segunda-feira, 28 de março de 2011

POEMA INÉDITO II

sem bússolas
sem mapas
sem rotas

pouco importa saber onde estou

o meu dia é feito de encruzilhadas
de tamburellos
de labirintos
desvios

nenhum acaso me guia

Herculano Neto

domingo, 13 de março de 2011

NÃO É DA SUA CONTA

 “Como Vai Você?”, de Mário Marcos e Antônio Marcos, é uma canção que sempre me incomodou. Gravada desde os anos 70 por diversos artistas da música brasileira, de Roberto Carlos a Daniela Mercury, de Nelson Gonçalves a Cauby Peixoto, vem, frequentemente, embalando os mais diversos romances e fossas. Mas ao contrário do que aparenta, não se trata necessariamente de uma “canção de amor”: sua melodia adocicada é acompanhada por uma letra extremamente egocêntrica, onde a primeira pessoa conduz e é a razão de ser do discurso. A pergunta do título, seguidamente repetida, não demonstra preocupação no bem estar alheio, é apenas uma possessiva curiosidade, típica de quem não aceita o fim do relacionamento, num tom contraditório e autoritário, a exigir satisfações:

como vai você?
EU PRECISO saber da sua vida

         Sem ter satisfeito seu desejo individualista, o narrador apela para outras artimanhas, como sugerir um portador para a informação requerida:


peça a alguém PRA ME CONTAR sobre o seu dia

          E ao acrescentar o advérbio “só” à frase EU PRECISO SABER, tenta esboçar alguma fragilidade, mas não convence:

Anoiteceu, e EU PRECISO SÓ SABER

         Até quando resolve qualificar o outro, o uso do pronome possessivo é recorrente, não estranharia se eles tivessem escrito um verso como o melhor de você sou eu:
razão de MINHA PAZ já esquecida
que já modificou A MINHA VIDA

         É quase cômica a falsa dúvida levantada, praticamente uma declaração de amor:
nem sei se gosto MAIS DE MIM ou de você

         Os argumentos para a reconciliação são ainda mais egoístas. Não há em nenhum momento interesse no conjunto. A felicidade do casal não existe, é tudo muito unilateral. Chego a imaginar que a musa da canção tenha sido uma boneca inflável:

Vem, que a sede de te amar ME FAZ MELHOR
EU QUERO amanhecer ao seu redor
PRECISO TANTO ME FAZER FELIZ

         “Como Vai Você?” não é uma canção para ser ouvida a dois, ela é opressora, mesquinha, masturbatória. Produto da vaidade de alguém que não sabe o que é amar, e nem o que é sofrer.

terça-feira, 1 de março de 2011

PORQUE NÃO POSSO SER AMIGO DO MÁGICO

           Não posso ser amigo do mágico, conheço seus truques, suas cartas marcadas, seus textos ensaiados, seus aparatos, até suas novidades. Não posso ser amigo do mágico, minha presença na plateia não o alegra, apenas o constrange, incomoda. Não posso ser amigo do mágico, o mágico não gosta de amigos, gosta de aplausos e da expressão de surpresa quase infantil. Não posso ser amigo do mágico, o mágico não me ludibria, não aguça minha curiosidade.
           (Há muitos “mágicos”, em outras áreas, que dispensam minha amizade).
           A vida é mágica, mágica é imprevisibilidade, mas o mágico é óbvio.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

“DE ALMA INGÊNUA, ACREDITO”

          Não me vejo namorando na Praça da Bandeira, atrás do prédio da cadeia, nem passeando com minha roupa de domingo pela Praça da Purificação, essas praças não me pertencem mais. Me vejo apenas na Praça do Rosário, correndo descalço atrás do bonde, brincando de esconde-esconde no Largo da Cruz (1,2,3: achei você!). Me vejo nos atalhos do Maricá, trocando alumínio por Grapette, espantando maruins na descida do Tauá, “roubando” bananas no beco de Narciso, anoitecendo no tamarineiro.
         Sou eu tocando trompete na Santa Mazorra de Dona Zica, bradando “É Maro-Maro” no gol de Careca, acordando com os pés dentro d’agua na casa inundada, imitando Besouro contra Bruce Lee, saudando o camarada Maru, a velha Domingas, Seu Chiquinho do Apolo. Sou eu aos prantos cantando “Trilhos Urbanos” no adro durante as festas, pedindo silêncio para escutar a nota de falecimento no beco da Rencau, recitando “Papai Noel – Pólo Norte” no Teodoro.
          Não sou estrangeiro, sou nativo. 
          Sou Calolé, Destilaria, Conde e Pilar. Sou Campo do Arroz, Colibri, Ideal e Botafogo. Sou São Francisco, São Bento, São Brás e São José. Sou Timbó, Acupe, Viúvas e Virgens.  E quero a brisa vespertina do Senado; Geração 80 e Confronto; 2001 no Cine-Subaé; poesia na Selibasa; Sangue e Raça e Uhuru-Eby; A Sineta e O Ataque. Quero as glórias do passado no presente.
          Não sou a interseção entre a rua direita e a estrada dos carros, não ostento sobrenome escravocrata. Sou índio do Trapiche, descendente dos Carijós. Sou bicho do mato, retraído tal qual a folha do não-me-toque.
         Não sou de santinho, meu santo é grande, meu santo é forte, meu santo é doce, meu santo é amaro.
         Caminhando pela cidade, vejo um menino sozinho, sentado num banco da praça. Aquela praça não me pertence mais (constatação sem lamento), mas ainda me vejo nos olhos daquele menino.
          No perigo e na bonança dessa gente morena, estou.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

UM ANTIGO POEMA TRADUZIDO

EN FAISANT LES VALISES
(Arrumando As Malas, Herculano Neto)
Tradução para o francês: Pedro Vianna


 Vídéo ancienne,
 photo ancienne
 fausses cartes,
 tout un peu faux
 quelque peu opaque et déformé

“Tu n'as jamais essayé d'être mon ami”
 c'est ce qu'elle a dit avant de se tirer,
 sans Kerouac
 avec Baudelaire
 et sans la patience
 de quelqu'un qui attend des changements.

***

ARRUMANDO AS MALAS

Vídeo antigo,
foto antiga,
cartas falsas,
tudo um pouco falso
um tanto opaco e distorcido.

“Você nunca tentou ser meu amigo”
foi o bilhete que ela deixou
antes de botar o pé na estrada:
sem Kerouac
com Baudelaire
e sem a paciência
de quem espera por mudanças.


ESCUTE O POEMA RECITADO PELO AUTOR AQUI

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

LIXO EXTRAORDINÁRIO

          O bairro de Jardim Gramacho, no município de Duque de Caxias, região metropolitana do Rio de Janeiro, abriga o maior aterro sanitário da América Latina, e é o palco do documentário LIXO EXTRAORDINÁRIO, candidato ao Oscar 2011 (Jardim Gramacho já tinha servido de cenário para o ótimo documentário ESTAMIRA, em 2006).
          Vencedor de prêmios de público nos festivais de Sundance e Berlim em 2010 e aplaudido de pé no Festival de Paulínia, LIXO EXTRAORDINÁRIO, dirigido por João Jardim, Lucy Walker e Karen Harley, foi filmado entre agosto de 2007 e maio de 2009, e acompanha o trabalho do artista plástico brasileiro Vik Muniz – filho de retirantes cearenses e radicado em Nova York, onde é considerado um dos mais importantes artistas plásticos da atualidade, principalmente por experimentar novas mídias recriando de maneira inusitada trabalhos célebres como as pinturas de Monet e Leonardo da Vinci. Após passar por uma crise artística sobre a real utilidade de sua obra, ele decide passar dois anos no Jardim Gramacho, onde pretende ajudar os moradores do local produzindo arte com materiais retirados do lixo. Inicialmente falando em inglês, Vik Muniz assemelha-se mais a um estrangeiro pregando assistencialismo. Mas, se a ideia era buscar no aterro material para sua obra, serão as pessoas que lá trabalham sua verdadeira matéria-prima, e é a partir desse contato que o filme se humaniza e desce do pedestal. A realidade dessas pessoas, que aparentemente viviam felizes e conformadas no seu trágico universo, torna o filme ainda mais forte e comovente, sem pieguices. Depois de selecionar e fotografar um grupo de catadores de material reciclável, Vik vai exercer sobre eles um poder transformador ao aproximá-los da dignidade esquecida. Utilizando objetos retirados do lixo todos vão trabalhar na confecção dessas obras, onde todo valor arrecadado será empregado na comunidade. Introduzidos no mundo da arte, eles percebem como são poderosos, e que tudo é arte. Com a autoestima renovada, mudanças externas e internas serão produzidas. O conflito provocado é voltar ou não para o lixão com o fim do projeto.
          O documentário começa e termina com imagens extraídas de entrevistas realizadas no “Programa do Jô”, há quem diga que TV é lixo e que essas imagens são uma espécie de metáfora, mas teorias da conspiração à parte, foi a televisão que proporcionou a Vik Muniz popularizar seu trabalho no Brasil ao aceitar um convite para reutilizar a mesma ideia na abertura da novela global “Passione”, de Sílvio de Abreu.
          Após assistir ao filme é impossível você olhar para o seu próprio lixo, ou para os catadores de material reciclável na rua, da mesma maneira, deixando bem claro que a coleta seletiva é uma necessidade que não pode ser desprezada pelas autoridades nem pela sociedade, e que 99 não é 100.


quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

NESTE DOIS DE FEVEREIRO

  Duvido de quase tudo, 
mas acredito em Pierre Verger e em Carybé.

Ilustrações dos livros Carybé & Verger - Gente da Bahia e 
Carybé, Verger e Caymmi - Mar da Bahia

"Havia rosas no mar,
havia ondas na areia".
                                           Otto





segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

EU, O OTIMISTA

          Há quem, frequentemente, me chame de pessimista, de pragmático, de realista. Confesso que isso não é demérito algum, essas adjetivações soam até lisonjeiras. A verdade, e isso não é segredo, é que eu não passo de um otimista, de um Policarpo Quaresma repaginado, o último romântico dos litorais de qualquer atlântico. Sou, assumidamente, fora de moda. Dizem que o otimista é uma pessoa sem muita experiência, mas não me importo.
          Estou eternamente disposto a ver o lado bonito da vida, nem que seja na balada após a quinta cerveja.
          Sempre acredito que não irá chover, mesmo que eu compareça aos meus compromissos encharcado da cabeça aos pés.
          Frases motivacionais adornam o calendário da minha mesa no escritório, apenas não compreendi, ainda, o que Borges quis dizer no mês de maio com “a esperança é o mais sórdido dos sentimentos”.
          Tenho o armário repleto de caixas de remédios variados, mas não sou um hipocondríaco (ser cumprimentado na farmácia, como fazem os garçons no bar, não atesta o contrário).
          Não acho que o meu vizinho tenha um emprego, um gramado e uma mulher melhores do que os meus. Não acho que a fila ao lado anda mais rapidamente do que a que estou e no restaurante não acho o prato dos outros mais atrativo do que a refeição que escolho – embora pareçam.
           Não sinto a sua falta, sinto a sua presença pela casa arrastando correntes durante a madrugada.
           Já não me amarguro arrependido a imaginar “e se eu tivesse feito isso” ou “e se eu tivesse feito aquilo”, meus excessos me permitem, no máximo, um “e se eu não tivesse feito isso” ou “e se eu não tivesse feito aquilo” (o que, ao final das contas, deve ser a mesma coisa).
          Aguardo ansiosamente o resultado positivo, seja do exame de gravidez daquela paixão do carnaval em Salvador ou de alguma doença hereditária degenerativa.
          Sim é a minha palavra preferida, principalmente quando preciso confirmar os meus nãos.
          Recentemente, percebi que querer nem sempre é poder e que nada é tão ruim que não possa piorar (mas não divulgo essas descobertas).
          Sei que os últimos serão os últimos, porém não desanimo derrotado na torcida.
          Assim como Woody Allen, também acredito que o copo está meio cheio... de veneno.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

POEMA INÉDITO


carrego nos braços
alegria e tristeza na medida errada

em excesso

quem me vê entristecido
na rua
não sabe que descanso o peso da alegria
                   
Herculano Neto 

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

CONTRA O SILÊNCIO

          Grande parte dos meus desafetos nasceu da minha palavra, não apenas a escrita, principalmente a falada, em alto e nem sempre bom som.
          Não costumo omitir o que penso, até tento, mas não consigo. Para quem pessoalmente não me conhece, advirto que não sou nenhum falastrão, o rei da festa com suas tiradas sem graça. Na verdade, sou introspectivo, de breves comentários, observador. No entanto, o pouco que digo é o suficiente para fomentar rancores ou paixões.
          Não quero o aplauso fácil, desconheço o meio-termo, o alto do muro. Diplomacia, conheço somente de vista. Não falo duas vezes antes de pensar, sei o que falo. Nem simplifico a questão me comparando à natureza de uma criança, não terceirizo minha responsabilidade. Frequentemente, sou tachado de deselegante, de deseducado. Mas se me desagrada, não falo o contrário para satisfazer ninguém.
          Sempre falei o que pensava, mesmo que depois eu me arrependesse (não do que disse, mas por ter dito). É um risco me pedir a opinião sobre algo, desde os testes nucleares na Coréia do Norte à cor do vestido. Não tenho medo de destoar, de contra-argumentar, de desmentir, de desmistificar. Não tenho medo da maioria. Só não quero me martirizar por que não disse o que sentia. A palavra represada amargura, corrói, causa câncer.
          Sofri quando quis me esconder atrás do silêncio.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

PARA QUEM AINDA FREQUENTA VÍDEO LOCADORA

IMAGEM ILA FOX

Atendendo a pedidos, a relação de alguns dos melhores filmes que revi em home video durante o último ano. Sei que a minha opinião sobre o que é “melhor” não vale muita coisa, mas pode servir como dica para quando você estiver perdido na video locadora - ou quando tiver direito àquela “cortesia” e não souber o que escolher:


A FLOR DO MEU SEGREDO (1995)
Pedro Almodóvar

AMNÉSIA (2000)
Christopher Nolan


CONTRA A PAREDE (2004)
Fatim Akin

ED WOOD (1994)
Tim Burton

FELICIDADE (1998)
Todd Solondz

HISTÓRIAS MÍNIMAS (2002)
Carlos Sorín

O GRANDE GOLPE (1956)
Stanley Kubrick

PACTO SINISTRO (1951)
Alfred Hitchcock

SIDEWAYS (2004)
Alexander Payne

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

UMA ÚLTIMA CRÔNICA FRAGMENTADA

      Adeus, ano novo!
     Estive nas páginas da Bravo!, da Piauí, da Cult, mas quase ninguém viu. Para os meus sempre espirituosos amigos, melhor seria se eu estivesse na Caras, talvez essa “honra” me rendesse um desconto no cabeleireiro ou notoriedade na sala de espera do dentista, poderia ter dito para eles que quem lê Caras não vê coração, mas nos poupei do medíocre trocadilho. Inclusive, sei que essas efemeridades não me darão fama alguma - fama é ser reconhecido por meus vizinhos. Por enquanto, ficaria satisfeito se eu descobrisse por que as pessoas ao invés de me desejarem saúde e paz, me desejam sucesso.
        Recortes amarelados de jornais, fotografias, medalhas e cartas de amor se amontoam, desordenadamente, na sala do ego (aquele sorriso na parede não é meu, aquele “eternamente tua” não era para mim). Preciso afastar a mobília, limpar a poeira do meu blog. Este ano, fiz listas de melhores isso, melhores aquilo (muitas sequer me atrevi a publicar). Acreditei num Brasil mais verde, menstruei, fiz epitáfios, canções, pedi outras doses, questionei, me equivoquei, dei o braço a torcer, abri as janelas da minha solidão com vista pro mar, quis ser Paulo César Pereio (agora quero ser Paul Giamatti ou PJ Harvey). A verdade é que escrevo cada vez menos. Não me falta inspiração, não me falta paciência. O problema deve ser ideias e calma demais.
        Anônimo(a), não adianta  me procurar nas entrelinhas, nas cores que uso para enfeitar o meu dia. Creio que já disse algo parecido num poema. Minha vida não é uma película do Almodóvar, talvez nem a de Lara seja. Minha vida está mais para um filme do Todd Solondz, para um conto do Lima Barreto ou para uma canção da Dolores Duran. Meu passado está em branco, meu futuro me condena. Humberto, não há luz no fim do túnel do tempo.
        Quero entardecer numa praia de Saubara.
        Quero minhas manhãs de domingo com Inezita Barroso.
        Novamente, como numa reprise da Sessão da Tarde, não me impressionei com as luzes tristes do natal, com os ornamentos da cidade, com as guirlandas penduradas nas portas dos apartamentos do meu edifício. Certamente, também não me impressionarei com a contagem regressiva ou com os fogos artificiais que celebrarão o funeral de 2010.
        Tenho um planeta no porão que precisa entrar em órbita.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

DIÁRIOS DE CINEMA II


CINEMA 2010: MELHORES FILMES INTERNACIONAIS*

A FITA BRANCA
(Michael Haneke)

O PROFETA
(Jacques Audiard)

PECADO DA CARNE
(Haim Tabakman)

SUBMARINO
(Thomas Vinterberg)

UM DOCE OLHAR
(Semih Kaplanoglu)

UM HOMEM SÉRIO
(Irmãos Coen)

 
MELHOR ANIMAÇÃO


 
PIOR FILME DO ANO





*FILMES QUE ESTREARAM COMERCIALMENTE
OU FORAM EXIBIDOS EM FESTIVAIS OU LANÇADOS DIRETAMENTE EM HOME VIDEO EM 2010

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

DIÁRIOS DE CINEMA

No começo de 2010, resolvi relacionar todos os filmes vistos durante o ano; adicionando datas, locais e impressões causadas (sem formalismos e no calor do momento), além de arrematar a anotação com uma nota que ia de 5 a 10. Até agora, entre cinema e home video, foram 276 filmes (bem menos do que eu gostaria).  Daqueles que estrearam nas salas soteropolitanas poucos obtiveram pontuação máxima, são os que fazem parte da relação abaixo:

CINEMA 2010: MELHORES FILMES NACIONAIS*


(Laís Bodanski)
(Esmir Filho)

(Sergio Bianchi)

(José Padilha)
(Marcelo Gomes e Karim Aïnouz)


PIOR FILME DO ANO

(Fábio Barreto)


*FILMES QUE ESTREARAM COMERCIALMENTE EM 2010

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

WOODY ALLEN: 75 ANOS

 “Só há um tipo de amor que dura, o não correspondido”.
_________________________________

75 anos de Woody Allen 
e minha lista dos seus filmes que mais admiro:

ANNIE HALL (1977)
MANHATTAN (1979)
MEMÓRIAS (1980)
ZELIG (1983)
HANNAH E SUAS IRMÃS (1986)
DESCONSTRUINDO HARRY (1997)
MATCH POINT (2005)

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

SACIZEIRO

Se fosse numa obra do Monteiro Lobato, sacizeiro poderia até ser uma árvore encantada no meio da floresta, mas aqui, na 15ª DP, sacizeiro é o usuário de crack que mantém o vício através de pequenos furtos, é o elemento mais nocivo da sociedade, é aquele que perambula pelas ruas feito um zumbi, totalmente sequelado, amedrontando e abordando a população, pedindo centavos, na maior noia, ou no saci, como eles mesmos dizem. Sacizeiro é uma referência ao Saci-Pererê, devido ao uso do cachimbo para o consumo das pedras, numa alusão infeliz – minha infância não merecia uma homenagem dessas.
           Todos os dias, detínhamos mais de uma dezena, mas terminávamos liberando a maioria, não teria espaço para tanta gente aqui. Depois que os comerciantes do centro da cidade nos contrataram para formar uma milícia, nem nos damos mais ao trabalho: derrubamos o vagabundo onde ele estiver. A mídia não divulga as mortes para não aparecer neguinho dos Direitos Humanos fazendo barulho por causa de pombo sujo. Nosso trabalho é festejado em silêncio.
           Antes de eliminar o indivíduo, costumo quebrar sua perna com um bastão de beisebol, que meu filho trouxe de Orlando. Então, mando o malandro pular com uma perna só, para, finalmente, poder acertá-lo com um tiro na cabeça.


Trecho do livro inédito, QUERO SER PAULO CÉSAR PEREIO, 
publicado na revista Bravo!, edição de novembro, 2010
(ainda, nas bancas).

terça-feira, 23 de novembro de 2010

PEREIO POR PEDREIRA

 
 QUERO SER PAULO CÉSAR PEREIO
(Ribeiro Pedreira)

recortes de vidas
deterioradas
injetados em doses
homeopáticas
na veia dos olhos

querer mais uma dose
ou mesmo ser Pereio
tanto faz
o mundo gira
da orla do desassossego
ao centro nervoso do desespero

                           Para Herculano Neto


Outra grata surpresa matinal, desta vez do poeta e amigo Ribeiro Pedreira, 
do blog ALGUMA POESIA.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

MEU BEATLE PREFERIDO

          Não há muito tempo, era comum ter que responder qual era o seu Beatle preferido (ao menos para mim era). No ano em que se celebram os 70 anos de nascimento de John Lennon, além da lembrança dos trinta anos do seu assassinato, e das apresentações de Paul McCartney no Brasil, a pergunta parece retornar à moda, embora polarizada.
        Como sempre simpatizei com minorias, meu Beatle preferido poderia até ser Ringo Starr, mas somente se ele tivesse composto canções como "Something" e “While my Guitar Gently Weeps, e após o fim da banda lançasse um álbum como ALL THINGS MUST PASS. No entanto, Ringo Starr apesar de ter sido um eficiente e influente baterista, diferentemente do que dizem, e não apenas um cara de sorte, acho mais conveniente deixá-lo para fãs como Marge Simpson.
        Obviamente, minha resposta é George Harrison: sua elegância, discrição e técnica ainda me emocionam. Peço licença para a cineasta Laís Bodanzky para reafirmar que “Something” é uma das melhores coisas do mundo, mesmo na voz e no violão de Mano.

sábado, 13 de novembro de 2010

NA BRAVO!

 Leia alguns contos do livro inédito QUERO SER PAULO CESAR PERÉIO, de Herculano Neto, na revista Bravo! edição 159. Nas bancas.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

DIREITO PRESCRITO


DIREITO PRESCRITO

Nasci com defeito de fábrica, defeito na alma. Minha mãe não notou, meu pai não notou, ninguém notou. Só perceberam quando inventei de me remendar, de me colar, de me parafusar, mas aí já era tarde, não era mais possível a devolução.



 A CIA ZenFazernada e A Voz da Pedra Produções, dos amigos Luciano Fraga e Douglas Vieira, produziram este vídeo com o meu texto DIREITO PRESCRITO. Surpresa muito agradável.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

JUVENTUDE?

Não costumo recriminar a juventude, no entanto é impossível permanecer indiferente a algumas coisas: uma delas é esse modismo incompreensível intitulado “eyeballing”, que nada mais é do que tomar uma dose de vodka pelos olhos com a promessa de proporcionar um estado maior de embriaguez, mas que na verdade provoca uma queimadura química que pode levar à perda total ou parcial da visão. Cada vez mais difundido entre os jovens através das redes sociais, “o colírio de vodka” não deixa de encontrar adeptos no Brasil (algo que pude confirmar num recente final de semana num bar). 
Outra, igualmente incompreensível, são as mensagens racistas postadas no Twitter após a eleição de Dilma Rousseff, onde os nordestinos foram considerados os principais responsáveis pela vitória da candidata petista. A mensagem que deu origem dizia: "'Nordestisto' não é gente. Faça um favor a SP: mate um nordestino afogado" (sic). Ingenuamente, achava que xenofobia e neonazismo eram imbecilidades démodés. Sou brasileiro, nordestino, e mesmo se eu não fosse, estaria igualmente indignado. Não se trata apenas de uma questão de defesa regional, é simplesmente respeito ao ser humano. Isso vai muito além da tão defendida liberdade de expressão, que parece desculpa para tudo. O Ministério Público promete investigar o caso, enquanto comunidades racistas se propagam livremente com milhares de membros e manifestações injuriosas. 
       Há quem diga que para o jovem tudo é permitido, mas até os excessos têm fronteiras, que não podem ser ultrapassadas jamais.


A imagem que ilustra a postagem é de JOvelino VENceslau dos Santos, célebre personagem de Chico Anysio, mais conhecido como “Jovem”, representante de uma época em que a rebeldia adolescente inspirava divertidos aforismos.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

"SOLIDÃO COM VISTA PRO MAR"

 “E tudo que eu posso te dar
É solidão com vista pro mar
Ou outra coisa pra lembrar...”

                                                                                                          
 "Eu não sei dançar
Tão devagar
Pra te acompanhar..."

(EU NÃO SEI DANÇAR, Alvin L.)
 

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

PORCAS BORBOLETAS


 
 Menos
(Porcas Borboletas)

Eu sei
eu sei que não era pra eu ser assim
que eu devia tomar as doses nas horas certas
eu sei que eu devia dormir boas noites de sono
e que eu devia fumar menos 
escovar os dentes com pastas pra gengivas sensíveis
e perambular menos na rua quando todo mundo já foi
e não me jogar tanto quando alguém me abre os braços
e beber menos
e amar menos
eu devia parar
e pensar menos
eu sei que eu devia pensar menos
e falar menos
eu sei que eu devia falar menos
pra viver mais
eu sei que eu devia viver menos
mas eu não sei viver menos


De Uberlândia, Minas Gerais, “PORCAS BORBOLETAS” é uma das principais bandas do cenário independente brasileiro. Ao participar dos festivais realizados no país, chamou a atenção da crítica especializada e do público com um show extremamente performático. Compôs a música tema do filme NOME PRÓPRIO (de Murilo Salles) e tem parcerias com Arnaldo Antunes e Arrigo Barnabé. Com dois discos gravados (UM CARINHO COM OS DENTES em 2006 e A PASSEIO em 2009), não esconde suas influências de vanguarda paulistana, MPB setentista e rock Brasil. Com letra da escritora Clara Averbuck, “MENOS” foi uma das canções que mais escutei no último ano – e que me fez lembrar porque eu gostava do rock nacional dos anos 80.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

ESSES ESSES


esses esses
(Herculano Neto)

esse gosto de já
na minha boca

esse cheiro de vá
na minha roupa

esse gosto de medo
em outras bocas

esse cheiro de perfume barato

Poema adolescente publicado originalmente num fanzine de poesia, em 1996 (o título citava uma gíria baiana da época). Na antologia OS OUTROS POEMAS DE QUE FALEI (Prêmio Banco Capital de Literatura, 2004) ganhou nova versão. Agora, ao revisitá-lo, torno a brincar com os versos. A atriz dinamarquesa, Anna Karina, musa da Nouvelle Vague, ilustra a postagem.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

ZUCKERMAN X BARTLEBY

Sempre preferi o factóide ao fato, a inverossimilhança à realidade, a fantasia ao documentário. Sempre fui o último no telefone sem fio, sempre fui ludibriado pelas aparências. Por isso, costumo me irritar quando ignoram meu mérito de ficcionista, quando confundem o criador com a criatura, o contista com o cronista – e, ultimamente, isso tem sido cada vez mais comum. Nem tudo que eu escrevo é fruto das minhas experiências, das minhas observações do mundo. Além do ocorrido, há o imaginado.
          Já perdi a conta de quantas vezes me perguntaram sobre situações e personagens, como se tivessem acontecido comigo, como se fossem eu. Sinto a decepção no olhar dessa parcela de leitores quando respondo contrariado que nunca fui preso, nunca fiz programa com travestis, nunca fui travesti, nunca sofri uma overdose, nunca trabalhei para o tráfico, nunca fraudei documentos para fugir do país, nunca testemunhei uma chacina, nunca morei nas ruas ou numa tribo indígena, nem sou jornalista, estudante de veterinária ou tive um cãozinho chamado Sabido. Uma explicação pouco convincente, talvez seja porque construo quase todos os meus contos em primeira pessoa, o que gera certa cumplicidade e aproxima mais a ação do leitor. No entanto, isso está distante de ser uma característica de estilo ou artimanha, é apenas resultado da minha inabilidade em desenvolver satisfatoriamente textos em terceira pessoa. Parece desnecessário dizer, mas a minha biografia não está nos meus livros.
          Algumas pessoas se aproximam de mim achando que sou “diferente”, “especial”, que o meu coloquialismo é poesia vinte e cinco horas por dia, que a minha vida é repleta de histórias absurdas e divertidas. Não sou nenhum super-homem, sou um humano que erra, chora, sonha, atrasa as contas, esquece, se arrepende, pede desculpas. Citando Lulu Santos: “não leve o personagem pra cama, pode acabar sendo fatal”. É possível que essas pessoas sofram da Síndrome de Zuckerman, que segundo Rubem Fonseca, em DIÁRIO DE UM FESCENINO, é um mal que acomete os leitores e os faz pensar que autor e personagem sejam uma coisa só. (Nathan Zuckerman é o protagonista de diversos livros do romancista norte-americano Philip Roth. Após publicar um livro, Zuckerman é perseguido pelos leitores, que acreditam que tudo que ele escreveu se refere aos seus amigos ou parentes). Melhor seria que fosse diagnosticada em mim, por uma equipe de questionáveis especialistas, a Síndrome de Bartleby, que é quando os autores deixam de produzir novas obras, e excluísse meu blog, me mudasse para uma ilha ou me isolasse definitivamente no meu apartamento.
          Somente agora, compreendo porque as telenovelas avisam ao final do capítulo que “essa é uma obra de ficção”. Poderia ter usado artifício similar desde o começo, em Santo Amaro. Hoje, seria reconhecido pelo que realmente sou. E seria mais infeliz.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

DOMINGO ESMERALDA


No romance O Leopardo, do escritor italiano Giuseppe di Lampedusa, o Príncipe de Salina (imortalizado no cinema por Burt Lancaster no clássico de Luchino Visconti), expressa todo seu desencanto com a política na célebre frase: “Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude.”. Impossível não ser remetido à principal bandeira da atual campanha presidencial: o continuísmo. Ao contrário do Príncipe de Salina, acredito que às vezes é preciso mudar para que as coisas fiquem diferentes.

"De repente
me lembro do verde
da cor verde
a mais verde que existe
a cor mais alegre
a cor mais triste
o verde que vestes
o verde que vestiste
o dia em que eu te vi
o dia em que me viste."
(Paulo Leminski)

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

UMA RAZÃO

No site oficial da candidata Marina Silva estão enumeradas 43 razões para ela receber o nosso voto. Certamente, tenho bem mais que quarenta e três motivos. Basta observar seus adversários políticos, no famigerado horário eleitoral, em algum noticiário ou em qualquer debate, para se constatar que não é muito difícil encontrar uma razão o que já é mais do que suficiente.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

SANGUE NO CHUMBO

Em 1960, instalou-se em Santo Amaro da Purificação (BA) uma multinacional francesa de beneficiamento de chumbo, talvez numa tentativa de revitalizar a economia do município que, historicamente, sempre foi baseada no cultivo da cana-de-açúcar. No entanto, o que se viu foi a contaminação ambiental da cidade com a emissão de efluentes lançados indiscriminadamente através da chaminé da fábrica e nas águas do rio Subaé, além de centenas de trabalhadores considerados inválidos devido à exposição ao chumbo. Em 1989, a fábrica foi adquirida por uma empresa brasileira, que mesmo tendo herdado o passivo ambiental e trabalhista, não cumpriu com as suas obrigações. Ao encerrar as atividades em 1993, deixou para trás duzentos e cinquenta trabalhadores desempregados (que ainda aguardam, juntamente com seus familiares, a conclusão de várias ações judiciais) e cerca de quinhentas mil toneladas de resíduo industrial (escória).
           Uma pesquisa realizada em 1980, afirmou que 96% das crianças residentes a menos de 900 metros da fundição tinham concentração de cádmio  e chumbo no sangue acima do valor normal de referência, e os níveis encontrados no cabelo eram proporcionais às concentrações desses metais no solo. Outro dado informava que o nível de contaminação na cidade era vinte nove vezes maior que o tolerado pela Organização Mundial de Saúde.
           Como se já não bastasse, toda escória foi “doada” aos habitantes da cidade, que a usaram na construção, acabamento e nos quintais de suas residências. A prefeitura local, inacreditavelmente, também, usou grandes quantidades dessa escória para pavimentar ruas e lugares públicos de Santo Amaro, podendo ser encontrada facilmente sob os paralelepípedos e ao redor dos canos do abastecimento de água. A população local costuma, ainda, consumir carne e leite do gado que frequentemente entra nas dependências da fundição abandonada, para pastar e beber da água que se acumula nos antigos tanques de contenção na área da empresa, além das mandiocas e bananeiras que encobrem resíduos soterrados nas proximidades das instalações, e que servem de alimentação tanto para os santoamarenses quanto para as cidades vizinhas.
           O chumbo é um metal conhecido e utilizado desde a antiguidade (existem algumas menções no Velho Testamento, como em Êx 15:10). É usado na construção civil, na indústria bélica, na produção de soldas, fusíveis, revestimentos de cabos elétricos, entre outros. Também é incorporado ao cristal na fabricação de copos e outros utensílios domésticos, ressaltando seu brilho e durabilidade, embora possa contaminar os alimentos. Em virtude de sua elevada toxicidade e dos seus compostos, regulamentações ambientais cada vez mais restringem a sua aplicação.
           O chumbo não possui nenhuma função essencial no corpo humano e é extremamente prejudicial quando absorvido pelo organismo através da comida, ar ou água. Pode causar anemia, aumento da pressão sanguínea, alteração no sistema nervoso, abortos, arteriosclerose precoce, síndrome hepática, danos aos rins e ao cérebro. O chumbo é um elemento extremamente tóxico que não se dissipa, biodegrada ou deteriora, o que coloca Santo Amaro como uma das cidades mais poluídas do planeta.
           A Rede Band de Televisão realizou no começo de 2010 uma matéria denunciando o fato, que até o momento não foi ao ar devido a uma medida liminar conseguida pelo governo baiano impedindo sua veiculação. Enquanto isso, a população de Santo Amaro sofre suas consequencias, inclusive seus recém-nascidos, que vêm ao mundo com alto índice de cádmio e chumbo no sangue.
           O vídeo abaixo ilustra a situação e fotografias da contaminação podem ser vistas clicando AQUI.


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