terça-feira, 29 de junho de 2010

O MESTRE DO CINEMA

          De repente, me vi (por acidente ou mero capricho do acaso) numa roda de conversa intelectualoide, com pretensos cineastas, estudantes de cinema, críticos de locadora e figurantes -, onde tentavam aparentar mais do que realmente eram. Antes que eu conseguisse uma desculpa coerente para me retirar, iniciaram uma espécie de brincadeira onde cada um deveria dizer um diretor de cinema que “fez sua cabeça”. Entre diretores eslovenos e israelenses, dos quais nunca ouvi falar, surgiam nomes alternativos de valor, mas relegados ao circuito de arte. Na minha vez, não hesitei nem quis posar de grande entendido, apenas respondi calmamente e sem medo de soar menor: Alfred Hitchcock. Prontamente, alguém menosprezou: “Ah, o mestre do suspense?!”. Não, isso é lugar comum preguiçoso de jornal e revista. Estou falando de Alfred Hitchcock, o mestre do cinema – rechacei como teria feito François Truffaut na Paris dos anos de 1950. Após um desconfortável instante de silêncio, a conversa mudou para Copa do Mundo de Futebol.
          Designar Hitchcock, simplesmente, de “mestre do suspense”, sempre me pareceu diminuir sua real importância. Seu trabalho vai além de estilos e prescinde de alcunhas. Basta assistir aos seus filmes com um olhar mais cuidadoso para apurar que ele era muito mais do que isso. Tenho carinho e admiração enormes por alguns cineastas, mas certamente Hitchcock foi o primeiro a me afetar de maneira definitiva. Evidentemente, a influência dele no cinema feito ao longo dos anos é muito grande, mesmo que neguem. Amiúde, leio ou escuto por aí que tal filme é hitchcockiano (verbete encontrado em alguns dicionários). Mas poucos realmente merecem esse carimbo. A ironia é que mais do que limitá-lo num estilo, ele próprio se tornou um.
          E só pra não perder o hábito, me desafiei a listar meus cinco filmes preferidos de Alfred Hitchcock (tarefa ingrata, complicada e dolorosa). Preferi não utilizar critérios técnicos, apenas afetivos - embora alguns dos títulos escolhidos figurem em várias listas de melhores de todos os tempos. Em ordem cronológica, são:

REBECCA (1940)
A SOMBRA DE UMA DÚVIDA (1943)
INTERLÚDIO (1946)
VERTIGO (1958)
PSICOSE (1960)

Abaixo, uma das cenas mais lembradas da história do cinema. Sete dias de filmagem, setenta posições de câmera e tema musical inquietante para quarenta e cinco segundos inesquecíveis:

quinta-feira, 24 de junho de 2010

SOB A DEBOCHADA E LASCIVA LÍNGUA VERMELHA

OS ROLLING STONES NA PRAIA DE COPACABANA. Não se falava em outra coisa nos últimos tempos e a apresentação prometia, realmente, ser histórica. Juntamente com alguns amigos, resolvi encarar a viagem de ônibus até ao Rio de Janeiro. Chegamos à cidade na tarde do show. Em Copacabana nos deparamos com uma multidão intransponível, formada por todo tipo de gente. Eram milhares de pessoas por toda parte, muitas só conheciam “Satisfaction”, outras nem isso. Eu estava a cerca de um quilômetro de distância do palco quando a banda começou a tocar. Havia telões espalhados pelo calçadão e o som não era dos melhores - não poderia me atrever a dizer, quando voltasse, que estive no show dos caras. Um pouco decepcionado, olhei para o lado e percebi os seios de uma garota se insinuando sob a debochada e lasciva língua vermelha da camiseta. Isso foi o máximo que vi dos Stones naquela noite.


sexta-feira, 18 de junho de 2010

EPITÁFIOS PARA HELENA V


Na hora de partir não havia muito que fazer: minhas roupas sempre estiveram na mala, no canto do quarto. Nunca me atrevi à gaveta.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

EPITÁFIOS PARA HELENA IV


Suportei de Helena tudo quase: sua impaciência, seus desvios,
sua sede, sua esquizofrenia.
Só não fui conivente com a sua indiferença.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

EPITÁFIOS PARA HELENA III


Nunca descobri se era amor, comodismo ou qualquer outro inferno.
Também nunca soube se a conhecia bem ou se ela era muito previsível.

terça-feira, 15 de junho de 2010

EPITÁFIOS PARA HELENA II


Helena não se importava com prognósticos, com previsões do tempo,
com provisões de fundos, com a despensa.
Helena era uma mulher de acasos.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

EPITÁFIOS PARA HELENA I

Quando conheci Helena não houve um estalo, um arroubo, uma profusão de fogos artificiais, uma sonata de violinos ou uma cena em câmera lenta.
O tempo não parou para ver Helena passar.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

INCOMPLETA

         Finalmente, começou a Copa do Mundo de Futebol. Na ausência de algo melhor para fazer, fico imaginando como não deve se sentir quem não compartilha da euforia nacional que impregna de verde e amarelo as cidades e os meios de comunicação -, provavelmente muito pior do que eu fico durante o carnaval morando em Salvador. Infelizmente, também sou um entusiasta do futebol (embora não pareça nem à primeira nem à segunda vista). Se eu pudesse voltar no tempo, e essa é o tipo de suposição boba que todo mundo em algum momento já fez, eu diria para mim, ainda moleque nas ruas de Santo Amaro, para não gostar de futebol; que só trará infelicidade, divergências; que é perda de tempo e os números da Mega-Sena. Mas como é de conhecimento de todos isso não é possível. Talvez eu pense assim porque torço por um time que não me dá alegrias, porque não me sinto representado pela seleção do meu país ou porque, após duas horas de uma partida monótona na TV, eu sempre reflita que poderia ter aproveitado para terminar de ler aquele livro, assistir a um filme, cozinhar, namorar ou apenas recuperar a noite mal dormida. No entanto, sei que na rodada seguinte, teimoso que sou, estarei novamente me aborrecendo na frente da TV (será que não é mesmo possível voltar no tempo?).
***
          Propositalmente, dei por completado meu álbum da Copa faltando uma figurinha. O charme do álbum é não completar. Assim é a vida: incompleta. Mas tinha que ser logo a figurinha do Felipe Melo?
***
          Hoje, um amigo me disse por telefone que a Panini lançou um encarte com os 23 jogadores convocados por Dunga, além das figurinhas dos nove brasileiros que não estão no álbum original (Gomes, Doni, Gilberto, Thiago Silva, Michel Bastos, Kleberson, Ramires, Júlio Batista e Grafite). Ainda não sei se vou colecionar esse refugo. Preferia que ele tivesse me dito que Felipe Melo não está mais no álbum.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

“A MINHA ALMA NUA”

Houve um tempo em que eu tinha desistido de mim, não sabia o que era a luz do dia nem alimento que não fosse bebido, injetado ou aspirado. Quis cair de boca na boca da noite e acabei caindo nos dentes da Boca do Rio. Era requisitado pelos playboys da Pituba, pois constava sempre a massa boa, "a de qualidade". Curtia a noite até a última ponta: suas dores; seus atalhos; seus clichês; suas miragens. Até conhecer Pérola, uma negra de porte altivo e cabelos de nylon, que realizava um trabalho social com as prostitutas e travestis afrodescendentes da orla. Eu era útil para ela porque sabia o ponto e o nome de todas, algumas até o nome de batismo. Cheia de revolta e ideais socialistas, me fascinou seu discurso caduco, suas vestes de princesa africana e sua idolatria por Omolu, "o que mata sem faca". (Pérola era o arco-íris de Madagascar). Seu conceito de igualdade pouco se chocou com meu desencanto humanitário. Foi minha pele parda, de mestiço do Recôncavo, que não combinava com a dela - que me considerava muito branco para o seu universo.


REFERÊNCIAS

- O título do conto é um verso da canção ALEGRIA DA CIDADE (Lazzo/ Jorge Portugal), gravada pela cantora Margareth Menezes em 1988: “A minha pele de ébano é a minha alma nua”;- “Eu sou o arco-íris de Madagascar” é parte da canção MADAGASCAR OLODUM (Rey Zulu), emblemático sucesso da extinta Banda Reflexu’s em 1987;
- Omolu é um orixá africano cultuado nas religiões afrobrasileiras que o tem como o Senhor da Morte. “O que mata sem faca” é um epíteto utilizado pelo escritor João Ubaldo Ribeiro em VIVA O POVO BRASILEIRO, publicado em 1984;
- Boca do Rio e Pituba são bairros, aparentemente, da orla marítima de Salvador;
- O Recôncavo baiano é a região geográfica localizada em torno da Baía de Todos os Santos;
- Modelo da fotografia: não sei;
- Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança terá sido apenas semelhança.

terça-feira, 1 de junho de 2010

DENNIS HOPPER (1936-2010)


Não gosto de reverenciar ninguém depois de morto. Homenagem sincera, acredito, deve ser feita durante a vida, após sempre me parecerá oportunismo. No entanto, não posso deixar de dizer que no último sábado, perdi meu vilão cinematográfico preferido. Quando li as primeiras notícias sobre o falecimento de Dennis Hopper, agi com natural incredulidade (não poderia ser diferente). Depois, passei a relembrá-lo em APOCALYPSE NOW (1979), VELUDO AZUL (1986), JUVENTUDE TRANSVIADA (1955) e, principalmente, ao lado de Peter Fonda pilotando livremente sua Harley Davidson, ao som de “Born To Be Wild”, do Steppenwolf, em EASY RIDER (1969) -, possivelmente, uma das imagens mais icônicas da história do cinema e da contracultura. Na verdade, em seus filmes, meu vilão preferido continuará vivo. Mesmo que ela morra no final.

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