terça-feira, 4 de março de 2014

UM GRITO NO MURO


 é inútil apontar
            as diferenças
é preciso buscar
            as semelhanças

a felicidade nos espera na intersecção

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

CORAÇÃO DESAJEITADO



 

                                                      desordenando
                                     tropeçando
                                                                         esquecendo
                                                              confundindo

até o coração é desajeitado





domingo, 9 de fevereiro de 2014

“FUNERAL PARA UM AMIGO”


Provavelmente eu sabia que isso iria acontecer um dia, como pais que presenteiam o filho com um casal de hamsters apenas para familiariza-lo com o conceito de perda e poder falar sobre um paraíso celestial cheio de hamsters, peixinhos dourados, porquinhos da índia e a vovó. Nos últimos anos, mais do que mera rotina, a primeira coisa que eu fazia pela manhã, a primeira mesmo, era regar meu bonsai e coloca-lo na janela durante algumas horas. Podava, trocava a terra, colocava adubo, tinha todos os cuidados necessários. Mas em um dia, simplesmente, tanto cuidado não adiantava mais. E aos poucos ele começou a secar: feito o amor. Pensei em substitui-lo. Fui à floricultura, olhei as espécies e desisti. Não daria certo. Não seria igual, sequer semelhante. Agora ele tá abandonado na área de serviço: galhos ressequidos num vaso. Não tenho coragem de joga-lo fora. Deveria haver um cemitério para plantas, como existem cemitérios para animais.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

NÚMERO PRIVADO

     Não atendo chamadas telefônicas de números privados. Acho um desaforo ligar para alguém sem se identificar. No entanto, ontem recebi várias e insistentes ligações sem identificação. Fiquei incomodado. E se fosse alguém conhecido que foi assaltado, que levaram o telefone celular, que estava utilizando um telefone emprestado de um estranho, que estava em alguma delegacia da cidade registrando um boletim de ocorrências, que o único número telefônico que recordava era o meu...? E se fosse?
     Em um momento pré-identificador de chamadas da história da comunicação humana, todo mundo atendia qualquer ligação em casa. O que mudou? Ligaram mais uma vez. Olhei: “não identificado”. Comecei a suar. E se fosse mesmo alguém precisando de ajuda? E se fosse? Respirei fundo. Atendi:
     – Alô?!
     – Senhor Herculano?
     – Pois não?!
     – Nós somos do Consórcio Nacional Ford e estaremos oferecendo uma oportunidade única para uma pessoa como o senhor...
     (Desliguei)
     Não era, realmente, alguém precisando de ajuda. Mas, e se fosse?

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

EPÍGRAFES

epígrafes dizem mais
não se escondem

a epígrafe é você na pena do outro
é o verso certeiro
a referência
a deferência
a bênção

epígrafes são traiçoeiras
decorativas
desnecessárias

epígrafes são maledicentes
pretensiosas
tendenciosas

epígrafes são autossuficientes
epígrafes são epitáfios

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

UM REAL

Final de tarde talvez seja o pior horário para encarar uma fila de supermercado, mas tem coisas que só uma boa garrafa de Red Label na promoção me obriga a fazer. Uma senhora está tentando pagar suas compras com uma série de moedas e notas que busca pacientemente na bolsa, já esperei tanto até agora, um pouco mais não fará diferença. Das cédulas surge, resplandecentemente esmeralda, um impecável e esquecido exemplar de um real, que chama imediatamente a atenção da operadora do caixa, que não se contem de satisfação e mostra para a colega ao lado:
 
“Fulana, olha isso aqui”

“Já é minha”

“Nada, vou ficar pra mim, a dona veio no meu caixa”

Um homem que estava atrás de mim oferece dez reais pela nota, logo o tumulto está formado. Uma mera nota de um real é disputada quase que a tapas. Sem saber quanto tempo aquele leilão iria demorar, deixo minha garrafa num carrinho abandonado e saio sem tentar me enfurecer. Acho que ainda tenho um resto de Ciroc na geladeira.

domingo, 19 de janeiro de 2014

TUDO QUE EU TENTEI FALHOU

Tudo que eu tentei falhou: 

Sapatênis, bandana, sunga dos states, suspensório, relacionamento aberto, fechado, ménage à trois, suruba psicodélica, abstinência do uso de drogas seguido da suspensão da abstinência, paraíso, purgatório, inferno, Rua Augusta, cavanhaque, bigode, moicano, dreadlock, faixinha no cabelo, sorriso faceiro, chinelo de couro, Rexona, Avanço, Leite de Rosas, Minâncora nas axilas, educação física, Educação Moral e Cívica, direito, zootecnia, papai-mamãe, coelhinho da páscoa, self-service, bandejão, rastafári, capoeira, natação, hidroginástica, relacionamento sério, encontro de adolescentes com Cristo, encontro de casais com Cristo, CVV, Caldas Novas, Guarapari, bandão, retiro espiritual, orgia, shampoo de jaborandi, florais de bach, própolis, paraquedas, bungee jump, psicanálise, macrobiótica, caminhada, jogo de bingo, roleta russa, sadomasoquismo

Tudo que eu tentei falhou.



terça-feira, 14 de janeiro de 2014

RUPESTRE MODERNO

Acho que foi José Saramago quem condenou a tendência para o uso do monossílabo como forma de comunicação virtual, o que nos levaria, gradativamente, de volta ao grunhido. Podando o pessimismo da previsão, e sem resvalar no fascínio gratuito de Caetano Veloso pela moçada que transformou “cê” em pronome, creio que estamos caminhando para o fim da linguagem escrita como conhecemos. Com o advento do WhatsApp e outros aplicativos tecnológicos, tornou-se desnecessário escrever: é demorado, cansativo, complicado, démodé. Afinal, é possível simplesmente enviar uma mensagem de voz, um simpático símbolo ou uma divertida imagem. Escrever, realmente, apenas para designar o silêncio.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

ON THE ROAD

Sei que é um momento importante, praticamente um rito de passagem, apenas por isso continuem me convidando para festas de formatura, mas, por favor, não permitam que toquem novamente “Na Estrada”, da banda Cidade Negra, aquela que diz “você não sabe o quanto eu caminhei pra chegar até aqui”. Além dela já se encontrar mais desgastada que a canção de final de ano da Rede Globo, entendo como uma afronta, uma grande mentira, se você for filho de uma família bem sucedida financeiramente, que estudou nas melhores escolas, que cresceu inocentemente entre os muros do condomínio fechado, que teve professores particulares, motorista e outra meia dúzia de serviçais diligentes ao seu dispor, que viu sua cidade da janela do carro blindado, mas caminhou alegremente pelas vias europeias e norte-americanas,  que teve uma mesada maior que boa parte dos salários pagos no país e que acredita que “faltar” é apenas um verbo. Eu não sei o quanto você caminhou para chegar até aqui, e prefiro continuar não sabendo

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

NEVE SOBRE OS CEDROS

─ Lá em casa tratamos nossa “secretária” como se fosse da família.

Não sei por que, mas alguns eufemismos soam tão estridentes aos meus ouvidos. “Secretária”, ao invés de empregada, é um deles, assim como C.A. no lugar de câncer ou “pessoa” no lugar de namorado(a).

─ Inclusive, ela come a mesma comida que a gente, viu?!

Por pura pirraça, perguntei qual era o papel higiênico que a família destinava à “secretária”.

─ Um mais normalzinho.

Nem lhe presenteei com meu olhar de reprovação, para mim uma conversa boba que nem deveria ter começado já tinha terminado, ainda assim ela treplicou:

─ Cê não queria que a gente colocasse Neve nas dependências, né?!
 
(...) 


Parece anedota, mas infelizmente tive esse papo. 
Maldita mesa de bar.


terça-feira, 10 de dezembro de 2013

JORGE + 100

O Centro Histórico de Salvador abrigará de 10 a 13 de dezembro um evento literário que vai discutir a Literatura que se faz hoje na Bahia, tendo como referência o mais famoso dos escritores baianos: Jorge Amado. O “Jorge + 100” é uma iniciativa patrocinada pelos Correios, com realização do Ministério da Cultura, apoio da Fundação Casa de Jorge Amado e organização da produtora Canto de Ideias. O encontro será no Centro Cultural dos Correios, no Largo do Cruzeiro do São Francisco, Pelourinho, com acesso gratuito ao público até a capacidade máxima do auditório. O Jorge +100 reunirá diversos escritores e especialistas que debaterão sobre as obras ficcionais atuais e os temas relacionados, que vão desde as ruas de Salvador como inspiração à baianidade da população e influência da capital nos trabalhos dos autores locais. Estão confirmadas as participações de nomes de destaque no cenário nacional, como o baiano Antônio Torres, recém-eleito para a Academia Brasileira de Letras, Liv Sovik, pesquisadora de temas multiculturais, e a atriz e poeta Elisa Lucinda, além do escritor santoamarense Herculano Neto.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

PENSANDO ALTO

(*) Costumo ler as notas do obituário nos jornais de Salvador e frequentemente encontro alguém natural de Santo Amaro entre os falecidos, como se estivesse me lembrando que em breve não serei mais notícia no caderno 2.

(*) Ainda sei que sou o mesmo menino do interior quando olho para o lado quando escuto uma buzina de automóvel (buzinar no interior é cumprimento); quando olho pra cima quando passa um avião (avião no interior é novidade, brincadeira de criança).

(*) Pode parecer implicância, talvez até seja realmente, mas acho insuportável o ato de assobiar  canções. Se acalma quem faz, só me enfurece. Conviver com pessoas que cultivam esse hábito é uma tortura, só me vem à cabeça a assassina caolha de Daryl Hannah em “Kill Bill”.

(*) Minha geração decretou o casamento como uma instituição falida. No entanto, começo a observar que jovens casais, entre 19 e 23 anos, estão se casando cada vez mais cedo. Solteirice, definitivamente, é coisa de velho.

(*) Dieta da bola de algodão? Não, uma fatia de torta de tapioca com doce de leite, por favor.


(*) Não faz muito tempo, economizava-se crédito nas ligações feitas para telefone móvel; hoje, com tantos planos e bônus, economiza-se a carga da bateria do aparelho. Preciso aprender a me economizar também.

(*) WhatsApp não deixa de ser um passo adiante na ruidosa comunicação humana, mas os grupos do aplicativo são uma praga. Qualquer assunto vira “grupo”: trabalho escolar, confraternização, fofoca, novela, The Voice, dieta, anos 80...

(*) Ninguém me avaliou no Lulu.

(*) Nunca acreditei que todo mundo fosse filho de Papai Noel.

(*) Nunca acreditei em Papai Noel.


quinta-feira, 28 de novembro de 2013

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Pb

há um rastro de chumbo
                nos seus olhos

quando chora
quando tenta
quando espera
quando desiste

há um rastro de chumbo
                nas suas ruas

quando celebra
quando perpetua
quando omite
quando enguiça

há um rastro de chumbo
                em sua gente

quando dá de ombros
quando compactua
quando ignora
quando silencia

há um rastro de sangue na sua história



Mais sobre o chumbo no sangue que maltrata minha cidade AQUI.




quarta-feira, 6 de novembro de 2013

(NÃO) AMAR É...

Uma amiga, dona de casa e mãe de três filhos adultos, conseguiu realizar um sonho adiado mas nunca esquecido: se formou em direito. Ôquei, isso não é nada incomum, provavelmente todo mundo conhece uma dúzia de histórias de superação muito mais dolorosas, porém o que chamou minha atenção foram os agradecimentos da recém formanda, com um parágrafo inteiro dedicado ao esposo, que ficou propositadamente afastado dos outros agradecidos (gente sem valor, como professores, incentivadores e familiares que se apertaram no mesmo parágrafo). No texto, o marido é tratado como um adversário na jornada, um obstáculo que precisava ser ultrapassado, em tom claramente irônico ela agradece pela “oposição contínua” e pela “permanente hostilidade”.

Após ler os agradecimentos, fiquei tentando descobrir o que leva um casal que se odeia a conviver sob o mesmo teto anos a fio, que mesquinhez, egoísmo ou comodidade aprisiona duas pessoas numa existência. O amor?

Não me atrevo a definir o que é o amar, tal qual uma figurinha dos anos 80 ou os colegas literatos Fabrício Carpinejar e Ediney Santana, não tenho essa coragem, não tenho essa ousadia. Nesse assunto sou um incompetente aprendiz, admito.

Pouco posso saber sobre o amor, mas já vivi suficiente para saber o que não é o amor.

sábado, 2 de novembro de 2013

EN PASSANT

Grace Kelly
é tarde
e todos os clichês estão no lugar

    chuva
    frio
    saudade
    uísque
    solidão

é tarde
e todos os clichês riem de mim
                              na minha janela

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