-axémusic -, além do Clube da Esquina que paira fantasticamente sobre “Está na Cara” e “Circule Seu Sangue". Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta é samba, um samba desobediente, nervoso. É MPB setentista, na postura, na verve. É rock, de garagem, de guitarras, sem clichês.

Escute algumas faixas no Myspace da banda:
http://www.myspace.com/roneijorgeeosladroes

terça-feira, 13 de outubro de 2009

BASTARDOS INGLÓRIOS

Bastardos Inglórios é Quentin Tarantino de volta à grande forma num dos melhores filmes do ano (tentei não escrever no calor da hora para evitar lugares comuns como esse). Seguindo à risca a cartilha de “como produzir um cult movie”, ele nos presenteia mais uma vez com diálogos memoráveis e personagens carismáticos, como o coronel nazista Hans Landa, “o caçador de judeus”, interpretado magnificamente (também queria evitar hipérboles e superlativos) pelo ator austríaco Christoph Waltz, que deu vida a um dos maiores antagonistas de toda história do cinema (não é exagero). Tarantino divide sua obra em capítulos (até aí nenhuma novidade) para apresentar durante a 2ª Grande Guerra as trajetórias do tenente Aldo “Apache” Raine, vivido por Brad Pitt, líder dos Bastardos, um batalhão especializado em escalpelar nazistas na França ocupada por Hitler, e Shosanna, a judia que escapa de um massacre em família e se torna (sem muitas explicações plausíveis, talvez na especulada continuação) proprietária de um cinema em Paris. Com essas duas premissas o enredo caminha paralelamente até a aguardada intersecção, que culmina numa sanguinolenta sequência - que já foi o sonho politicamente incorreto de qualquer pessoa que preze a dignidade humana (não, não contei o final).

sábado, 10 de outubro de 2009

PATTY DIPHUSA

Costumo ler no ônibus, enquanto vou ao trabalho. Diferentemente dos meus colegas de viagem, que já embarcam temerosos, leio tranquilamente – sem me importar com o imprevisível. Durante duas dessas ocasiões comecei e terminei a leitura de “PATTY DIPHUSA”, do cineasta Pedro Almodóvar. Uma série de contos publicados originalmente na revista espanhola “La Luna” a partir de 1982 e copilados em livro em 1991 (ano em que filmou “De Salto Alto”). Impossível não imaginar aquelas histórias (e acredite que tentei) em película, provavelmente a trajetória da estrela pornográfica internacional Patty Diphusa por Madri não tivesse espaço no cinema de hoje (nem uma atriz como Victoria Abril como protagonista), talvez soasse demais como um Almodóvar de antigamente, o que já seria bem melhor do que suas últimas produções.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

NOTAS DE UM POEMA

O primeiro poema que consegui escrever em Salvador foi “lembranças de donzelas do tempo do Imperador”, algum tempo depois de ter me mudado, tomando emprestado como título um verso de uma canção de 1941 de Dorival Caymmi, “Você Já Foi à Bahia” (recurso semelhante utilizado por Caetano Veloso em “Terra”). Na canção, Caymmi exalta uma Salvador idealizada, nostálgica, quase folclórica; um convite à uma cidade que só conheci em cartões-postais. Em 2008 o poema fez parte do livro “CINEMA”, Prêmio Braskem Cultura e Arte, recentemente alguém apontou um parentesco com o “Poema do Beco”, de 1933, de Manuel Bandeira, que se existe não foi intencional. Enquanto Bandeira se solidarizava com a gente humilde do Rio de Janeiro, meus versos apenas expressavam o descontentamento e a solitude.

“lembranças de donzelas
do tempo do Imperador”

Herculano Neto

da janela do meu apartamento
vejo outras janelas de apartamento
janelas fechadas
cortinas
um muro
aviões

da janela do meu apartamento
eu não vejo a Bahia.

***

Poema do Beco
Manuel Bandeira

Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
- O que eu vejo é o beco.


segunda-feira, 5 de outubro de 2009

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FAÇO DO MEU BLOG PÁGINA DE DIÁRIO


Dizem por aí que ando sumido, que não telefono sequer para dizer que não vou – não sei, talvez seja verdade. Outro dia alguém perguntou como eu estava, meio intolerante respondi para ir ao meu blog. Fui deselegante não pela pergunta, aparentemente trivial, mas pelo tom maligno da voz, cheia de veneno e cinismo (impossíveis de reproduzir aqui). Resolvi então dar uma passada por meu blog para saber como eu estava, porém não encontrei nenhuma resposta fácil. Se a pessoa realmente seguiu meu conselho ficou ainda mais confusa. Já tive uma urgência muito grande, uma necessidade de transformar, de estar em todos os lugares, hoje não carrego mais utopias (meus herois morreram de overdose e meus sonhos na mesa do bar). Só quero cultivar minha paciência, regar meu bonsai toda manhã, adormecer escutando Céu no gramado do Dique do Tororó e vez ou outra pedir um conhaque de alcatrão com limão e mel pra aquecer a madrugada. “Sim, o que me importa nesse instante é esse não me importar constante” – como dizia um velho roqueiro baiano. Para quem interessar não estou longe, estou mais perto do que possam imaginar. O que eu busco não é a distância, é o encontro; mesmo que para isso eu precise hibernar.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

QUERIDA WENDY (DEAR WENDY)

Querida Wendy, Dinamarca 2005, tem direção de Thomas Vinterberg e roteiro de Lars von Trier (que abandonou a direção de Dear Wendy para se dedicar a Manderlay). No filme o jovem Dick compra por acaso um pequeno revólver e juntamente com outros “excluídos” funda um contraditório clube baseado no pacifismo e na posse de armas. Esteticamente lembra um pouco “Dogville”, principalmente a cidade Estherslope e seus peculiares habitantes, embora seja bem menos pretensioso e descontraído. Atenção especial para a excepcional trilha sonora, com clássicos do grupo inglês The Zombies.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

GESTOS

GESTOS*
(Roberto Mendes/ Herculano Neto)



E deixe a valsa, e deixe o samba,
E deixe aquela canção antiga que não me cansa,
Ouvindo-a posso sentir comigo seus vestígios,
Os seus domínios, os seus encantos.

E deixe o barco, e deixe a ilha,
E deixe uma lembrança bonita que não ansia,
Lembrando-a posso preencher com gestos meus vícios,
Os meus princípios, meus acalantos.

Não deixe a mágoa,
Não deixe a ira,
Não deixe a volta,
Não deixe a ida
Que eu deixo a vida seguir seu destino.

E deixe o sonho,
E deixe o instante,
Deixe o encontro,
Deixe o constante,
Que eu deixo a vida moldar o meu destino.
 
 


*Faixa extraída do DVD
“Tempos Quase Modernos”
Gravado ao vivo no Teatro XVIII
Salvador, 2006
 

 

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

CINEMA

CINEMA
Herculano Neto

“Você nunca vai saber
quanto custa uma saudade
o peso agudo no peito
de carregar uma cidade”.
P. Leminsky

cresci numa cidade
onde não havia mais cinemas
as cenas aconteciam nas ruas
nas gentes
projetadas a esmo

personagens felinianos
se sucediam
nas seqüências
da minha infância

cresci numa cidade
onde não havia muita coisa

apenas história pra contar

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

DIRETAMENTE DA MESA DO BAR

"Besouro", de João Daniel Tikhomiroff

Na próxima semana um grupo formado por críticos, cineastas e distribuidores divulgará oficialmente o nome do filme brasileiro que será candidato a candidato na disputa do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2010. Assim como no último ano, quando Walter Salles se recusou a inscrever o ótimo “Linha de Passe”, a maior ausência agora é de “À Deriva”, de Heitor Dhalia (alguém pensou em Daniel Filho?). O último concorrente do país foi “Central do Brasil”, em 1998. Abaixo a lista dos concorrentes divulgada pelo Ministério da Cultura, segundo seus critérios nacionalistas:

"A Festa da Menina Morta", de Matheus Nachtergaele
"Besouro", de João Daniel Tikhomiroff
"Budapeste", de Walter Carvalho
"Feliz Natal", do ator Selton Mello
"Jean Charles", de Henrique Goldman
"O Contador de Histórias", de Luiz Villaça
"O Menino da Porteira", de Jeremias Moreira
"Salve Geral", de Sérgio Rezende
"Se Nada Mais der Certo", de Eduardo Belmonte
"Síndrome de Pinocchio - Refluxo", de Thiago Moyses.

***
A simples especulação da capital pernambucana ser incluída na turnê de Paul McCartney, em abril de 2010, entrou sem cerimônias no Top Five de POR QUE NÃO MORAR EM SALVADOR, ocupando o 5º lugar, posição que pertencia aos ensaios de verão.

***
Meus herois morreram de overdose; os de Pedro Bial são pseudocelebridades; os dos narradores esportivos são os que alcançarem o alto do pódio no final de semana; os do McDonalds nem precisam usar capa, basta ajudar a vender aquilo que eles chamam de comida; outros tantos estampam camisas. Uma família subsistir com menos de cem reais por mês é pôster no quarto de quem?

***
Não consigo entender quem organiza a própria festa de aniversário, deve ser algum tipo de carência ou medo de ser esquecido, se a festa for temática pior ainda. Consigo tolerar crianças fantasiadas soprando velinhas, mas não adultos (vergonha alheia é algo que não me abandona). Odeio “parabéns pra você” e outras cantigas supostamente engraçadinhas, todo aquele ritual me enoja. E desprezo quem esconde a própria idade atrás de subterfúgios e eufemismos infantis, como dizer que completou 4.7 feito um aparelho eletrônico de última geração. Desconheçam minha data de nascimento e se não for possível ignorem – é o melhor presente que posso receber. E não me convidem para festas de aniversário.

***
O filho de Érico Veríssimo atacou de professor de gramática em sua coluna nos jornais de domingo ao afirmar que o pré-sal deveria se chamar pós-sal, porque a perfuração ocorrerá de cima para baixo, havendo ali um evidente erro de semântica. Só que o mesmo artigo denomina-se, em letras garrafais, PEQUENOS DETALHES. Até onde eu saiba todo detalhe é pequeno, logo o título é bem mais do que um pleonasmo – é mera redundância.

***
Documentários musicais são a bola da vez do cinema brasileiro. Figuras como Caetano Veloso, Wilson Simonal, Titãs, Batatinha, Herbert Vianna, Cartola, Arnaldo Batista (e até Waldick Soriano) já encontraram seu lugar na tela grande. Espero somente não me deparar com nenhum cartaz de “Em Breve” com a imagem do Dj Marlboro ou de alguma cantora de música para dançar fabricada na Bahia.

***
Sem nunca ter escrito um livro o ex-presidente (clichê necessário) Fernando Collor de Melo foi eleito para a Academia Alagoana de Letras. Se tivesse escrito algum, o Prêmio Nobel seria pouco.

***
Ultimamente o substantivo inexpressivo “coisa” tem desnecessariamente me incomodado. Na suposta ausência de palavras ou por simples preguiça emprega-se “coisa” em quase tudo: “foi a melhor coisa que li este ano”; “que coisa linda”; “a única coisa que prestou naquele show”... Não respondo quando desconhecidos me abordam na rua chamando-me de “coisinho” e não gostaria jamais de escutar de quem amo algo como “você foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida”. Êta papo qualquer coisa.
          Traz a conta.

sábado, 5 de setembro de 2009

BEIRUT EM SALVADOR II


Na noite de 04 de setembro, no Teatro Castro Alves, aconteceu o tão esperado show do grupo americano Beirut em Salvador, no 16º Panorama Percussivo Mundial – o Percpan. Ainda na entrada, observando aquela juventude de comercial de creme dental, me senti um pouco fora do ninho. Não sou nenhum entusiasta do sistema de cotas, mas era possível contar os negros presentes com os dedos da mão direita, cheguei a desconfiar que tinha atravessado um portal e que não estava mais na Bahia. Dentro do teatro, a cada atração que se apresentava capitaneada competentemente pelo músico Marcos Suzano, aumentava a ansiedade. Enquanto isso, parte do público parecia mais interessada em brincar com seus celulares e câmeras fotográficas, ignorando as advertências iniciais com seus braços estendidos deselegantemente, como se fosse bem mais interessante assistir ao show depois na tela do computador do que no calor do momento. Enfim, após longas três horas de expectativas, o Beirut entrou em cena demonstrando uma qualidade sonora rara no cenário da música atual. O que ninguém imaginaria era que seu vocalista e trompetista, Zack Condon, empunhando um cavaquinho e num português trôpego e visivelmente embriagado, quebraria todos os protocolos ao pedir que a platéia abandonasse seus assentos após a segunda canção e se aproximasse da banda, transformando o solene Teatro Castro Alves numa festiva Concha Acústica, prato cheio para a molecada presente, que inacreditavelmente não era pouca, deixando seus pais esperando pacientemente sentados, e que culminou numa invasão consentida ao palco e no furto de um microfone e um instrumento musical. A histeria juvenil era tamanha que por um instante pensei estar num show da Hannah Montana. Marmanjos choravam copiosamente durante a execução de “Elephant Gun”, espero que relembrando Capitus perdidas pelo caminho, e meninas se descabelavam como numa nova beatlemania, até o arcaico gestual de simular guitarras deu lugar a cômicos trompetes imaginários e solfejos. Se me senti um estranho no ninho na entrada pior me senti na saída, afinal já faz algum tempo que não tenho mais 15 anos. Tentando evitar uma confusão maior a produção convidou Zack Condon a encerrar sua apresentação durante o bis e ele, no seu português ébrio e sem nunca encarar o público proferiu melancolicamente a sentença:
- Eu não posso cantar mais, boa noite.
E ainda tive que suportar o descontentamento do taxista, que detesta fazer corridas curtas.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

O SILÊNCIO


          – Prefiro o primeiro disco - foi a frase feita que ele disse, com aquele ar superior característico. Como se o disco de estréia dos Beatles, Raul Seixas, Titãs ou Los Hermanos tivesse sido sensacional. Experimentei perguntar sobre uma banda desconhecida de pós-punk-psicodélico do sul da Finlândia e ouvi uma resposta meio blasé:
          – Já vi o clipe.
          A MTV, assim como o Google, terminará nos fodendo – pensei.
          – Qual som você curte? – ele perguntou numa inversão abrupta de papéis. Respondi que não gosto de muitas coisas. Não gosto de vídeo-clipe, principalmente vídeo-clipe com atores de novelas, por melhor que seja a canção aquelas imagens me ensurdecem. Não gosto de versões; releituras; show tributo; acústico; ao vivo; coletâneas; playback em programa de auditório; nova formação; parada de sucessos; flashback; o fenômeno do momento... Gosto apenas do silêncio. E silenciamos.
          Mas já era tarde.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

PARA NINAR O MEU AMOR*

PARA NINAR O MEU AMOR*
Herculano Neto

ando farto do quase
do meio-termo
das boas maneiras
do mais ou menos
e do pode ser dito de
canto de boca

(do talvez não quero saber)

ando farto de lugares-comuns
e olhares esquivos
das cartas marcadas
e do disse-me-disse
das galerias

ando farto de
finais felizes

*(do livro “CINEMA”, Prêmio Brakem Cultura e Arte 2007)

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

SE VOCÊ VIER ME PERGUNTAR POR ONDE ANDEI

Há exatamente quatro anos estive num show do Belchior (no dia 27 de agosto de 2005, no Teatro ACBEU em Salvador). Acompanhado por apenas dois violonistas ele exibiu suas canções, e algumas surpresas, descontraidamente. Ao final o cumprimentei e ofereci dois discos para serem autografados. Se o seu “desaparecimento” é mero marketing ou se realmente ele se cansou de tudo e foi viver na natureza selvagem para mim pouco importa. Amar e mudar as coisas me interessam mais.

sábado, 15 de agosto de 2009

NA NATUREZA SELVAGEM

O jovem Christopher McCandless, no início da década de 1990, decidiu deixar tudo para trás. Recém-formado, destruiu cartões de crédito, documentos, doou suas economias, adotou novo nome e queimou (literalmente) dinheiro - tudo para viver na natureza selvagem. A direção de Sean Pean em NA NATUREZA SELVAGEM (2007) valoriza as sutilezas do roteiro e provoca uma reflexão sobre a vida na competitiva sociedade moderna. O ator Emile Hirsch, em ótima interpretação, nos cativa e convence durante a jornada do protagonista. A belíssima fotografia emociona por sua placidez, juntamente com a perfeita trilha sonora, que colecionou prêmios e indicações por onde passou. Com Eddie Vedder cantando ao fundo eu iria para qualquer lugar, mas com Kristen Stewart tocando para mim, talvez eu ficasse em qualquer paragem.
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