segunda-feira, 30 de maio de 2011

A MORENA DE MARCELO CAMELO

      (...)
     No trabalho de estreia do compositor Marcelo Camelo, com a banda Los Hermanos em 1999, o termo que amiúde norteava suas composições era um indefinido “outro alguém”, mesmo já sinalizando nesse primeiro momento um namoro com o cancioneiro nacional mais antigo, fosse na forma poética de canções como AZEDUME (sei que um dia a rosa da amargura/ fenecerá em razão de um sorriso teu) ou nos arlequins e colombinas de PIERROT.  Depois, num rápido e surpreendente amadurecimento musical, um diálogo que aparentava adquirir força se insinuou com a gíria “cara”, que foi “valente”, foi “estranho”, foi tranquilo (de onde vem a calma/ daquele cara?) mas que logo se desanuviou. No entanto, foi a “moça” de ALÉM DO QUE SE VÊ que saltou aos ouvidos em seu terceiro e mais representativo trabalho, VENTURA, em 2003. O uso da palavra “moça”, ainda que carregue uma suposta ingenuidade, um bucolismo, em oposição à “morena”, que é muito mais lasciva, provocativa, e que poderia muito bem dar lugar a esta, não afetando significativamente a linha melódica ou o sentido da canção (Moça, olha só o que eu te escrevi), era algo muito diferente do que vinha sendo feito no machista mundo do rock até então. Não era uma garota, uma menina, uma “gata” ou uma mulher, era simplesmente uma “moça”, que soava inusitado e, ao mesmo tempo, natural - mais tarde, essa “moça” reapareceria nas faixas TUDO PASSA  e  MENINA BORDADA, do seu début solo (SOU/ NÓS), em 2008.
          Apenas no quarto e derradeiro disco da banda, em 2005, a “morena” surgiria realmente, não faceira como outrora, mas melancólica, introspectiva, decorativa.
          É possível que a “morena” que habita o imaginário de Marcelo Camelo não seja assim tão folclórica, tão arraigada de simbolismos. É possível que a sua “morena” vá além da cor da pele, que  não seja como as cabrochas das canções do Luiz Gonzaga, que seja uma companheira silente, que nem saiba sambar, que nem seja morena (...)

sexta-feira, 20 de maio de 2011

32 DENTES

Não confio em quem posta “!!!Bom Dia!!!” no Twitter ainda se espreguiçando, quem diz “bom dia” para a Ana Maria Braga ou quem retribui o “boa noite” do William Bonner, mas é incapaz de ser gentil com aqueles que fazem parte do seu cotidiano.
         Não confio em quem não se atrasa, em quem não pede desculpas, em quem não se arrepende de nada. Não confio em quem não dá o braço a torcer.
        Não confio em quem diz “adeus” e telefona no dia seguinte.
         Não confio em quem diz que adorou a biografia do Lobão, mas nunca escutou os seus discos; em quem diz que está lendo a biografia do Keith Richards, mas prefere os Beatles aos Rolling Stones. Não confio em quem lê biografias.
         Não confio em promessas de amor, promessas de governantes, em juras que começam com “nunca mais”. Não confio em quem “ama” e “adora” tudo e todos. Não confio em quem diz “odeio”, em quem diz “jamais”. Não confio em quem sofre calado, em quem diz que diz o pensa.
         Não confio em críticos de arte, em “campeões de bilheteria”, “campeões de audiência”, nos campeões do UFC.  Não confio em comentaristas nem em dirigentes de futebol.
         Não confio em placas que sinalizam “proibido”, em previsões do tempo, em conselhos moralistas.
         Não confio em “amigos” de pessoas influentes , em oportunistas,  em conquistadores baratos. Não confio em quem está sempre disposto a ajudar.      
        Não confio em taxistas que perguntam qual caminho eu prefiro, em sindicatos, no bom mocismo do Bono Vox.
         Não confio em torcidas organizadas, em organizações não governamentais. Não confio nos Estados Unidos da América.
         Não confio em ninguém com mais de trinta anos, não confio em ninguém com mais de  trinta cruzeiros, não confio em ninguém com trinta e dois dentes.
         Desconfio de mim quando me pego fazendo algo que normalmente não faria.
         Não confio em quem desconfia de tudo.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

VOCÊ NÃO VALE NADA

Numa crônica publicada AQUI, relatei que disseram, sem muita convicção, que eu não valia nada e que eu preferia ter sido chamado de “canalha”, que soava (ainda soa), para mim, muito mais elogioso, que seria um prêmio, a certeza que alcancei o pódio no coração de uma mulher. Disse, também, que “você não vale nada” não passava de um modismo, que estava na dublagem dos filmes, dos desenhos animados, em toques de celulares, em trilhas de novelas. No entanto, se essa pessoa, ou qualquer outra, tivesse dito que eu não valia nada como Tiê canta abaixo, certamente repensaria um pouco:

terça-feira, 10 de maio de 2011

QUINZE ANOS

        Acho que demorei uma eternidade até completar quinze anos. Minha infância parecia não ter fim e lembranças dela não me faltam. Outras pessoas me dizem o contrário, para elas a infância foi curta como um sonho bom - talvez eu tenha vivido meus primeiros anos acordado ou simplesmente me permiti ser criança o máximo que podia. Ser adulto nunca me seduziu, para isso não tive pressa.
        Meu sobrinho mais velho completará quarta-feira quinze anos, dizer que “parece que foi ontem” não é um lugar-comum inevitável, melhor seria afirmar que “parece que foi há poucos anos”. A impressão que tenho é que o tempo que ele levou para completar quinze eu levei para completar cinco.
        Na letra de “Quinze Anos (Vivendo e não Aprendendo)”, da banda paulistana IRA!, Edgard Scandurra fala sobre um homem “que se diz maduro”, “que se diz seguro”, mas quando “se apanha chorando” é como se ele voltasse a ter quinze anos, onde poderá recomeçar sorrindo. Quinze anos é o meio do caminho. Nem adulto nem criança. Certamente é quando nos sentimos mais fortes, mesmo sendo tão frágeis. É quando se abre em nossa frente um frenético leque de possibilidades, de caminhos, de escolhas, de novidades. Irônico é notarmos, muito depois, que poderíamos ter aproveitado melhor aquilo que já tínhamos aproveitado até ao final.
        Apenas após ultrapassar os quinze anos, percebi como o tempo é voraz. Agora "envelheço na cidade".

segunda-feira, 2 de maio de 2011

NÃO SEI

        Vira e mexe aparece alguém no meu caminho dizendo que sabe tudo, sabe de tudo, sabe sobre tudo (principalmente, concordâncias). Sabe desde variação cambial,  ciclo das marés, obscuridades do rock europeu, o que vai passar na TV hoje à noite, passando pelo melhor lugar para comer em POA ou beber em BH.
         Não simpatizo com quem diz saber tudo, me incomoda essa pose - saber tudo, para mim, é nada saber -, lembra informação de almanaque: rasa e desnecessária.
         Simpatizo com quem tá por fora, quem não finge que conhece nem faz questão de conhecer, quem é ignorante em algum assunto, em vários assuntos.
        Simpatizo com quem sabe muito sobre determinado tema, admiro essa fidelidade. Gosto de ligar para o Duda, por exemplo, e perguntar algo sobre a Geração Beat, acho mais bacana que pesquisar no Google – pesquisar no Google é chato pra cacete.
        Quem sabe tudo já viu todos os filmes, já leu todos os livros. Quem acha que não sabe ainda tem muitos filmes para ver e muitos livros para ler.
        Quem sabe tudo nunca tem dúvidas, nunca erra, nunca desconfia, nunca pede informação, nunca se perde. Quem pensa que sabe tudo é autossuficiente, se sente melhor que qualquer outra pessoa. Tem um troço mais chato? A incerteza é tão fascinante, tão humana. Se enganar, voltar atrás, trocar os pés pelas mãos, pegar a estrada errada para o litoral, assinalar a alternativa errada na prova, se apaixonar pela pessoa errada. Qual o problema?
        Quem acredita que sabe tudo não se permite, se tranca no seu mundo. Quem acha que não sabe nada, ou acha não saber tudo que deveria, tem o mundo inteiro pela frente. Verdade? Não sei.
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