quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

DO MEU ESCAFANDRO

        Tenho cada vez menos vontade de opinar, sobre qualquer coisa. Futebol, sexo, cinema, economia, a cor das cortinas... qualquer coisa. Minha opinião se tornou algo completamente desinteressante, inclusive para mim. Todo mundo tem opinião sobre tudo, eu não quero ter opinião sobre nada. Não participo de redes sociais, não interajo com desconhecidos no elevador, não acompanho reality shows, séries ou novelas da TV. Não conheço as coreografias do momento, as tendências e as gírias da estação. Não conheço nada. Importa-me saber se poderá chover, se os combustíveis subiram, se outro ministro caiu, mas não me interessa opinar.
        Não sinto que estou ficando para trás, pelo contrário. Na verdade, a pista parece sempre livre.
       Não me confundam com nenhum adepto de alguma seita raulseixista, alardeando que prefere ser uma metamorfose ambulante (por enquanto, prefiro apenas hibernar no meu escafandro).
        Não acho, não tenho certeza, não gosto, não detesto, não vi, não conheço (tenho inveja de quem sabe), na melhor das hipóteses eu não sei. “Não sei” é o meu mantra, minha melhor opinião sobre a vida, esse mistério que prescinde de explicações. O resto é silêncio.


P.S.: Rita, ainda não estou convencido de que não ter opinião seja uma opinião;

P.S.2: Tenho recaídas quando o assunto é necrofilia.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

ADELE 23

       Tenho fobia a modismos (“a tendência do verão” me causa urticárias). Aprecio o novo, mas desprezo unanimidades. Não pretendo soar elitista, ou excessivamente nelsonrodriguiano, porém se todos gostam de algo, acredito que esse algo deve ter algum problema – e esse problema não sou eu.
      Recentemente, me perguntaram se eu “curtia Adele”, respondi laconicamente que não, evitando me prolongar em desnecessários detalhes. No entanto, queriam saber o motivo, como se existisse uma causa para tudo (a felicidade pode se resumir simplesmente a sim e não, mas sempre precisam de mais). Muito “Glee” para mim, foi o que eu respondi, embora eu não fizesse a menor ideia do que aquilo significava, e surpreendentemente parece que fui compreendido, pois recebi em troca um satisfatório “saquei”.
      No começo do ano, enviaram-me o link para um vídeo da Adele, passei o ponteiro do mouse sobre a frase VOCÊ VAI ADORAR e li youtube.blablabla/adele. Fiquei algumas semanas ensimesmado com aquela mensagem na minha caixa de emails, sem saber se abria ou não, talvez a canção ocultasse algum recado, talvez fosse algo que eu poderia realmente me identificar. Somente hoje, decidi fazer o que deveria ter feito desde o primeiro momento.
     Para mim, Adele era apenas o nome de uma musa da pornochanchada, estrela de filmes facilmente reprisados nas madrugadas do Canal Brasil, mas agora não estou bem certo. Quando um artista faz parte do setlist do dj do buzu, da trilha da novela, do repertório dos calouros do Raul Gil; quando é ringtone de gato e cachorro, capa da Vogue, biografado precocemente, entrevistado por Zeca Camargo (espero que Florence fique apenas nesse item) ou minha mãe conhece, estes não são, necessariamente, bons sinais (não Zé Henrique, não estou desprivilegiando as massas, Michel Teló deve ter algum valor).
      (E o que dizer de eu ter sonhado com Adele numa situação pouco convencional?).
      Para terminar, reencontrei na calçada da Barra uma amiga de Santo Amaro ostentando uma linda barriga de oito meses, após os cumprimentos de praxe e a usual exigência de que a criança deveria ser santoamarense, quis saber o sexo e nome do bebê, meu futuro conterrâneo. E para a minha surpresa ela disse:
      Fátima.

sábado, 14 de janeiro de 2012

SÓ GAROTOS

        “Quando eu era bem nova, minha mãe me levava para passear no Humboldt Park, pela margem do rio Prairie. Tenho vagas lembranças, como impressões de vidro, de um velho ancoradouro, uma concha acústica circular, uma ponte arqueada de pedra. O trecho estreito do rio terminava em uma grande lagoa e vi sobre a superfície um milagre singular. Um longo pescoço curvo ergueu-se de um vestido de plumas brancas.
        'Cisne', minha mãe disse, sentindo minha excitação. Ele tamborilou na água brilhante, batendo suas asas grandiosas, e alçou voo no céu.
        A palavra por si mal dava conta de sua magnificência, nem continha a emoção que ele produzia. Sua visão gerou uma necessidade para a qual eu não tinha palavras, um desejo de falar do cisne, de dizer algo sobre sua brancura, a natureza explosiva de seu movimento e o lento bater de suas asas.
        O cisne mesclou-se ao céu. Fiz força para encontrar palavras que descrevessem minha própria ideia sobre ele. 'Cisne', repeti, não totalmente satisfeita, e senti uma pontada, uma saudade curiosa, imperceptível aos passantes, à minha mãe, às árvores ou às nuvens.”


[SMITH, Patti. Só Garotos. Companhia das Letras, 2010. Tradução: Alexandre Barbosa de Souza. 269 págs] 

SINOPSE: Patti Smith se mudou para Nova York com vinte anos, no final dos anos 1960. Enquanto entrava em contato com parte dos aspirantes a artistas que partilhavam a atmosfera do 'verão do amor', conheceu sua primeira grande paixão - o futuro fotógrafo Robert Mapplethorpe, para quem Patti prometeu escrever este livro, antes que ele morresse de AIDS, em 1989. Tendo como pano de fundo a história de amor entre Patti e Mapplethorpe, este livro procura ser um retrato confessional da contracultura americana dos anos 1970. Muitas vezes sem dinheiro e sem emprego, mas com disposição, os dois viveram períodos de transformações - até mesmo quando Robert assume ser gay ou quando suas imagens consideradas ousadas começam a ser reconhecidas no mundo da arte. 

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

(...)

         Adormeci lendo Rimbaud, como se estivesse em uma praia selvagem do Marrocos, como se aquelas palavras me deflorassem, como se eu estivesse exposta ao feroz zunzum das moscas imundas, como se a eternidade me invadisse e um amor infinito tomasse minha alma, como se eu dançasse no baile dos enforcados e depois caminhasse longe, muito longe, feito um boêmio.
      Quando acordei, tinha o olhar perdido e a postura morta. Acho que ninguém me reconheceria assim.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

(...)

      Se a vida tivesse trilha sonora, como nos filmes, “Unsatisfied”, dos Replacements, tocaria incessantemente, enquanto eu caminhasse pelas ruas. Se a vida tivesse trilha sonora, eu seria mais segura, mais forte. Meus passos seriam mais firmes, meu olhar, mais inquisidor. Se a vida tivesse trilha sonora, meu dia seria menos triste, menos acinzentado. 
      Mas aqui, na vida real, por mais que eu me esforce, só escuto o barulho apressado da cidade e o silêncio das redes sociais.

UNSATISFIED, Replacements

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

(...)

    Quando eu era criança, costumávamos passar as férias na Ilha. Lembro-me, frequentemente, de uma louca que vivia pelas ruas, a carregar um saco de pano cheio de bonecas velhas recolhidas pela vizinhança - um cemitério ambulante de infâncias. 
         Entoando uma antiga canção do Roberto, as outras crianças a perturbavam diuturnamente, apenas para, após o verso que você não vê que ele está ficando démodé”*, ouvi-la pronunciar uma variedade infinita de impropérios e atirar pedras a esmo, para a alegre e desesperada fuga de todos. Parecia ser o único divertimento do verão. Teorias pouco imaginativas, diziam que ela tinha sido professora na capital durante a juventude e tinha aversão a estrangeirismos; ou que ela enlouqueceu depois que o noivo a trocou por uma dançarina francesa de um cabaré itinerante. Na verdade, sua ingenuidade religiosa confundia “démodé” com demônio, nada mais. Queria terminar este parágrafo afirmando que ela desapareceu misteriosamente, deixando à beira-mar dezenas de cabeças de bonecas. No entanto, ela foi covardemente assassinada por um pai furioso, depois de ter acertado uma pedra na perna do seu filho.
             Os verões nunca mais foram os mesmos na Ilha, nem rei nem Roberto.

*CIÚME DE VOCÊ (Luiz Ayrão, 1968)

domingo, 1 de janeiro de 2012

(...)

       Parece que na noite de 31 de dezembro alguém esqueceu de pressionar a tecla “reiniciar”, pois na manhã de primeiro de janeiro não aconteceu nenhum milagre, nenhum encanto (acho que meu sapatinho ainda espera na janela do quintal). Continuei com as mesmas dores, com os mesmos sonhos, mesmas dúvidas. Continuei com as mesmas angústias, mágoas, medos e ansiedades, com os mesmos delírios e dívidas. Com a mesma cara borrada no espelho.
           A vida não estancou para assistir à queima de fogos no réveillon.
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