Definitivamente, quem vai ao cinema no shopping não vai ao cinema, vai ao shopping e passa pelo cinema como se passasse em mais uma loja. Ainda na fila é perceptível a desinformação e durante a sessão é evidente o desinteresse.
Time se escolhe.
TEATRO SÃO JOÃO (SALVADOR)
Na antiga vila em que meus avós moravam havia um compromisso tácito, um tipo de acordo comunitário, onde todos se ajudavam – uma organização social sonhada por teóricos, mas praticada por indivíduos simples. Na construção das casas de taipa, por exemplo, homens e mulheres tinham funções distintas, enquanto as pessoas mais velhas pisavam o barro entoando cantos, ditando o ritmo do trabalho, as mulheres passavam aos homens os montes de massa para ser socado entre as estacas, tudo regado com muito samba e alegria. Numa época de costumes rígidos e recato a entrega do barro possuía um simbolismo próprio, uma espécie de rito de passagem: para quem a mulher entregasse mais barro era como se ela também se ofertasse, como se ela dissesse que estava pronta, era um momento disputado, quando ela escolhia seu parceiro. Meus avós, que cresceram juntos, decidiram que seriam um do outro na construção da casa de uma tia-avó que não conheci, surpreendendo muitos.
(Fragmentos desordenados do conto Pierrô da Caverna, 1979)
Fui uma criança “estranha”, que gostava do silêncio e de brincar com fantasmas (todos devidamente nomeados). "Sonso" foi a alcunha que mais escutei, embora louco e os seus sinônimos fizessem sombra; mais tarde passaram a me chamar de "cínico", de "metido", mas na verdade sou e sempre fui extremamente tímido. A timidez foi uma boa companheira, nada deixei de fazer por sua causa, se bem que, sem ela, suponho, poderia ter sido comido por mais mulheres. Escrevo isso porque ganhei recentemente de Sérgio Damião, amigo de Santo Amaro, todas as temporadas de ANOS INCRÍVEIS, o que me fez voltar, a contragosto, para a adolescência. A série retratava o cotidiano de uma típica família da classe média americana entre os anos 60 e 70, com todos os conflitos da época. Lembro de cada desventura, de cada desencontro, de cada canção. Cresci com aquelas personagens e me reconhecia mais nelas do que nos colegas do colégio, infelizmente. Enxergava o mundo à maneira de Kevin Arnold, com seu periscópio a observar tudo ao seu redor – só não me identificava com sua presunção. Sem muita nostalgia continuo assistindo aos episódios todas as noites, quase como um ritual, e trago a sensação de que pouco em mim mudou. Devo ser o mesmo menino sonso de Santo Amaro.
Meteorango Kid, de André Luis Oliveira, é um clássico absoluto do cinema underground brasileiro, com trilha sonora dos Novos Baianos e intervenções sonoras mais do que bem vindas de Gil e Caetano, apresenta a trajetória desenfreada do protagonista Lula por uma Salvador ainda mais provinciana e tediosa. Interpretado magistralmente por Antonio Luiz Martins, Lula vive num universo extremamente particular, onde fantasia e realidade se confundem. O filme tem uma ação descontínua, num emaranhado de situações escatológicas e ao mesmo tempo irônicas em seqüências que parodiam o cinema comercial americano. Os personagens que acompanham esse herói intergaláctico são igualmente provocadores, como o homem vampiro que surge isoladamente em sua busca cômica por pescoços femininos nas vielas soteropolitanas e o amigo Caveira e sua “aula” de enrolar baseado. Teatro marginal, cinema de vanguarda, nouvelle vague, HQ, neo-realismo, tropicalismo, tudo condensado em 85 minutos de um caleidoscópio psicodélico e contestador.
Já faz algum tempo que desisti da tv, não foi uma decisão taxativa, aconteceu gradativamente. Hoje só me permito os jogos da quarta-feira à noite e o telejornal local, há dias que nem a ligo, fica ali morta na sala acumulando poeira e silêncio, a servir de pedestal para o troféu de terceiro colocado do II Torneio de Futebol de Mesa de Santo Amaro – 1996, num canto que quase não incomoda o tráfego, juntamente com velhos quadros, lembranças de viagens e capas de LP’s – que vira e mexe recebem observações sem muito valor das visitas. Ao saber por acaso, escutando uma conversa que não me pertencia, que a rede globo produziria um especial de final de ano baseado no romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, resolvi arriscar - o que eu poderia perder? Afinal, esse é o único, até agora, livro que li mais de duas vezes (descontando, inclusive, a obrigatoriedade da 8ª série). Após a exibição do primeiro capítulo, mesmo não nutrindo muitas expectativas, não me decepcionei, confesso – apesar do clima excessivamente teatral que parece querer exorcizar da televisão brasileira alguma culpa. Pretensamente emulando a idéia da diretora Sofia Coppola em MARIA ANTONIETA (2006), onde enchia de referências contemporâneas uma personagem histórica, a adaptação me ganhou, não apenas por isso, principalmente pela fidelidade ao delicioso texto original embalado por uma trilha pop. Mesmo assim pouco mudou: o título da obra para Capitu, que muitos entendem ser bem mais apropriado; a re-organização dos micro-capítulos para uma melhor narrativa televisiva e uma coisinha aqui e outra ali – nada demais. Os puristas devem franzir a testa e fazer saltar aos olhos aquela veia de descontentamento, os noveleiros mudarão de canal sem muita paciência e irão dizer na repartição ou no ponto de ônibus no dia seguinte que odiaram, talvez chato seja o adjetivo mais utilizado. Já eu descobri com a série que preciso de um lugar para esconder minhas velharias, como o troféu do II Torneio de Futebol de Mesa, para não servirem de papo furado aos que me visitam de quando em vez.
Tenho uma camiseta branca com a imagem de Woody Allen estampada em silk screen – simples, casual e barata. Dizem que a roupa comunica, mas nunca quis nem pretendo dizer nada a ninguém com o que visto, no entanto sempre que ponho a “camisa de Woody Allen” inevitavelmente aparece alguém, estranho ou não, disposto a iniciar algum diálogo sobre o diretor, com comentários que vão dos seus filmes a detalhes excêntricos de sua vida que desconheço e prefiro continuar desconhecendo. Com a finalidade de fugir de embaraços e constrangimentos passei a usar a camiseta por baixo de uma velha jaqueta, que era estrategicamente fechada até o pescoço ao menor sinal de perigo; porém vivendo no calor de uma cidade como Salvador não fica difícil imaginar meu insucesso. Para me livrar desses interlocutores na fila de pagamento das Lojas Americanas ou na mesa do bar cunhei o pouco inspirado aforismo: É um Woody Allen menor - que dito com extrema indiferença ganha um poder irritante de fim de papo. Sendo um diretor com uma obra tão extensa é natural que haja momentos menos inspirados, o que não é nenhum demérito numa filmografia que inclui ANNIE HALL (1977), MEMÓRIAS (1980), HANNAH E SUAS IRMÃS (1986), CRIMES E PECADOS (1989), MARIDOS E ESPOSAS (1992) e MATCH POINT (2005); é possível que eu inclua em breve nessa lista VICKY CRISTINA BARCELONA (2008), que se não é excelente como apregoam por aí, também está longe da categoria “Woody Allen menor” – e que já é certamente a melhor película de Pedro Almodóvar dos últimos anos. Enquanto isso continuarei usando a camiseta sem receios, agora mais gasta e com uma pequena mancha de ferrugem na altura do umbigo.
CINEMA: DE HERCULANO NETO
"Cinema, o livro de Herculano Neto, traduz num grande travelling a paisagem do Recôncavo e cercanias, ora em grande planos, ora em planos fechados no rosto de seus inúmeros personagens anônimos. O poeta não tem medo de se expor. De verve sarcástica, brinca com seu humour noir ridicularizando a caretice da província, fazendo de seus versos testemunhos da contemporaneidade na qual ele trafega com desenvoltura."
Miguel Carneiro
