Conheço duas pessoas, que por óbvios motivos aqui lhes poupo os nomes, que gradativamente passaram a viver numa bolha. Não literalmente, como o menino da bolha de plástico, ou como a metáfora mais corriqueira levaria a entender por isolamento social – na verdade esses indivíduos até interagem socialmente. À maneira deles criaram um universo particular onde as engrenagens funcionam perfeitamente, onde nenhum mal lhes afeta e onde eles sempre saem vencendo, sempre têm certeza. Inicialmente os classificava como “mentirosos inofensivos”, desses que abundam em qualquer repartição ou banco de praça, hoje acredito que sofram de algum transtorno psicológico que minha ignorância não sabe precisar. Eles criaram uma falsa situação de conforto da qual nem tentam se desvencilhar, se enredam mais e mais, talvez inconscientemente. Não vejo como problema imaginar lugares, pessoas e situações melhores (menos mesquinhas, mais divertidas); inconveniente é fazer da vida uma fantasia, sem distinguir mais o que é e o que não é real, e inadvertidamente trazer suas invencionices e idiossincrasias para o cotidiano, querendo que todos compactuem passivamente com seus paralelismos. Desconheço as razões e prefiro não especular sobre mentes tão complexas, só sei que ao minar as intempéries da vida, transformando o dia numa eterna masturbação, quem passa a viver numa bolha são os outros.